terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Comentários sobre o "paradoxo da poupança"

A maioria dos economistas concorda que para um país crescer é necessário poupança. Será a poupança, o conjunto de bens produzidos, porém não consumidos, a fonte dos recursos necessários para o investimento que trará o crescimento. No entanto, imagine que as pessoas deixem de consumir muito e aumentem a poupança de maneira muito rápida ou abrupta. As indústrias / comércio deixarão de vender e fecharão as portas, aumentará o desemprego, derrubando os rendimentos dos trabalhadores e, assim, deprimindo a economia no curto prazo. Essa diferença entre efeitos – aumentar a poupança gera crescimento no longo prazo, mas aumenta-la demais ou “de uma vez” gera “recessão” no curto – ficou conhecido como “Paradoxo da Poupança”. 
Embora aceito quase que pela totalidade do que hoje é chamado de “mainstream” econômico, o paradoxo não faz muito sentido em termos de princípios econômicos. Uma das bases desse paradoxo é o tal “fluxo circular de renda”, a ideia de que a indústria/comércio emprega as pessoas, que usam seu salário para comprar o que a indústria/comércio produz que graças a essas vendas, emprega e assim por diante. Para análise da questão da poupança, esse fluxo sofre um problema grave, ele em geral desconsidera o tempo e toda questão relacionada a preços relativos entre diferentes mercados no tempo. De certa maneira, ele é apenas uma ilustração setorial, no caso do mercado de bens de consumo final, e não do quadro econômico todo.
Para explicar melhor, comecemos do básico. A função primordial da poupança é distribuir ao longo do tempo o consumo. Se você tem 2 unidades de um bem qualquer e só consome 1, guardando a outra, qual a intenção por trás disso? Como essas unidades de bens são escassas e são bens, ou seja, você sempre obtém utilidade marginal positiva ao consumi-las, o não consumir agora é tão somente uma postergação de consumo/uso desse bem. Obviamente você pode pensar em uma variedade de situações como “guardar para vender”, “esperar o preço subir”, “investir”, mas todas essas ações só tem um objetivo final que é, em um determinado instante no futuro, consumir esse bem, usufruir desse bem (ou de outro equivalente, caso ocorram trocas). Não há outra alternativa se estamos falando de bens econômicos, ou seja, bens escassos. Logo eu deixar de consumir hoje, aumentando a minha poupança, só significa que quero consumir mais no futuro. O “sistema econômico” como um todo é “fechado”, não existem furos por onde vazam ou somem “bens” e o que garante isso é o fato dos bens serem escassos e, portanto, sempre que percebidos por seres humanos, terão algum tipo de uso, algum tipo de “consumo”. Se tais bens não fossem escassos, também não haveria problema nenhum existir “depressões”, “vazamentos” nesse sistema, pois ser não escasso simplesmente significaria que não afetam de maneira alguma nosso bem estar, nós já teríamos “tudo o que precisamos”.
De maneira geral e bem abstrata, portanto, um aumento de poupança hoje, por maior que seja, apenas implica que as pessoas querem consumir mais no futuro do que estavam planejando antes. Como isso é “traduzido” no complexo sistema econômico que temos hoje? Através dos preços relativos e suas relações no tempo. Quando as pessoas deixarem de consumir, os preços dos “bens de consumo” irão cair, mas essa queda não é uniforme e não afeta as taxas de retornos dos diferentes mercados da mesma maneira. Isso já basta para se perceber que não há “paradoxo da poupança” e depressão alguma. Os recursos em uma dada economia vão de um setor para outro guiados pelas comparações entre as taxas de retorno de diferentes alocações. Não há um “vácuo” em relação a isso. Tudo que é escasso, por definição, por simples lógica precisa e estará sendo alocado em algum lugar, tendo algum uso ou seja, será direcionado para algum setor.  Dinheiro embaixo do colchão, por exemplo, não é uma “exceção” a isso. Os bens que foram produzidos, que podem ser comprados com esse dinheiro, estão lá, sendo ofertados no mercado e encontrarão seu preço de equilíbrio positivo (i.e, tudo que está ofertado será demandado) com a diferença de que sem essa moeda do colchão estar na disputa por esses bens, seus preços nominais serão mais baixos do que seriam caso contrário. O preço relativo desse bem, ou seja, quanto de outros bens ele vale, em tese, continua inalterado independente dos preços nominais cobrados.
