sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Troca de e-mails sobre epistemologia e metodologia em economia

O texto abaixo não foi elaborado com a intenção de ser um artigo para o blog, foram apenas e-mails que enviei para um grupo de discussão onde se debatia a questão da leitura de clássicos como sendo necessária ou não para o entendimento de economia. A discussão também acabou caindo na velha disputa metodológica entre adeptos de Chicago e da escola austríaca (os adeptos da primeira, geralmente chamados de “empiristas”, defendem que não há necessidade de se voltar para autores clássicos, que a atual teoria incorpora todas as contribuições relevantes do passado, enquanto os austríacos tendem a rejeitar não só o empirismo de Chicago, como também a maior parte da dita “moderna teoria econômica” e recomendam leituras de nomes como Cantillon, Say, Bastiat, Hayek, Mises).

Os nomes dos debatedores citados nos e-mails foram ocultados para evitar qualquer problema relacionado ä privacidade. Achei interessante publicar porque é um tema que já apareceu no blog várias vezes e talvez ajude algum leitor com dúvidas existenciais sobre epistemologia e metodologia em economia.

XXXXXX,

o YYYYYY é adepto (ao que me parece) da idéia de que a economia é uma “hard Science” (no Brasil, acho que foi o Pérsio Arida que escreveu um artigo famoso nomeando/expondo essas duas visões sobre economia, uma como “hard Science” e outra como “soft Science”).

Ser uma “hard Science” basicamente significa que o estado atual da economia incorporou todas as contribuições (corretas e relevantes) do passado, logo, para aprender economia você não precisa ficar voltando a clássicos e coisas do tipo, porque tudo que eles disseram de útil e aproveitável está incorporado na moderna teoria, então basta você ler bons manuais de economia modernos e, se quiser se aprofundar mais, artigos, papers de revistas acadêmicas sobre os temas que interessar. Seria como na física. Ninguém aprende física lendo Newton ou Einstein diretamente (você lê manuais de física que contém os teoremas relevantes desenvolvidos por eles).

Já a visão de economia como uma “soft Science” nega essa “linearidade” da ciência (seja por questões metodológicas, seja por questões ideológicas etc..). A moderna teoria econômica não é necessariamente a “melhor”, a que incorpora as contribuições do passado. Ela seria uma apenas uma teoria que prevaleceu não necessariamente porque foi a “melhor” (no sentido cientifico, de busca pelo verdadeiro etc..). Dentro dessa visão é muito importante ler os clássicos (e aprender economia seria aprender as varias teorias disponíveis / expostas no passado).

Os austríacos em geral são adeptos de uma visão mais “soft Science” porque eles (e eu concordo) veem um erro filosófico/epistemológico (do empirismo) como uma espécie de contaminador dentro da economia atual. A moderna teoria econômica (empirista), por exemplo, não sabe o que é axiomas, não tem hierarquia lógica e por isso se perde completamente na metodologia que deveria adotar (ver textos O papel da econometria e da matemática em economia e Um pouco sobre epistemologia e metodologia em economia). Vou dar dois exemplos aqui.

O primeiro é a chamada behavioral economics que vem conquistando cada vez mais adeptos. Behavioral Economics é uma tentativa de negar a questão do livre arbítrio e consequentemente da escolha e racionalidade. Os adeptos dessa corrente baseiam suas conclusões em “estudos empíricos” que consistem em experimentos com algum truque lógico que faz com que as pessoas escolham “errado” ou de forma inconsistente (não me lembro de nenhum desses experimentos em particular agora para descreve-los). Isso é uma inversão metodológica que gera uma teoria bizarra. Não é com base na “escolha errada” que você vai para a explicação da escolha em geral ou da racionalidade, do livre arbítrio etc.. É do livre arbítrio, da capacidade de escolher (que é um axioma, é dado) que você busca explicar as escolhas erradas. Mas para entender isso, os empiristas precisariam abandonar essa “filosofia/epistemologia” porque ela nem sabe o que é um axioma, o que é a hierarquia do conhecimento, que todo conhecimento conceitual pressupõe livre arbítrio etc..

