segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O fetiche do "valor agregado"

No fim de semana retrasado fui fazer uns exames e no lugar de ficar jogando Wordament (jogo em que sou péssimo, mas me divirto bastante) enquanto esperava peguei uma dessas revistas desconhecidas típicas de consultórios/laboratórios que trazia uma entrevista com um administrador (ou algo do tipo) que reclamava do fato do Brasil produzir produtos de “baixo valor agregado” e que isso precisava ser corrigido e demandava investimentos maciços do governo em tecnologia, em educação e por ai vai.
Eu já escrevi alguns textos sobre vantagens comparativas e sua importância para o comércio, então não vou repetir tudo. Deixo aqui os links para os interessados lerem (1, 2), já que este texto necessita do conceito de vantagens comparativas. Vou me restringir a questão do “valor agregado”. Quando esse pessoal fala em “produtos de baixo valor agregado” geralmente estão se referindo a produtos simples de se fazer, que não demandam muito capital humano, que qualquer um pode fazer etc.. Enquanto “produtos de alto valor agregado” são produtos que exigem um nível tecnológico melhor, mais conhecimento, mais etapas de produção e desenvolvimento (que agregariam “mais valor”) etc.. O ponto é que, embora em um mundo ideal seja melhor produzir coisas que só você sabe fazer (e não meio mundo), isso custa e se custa, o custo deve ser comparado ao beneficio.
Por exemplo, o Brasil pode ter vantagens comparativas na produção de laranjas, mas não na produção de suco de laranja, de forma que, fica mais barato exportar a laranja e importar o suco, do que usar a laranja para fazer suco internamente. Isso é um “crime” para o pessoal que só olha para “valor agregado” e desconsidera (sei lá porque) o que realmente importa para o comércio, que são as vantagens comparativas (ver os textos linkados acima). O ponto que por algum motivo esse pessoal ignora é: para fazer suco de laranja, eu preciso parar de produzir laranja (recursos são escassos), mas como sou ruim em fazer suco de laranja preciso parar de produzir muitas laranjas, laranjas essas que poderiam ser usadas para comprar suco mais barato de outro produtor/país. Não há absolutamente nada que diga que eu estou melhor em termos de bem estar só porque produzi algo “com maior valor agregado” (considerando, como eles consideram, que suco de laranja tem mais “valor agregado” que laranjas). Se olharmos para a situação econômica toda, produzir esse bem de maior valor agregado significou produzir menos. Graças ao desvio de recursos que eu fui obrigado a fazer (tirando da produção das laranjas para o suco), eu obtive menos laranjas e suco de laranja.
Em um sistema de mercado, toda essa “teoria abstrata” sobre vantagens comparativas, custos de oportunidade etc.. será refletidos nos preços, que simplesmente guiará os produtores brasileiros para a produção daquilo que tem vantagem comparativa: ele perceberá que produzir R$100 de suco de laranja custa R$200 que ele podia ter ganho produzindo laranjas. O setor de laranjas, mais lucrativo economicamente, começará a demandar os fatores de produção elevando seu preço acima daquele que o setor de sucos está disposto a pagar e assim o setor de sucos perceberá que não consegue competir com os “custos” do setor de sucos da China (que, por exemplo, tem vantagens comparativas na produção de suco) e começará a exigir barreiras protecionistas, reclamar dos salários baixos da China e outros subterfúgios para tentar esconder o que realmente ocorre: as fabricas de suco deveriam ser fechadas e os recursos usados na produção de laranja e não de suco de laranja. Diante de tudo isso, o nosso defensor do tal “valor agregado” provavelmente começará a perguntar: ora, mas porque temos que ter vantagens comparativas em produtos de baixo valor agregado e não nos de alto valor agregado?
