terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Comentários sobre "capacidade ociosa"

Gostaria de comentar neste texto sobre a ideia de “capacidade ociosa”, um conceito muito usado pela mídia em analises econômicas e até mesmo por economistas, principalmente keynesianos. Não vou dar uma definição mais precisa do que isso viria a ser porque cada um que o utiliza costuma ter a sua própria definição, mas basicamente o que o conceito sempre quer ilustrar é uma situação onde há “capacidade produtiva” (por exemplo, uma fábrica) que não está sendo usada, que poderia estar produzindo algo e não está. Normalmente é associado ao conceito de “capacidade ociosa” a ideia de alguma ineficiência ou “falha de mercado” ou algo “ruim” acontecendo.
Acredito que essa ideia, como algumas outras usadas por economistas (como a famigerada “rigidez de preços”) não faz muito sentido, ou pelo menos, não o sentido que seus utilizadores querem dar. Focando na questão da capacidade ociosa, a primeira coisa que salta aos olhos é porque raios, em um mundo de escassez, temos algo como “capacidade ociosa”? Teoricamente se algo é escasso, será utilizado para algum fim, ou em termos mais econômicos provavelmente existirá um preço positivo onde a demanda por aquilo se iguala a oferta, ou seja, não haverá “excesso” de bem algum.
Veja que o mecanismo de preços exclui a possibilidade de “ociosidade” (sobra) de bens, algum fim esses bens terão. Diante disso, alguns economistas utilizam-se então das famosas “falhas de mercado” para tentar justificar a existência de capacidade ociosa, sendo a mais famosa a questão da rigidez de preço. Por algum motivo mágico (que não tem a ver com intervenções diretas do governo), os preços “não se mexem” e não equilibram oferta e demanda, gerando a capacidade ociosa. Tenho um texto mais detalhado só sobre a questão da rigidez de preço (para quem se interessar, aqui o link), mas basicamente não existe nenhum padrão de “rigidez ou flexibilidade” de preços diferentes das percepções dos agentes econômicos sobre que preço eles devem pedir ou não em suas ofertas. Algum agente econômico com um “bem encalhado” pode achar que compensa ficar com esse bem em estoque até alguém aceitar o preço “alto” que ele está pedindo, outro já pode preferir vender rápido e por isso pede um preço mais baixo. Em nenhum dos casos há problema econômico ou de incentivo algum. Ambos estão fazendo aquilo que julgam, com todas as informações relevantes disponíveis e captadas por eles, ser o mais lucrativo, ser o que gera mais valor. Se algum agente discorda fortemente da estratégia do outro (acha que pode fazer mais dinheiro), basta pagar o que o sujeito quer e aplicar sua estratégia (se ele estiver certo, conseguirá mais dinheiro e cobrirá seus custos que são exatamente o ganho da estratégia que ele “desafiou”).
Preços se ajustam na velocidade “ótima”, aquela que maximiza a geração de valor do ajustamento necessário. Eles não são nem “muito lentos” e nem “muito rápidos”, eles são exatamente tão “velozes” quanto a cognição dos melhores empreendedores permite que sejam e não há forma de melhorar isso (em termos de eficiência), dado que quem poderia melhorar já está fazendo o seu melhor (buscando lucros nesse ambiente de necessidade de ajustamentos).  Se esses ajustamentos ou essas estratégias geram uma situação onde algum observador externo olhe e chame aquilo de “capacidade ociosa”, podemos concluir que não há problema algum com a tal “capacidade ociosa”. Ela é um resultado ou uma consequência de uma estratégia implantada por um agente econômico visando obter o máximo de lucro possível. Novamente, não há problema econômico algum, seja ele de incentivos ou de eficiência.
Nesse mundo de ajustamentos necessários e de “não onisciência”, enfim, no mundo em que vivemos onde a cognição humana é limitada, obviamente podem ocorrer erros. Um empresário pode construir uma fábrica muito grande ou uma fabrica com equipamentos para produção de um bem que as pessoas não desejam pagar um preço suficientemente alto para tornar sua produção lucrativa. O sistema de lucros e prejuízos procurará “eliminar” do processo de mercado os empresários que erram muito (diminuindo os seus recursos) e premiando aqueles que acertam (aumentando os seus recursos), assim permitindo que aqueles que acertem tenham mais “fichas” nas suas mãos para fazer novas apostas, gerando assim um “encaminhamento” de toda economia para uma “situação de eficiência”. Muitas vezes, dado que um erro foi cometido, tentar