sexta-feira, 24 de maio de 2013

Comentários sobre gastos do governo e demanda agregada


Com a inflação em alta, muitos economistas chamados normalmente de “ortodoxos” passaram a culpar os gastos do governo (ou mais genericamente a “situação fiscal”) como um dos principais responsáveis pelo quadro. A análise, em linhas gerais, diz mais ou menos o seguinte: o governo achou que para combater a recessão que poderia vir com a crise americana tinha que praticar politicas de “estimulo a demanda” e continuou fazendo isso, mas a economia brasileira está a pleno emprego (ou próximo disso), logo esse excesso de demanda não encontra uma oferta crescente para lhe fazer frente, o que gera a pressão nos preços. O caminho então (para o crescimento) não seria “politicas de demanda”, mas sim politicas que favorecessem o aumento da oferta (e da produtividade), como melhorias de regulação, institucionais etc.. além de se “parar” com as tais politicas de demanda que estão piorando o cenário inflacionário e gerando expectativas negativas para o futuro.
Embora essa solução tenha muitas coisas verdadeiras (e realmente boas para a economia), eu discordo veementemente da idéia de que gastos do governo geram (no sentido de serem a causa primária) os tais estímulos de demanda que tanto heterodoxos quanto os tais “ortodoxos” tupiniquins costumam dizer que geram. Na verdade, eu costumo achar inacreditável como essa proposição (na sua versão mais pura, pelo menos – falo de uma versão mais sofisticada no fim do texto) se tornou uma espécie de “consenso” e acabou formando o mainstream econômico (pelo menos em uma parte da academia e no “mundo econômico” em geral). Quando eu digo “proposição na sua versão mais pura”, quero dizer basicamente a idéia fortemente enraizada em escritos keynesianos mais simples de que a demanda agregada (escrita na sua forma mais simples como C + I + G) é composta por elementos que podem subir e descer, digamos, livremente, sem nenhuma relação necessária de compensação entre eles. Então, por exemplos basta o governo aumentar “G0” (para digamos G1, sendo G1 > G0) que o resultado será algo do tipo: DA1 = C1+I1+G1 > DA0 = C0+I0+G0. Essa idéia, creio eu, é um dos maiores erros da economia dita “mainstream” e aparentemente não é muito discutido mesmo entre “ortodoxos”, que simplesmente assumem quase como um dado, sem maiores explicações, que aumentos do gasto do governo elevam a demanda agregada.
Antes de entrar em maiores detalhes sobre a idéia errada, deixe-me explicar primeiro porque considero ela errada. Imagine para simplificar que não exista moeda (isso é apenas uma hipótese simplificadora, que, ao contrário do que alguns keynesianos dizem, não altera fundamentalmente nada do que será dito nessa primeira parte). Logo bens serão trocados por bens diretamente (escambo). Se eu quero uma maça, tenho que produzir outra coisa que os donos de maças querem e trocar por uma maça (ou eu mesmo produzo a maça, mas geralmente não sabemos ou conseguimos produzir diretamente tudo que queremos). O fundamental aqui é o seguinte: se o governo não produz nada e quer gastar, ele terá que tirar os bens que quer usar de algum lugar. Se ele quer gastar 5 maças, então terá que tirar do “resto da economia” 5 maças. Se ele quer gastar 10 maças, terá que tirar do “resto da economia” 10 maças. Não existe mágica. Se alguém que não produz quer consumir, outro terá que “pagar” o consumo desse sujeito que não produziu. Assim, se o governo aumenta seu gasto de maças de 5 para 10, o resto dos pobres mortais da economia terá que perder 5 maças, 5 maças que eram usadas de alguma forma porque, como nós sabemos, bens são escassos. O sujeito que perdeu 5 maças antes consumia 5 maças a mais, ou emprestava 5 maças a mais, enfim, usava 5 maças a mais que deixaram de ser usadas porque o governo quis usa-las.