Algo importante a ser notado é que “alto valor agregado” versus “baixo valor agregado” só tem alguma influência no bem estar do ofertante ou do país em geral se estiver correlacionado com “altos preços, escassez” versus “baixo preço, qualquer um produz”. Mas isso pode acontecer com alguns produtos considerados geralmente de “baixo valor agregado”. Por exemplo, um país pode ter um solo extremamente fértil, um clima muito bom e ser uma espécie de “celeiro do mundo”, produzir banana, feijão, soja etc.. Enquanto os outros países, para obterem da forma mais eficiente esses produtos importantes, só importando e pagando através de computadores, carros, celulares etc.. A principio não há nisso desvantagem econômica alguma, tudo dependerá dos preços relativos desses bens (e seus custos relativos de produção – custos de oportunidade). Não há uma superioridade sempre em ter vantagens comparativas de produtos com “alto valor agregado”. Nesse caso, a resposta do porque um país que tem condições climáticas e territoriais vantajosas para agricultura ter vantagens comparativas em produtos “de baixo valor agregado” versus “de alto valor agregado” seria um mero acaso, um fato da natureza, assim como alguém alto, geralmente tem vantagem comparativa em jogar basquete e por isso pode ser uma boa idéia jogar basquete. Obviamente a pessoa pode não querer jogar basquete, pode não gostar etc.. e tentar outra coisa, a questão é que tentar essa outra coisa tem um custo.
Ter vantagens comparativas em X e não em Y exige investimento, possui um custo. Eu preciso desenvolver minha produtividade de tal forma que ela compense o quão bom os outros são nessa área em particular comparativamente às demais áreas. Por exemplo, se eu produzo A 2x mais rápido que B, mas outra pessoa produz o mesmo A 4X mais rápido que B, isso significa que eu produzo B ao custo de 2A, enquanto ela produz o mesmo B ao custo de 4A (ou invertendo a unidade, eu produzo A ao custo de 1/2B e ela ao custo de um 1/4B). Nessa configuração, ela tem vantagem comparativa em A e eu em B. Para que eu tivesse vantagem comparativa em A, teria que superar o “4X mais rápido dela”. Um fato importante a se notar aqui e que eu já mencionei, é que é inútil em termos de bem estar querer A ou B necessariamente. Se o preço de A é 1/3B (ou B = 3A), certamente eu obterei mais As e Bs produzindo Bs e trocando uma parte pelos As que a outra pessoa produziu, do que tentando produzir meus próprios As (no mercado eu compro As por 1/3B e se eu produzir, isso me custará 1/2B, mais caro que o mercado).
Obviamente se investimento tem um custo, inclusive investimento para se obter uma vantagem comparativa, saber se compensa ou não investir nisso depende do beneficio que eu terei, depende em saber se esse beneficio supera os custos. Mercados contendo milhões, bilhões de empresários ávidos por lucros são o melhor mecanismo para determinar esse tipo de coisa, melhor, inclusive, que governos ou tecnocratas que não arcam com os custos do investimento necessário.  No fim, ao contrário do que o administrador entrevistado dizia, se ter vantagens comparativas em produtos de alto valor agregado significa realmente alguma vantagem (é lucrativo, gera produto), o próprio mercado deixado livre irá providenciar isso através do investimento privado nesses lucrativos (e inexplorados) setores. O governo só é necessário, justamente para fazer o contrário, colocar recursos em setores contendo “alto valor agregado” quando não são economicamente vantajosos.