Outro exemplo é o clássico “olhe para a realidade”. Se eu olhar para a realidade verei concretos, entidades físicas se movendo. Nada disso me diz absolutamente nada sobre economia. Para que eu entenda o que está acontecendo (em termos de economia) preciso de uma infinidade de conceitos como maximização de lucro, preços, bens escassos, demanda, oferta, escolha etc.. Como eu chego a esses conceitos? A partir do básico, do axioma inescapável da ação humana (ou do livre arbítrio que nos leva a questão da escolha, escassez etc..). Veja a completa inversão metodológica que se tem aqui: o sujeito vê desemprego, por exemplo, e diz que preços não são flexíveis e por isso a teoria ortodoxa está refutada.

Ora, porque preços não são flexíveis? Faz algum sentido eles não serem flexíveis? Não é de um fenômeno complexo como o desemprego que você volta para o básico e afirma que preços não são flexíveis porque os agentes econômicos são bobos, irracionais e não reagem a incentivos (isso, óbvio, é uma caricatura, mas uma caricatura que capta a essência das escolas keynesianas e até da novo keynesiana). A sua explicação de um fenômeno complexo como o desemprego deve partir do básico, do mais básico possível (um axioma) que é correto, é dado. O caminho é do axioma para os fenômenos complexos e não dos fenômenos complexos (do “olhe a realidade”) para o básico.

O “olhe a realidade e veja” em economia não existe. A maioria dos conceitos de economia são conceitos mais complexos, derivados de conceitos mais básicos, que saem da questão da escolha, do livre arbítrio. Você não vê ofertas, demandas, preços por aí. Você vê pessoas, entidades físicas. Você vê uma pedra rolando e uma pessoa andando, mas são fenômenos de natureza distintas e você precisa de uma série de outros conceitos para perceber essa diferença. A pessoa não anda ou para exatamente pelos mesmos motivos que uma pedra rola. Os empiricistas parecem não ter saído daquela época em que um raio era visto como “vontade de alguém” só porque no âmbito das ações humanas uma infinidade de coisas é resultado de vontade, escolha etc..

Dito isso, a diferença entre um chicagoan e um austríaco não é que um faz o teste empírico e outro se contenta com a “lógica” do argumento. Uma vez eu disse aqui que chamar um abridor de lata de sorvete e tentar chupar o abridor não tem nada a ver com lógica. Essa questão de lógica como algo “puramente formal”, desapegado do mais básico material provido pelos nossos sentidos, não tem nada a ver com o que os austríacos ou qualquer clássico apegado “a lógica” defendeu no passado. A diferença entre um austríaco e um chicagoan (nesse aspecto metodológico) é que o austríaco aceita a realidade, incluindo a natureza do cientista / observador (natureza humana) e, portanto, aceita a existência de axiomas como o livre arbítrio, validade dos sentidos, o uso necessário da razão ao invés de sentimentos, emoções para se conhecer algo etc..

Como resultado disso, aceita a hierarquia lógica dos conceitos. Um austríaco jamais aceitará, por exemplo, uma inversão metodológica como foi parte do monetarismo de Friedman que adotava “expectativas adaptativas”, sem microfundamentação alguma, sem uma ligação sólida com a teoria da escolha para explicar desemprego e pior ainda, jamais aceitaria que o desemprego seja usado como “confirmação” de que preços são rígidos (essa última uma inversão total da ordem lógica da explicação). E aceitação dessas coisas por parte de empiristas, seja chicagoans ou não, não tem nada a ver com “explicar a realidade”. Assim como alguém não está “explicando a realidade” quando diz que como pedras rolam (se movem) e pedras não tem livre arbítrio, seres humanos, que aparecem (fisicamente) se movendo, também não tem livre arbítrio. É impossível explicar qualquer coisa em economia sem se utilizar de conceitos como demanda, preço, oferta, maximização e todas essas coisas saem do fato básico e elementar da escolha, do livre arbítrio. É uma contradição, uma negação do que existe usar conceitos que pressupõe a existência de algo para negar qualquer uma dessas bases (desse existente, esse atributo básico). Não há descolamento maior da realidade do que dizer que A é não A e isso é os empiricistas que costumam fazer.

