quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Rigidez de preços, desemprego e velocidade de ajuste

Uma das supostas grandes divergências entre os ditos “ortodoxos” e os economistas keynesianos está nas estimativas para a velocidade e os custos de ajustes aos choques que os mercados sofreriam ao longo do tempo. Essa divergência acaba desaguando nas discussões das medidas que governos poderiam adotar para amenizar ou acelerar tais ajustes. Um exemplo clássico (e bastante discutido) de “choque”, e o ajuste necessário diante do ocorrido, seria uma deflação e a consequente manutenção dos preços relativos na economia. Imagine que a economia está passando por uma deflação e os salários nominais são rígidos por algum motivo. Isso elevaria o salário real (salário nominal / nível de preços) e geraria desemprego. Esse é o cenário padrão keynesiano (e monetarista também) que torna deflações algo a ser evitado para esses economistas.

Recentemente infinidades de modelos surgiram explorando rigidez de preços a fim de gerar resultados que supostamente fossem compatíveis com dados observados de flutuação econômica. Essa rigidez (ou “viscosidade”) dos preços tornariam ajustes entre demanda e oferta mais lentos (como é o preço que determina a igualdade entre demanda e oferta, a lentidão desse preço produziria por um tempo considerável um desequilíbrio entre essas duas magnitudes). Dessa forma, o mercado por si só, se reequilibraria, mas com uma certa “demora” e a custos consideráveis, custos que poderiam ser evitados através de alguma politica governamental.

O que eu gostaria de discutir neste texto é essa questão da rigidez de preço e o suposto “tempo de ajuste”. Primeiro é preciso entender o que supostamente é chamado de “rigidez” de preço. Preços, em uma definição bastante básica são razões de troca entre dois bens (maça por laranja, dinheiro por carro etc..). Cada transação em um mercado livre apresenta um preço, um preço que tornou a demanda de um comprador satisfeita pela oferta de um vendedor. Em economia geralmente é dito que o preço de equilíbrio é aquele que torna todas as demandas (por aquele preço) satisfeitas e todas as ofertas (por aquele preço) também satisfeitas, ou seja, demanda e oferta se igualam. Ninguém que queria vender por esse preço deixou de arrumar um comprador e ninguém que queria comprar por esse preço deixou de arrumar um vendedor (ofertante).

Esse preço (ou preços se você tem um mercado em “desequilíbrio”) não surge do nada, não é dado por nenhuma entidade externa ao mercado. Ele é formado e converge por ações de agentes dentro do mercado negociando. A teoria ortodoxa costuma se referir a um “místico” leiloeiro walsariano externo que, como em um leilão, “grita” preços e os agentes econômicos, com esses preços dados, realizam suas ofertas e demandas. Esse leiloeiro calcula o tamanho do excesso de oferta e, dependendo do resultado, abaixa ou aumenta o preço gritado até que as demandas e ofertas se igualem. No mundo real nada disso é verdadeiro. Preços abaixam ou aumentam como resultado direto dos ofertantes e demandantes, embora muitas vezes as ações individuais de cada um tenham efeito desprezível no preço que prevalecerá (por isso muitos economistas ortodoxos usam a hipótese de “tomadores de preço”). Se o preço de um bem qualquer é muito alto, agentes de mercado venderão esse bem, fazendo seu preço cair. Se um preço de um bem é baixo, agentes de mercado comprarão esse bem, fazendo seu preço subir. O movimento “cessa” quando desaparece a tendência de compra ou venda do bem, quando não há mais gente querendo comprar do que vender e nem mais pessoas querendo vender do que comprar.

Dito isso, e imaginando duas pessoas (um ofertante e um demandante) negociando: quanto cada um deles oferecerá/pedirá? De forma simplificada, o demandante oferecerá o mínimo que ele julga necessário para obter o bem e o ofertante pedirá o máximo preço que ele julga possível para realizar o negócio. Se os preços não forem iguais, não teremos negócio. Cada agente ficará com seu bem na mão e não acontecerá a transação. Diante de tal situação, o que podemos dizer? Primeiro, um deles (ou os dois) terá que ceder, mudar sua pedida. O ofertante terá que baixar o preço e o demandante aumentar a sua proposta. Vejam que nessa situação não existe algo como “preço de mercado” ou “de equilíbrio”. O ofertante tem um preço p para o bem e o demandante um preço p’. Não existe um preço único, fora de equilíbrio, como a metáfora do leiloeiro walrasiano dá a entender. Não existe um “preço gritado” por um agente externo ao mercado e que serve como base para todas as demais ações dos participantes de mercado. Um preço de mercado único só aparecerá quando o ofertante e demandante chegar a um acordo. Isso é um detalhe importante porque os defensores da rigidez de preço afirmam coisas do tipo “o preço do bem, de mercado etc.. é rígido”. Mas que preço de mercado e do bem é esse? Se o preço em questão é o preço que equilibra oferta e demanda, dado que ele é rígido (e gera problemas como, justamente, não equilibrar oferta e demanda), então a definição deixa de ser válida.