consertar esse erro pode ser mais caro do que “começar do zero”. Uma fábrica, por exemplo, construída para produzir X (um bem que ninguém quer), pode gerar menos perda se for simplesmente fechada e abandonada do que se alguém tentasse readapta-la para produzir Y. Essa fabrica, portanto, será “abandonada”, deixada de lado, e economicamente é o melhor que pode ser feito. É a decisão que minimiza o prejuízo dado que a fabrica já foi feita, o erro já foi cometido. É pura “capacidade ociosa” gerando eficiência, produzindo mais valor (ou não destruindo valor). Longe de ser “socialmente indesejável”, é a solução que gera mais bem estar dentre as soluções disponíveis. Seria “ineficiente”, “ruim”, tirar a fabrica do seu abandono e começar a produzir X, que não se paga e ainda diminui a produção de outra coisa (como Y que era desejado pelos consumidores).
Obviamente, no mundo real, existe sempre alguma maneira de aproveitar partes da fabrica, alguns equipamentos etc.. Isso não representa qualquer “problema adicional”, muito pelo contrário. Existem oportunidades de lucro escondidas nesses aproveitamentos e igualmente, milhares, talvez milhões de agentes econômicos (em mercados livres, pelo menos), atentos para realizar esses lucros de forma que esse reaproveitamento ocorrerá, como dizem, “até a última gota possível”.
A real “intenção” por trás da defesa enfática da idéia de capacidade ociosa é a possibilidade de dar ao inflacionismo e politicas fiscais expansionistas uma justificativa plausível. Argumentam alguns economistas (keynesianos principalmente): se você tem capacidade ociosa, basta dar mais dinheiro para que as pessoas demandem mais bens e as fabricas aumentarão a produção e consequentemente o emprego, pois elas têm “capacidade” para isso, há capacidade sobrando.
Existem muitos problemas com esse argumento. Primeiro, supondo uma certa “neutralidade distributiva” na emissão de moeda ou da politica fiscal expansionista, se as pessoas antes direcionavam mais dinheiro para comprar Y no lugar de X, provavelmente o dinheiro adicional continuará sendo direcionado para comprar Y no lugar de X, o que significa que se uma fabrica de X estava “ociosa” porque era mais vantajoso produzir Y, ela provavelmente continuará ociosa porque continuará mais vantajosa a mesma estratégia (de produzir Y no lugar de X). Você, portanto não teria nenhum “efeito benéfico” nessa politica, mas teria os custos (seja monetários ou econômicos) das mesmas (como a divida que o déficit gerou, a destruição da moeda e do sistema de preços que politicas monetárias podem causar, a “liberalidade” do governo com suas contas quando ele tem um “bom motivo” para ficar imprimindo dinheiro e por ai vai).
Um segundo ponto; keynesianos, por uma razão que foge a lógica, costumam assumir que agentes econômicos ajustam “quantidade” e não preços. Então, imprimir dinheiro, por exemplo, fazendo com que as pessoas corram para as compras fará os ofertantes aumentarem a quantidade ofertada (aumentando assim a produção, o emprego etc..) e não os preços. Essencialmente não existe sentido nenhum nesse argumento. Agentes econômicos ajustam aquilo que gera o maior lucro para eles (e inclusive podem ajustar uma “combinação” de preços e quantidade). O que especificamente será ajustado dependerá da estrutura de custos das alternativas e obviamente as expectativas desse agente.  Se o aumento de preço relativo do seu bem for algo que ele considere como de “longo prazo” ou “permanente”, ele pode achar interessante produzir mais e até investir em novas plantas. Se é algo “corriqueiro”, ele pode querer aproveitar a onda e aumentar o preço naquele momento. Às vezes, mesmo sendo corriqueiro, ele pode não ter muitos custos para aumentar “rapidamente” a oferta e aumenta (combinando com preço, porque não?). Enfim, existe uma infinidade de possibilidades que depende do conhecimento dos agentes sobre o futuro e seus custos.