Falando em “economês” o que foi dito no paragrafo anterior, imagine que a equação de demanda agregada (C + I + G) contenha absolutamente todos os fins e alocações que um bem pode receber: se você tem um bem, ou você consome esse bem, ou você investe esse bem ou o governo toma esse bem de você (o uso que o governo faz desse bem aqui é irrelevante, mas para simplificar vamos supor que ele “consuma” esse bem). Dado que os bens são escassos, todo bem é alocado em algum lugar, não existe “bem não usado”. Então, qualquer migalha humanamente utilizável ou vai para C, ou vai para I ou vai para G. Bem, qual a única maneira de aumentar G dado que “todo o estoque de bens” está sendo usado? Como dito anteriormente, se o governo quer usar mais 5 maças, ele terá que tirar mais 5 maças do resto da economia, logo C + I terão que cair exatamente no mesmo montante que G sobe.
Muitos economistas, talvez confundidos pela linguagem matemática, costumam dar uma “explicação alternativa” ao que foi dito e abrem espaço para vários erros subsequentes. Alguns dizem o seguinte: bem, dado que o governo aumenta os seus gastos, a taxa de juros sobe, o que faz com que o investimento e o consumo caiam. Esse é o mecanismo que faria com que C + I caíssem para compensar G (chamado de efeito crowding-out). Na verdade isso é um erro (ou um quase erro dependendo da interpretação que se dá). C + I não caem porque a taxa de juros subiu dado o aumento em G (esse aumento inclusive pode ser contestado pela idéia de “Equivalência Ricardiana”). C + I caiu porque o aumento em G significa que bens que estavam sendo usados em C + I foram para G. É uma questão de escassez, de uso de um bem em um fim diferente do que estava ocorrendo. Antes as 5 maças estavam indo para o consumo do José e agora foram para o consumo do governo. Não tem nada a ver com aumento de juros. G só aumentou justamente porque C + I caíram. As duas coisas acontecem simultaneamente e instantaneamente. Não há problema de “continuidade” aqui. Os bens não ficam flutuando errantes em um “limbo”. Ou eles estão em C + I ou em G. Se aumento G em 1, automaticamente caiu C+I em 1 justamente porque é o “mesmo” 1.
Isso pode parecer detalhismo ou um excesso de preciosismo de linguagem, mas evita certas noções completamente equivocadas sobre o assunto.  Muitos afirmam que o aumento de G é “instantâneo” (basta o governo gastar mais), enquanto a reação do consumo e do investimento a subida da taxa de juros é mais “lento”, nesse “período” (de ajuste do consumo e do investimento aos juros), a demanda agregada ficaria mais aquecida. Isso não faz o menor (vemos um erro semelhante quando o assunto é “tampar rombo da balança comercial”, mas deixemos isso para outra oportunidade). A maça que agora está sendo usado no aumento de G era a maça que estava em C + I. Se ela foi para G saiu de C+I e saiu no mesmo instante que entrou em G (obviamente a maça pode não ter saído fisicamente do lugar, e sim a “propriedade”, o direito de alocar a maça mudou instantaneamente de mãos). Além do mais, novamente, se G aumentou e C + I não caíram no mesmo montante, então temos mais bens na economia, mas onde foi parar a nossa suposição de “escassez”? Que todos os bens sempre estão alocados em algum lugar? Para que esse aumento de demanda seja possível, ou 1) bens não são escassos (existia “capacidade ociosa” no sentido de que há bens não alocados – falarei mais adiante disso) ou 2) a economia produziu mais, mas se 2) é válido, não foi um aumento em G que aumentou a demanda agregada, foi a “oferta agregada” que aumentou a tal da demanda – só o aumento em G sem o aumento da produção não teria gerado nada - e isso não é nada mais nada menos do que a famosa (e tão combatida pelos keynesianos) Lei de Say (a oferta “cria” a procura).