Voltando a questão da escassez, um bem escasso, por definição, será alocado de alguma forma, logo essa alocação não dependerá de quão alto ou baixo é um suposto nível de preços, mas sim dos preços (das taxas de retorno) de diferentes setores. Supondo que existam 3 setores na economia, um com taxa de 2 outro com taxa de 4 e um último com 8, para fins de direcionamento de recurso, pouco importa se todas essas taxas forem divididas por 2 ou multiplicadas por 2. O último setor continua sendo o mais lucrativo deles, continua tendo a taxa mais alta e será ele o escolhido, os recursos serão direcionados para esse setor.  
O que acontecerá em uma economia, digamos em “equilíbrio”, quando a poupança aumenta é que, embora as taxas de retorno de toda a economia tenderão a cair, elas cairão com intensidades diferentes e isso basta para percebermos que os recursos “fluirão” dos setores com quedas mais acentuadas na taxa de retorno para setores com quedas menos acentuadas nas taxas de retorno. E como estamos falando em poupança e consumo, os setores que terão quedas mais acentuadas nas suas taxas de retorno são aqueles setores mais diretamente ligados ao “consumo final”, enquanto setores “mais distantes” desse consumo final, terão quedas menores. Um exemplo muito simples ilustra essa situação: imagine 2 tipos de investimentos. Os dois pagam 100, mas um paga 100 daqui 5 anos e outro paga 100 daqui 2 anos. Para os investimentos estarem em equilíbrio, as suas taxas de retorno precisam ser iguais. Supondo que essa taxa seja 10% ao ano, teríamos o valor “de entrada” nesses investimentos de R$82,64 para o de 2 anos e R$62,09 para o de 5. Imagine que o valor final de 100 mencionado anteriormente sofra uma queda e vá para R$90. No estado que o mercado se encontrava, isso significa que um investimento de R$82,64 está pagando R$90,00 daqui 2 anos, ou seja, uma taxa de retorno de aproximadamente 4,3%. Já o investimento de 5 anos, pode ser obtido por R$62,09 e pagará R$90 depois do prazo, ou seja, aproximadamente 7,7%.
Reparem no que ocorre: uma queda idêntica no valor final a ser recebido, altera a rentabilidade de maneira diferente nos dois investimentos. Quanto mais “longe” no tempo está esse valor, menor é o impacto negativo na taxa de rendimento, quanto mais “perto” no tempo, maior é o impacto. É exatamente o caso análogo da questão levantada sobre setores “perto” do consumo final e “longe” do consumo final. Um setor “longe” do consumo final, de certa forma é um investimento que demanda “mais tempo” para ser concluído, para se realizar (dado que o objetivo final é ofertar bens para as pessoas usarem, consumirem e assim obter os recursos) e, portanto, seria, no nosso exemplo o investimento de 5 anos, enquanto o investimento em um setor mais próximo do consumo final seria o nosso investimento de 2 anos. Para perceber isso com mais clareza, imaginemos o setor de pesca. Nós podemos pescar com a mão. Esse é um “investimento” de “curtíssimo prazo” e, independentemente de questões ligadas à produtividade, demanda um tempo relativamente pequeno entre o seu “dispêndio de recursos” (seu trabalho e habilidades com as mãos) e o bem final. Nós podemos pescar também com uma vara. Mas veja, quantas etapas adicionais de trabalho e dispêndio de recursos teremos a mais para construir uma vara e depois pescar. Veja que pescar com varas demanda “mais tempo” de produção: cortar madeira (com o que?), trabalhar a madeira, construir a vara e depois pescar. Agora imagine a pesca industrial moderna com navios. Quantas etapas e recursos antes do produto final chegar a prateleira do consumidor nós temos? Desde mineração, maquinas de mineração para arrumar material para o navio, toda a indústria naval, até chegar a pesca propriamente dita. Assim, do ponto de vista econômico, da ação humana, o setor de mineração está mais “longe” do comércio de pesca, do que digamos o de “navios”, que por sua vez está mais longe que a empresa que compra navios para pescar, que por sua vez está mais distante que o atacadista que compra dos pescadores e distribui para os supermercados e assim por diante. Tudo isso para ilustrar o que eu quero dizer por “mais longe” e mais perto do setor de consumo, que será o afetado diretamente quando as pessoas começarem a poupar.