Os keynesianos costumam afirmar que com “capacidade ociosa” a curva de custo marginal de uma firma é “horizontal” (ou quase horizontal) no trecho relevante, portanto aumentos de quantidade não representam aumentos de custos substanciais e a empresa optará por isso. Isso também não faz sentido econômico algum. Como nós explicamos anteriormente, uma fabrica que produz X está parada ou produzindo pouco porque compensa produzir outra coisa com os fatores necessários para produção de X (ou até mesmo com alguns equipamentos dessa fabrica “subutilizada”). Um aumento da demanda por X porque o governo imprimiu mais moeda não muda esse quadro se a demanda por Y (a outra coisa) também aumentou (os preços relativos ficaram intactos). A questão de se produzir X ou Y depende dos preços relativos e não há, a principio, nada que altere preços relativos nessas politicas keynesianas. Podemos até imaginar subsídios diretos a X, desincentivos a Y, mas além de não terem muita relação direta com politicas clássicas keynesianas e nem mudarem a relevância do conceito de “capacidade ociosa”, teríamos que perguntar por que raios estimular necessariamente X se isso custará produção de Y (dado os outros fatores necessários) ou de outros bens mais desejados pelo consumidor, que geram mais bem estar? Ou ainda, em termos de capacidade ociosa, porque tirar fatores de produção da produção de Y (diminuir essa produção) e jogar em X?
Na verdade, o keynesianismo por trás dos entusiastas do conceito de “capacidade ociosa” não passa de um amontoado de hipóteses e teses ad-hoc sem lógica econômica alguma. Capacidade ociosa surge, simplesmente como uma hipótese de partida, como se fosse algo “alienígena”, imposto de fora, por acidente e não consequência de, em um cenário sem intervenção direta do governo, decisões ótimas de agentes econômicos maximizando a produção de valor na economia. Uma fábrica não fica “parada” por nada, ela fica parada porque ninguém conseguiu dar um uso lucrativo, com os recursos disponíveis, para aquilo. E não é eficiente em termos econômicos “reativar” um negócio desses só por “reativar”, sem uma estratégia que gere lucro. A solução keynesiana simples (imprimir moeda) também não modifica nada, dado que não altera preços relativos que é o que realmente guiará a alocação/uso dos recursos.
Em termos mais “filosóficos”, os keynesianos tratam “capacidade ociosa” como algo que está realmente “sobrando”, quando isso é simplesmente impossível em se tratando de bens relevantes para escolha, ação humana. Se você precisa escolher sobre algo, se sua mente precisa focar sobre utilizar ou não algo, alocar algo em X ou Y, isso implica em escassez, nunca sobra. Em um mundo de escassez, sempre, em qualquer momento, todos os bens serão utilizados no sentido de terem uma “alocação” determinada, um uso definido. Algo só está “sobrando” realmente se deixou de ser um bem, não tem importância ou “prejudica” o bem estar humano, o bem estar do agente econômico. Obviamente, no limite, você pode ter problemas de “divisibilidade” (algo do tipo, só posso usar X se tiver 2Y, tenho 1Y então não posso usar X), mas isso novamente não é problema algum. As pessoas terão todo incentivo do mundo para tentar arrumar novas proporções, uma “divisibilidade” maior etc.. de forma que se realmente não é possível usar X é porque nenhum ser humano sabe como fazê-lo e isso imprimir moeda ou gastar mais não vai ajudar muito (vai prejudicar até, porque atrapalha a eficiência da economia, gera custos adicionais etc..).
Por fim, queria comentar rapidamente sobre a capacidade ociosa, essa realmente ociosa, causada por regulações do governo. A diferença em termos de eficiência e bem estar econômico é que enquanto a “capacidade ociosa” resultado de um livre mercado é fruto da decisão de agentes econômicos que estavam buscando o melhor uso dos recursos, as melhores oportunidades etc.., a capacidade ociosa imposta pelo governo não passa por esse critério. O governo, através da força, impede agentes econômicos que teriam uma saída lucrativa para a utilização de determinados recursos, de aplicar e testar essa saída. Se na situação de mercado você pode dizer “é eficiente porque ninguém sabe fazer melhor” ou ainda “você faz melhor? Acredita nisso? Pague e teste sua estratégia”, na intervenção do governo justamente esse processo, o processo de mercado, de tentativa e erro das milhões de estratégias espalhadas pelo mundo, é abortado. A existência dessa intervenção, dessa barreira às experiências de mercado, sim, é nociva a economia e ao bem estar humano, impede que se encontre uma solução eficiente para o problema. Ironicamente, é justamente a capacidade ociosa gerada pelo governo que tem aquele sentido negativo que os defensores do governo atribuem a “capacidade ociosa” que eventualmente o mercado produz. 

PS: para os interessados especificamente em “capacidade ociosa” de força de trabalho (desemprego), além do texto linkado sobre rigidez de preço e desemprego no começo deste artigo, sugiro esse outro: Desemprego e livre mercado 

Um comentário:

Juliano Bortolozzi disse...

Ótimo texto, como sempre.