Falando da questão da “capacidade ociosa” citada na hipótese 1, nada melhor do que voltarmos as princípios básicos da teoria economia. Economia basicamente lida com escassez, com a questão da escolha. Só precisamos escolher porque temos escassez. Se não existisse escassez, poderíamos ter tudo, não precisaríamos abrir mão de X para obter Y, em suma, escolher. Em economia chamamos de “bens” aquilo que traz utilidade (bem estar) e dizemos que os bens são escassos porque nunca temos tanto quanto queremos. Sempre mais é preferível a menos (para o caso de bens). Dizemos então que um bem sempre traz “utilidade marginal positiva” (sempre um pouco mais de um bem aumenta nosso bem estar). Se mais é sempre melhor que menos, se nunca estamos no tal “ponto de saciedade”, e, novamente, admitindo que os agentes econômicos maximizam utilidade (ou preferem mais bem estar a menos), então tudo que é percebido como um bem (e supondo uma divisibilidade perfeita) será “usado”, será alocado, ou seja, nada, absolutamente nada que seja humanamente percebido como um bem ficará sem uso, ficará “ocioso” (obviamente podem existir casos onde há necessidades de “porções fixas” de uso – não há perfeita divisibilidade, por exemplo, 1 homem e 1 maquina e assim poderíamos ter todos os homens disponíveis ocupados em suas máquinas e máquinas ainda sobrando, sem “seu homem”, mas isso além de não ser relevante para nosso tema, não é uma exceção ao que foi dito. Se essas maquinas que “sobraram” não podem de maneira alguma diminuir o desconforto humano – nem mesmo sendo destruídas, recicladas etc.. então dificilmente poderíamos chama-las de “bens”, logo não fazendo parte de qualquer interesse ou escolha humana relevante).
Dito isso sobre “excesso”, “ociosidade” é impossível sobrar bens no sentido desses mesmos não serem alocados para fim nenhum. Todo bem ou será consumido, investido ou parará nas mãos do governo (que pode inclusive “devolve-lo” para o consumo e investimento de outra pessoa). Estou enfatizando este aspecto porque muitos economistas heterodoxos como Michael Kalecki desenvolveram uma espécie de teoria onde o ato de poupar foi encarado como uma espécie de “jogar bens para um buraco negro”, para “fora” do sistema econômico. Atualmente grande parte do que ficou conhecido como “pós-keynesianismo” endossa essa tese (ou algo parecido). Segundo essa visão, poupar “retira” bens do sistema econômico, logo se você estimular o consumo ou mesmo se o governo gastar esses bens poupados, teríamos então um aumento da demanda agregada, porque estamos devolvendo esses bens para o sistema, dando algum uso para eles. É com base nisso que muitos economistas de esquerda defenderam politicas estatais de “distribuição de renda” como forma de alavancar o crescimento de um país, pois isso elevaria a demanda agregada e consequentemente ativaria a economia.
Os erros nessa teoria são muitos, portanto focarei no essencial para o tema deste texto. Poupança obviamente não “retira” bens do circulo econômico. Para começo de conversa, você só poupa exatamente porque quer usar o que poupou (e mais os juros que espera ganhar) no futuro. Se não fosse isso você simplesmente jogaria a “poupança” fora ou enterraria bem longe, largaria em algum canto. Como poupança são bens produzidos e não consumidos e isso é escasso, existe pessoas que pagam por ela e oferecem um preço por ela. Esse preço geralmente é chamado de “juros”. Assim, a um preço maior que zero existem pessoas dispostas a comprar poupança e a vender poupança. Esse preço (que chamamos de juros) iguala a demanda e oferta por poupança. Assim, o que você poupou não é consumido, investido por você, mas é consumido ou investido por outra pessoa que te paga um “preço” para ter esse direito. Nada “some” do sistema. Poupar não é mandar bens para um buraco negro, poupar é simplesmente trocar consumo hoje por consumo futuro.
Os keynesianos, para sustentar a idéia de que poupança é um “buraco negro”, costumam tentar “desplugar” a ligação entre “poupar” e “investir” e afirmam que juros não é o preço que regula oferta e demanda por poupança, mas sim o preço que regula oferta e demanda por moeda. Mas esse é um argumento que não capta o essencial da questão da poupança e da escassez. Seja lá o nome que você queira dar ao preço que regula demanda e oferta de poupança (seja juros ou “xispeteó”), o fundamental é que poupança é escassa tanto no sentido de que alguém está disposto a pagar um preço (seja lá o nome que esse preço tenha) para comprar essa poupança e usa-la para algum fim hoje, quanto no sentido de que as pessoas não jogam suas próprias poupanças foras, elas tem um uso para essa poupança que é exatamente consumir mais no futuro, ou seja, a poupança está sendo alocada, está sendo “investida” hoje, pelo próprio poupador a fim de gerar um consumo maior no futuro (que é fundamentalmente o objetivo de qualquer investimento). Não há desconexão em nenhum caso entre poupança e investimento. Se eu não empresto o que poupei porque acho que os “juros estão baixos demais”, o que eu estou fazendo é simplesmente realizando uma espécie de investimento que talvez, monetariamente renda menos do que emprestar o dinheiro, mas que também me permitirá aumentar meu consumo futuro em relação a situação de “não poupar” (obviamente do ponto de vista do poupador, tal caminho de ação rende “mais” – talvez por questões ligadas a risco ou custos de empréstimo, caso contrário ele preferiria emprestar o dinheiro). O importante aqui é que poupança alguma fica sem uso, sem ser alocada, sem ser destinada a algum fim.