Vejam também no nosso exemplo dos investimentos, que todas as taxas de retorno caíram, mas ao contrário da situação antes da queda do preço final, agora uma taxa de retorno é maior que a outra e é esse movimento relativo que fará recursos fluírem de setores próximos dos bens de consumo para setores “distantes” dos bens de consumo. E esse movimento é parte do processo que gerará o crescimento econômico. Novamente, basta reparar na ilustração dos modos de pescar. Pescar com a mão é menos produtivo que com a vara que por sua vez é menos produtivo do que usar navios. O que possibilita parte do esforço produtivo de uma economia ser destinado não para produzir alimento hoje, mas para produzir outras coisas que produzirão mais alimento no futuro é o fato de termos poupado alimento hoje para comermos enquanto esses novos equipamentos não ficam prontos e passem a entrar em ação. A poupança, portanto, além de baixar o preço dos bens de consumo é o nosso “colchão de sobrevivência” enquanto usamos essas técnicas de produção mais produtivas, mas que por outro lado, demandam “mais tempo/etapas” para gerarem os bens de consumo finais que precisamos. Não existe absolutamente nenhum paradoxo com a poupança. Os recursos poupados “saem“ dos setores próximos dos bens de consumo e “vão” para setores mais distantes dos setores de bens de consumo, exatamente para a confecção de mais bens intermediários, bens de capital, que no futuro gerarão mais bens de consumo e “compensarão” o ato de abrir mão de consumir hoje (poupar hoje).
Uma explicação bem mais simples, porém acredito que incompleta, sobre todo esse movimento entre poupança e consumo pode ser dada observando o papel dos juros como sendo o “equilibrador” do mercado de oferta e demanda de poupança. Embora isso gere muita confusão em certos momentos, o mecanismo seria basicamente o seguinte: as pessoas poupam mais deslocando a curva de oferta de poupança para a direita. Esse excesso de poupança gera uma baixa sobre os juros, que por sua vez aumenta o investimento e esse movimento continua sobre as curvas de investimento e a nova curva de poupança até que eles se igualem. É uma explicação, essencialmente, correta. Toda nova poupança final, dado o movimento dos juros, é investida (usada), nada “vaza” do sistema. O problema é que muitas pessoas, inclusive economistas, não conseguem compreender como uma simples queda dos juros fará os agentes econômicos investirem mais se “ninguém” está comprando. A explicação mais complexa envolvendo a relação entre setores e o tempo, a distância dos diversos setores da economia até o consumo final, o objetivo da poupança etc.. ajuda a entender que as pessoas não estão consumindo hoje justamente para consumir mais amanhã e que essa preferência é refletida na alteração da lucratividade dos setores de bens de consumo e de bens mais distantes dos bens de consumo (bens intermediários/de capital). Essa alteração relativa é a alteração relevante para a alocação de recursos escassos. A queda na taxa de retorno “geral” da economia é tão somente o reflexo nos preços do fato das pessoas darem um desconto menor aos bens futuros do que davam antes (antes eu só abria mão de R$1 hoje se ganhasse R$1,10, agora abro mão por R$1,05). Uma taxa geral de retorno menor não afeta em absolutamente nada a alocação da nova poupança entre diferentes setores, essa alocação é dependente das taxas relativas entre os setores (que mudam no momento da alteração da disposição por poupar, refletida nos preços dos bens de consumo).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Porquê o governo tentar corrigir "falhas de mercado" é uma péssima política


Uma das declarações mais sem sentido em termos econômicos, mas repetida exaustivamente por todo tipo de economista intervencionista é a ideia de que o governo deve agir para corrigir as chamadas “falhas de mercado”.  Sem querer entrar muito na própria validade do conceito, em geral, essas falhas são definidas como características ou situações que levam o mercado a não produzir um equilíbrio “ótimo” ou eficiente segundo algum parâmetro teórico, que, diga-se de passagem, na maioria das vezes é irrelevante para qualquer ação e política no mundo real.