A rigidez de preços (sem intervenção do governo) acaba necessitando e sendo apenas aplicável dentro da metáfora do leiloeiro walrasiano (que é inaplicável em um livre mercado). No mundo do leiloeiro walsariano existe um preço para cada bem, um preço oficial externo ao mercado que é “gritado” pela figura do leiloeiro. Esse preço é “flexível” se o leiloeiro o recalcula a todo o momento para equilibrar oferta e demanda e seria “rígido” se o nosso amigo imaginário demorasse em refazer esses cálculos ou não os fizessem (deixando oferta e demanda desequilibradas). No mercado não existe nada disso. Existem ofertantes pedindo p’ e demandantes aceitando p´´. Essa infinidade de preços só virará um único p quando as duas pontas fecharem a transação (e no mercado como um todo, quando oferta e demanda forem iguais para um dado p).

Alguém pode dizer que isso significa rigidez ou “viscosidade” de preços? Como foi dito, os preços são negociados, testados pelos ofertantes e demandantes, ou seja, participantes dos próprios mercados, agentes esses que são seres humanos e, portanto, não são oniscientes. Se um agente tenta vender um bem qualquer por determinado preço, não vende esse bem e diante disso se nega a baixar o preço, qual o sentido de dizer que “o preço é rígido”? A escolha por mudar ou não um preço depende das informações, expectativas e do processo interno de maximização de lucro do agente em questão. Ele pode achar que hoje não consegue vender por esse preço, mas amanhã conseguirá e assim mantém o preço (se sua expectativa se confirmar, ele sofreria uma perda baixando o preço hoje). Isso gera alguma “ineficiência” ou poderia ser melhorado? Dificilmente, pois é do interesse do próprio agente “apostar” corretamente porque seu lucro depende desse preço.

E a velocidade do ajuste, da mudança de um preço que não está dando certo para outro mais baixo ou alto? Também é do interesse tanto de ofertantes quanto de demandantes “achar” o preço que fecha o negócio o mais rápido possível, pois enquanto isso, não há ganhos já que a transação não foi fechada. O tempo que um preço leva para ser ajustado é exatamente o “tempo ótimo” de ajuste, dada as informações disponíveis e a conhecida falibilidade do conhecimento humano. Se existisse um meio conhecido de ajusta-lo mais rápido, que evitasse custos, os próprios agentes econômicos usariam tal meio, afinal isso implicaria maiores ganhos, custos de negociação economizados etc..

Voltemos, para exemplificar esse ponto, na questão da deflação e os salários nominais rígidos. Com a deflação, alguém que recebia um salário nominal X passou a ganhar um salário real mais alto. Um belo dia o empregador diz algo do tipo: bem, com essa queda de preços ou você aceita uma redução do salário ou terei que demiti-lo. Para os keynesianos ou defensores da rigidez de preços o sujeito será demitido (e isso é chamado de “desemprego involuntário”) porque o “salário é rígido”, por algum motivo misterioso o empregador não aceita reduzir seu salário e fica “involuntariamente” desempregado. Antes de continuar, um parêntese: obviamente, o trabalhador pode achar que é um blefe do patrão ou ter uma informação errada sobre o salário real que conseguiria em outros locais e assim “apostar” na não redução (e que mesmo não aceitando a redução, ele não será demitido). Bem, temos então a seguinte pergunta: porque nesse caso chamaríamos de “desemprego involuntário” o desemprego do trabalhador que fez a aposta e errou? Ele se recusou a trabalhar por um salário real menor (que na verdade era igual ao seu salário real antes da deflação). Se um trabalhador, pelo motivo que for, eleva seu salário de reserva ele está “involuntariamente desempregado”? Não faz o menor sentido, pois é uma escolha dele. Se eu me nego a trabalhar por menos de R$1 milhão mensais, estou “involuntariamente desempregado”? A negação do trabalhador em reduzir seu salário não tem nada a ver com uma “misteriosa rigidez de preços”, significa apenas que, dada as informações de que o agente dispõe, ele subiu seu salário de reserva (deslocou sua curva de oferta de trabalho para a esquerda – para um mesmo salário, oferta “menos” trabalho ou no agregado, pelo mesmo salário menos trabalhadores “se ofertam” no mercado).