Em seguida na discussão levantou-se uma dúvida sobre a questão do “olhe a realidade” (se boa economia não seria feita justamente olhando para a realidade), que foi respondida por mim com o seguinte e-mail:

Só explicando um pouco melhor a questão do "olhe a realidade e veja", no fundo, toda ciência teria como fonte a realidade. O que eu quis dizer é que o simples ato de "olhar" não te dá informações suficientes para o conceito, por exemplo, de demanda, mas te dá informação sobre a existência de alguma coisa física (uma cadeira, por exemplo) ou um efeito de luz que gera uma cadeira (e depois você descobre q era uma miragem). Essa informação "básica" fornecida pelos seus olhos é o ponto de partida, a partir dela desenvolvemos a teoria e chegamos ä conceitos e elaborações mais complexas.

Quando alguém diz "olhe a realidade, olhe o desemprego, como você pode dizer que os mercados se ajustam?" existe um monte de conceitos que não são dados a ninguém simplesmente pelo ato de olhar (como você olhar a cadeira e falar: existe algo físico q eu chamo de cadeira). É preciso uma longa cadeia de raciocínio para se falar em desemprego, mercados, ajuste de mercado. Você não vê realmente nada disso, você vê pessoas andando de um lado pro outro, talvez carregando coisas e trocando essas coisas (isso seus olhos te fornecem), a partir daí o observador desenvolve o conceito de trocas, benefícios mútuos, preços, livre mercado, demanda, oferta, ajustes etc.. E com base nessas coisas avançamos e particularizamos para um fator de produção (trabalho,no caso) e chegamos a idéia de desemprego (economicamente falando). O que eu quero dizer com isso é que existe uma "teoria prévia" (desenvolvida com o básico que você obtém dos seus sentidos, por introspecção etc.. ou seja, olhando para a realidade (externa/interna), mas usando o que realmente seus olhos enxergam, os dados primários que você recebe). Desemprego, rigidez de preço, não são dados primários, não são conceitos primários, eles precisam de vários conceitos mais básicos.

Quando olhamos para "fatos econômicos", não vemos fato econômico nenhum porque eles não existem como primários, como entidades físicas (diretamente observáveis), você vê pessoas fazendo alguma coisa (entidades físicas, concretos). É uma teoria prévia, com conceitos formados a partir dos tais axiomas e conceitos básicos que vai lhe permitir interpretar e analisar aquilo, aqueles movimentos físicos e diretamente observáveis como fato econômico. Um índio que não entendesse nada de economia veria pessoas de um lado para o outro (como você vê mesmo), não interpretaria aquilo como um "fato econômico" como nós fazemos porque ele não tem a série de conceitos bases que formam a economia. Nesse sentido, ele vai "olhar para a realidade" e não verá nada economicamente significante (talvez ele nem saiba o que é isso).

Resumindo, a realidade "imprimi" em você os fatos mais básicos apenas, como a existência de uma cadeira que você vê na sua frente (nem é bem assim, estou forçando um pouco só para ilustrar), mas tirar desses simples fatos observados algo como "dados empíricos sobre um fenômeno econômico" envolve toda uma teoria e um instrumental teórico anterior a esses tais fatos econômicos que os empiristas dizem servir de base p/ testar a teoria básica. Antes você precisa interpretar aquela série de ações físicas como um fato econômico e para isso precisa de uma teoria anterior (desenvolvida com dados primários da realidade, como o livre arbítrio, a existência de ação humana). O empirismo produz nesse campo uma inversão lógica.

2 comentários:

Gabriel Oliva disse...

Esses chicagões precisam ler Os Fatos das Ciências Sociais do Hayek pra ver se aprendem alguma coisa: http://escola-austriaca.blogspot.com/2012/02/os-fatos-das-ciencias-sociais.html

Richard disse...

Com certeza Gabriel. Esse texto do Hayek é obrigatório p/ se entender essa questão dos "fatos" em economia.