Aceitando todo o arcabouço teórico que embasa a declaração desses economistas, o grande problema é que qualquer política de governo é ela mesma produto de um “mercado” contendo exatamente essas aludidas falhas de mercado que fazem o equilíbrio ou produto final serem “ineficientes”. Para ver isso, pensemos, em linhas gerais, como são definidas essas políticas em uma democracia.
Primeiro, as pessoas votariam em tais políticas por algum motivo. Qual o incentivo para uma pessoa votar com alguma atenção ou “buscando o correto”? Usando o básico de teoria econômica, eu diria que mínimo. Votar com atenção, custa, envolve dispêndio de tempo, procurar informações, analisar políticas, propostas. E esse é um custo inteiramente arcado pelo “eleitor” que quer essas informações. E quais os benefícios que esse eleitor terá por votar corretamente? Sem nem entrar no mérito do controle do governo (que é praticamente um dado externo para qualquer eleitor médio, falaremos um pouco disso mais a frente), se as políticas que o eleitor defende forem aplicadas, em geral, elas terão um beneficio direto, individual sobre ele muito pequeno. Grande parte dos benefícios do que geralmente é chamado de “boas políticas” é, pela própria natureza dessas boas políticas, amplamente dispersos por toda a sociedade. Veja a grande ironia: enquanto o custo de se votar bem é um custo inteiramente “interno” ao eleitor, o beneficio desse voto é amplamente disperso ou, em outras palavras, grande parte desse beneficio é “externo” a esse eleitor, que é o típico exemplo de “externalidades” (uma das principais, senão a principal falha de mercado). E para desespero dos nossos intervencionistas não há nada que o governo possa fazer aqui, porque, pelo menos em uma democracia, essa é a “gênese” das próprias políticas que o governo seguirá.
Logo, embora na cabeça dos nossos intervencionistas exista uma entidade ad hoc chamada “governo” que simplesmente fará o que ele, teórico, acha que deve ser feito, no mundo real, com pessoas auto-interessadas formando “de fora” e “de dentro” o governo, essa primeira etapa básica já é, sendo condescende com eles, uma grande incógnita. A própria formulação básica dessas políticas “fora” do governo, enfrenta uma “falha de mercado” e, dentro do arcabouço desses mesmos intervencionistas, não tenderá a produzir o “resultado desejado” ou ótimo.
Na verdade, essa característica de “falha de mercado” permeará toda a cadeia de produção de políticas estatais, produzindo resultados bem diferentes do esperado. Deixemos de lado um pouco a questão da votação para a política e vamos para dentro do governo. O governo não é uma entidade aparte do que costumamos chamar de “sociedade”. O que ele produzirá, de certa forma, segue mais ou menos a lógica do que ocorre em mercados: ele produzira aquilo que traz mais “lucro” para quem o controla e as pessoas que o controlam querem algum lucro assim como qualquer agente econômico existente. Como nós dissemos anteriormente, boas políticas, em geral, tendem a produzir bons resultados para a sociedade em geral, ou seja, seus benefícios, além de serem maiores, são dispersos por toda a sociedade. O oposto dessas “boas políticas” é o que vamos chamar de “privilégios”. Os privilégios, normalmente, geram custos maiores que os benefícios, no entanto esses benefícios são “concentrados” em poucos grupos ou pessoas (por isso o nome de “privilégio”). Em geral, qual política governos tendem a produzir: as boas ou os privilégios?
