terça-feira, 26 de março de 2013

Comentários sobre entesouramento de moeda e "hiperdeflação"


Existe uma idéia muito difundida entre economistas (mesmo alguns ortodoxos) de que “entesourar” moeda é um mal para economia. Essa visão tem muitas variações, mas basicamente o argumento é que ao entesourar moeda os agentes econômicos retiram recursos do “circulo produtivo” e provocam recessão. Há também aqueles que se preocupam com a deflação que esse entesouramento pode gerar (comento obre a parte da deflação mais a frente).
Eu não concordo que exista qualquer diferença muito fundamental entre entesourar moeda e depositar o dinheiro em um banco. Não há, como os defensores dos “malefícios do entesouramento” defendem, um fator recessivo nesse comportamento.  Nos dois casos, tanto do entesouramento, quanto do depósito, os bens produzidos pelos agentes econômicos que “geraram” o ganho dessa moeda, estão nas prateleiras à disposição para serem consumidos, ou seja, são bens não consumidos (poupança) que podem ser usados em investimentos e isso é valido para os dois casos. Ambos os movimentos cumprem o seu “papel econômico”. A diferença é que no caso do dinheiro ir para o banco, a moeda necessária para comprar esses bens produzidos e não consumidos que estão nas prateleiras vem do empréstimo que o banco faz (ele repassa a moeda que eu depositei no banco), já no caso do entesouramento, a moeda necessária vem da deflação que esse entesouramento gera (o R$1 que está no seu bolso compra mais do que comprava antes, logo você não precisará de mais moeda física para comprar esses bens adicionais poupados).
Também não há diferença fundamental com o que deve acontecer com a taxa de juros real da economia. Se eu deposito no banco o que antes eu consumia, mantendo todo o resto constante, então a taxa de juros real deve cair (a oferta de poupança da economia aumentou). A maioria dos economistas concorda com isso. No caso de entesouramento de moeda (dada a mesma condição de eu entesourar o que antes eu gastava em bens de consumo), ocorrerá a mesma coisa por outros caminhos. Se antes eu consumia o que hoje está sendo entesourado, o preço dos bens de consumo cairão e cairão mais do que o preço de bens que não são destinados ao consumo imediato (os chamados bens de capital). Essa diferença de variação entre o preço dos bens de consumo e do preço dos bens de capital é a variação na taxa de juros real[1] (ver observação no fim do texto). Obviamente, no caso do entesouramento, como há um aumento da demanda por moeda (e considerando que não houve um aumento da oferta de moeda), “o nível de preços” deverá cair, ou seja, todos os preços tenderão a cair, mas o preço dos bens de consumo cairão mais do que os dos bens de capital, gerando a mesma sinalização de preços (em termos de lucratividade) que uma queda da taxa de juros teria para os investimentos e seus diferentes prazos.
Para finalizar essa parte, eu acredito sim que existe uma vantagem econômica  no dinheiro fluir para os bancos no lugar de ficar embaixo do colchão, mas essa vantagem não tem nada a ver com “não causar recessão” ou “devolver recursos produtivos a economia” (os recursos estão sempre lá, na prateleira, à disposição de qualquer um). Bancos adicionam valor à economia ao alocar essas poupanças de forma mais eficiente, minimizando e distribuindo riscos entre os mais propensos e menos propensos ao risco. Eles gastam quantias consideráveis em gerenciamento de risco, análise de investimentos, elaboração de operações de proteção (hedge) dentre outras coisas.  É por isso, que, por exemplo, ele (banco) consegue ganhar dinheiro para seus acionistas e pagar ao depositante para que no lugar de preferir o colchão, ele prefira o banco. Assim, geralmente, existe uma “melhoria de Pareto” em tirar o dinheiro do colchão e coloca-lo no banco, ou seja, há adição de valor, de bem estar na economia em usar os serviços das instituições financeiras.
Finalmente vamos as questões mais ligadas à deflação. Esse outro ponto diz, em linhas gerais, o seguinte: entesourar moeda é algo perigoso pela deflação que esse comportamento tende a gerar. Se eu ganho “apenas” guardando moeda, então não investirei em mais nada e a economia parará. Em um cenário mais radical, se a deflação se acelerar e ficar maior em módulo que a taxa de juros nominal (taxa de juros real negativa), o investimento mais lucrativo será “não fazer nada”, basta só guardar moeda e assim a economia para.
Existem vários poréns e mal entendidos nessa história toda. Se você “ganha” guardando moeda é porque alguém paga (alguém está comprando moeda a um preço cada vez maior). Esse alguém, a não ser que tenha uma tara por moeda, não vai pagar cada vez mais caro e sempre. Em um determinado momento, o custo de se obter moeda (dando uma enorme quantidade de bens) não vai compensar o lucro por se guardar moeda (a deflação, que basicamente significa mais consumo no futuro). A utilidade marginal dos bens passa a ser cada vez maior, porque cada vez mais você abre mão desses bens em troca de bens futuros. Veja que essencialmente não há muita diferença dessa situação para uma situação de poupança normal. Eu abro mão de bens hoje (comprando um titulo ou entesourando moeda) para consumir mais bens no futuro (o título me pagaria juros e a moeda está me pagando a deflação). Assim como a taxa de juros real não vai para “infinito” porque as pessoas sempre valorarão consumir alguma coisa no futuro – bens futuros também são um bem (ninguém aceita em troca de 1 pão hoje, pagar 1.000.000.000.000.000.000 de pães daqui 1 ano), também as pessoas não aceitarão para obter R$1 hoje, fornecer 1.000.000.000 de bens diversos agora. A deflação não pode ir para “infinito”, uma hora ela para (será a hora que os agentes econômicos estiverem com suas porções ótimas de moeda, outros títulos e ativos e consumo)