Voltando ao trabalhador e a rigidez salarial, provavelmente dado que a redução de salário nominal implicaria na manutenção do mesmo salário real de antes da deflação, é de se esperar que o contrato de trabalho seja revisto e ambas as partes cheguem a um acordo, pois esse novo arranjo beneficia ambos (o trabalhador não perde o emprego e continua recebendo o mesmo salário real que ele aceitou antes e o empregador não tem prejuízo mantendo aquele funcionário). Esse é um exemplo simples do porque contratos de trabalho, por si só, não geram rigidez ou viscosidade de salários além da “rigidez” ou viscosidade naturais que qualquer preço teria, e mais que isso, serve também para mostrar que em um sistema de mercado o tempo de ajuste dos preços é o mais rápido possível, dado que na maioria dos casos, esses desajustes podem gerar perdas para as partes que, portanto, tem incentivos em corrigi-las.

Se uma das partes demora mais ou menos para corrigir sua pedida de preço é uma aposta que pode gerar benefícios futuros (dependendo da situação de mercado), mas que implica em custos (as perdas atuais por não ajustar), o que significa que existe um risco a ser levado em conta (o agente não ajusta, tem que arcar com os custos presentes e o beneficio futuro pode não vir). A pergunta que surge é: há algum problema nisso? Alguma ineficiência? Obviamente não, os agentes econômicos tomam de risco aquilo que consideram o mais adequado nos seus cálculos de maximização. Não há nenhum beneficio ou custo externo relevantes que interfira em qualquer obtenção de um “ótimo”.

Por fim, gostaria de comentar sobre dois assuntos correlatos: se o governo pode amenizar de alguma forma ajustes que precisam ser feitos e a questão do desemprego e rigidez de preço. Começando pelo segundo, não existe, por definição, desemprego involuntário em um livre mercado. Voluntário significa agir, de acordo com sua vontade, com o que é seu, com suas propriedades, i.e, com aquilo que você tem sob sua vontade. Se um trabalhador não arruma emprego porque pede “muito”, é uma opção do trabalhador pedir muito, uma opção que tem um custo (o de não arrumar nada e não ganhar nada). Se alguém oferece um serviço a um preço alto demais, dado que o serviço é escasso (como é trabalho), sempre há um preço menor que equilibrará demanda e oferta. Quem controla a pedida do trabalhador é o próprio trabalhador, é ele e só ele quem decide por quanto ofertará uma propriedade sua (no caso, o serviço trabalho). Não há nada de involuntário em não baixar o preço dessa pedida. Se ele não baixa, se ele deixa seu “salário rígido”, é uma deliberada escolha (ótima naquele instante) sua, não há nada mágico ou místico que torna preços em um mercado livre “rígidos”, algo do tipo: “quero trabalhar, mas como salário é rígido, não posso baixar meu preço de reserva e por isso não arrumo emprego”. Algo do tipo só é possível com uma intervenção no mercado, usando a coerção, a força (como o governo faz ao proibir redução de salários nominais ou impondo salário mínimo).

Muitos podem reclamar da afirmação de que “todo desemprego é voluntário” dizendo que é inviável baixar muito o salário já que dependendo da situação, em casos extremos, nem comer o sujeito pode conseguir, mas isso é um problema diferente. Não tem a ver com a voluntariedade de estar ou não desempregado. Em um mercado livre, dado que você é dono de você mesmo e trabalho é um bem escasso, sempre existirão pessoas dispostas a contratar a algum preço (salário). Se você não aceita porque esse preço é muito baixo isso não deixa de ser voluntário. A questão do salário ser alto ou baixo tem a ver com a produtividade do trabalho que por sua vez é dependente da quantidade de capital disponível em uma economia. Economias com muito capital e um sistema de preços livres para alocação desse capital e da mão de obra disponível serão mais produtivas que economias sem capital, mas em nenhuma das duas a natureza da “voluntariedade” muda, mesmo que a produtividade da primeira seja maior elevando assim os salários.