Teoricamente, dentro do arcabouço usado por esses intervencionistas, a resposta seria privilégios (e só teoricamente mesmo, porque basta olhar para o mundo e ver como isso é refutado diariamente). Essa tendência ocorrerá justamente pela “externalidade dos benefícios” de boas políticas. Vejamos como: no “mercado politico” assim como no mercado comum leva quem “paga mais” pela oferta. Esse pagar mais no mercado politico significa basicamente gastar recursos na geração de lobbies: convencer congressistas a votar na política X e não na Y, convencer o executivo a bancar o projeto X e não o Y, angariar apoio da opinião pública, de organizações com visibilidade pública etc.. E essas coisas custam e muito. Quem arca com esses custos? Inicialmente, basicamente o grupo que resolve tentar aprovar sua proposta. Esses grupos, em geral, não podem ser muito grandes ou precisam ter mecanismos de controle muito eficientes para evitar o que é chamado de “problema do carona”. O problema do carona, basicamente é o sujeito que não arca com o custo, porque outros o fizeram em volume suficiente, mas recebe o beneficio. Esse tipo de “situação”, leva individualmente todo mundo a querer pegar carona, o que no fim leva ninguém a arcar com o custo, o que implica no produto final e, portanto, no beneficio final não sendo produzido. Esse é um problema básico da votação mencionada no começo do texto também. O sujeito “não faz nada”, porque individualmente ele é irrelevante e não vai atrapalhar, mas outros farão e ele receberá o beneficio mesmo não tendo feito “nada”. O resultado final, é que ninguém “faz nada”, ninguém se importa e vota pegando o primeiro papelzinho que encontra no chão a caminho da zona eleitoral porque outros farão “o correto”.
Voltando então para a questão do tamanho do grupo, este precisa ter um tamanho não muito grande ou um meio muito eficiente de fiscalizar seus membros. Como a “sociedade”, por definição, como grupo é um grupo imenso e (ainda bem!) não existe um meio de fiscalizar completamente a ação dos seus membros, por sofrer com o problema do carona, como grupo, ela será um dos atores menos relevantes no mercado politico. Os grandes grupos atuantes serão grupos menores, setoriais, que demandarão políticas, como reza a boa teoria econômica, visando seus próprios interesses.
E quanto esses grupos estarão dispostos a gastar por essas políticas em um primeiro momento? Ora, no limite, o quanto eles conseguirem receber. Logo, quanto maior a possibilidade de se obter um privilégio e um privilégio “bem concentrado”, que rende benefícios altos e concentrados, maior o incentivo para esses grupos organizados, com problema de carona baixo (o que não é o caso da sociedade), custearem a aprovação dessa política. Mas como tudo que é ruim pode piorar, obviamente como eles acabam “controlando” o mercado politico, não há necessidade de, no final, esses grupos organizados arcarem com os custos das suas “compras políticas”. Como o governo, ao contrário do mercado verdadeiro, tem o poder de invadir propriedades (e chamar isso de “lei”), basta mandar o cheque, a conta final, para os grupos mais desorganizados, que não tem relevância nesse mercado politico e não conseguem “se defender”, ou seja, o grupo mais desorganizados desse ambiente que é justamente a “sociedade em geral”, pelas questões já explicadas, paga a conta de privilégios de grupos concentrados/organizados.