Além do mais, imagine que por alguma mágica todo mundo fique fissurado em um bem Y e passe a aceitar pagar quantias astronômicas por esse bem Y. Ter Y é o que importa (menos, obviamente, para o ofertante de Ys). Se for assim todo mundo terá que se matar para produzir outros bens porque quer obter Y a qualquer preço. Não há nada aqui que possa ser considerado “recessivo”. Você pode questionar que estranha mania é essa de querer Y, se isso traz felicidade ou coisa do tipo. Mas não muda o fato de que, dado que o ofertante de Y não dá Ys de graça, as pessoas terão que produzir muitos bens para convencer o senhor dos Y a vender seus preciosos exemplares. Substitua Y por moeda e veja que não há nenhum problema em “as pessoas quererem guardar compulsivamente moeda”. Elas farão muito feliz o emissor / produtor da moeda (dependendo do tipo de moeda), mas terão que produzir mais e mais para pagar por esse bem. Se considerarmos uma situação ridiculamente extremada onde a tara por moeda chegou a tal ponto, que só moeda importa, só moeda é um bem, então nós não temos muitos problemas com a parada da economia. Quem tem moeda está super feliz, quem não tem se suicidará (afinal, só moeda importa e como nada pode ser trocado por moeda (!!!???), não há como obtê-la)  e assim nenhum ser na terra (incluindo você) estará dando a mínima para a “economia estar parada” porque a economia só tinha alguma importância justamente por produzir uma infinidade de coisas que nós chamávamos de “bens”, mas que deixaram de ser bens porque só moeda importa agora. Nós simplesmente não queremos mais nada que “a economia produzia”. Se a situação não chegou a essa ponto, então bens e moeda são valorados e existe um preço de equilíbrio entre eles, o que significa que a deflação (ou inflação) acabará quando esse equilíbrio for atingido.  
Por fim, gostaria de comentar um pouco como em um livre mercado de moeda essa questão da “hiperdeflação” por entesourar moeda faz menos sentido ainda do que no nosso atual arranjo econômico. Em um livre mercado de moedas nós teríamos basicamente dois tipos de ofertantes de moeda: aquele que lançou uma moeda própria atrelada a algo que já é considerado “de valor” (por exemplo, eu lancei os “Sylvestres” atrelados ao ouro ou a uma cesta de bens comum etc..) e aquele que, em algum lugar do passado foi desse primeiro tipo, mas conseguiu tamanha confiança que hoje, a sua moeda é algo considerado “de valor” por si só e não está mais atrelado a nada, existe apenas a confiança de que com aqueles papeizinhos (ou qualquer outra coisa) eu consiga comprar qualquer coisa porque todo mundo aceita de bom grado os mesmos.
Os emissores do primeiro tipo possuem incentivo zero para deixar uma deflação ocorrer, porque basicamente, como eles precisam, em tese, “resgatar” suas notas se o público assim desejar, com uma deflação eles estariam pagando juros para os demandantes da sua moeda e isso basicamente anula o maravilhoso mundo de captação a juros zero que é conseguir ofertar uma moeda própria. Um sujeito qualquer deu ao banco, um mês atrás, 1 cesta de bens X em troca de 1 unidade da moeda. Ocorreu uma deflação com essa moeda, o que significa que a mesma 1 unidade está valendo (comprando) 1,5 cesta de bens. O banco então recebeu 1 cesta de bens e agora terá que devolver 1,5 cesta de bens porque deixou sua moeda deflacionar. Nenhum emissor vai gostar da idéia se ele poderia ter obtido essa mesma cesta de bens sem pagar esse adicional de 0,5. Ele obviamente quererá fazer inflação (não vai conseguir porque as pessoas vão abandonar sua moeda), mas jamais deflação.
No caso do emissor com super confiança, também não há incentivo a deixar uma deflação ocorrer. Se as pessoas querem mais moeda (e é por isso que a deflação ocorreria) e emitir moeda tem custo marginal zero (ou próximo disso), não há razão econômica para ele não emitir essa moeda adicional que as pessoas querem e conseguir bens em troca dessas novas emissões. Ele é o produtor de um bem cujo custo atual de produção de unidades adicionais é zero e pode conseguir bens com isso (sem custo relevante algum). Porque não fazê-lo?


[1] Estou usando aqui a visão austríaca da taxa de juros, que é de certa forma parecida com a visão neoclássica da preferência temporal, mas estende essa análise para todos os mercados da economia, não só para o mercado de “fundos emprestáveis”. Para os interessados sugiro a leitura do capitulo 6 - PRODUCTION: THE RATE OF INTEREST AND ITS DETERMINATION do Man, Economy and State do Rothbard (http://mises.org/rothbard/mes/chap6a.asp)

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