Gastos do governo afetando indiretamente a demanda agregada via moeda.
Por fim gostaria de falar rapidamente sobre um “caminho” (mais complexo um pouco do que as considerações rebatendo o keynesianismo mais “simples”) que pode levar gastos do governo a elevar a demanda agregada, mas para isso é necessário reintroduzir a moeda na nossa conversa. Alterações na quantidade de moeda alteram a demanda agregada por um motivo óbvio: é moeda que é usada para comprar outro bem e não outro bem qualquer, logo se eu produzo mais moeda, pelo menos até que a moeda se desvalorize pelo excesso de moeda no mercado, eu consigo comprar mais bens sem diminuir a compra de outros bens (ou retira-los de alguém). Voltando a história do governo e das maças, imagine que exista moeda (produzida pelo governo) na nossa economia e o governo queira aumentar os seus gastos em 5 maças. Ele não precisa mais “tomar” 5 maças de alguém, como a moeda da economia é produzida por ele, basta ele emitir moeda no valor de 5 maças e comprar essas 5 maças. Ele (governo) aumenta sua demanda por bens sem (em um primeiro momento) restringir a demanda por bens de outro agente econômico.
Alterações na demanda por moeda causam um efeito semelhante, mas no lugar do governo exercendo o papel de “demandante adicional” sem uma contrapartida para esse efeito, quem ocupa esse papel passa a ser os próprios agentes econômicos que alteram suas respectivas demandas por moeda. Assim, por exemplo, um agente econômico que diminui a sua demanda por moeda, passa a demandar mais no mercado sem restringir sua demanda por outro bem como contrapartida (se ele não alterasse sua demanda por moeda e nem tivesse mais rico, um aumento na demanda pelo bem Y teria que ser compensado por uma redução na demanda por outros bens).  Quando o governo aumenta os seus gastos isso pode gerar elevações da taxa de juros (se a Equivalência Ricardiana não valer). Se a demanda por moeda for “sensível” a taxa de juros, esse aumento pode levar a uma queda da demanda por moeda (ou seja, demandas adicionais “liquidas”, sem contrapartidas de diminuição de demanda por outros bens), o que significa basicamente alterações na demanda agregada da economia. O caminho aqui sempre terá que passar pelo mercado monetário (pela demanda e oferta de moeda). Essa posição foi no passado defendida por alguns keynesianos mais ligados a teoria neoclássica como James Tobin e gerou intensos debates com os monetaristas (dentre eles Milton Friedman). As discussões foram focadas na sensibilidade da demanda por moeda em relação a juros (elasticidade-juros). Os monetaristas afirmavam que a elasticidade era baixíssima (próxima de zero), o que significava que a politica fiscal pouco afetava a demanda por moeda (via juros pelo menos), logo não causava efeito na demanda agregada, enquanto Tobin defendia uma elasticidade mais considerável (o que significaria que a politica fiscal afetaria mais fortemente a demanda agregada).
Em outra situação, em tese, a demanda por moeda não precisa ser sensível a taxa de juros para gastos do governo afetarem a demanda agregada. Em um cenário onde tais gastos geram desconfiança sobre a capacidade de financiamento do governo, o que traz expectativas de monetização da divida e consequentemente inflação no futuro, os agentes econômicos podem diminuir os seus saldos ótimos de moeda (diminuição da demanda por moeda) e aí teríamos o mesmo efeito descrito anteriormente (menor demanda por moeda significa maior demanda agregada). Novamente, em ambos os cenários (tanto via juros quanto via expectativas), o que essencialmente causa a alteração da demanda agregada é a alteração na demanda por moeda (não os gastos do governo), obviamente em ambos os casos foi o gasto do governo que gerou a alteração na demanda por moeda, mas só por esse detalhe a demanda agregada foi afetada. Se tivéssemos tido os gastos sem as alterações no mercado monetário, a demanda agregada permaneceria estável.