Veja que, exatamente tentando corrigir o problema que os intervencionistas alegam querer resolver (de “falhas de mercado” como externalidades, bens públicos), a solução amplifica esses problemas em um nível muito maior, por toda a economia. Ao ampliar o uso do “mercado politico”, contaminado pela sua própria natureza, com todas essas falhas que eles, intervencionistas, alegam produzir resultados ruins, a sociedade passa a caminhar para um equilíbrio desastroso onde é melhor gastar recursos no mercado politico para obter benefícios do que produzir no mercado normal. Nós caímos no caminho do rent-seeking: o poder politico passa a ser o destino da maior parte dos recursos da sociedade visando a redistribuição dos recursos já existentes de acordo com a disputa de grupos organizados dentro do “mercado politico”, enquanto a destinação de recursos para produção de novos bens passa a ser relegada ou desincentivada exatamente pelo fato desses novos recursos produzidos serem redistribuídos de acordo com esse poder no “mercado politico” e não baseado nas escolhas do próprio produtor. O problema da externalidade se torna assim generalizado: a maior parte do que é produzido, não fica com quem produz. E quem não arca com custo algum (jogando o custo do lobbie para a sociedade em geral), fica com a maior parte do que foi produzido.
O governo, definitivamente, não é a solução de falhas de mercado. Ele, por si só, tem essas mesmas falhas na sua gênese. Seu funcionamento é regido por essas falhas. E para piorar, o seu controle é praticamente inoperante, exatamente porque o controle é uma espécie de “bem público” que será produzido “sub-otimamente” (veja a explicação da lógica das votações, do incentivo interno para produção de mais privilégios e mais privilégios, dos grupos atuantes etc..). A analogia com usar o governo e usar drogas pesadas cabe perfeitamente aqui. Alguma hora vai dar problema, a “droga” vencerá e o problema será muito maior do que aquilo que você, na melhor das boas intenções, tentou corrigir.

Por fim gostaria de comentar sobre as soluções de mercado para essas supostas falhas. Apesar do nome, as tais “falhas de mercado” não tem necessariamente ligação com mercados. Elas ocorrem no governo também, em processos de tomada de decisão nas mais variáveis situações (principalmente em decisões envolvendo grupos). Chamar as falhas que ocorrem no governo de “falhas de governo” em contraposição a “falhas de mercado” não muda a natureza idêntica dos dois fenômenos. A questão principal aqui é que, dado que as falhas de mercado apresentam uma ineficiência (pelo menos teórica), há espaço para ganhos, inclusive as chamadas “melhorias de Pareto” (mudanças onde ninguém piora e, pelo menos, um ganha). Boa parte dessas falhas, ocorre justamente por definições erradas e equivocadas do próprio governo sobre direitos de propriedade. Caso essas indefinições de direitos de propriedade não existissem, é mais do que sabido, que chegaríamos a uma “solução eficiente”. Para o caso de uma indefinição mais complexa e profunda de direitos de propriedade, se existe a possibilidade de se obter ganhos, como existe por definição em uma falha de mercado, é natural que agentes econômicos passem a tentar arrumar uma maneira de aproveitar essa possibilidade de ganho inexplorada, inclusive delimitando eles mesmo regras privadas apropriadas a uma boa solução (exemplos disso são comuns como garantias, test-drive para o caso de “assimetria de informação”). O ponto é que a única coisa que o governo poderia fazer (na verdade, nem isso, dada a sua natureza) para melhorar uma falha de mercado é estipular corretamente e claramente direitos de propriedade. Para qualquer coisa além disso, não há nada que possa ser feito. Todas as demais soluções envolveriam, desconsiderando aqui o próprio funcionamento do governo, informações transmitidas via preços que o governo e nem ninguém possui. E essas informações só poderiam ser geradas em soluções privadas e espontâneas que “gerassem” mercados para o bem/problema em questão. A própria existência de uma ineficiência gerada por uma falha de mercado é uma oportunidade que agentes no mercado tentarão explorar para captar os ganhos “ocultos” aí existentes. Situação totalmente diferente ocorre no mercado politico, onde não há absolutamente nenhum incentivo para isso, dado que nesse mercado existe um negócio muito mais “lucrativo individualmente”, o chamado rent-seeking, a produção cada vez maior de privilégios através de leis e politicas, pagos dispersamente pelo grupo mais fraco nesse mercado: a “sociedade”.  Pedir a um governo que consistentemente produza algo diferente disso é como querer o contraditório, o impossível e, portanto, além de ingênuo, é um desejo destrutivo.