Não é preciso destacar que argumentos do tipo “mas o mercado não investe porque é lucrativo só no futuro”, são um non-sense completo. Tempo é uma variável bastante relevante em termos de bem estar e consequentemente em termos econômicos. Eu receber R$1 hoje não é o mesmo que receber R$1 daqui 10 anos. A diferença de bem estar, hoje, no momento da decisão, entre R$1 agora e R$1 daqui 10 anos é algo sabido até por uma criança de 10 anos (que escolhe o real hoje). Por isso, para deixar essas coisas equivalentes, o R$1 daqui 10 anos precisa ser algo muito maior (R$1.000 digamos). Quem “precifica” essa questão intertemporal são as taxas de juros. É sabido que se o custo de um investimento será despendido hoje, o retorno futuro deve ser trazido a valor presente e comparado com esse custo. Se o retorno futuro não for suficientemente alto para compensar o desconto no tempo da taxa de juros escolhida e ainda assim permanecer maior que o custo presente incorrido, então o investimento não deve ser feito do ponto de vista econômico. Na realidade, absolutamente nenhum investimento desconsidera “que o lucro só vira no futuro”, porque a espera por esse retorno é também um custo, um fator de diminuição de bem estar. Se o retorno, trazido a valor presente não compensa o custo, então o investimento (mesmo que seja produzir Iphones no lugar de batata-doce) não deve ser feito mesmo, não há nada de errado economicamente com isso (errado seria desconsiderar o tempo que esse retorno levará para aparecer e fazer o investimento).
Por fim, gostaria de comentar rapidamente sobre a questão da diversificação. Esse é um ponto que constantemente aparece entre críticos da ideia de “deixar o mercado produzir o que se tem vantagens comparativas” ou entre aqueles que defendem uma interferência maior do governo na alocação dos recursos pela economia. O comentário é mais do mesmo, porém necessário, dada a impressionante quantidade de economistas que, supostamente, entenderiam de questões ligadas a incentivos, alocação de custos e benefícios, mas que não percebem o quão “distorcivo” é o governo nessa esfera e com isso ficam desenvolvendo teses mirabolantes sobre o quão necessário ele (governo) é para fazer coisas que qualquer dono de padaria faria com mais afinco e interesse. Diversificação é algo desejável porque diminui risco e risco, geralmente, é algo indesejável. Ocorre que a diversificação normalmente implica em custos. Você deixa de investir em um setor sabiamente mais lucrativo para fazer “hedges”, “proteções” investindo em outros setores. Qual o nível ótimo de risco? Cada empresário (cada pessoa) sabe o seu (e essa diferença de valoração gerará espaço para transações que produzirão ganhos de bem estar), mas o mais importante que isso é que, supondo que ele queira minimizar o risco (que essa seja a opção ótima, o que não sabemos de antemão), ele terá total incentivo a procurar o meio mais eficiente de se fazer isso, porque em uma economia de livre mercado, os custos pelos seus erros são arcados por ele e os benefícios pelos seus acertos são aproveitados por ele também. Isso faz com que tanto os custos quanto os benefícios de uma dada ação sejam rigorosamente levados em conta. Algo completamente diferente do que ocorre no governo, onde o dinheiro gasto não é do alto burocrata ou do político que tomou a decisão. Nesse caso existe um incentivo a não se preocupar muito com o custo das coisas e assim decisões “não tão eficientes economicamente” (para ser bonzinho) serão tomadas.
No caso de políticas nessa área (de vantagens comparativas, livre comércio, “políticas industriais”) a situação é pior ainda (para quem se interessar, leia o meu texto “Ninguém precisa de política industrial”), porque o beneficio (maior) de uma política de liberdade de comércio é disperso entre os milhões de consumidores, enquanto políticas protecionistas, de subsídio (alegando o desenvolvimento de novas indústrias de “alto valor agregado”, de novas vantagens comparativas) é extremamente concentrado entre pequenos grupos de grandes empresários. Essa característica de “beneficio concentrado” gera um incentivo imenso para que esses grupos beneficiados gastem substanciais quantias fazendo lobbies por tais políticas – em suma, existe um incentivo para que esses grupos beneficiados comprem no “mercado político” essas políticas, ainda mais considerando que quem arca com o custo delas é um grupo imenso, completamente disperso, sem coordenação cujo custo individual é bem pequeno (e, portanto, sem incentivos para “lutar” contra).  Políticas industriais são “políticas ideais” para proliferação de rent-seeking. Fazendo uma analogia simples, se rent-seeking fosse cárie dentária, podemos dizer que políticas industriais são como comer leite condensado à noite e dormir sem escovar os dentes. O resultado no longo prazo é certo.