Para fins de estatística, muitos institutos e governos classificam como “desempregado” quem procurou emprego em um determinado intervalo de tempo passado (duas semanas, dois meses, um mês) e não encontrou. Obviamente nada disso diz algo sobre a “voluntariedade” ou não do desemprego. Pessoas procuram emprego e, dependendo do salário que pedem, das qualificações que apresentam para uma dada vaga, podem encontrar rapidamente ou não, ou mesmo podem encontrar e não aceitar porque o salário é menor do que seu salário de reserva. Essas estatísticas, portanto, são indicadores da dificuldade ou facilidade de se fechar um determinado “negócio”, no caso, um contrato de trabalho e não vão além disso. Essa dificuldade normalmente é oriunda de uma estimativa divergente de ofertantes e demandantes sobre o preço do bem trabalho (seja por ruídos relacionados à politica monetária, choques tecnológicos, de produtividade dentre outros), o que implicaria em total “voluntariedade” do desemprego, ou pode ser por causa de alguma intervenção do governo no mercado como a implantação de um salário mínimo maior (acima do preço de “equilíbrio”), o que não permite ao demandante de trabalho contratar nenhum ofertante adicional. Nesse caso, o mesmo desemprego medido pela estatística seria “involuntário”, porque embora os agentes envolvidos queiram fazer a transação (com suas propriedades), eles não podem porque o governo proíbe via força (vai para cadeia ou pagará multa quem pagar menos que o mínimo).

E sobre amenizar as “dores” dos ajustes? É possível? O governo pode ajudar? Muito provavelmente não. Um agente econômico que se vê diante da necessidade de alterar um preço ou mudar a produção tem todos os incentivos corretos para fazer esse ajuste da maneira menos custosa e mais eficientemente possível, afinal, ele arcará com os custos de erros e atrasados de um ajuste mal feito. Intervenções do governo, nesse quesito, tem sim um enorme potencial para piorar a situação. Em geral o governo tenta “adiar” a necessidade de ajuste e isso tem um custo, que é pago por outros agentes que não precisavam realizar ajuste algum e passam a ser penalizados pela sua eficiência. Para piorar a situação, os “protegidos” pelas medidas do governo passam a gastar recursos não na realização do ajuste necessário, mas na manutenção da politica de proteção.

O exemplo típico do que acabei de escrever são os programas de abertura comercial. É típico ouvirmos que a abertura deve ser gradual, com auxilio do governo para evitar as “dores” dos ajustes intersetorais que essa abertura produzirá (as indústrias antes protegidas, sem vantagens comparativas terão que fechar, demitir funcionários enquanto as industrias com vantagens comparativas contratarão, se expandirão etc..). O que nós vemos na realidade são setores protegidos gastando fortunas em lobbies para manter a proteção, no lugar de gastar fortunas para se modernizar, ganhar competitividade. E quem paga pela manutenção dessas indústrias ineficientes é o consumidor que acaba com um produto pior e mais caro. A tentativa do governo em “amenizar as dores” do ajuste só produz mais necessidade de ajuste (já que as perdas continuam ocorrendo), não incentiva esse ajuste e ainda joga a conta para quem não tem nada o que ajustar ou não tem responsabilidade nenhuma em fazer esse ajuste. Se o mercado produz o incentivo correto para um ajuste rápido e “sem dor” ao internalizar os custos e benefícios para o agente responsável, o governo, com suas politicas de proteção, amplifica o problema ao externalizar os custos do ajuste para terceiros e internaliza os benefícios de não se ajustar para quem deveria fazê-lo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Troca de e-mails sobre epistemologia e metodologia em economia

O texto abaixo não foi elaborado com a intenção de ser um artigo para o blog, foram apenas e-mails que enviei para um grupo de discussão onde se debatia a questão da leitura de clássicos como sendo necessária ou não para o entendimento de economia. A discussão também acabou caindo na velha disputa metodológica entre adeptos de Chicago e da escola austríaca (os adeptos da primeira, geralmente chamados de “empiristas”, defendem que não há necessidade de se voltar para autores clássicos, que a atual teoria incorpora todas as contribuições relevantes do passado, enquanto os austríacos tendem a rejeitar não só o empirismo de Chicago, como também a maior parte da dita “moderna teoria econômica” e recomendam leituras de nomes como Cantillon, Say, Bastiat, Hayek, Mises).

Os nomes dos debatedores citados nos e-mails foram ocultados para evitar qualquer problema relacionado ä privacidade. Achei interessante publicar porque é um tema que já apareceu no blog várias vezes e talvez ajude algum leitor com dúvidas existenciais sobre epistemologia e metodologia em economia.

XXXXXX,

o YYYYYY é adepto (ao que me parece) da idéia de que a economia é uma “hard Science” (no Brasil, acho que foi o Pérsio Arida que escreveu um artigo famoso nomeando/expondo essas duas visões sobre economia, uma como “hard Science” e outra como “soft Science”).

Ser uma “hard Science” basicamente significa que o estado atual da economia incorporou todas as contribuições (corretas e relevantes) do passado, logo, para aprender economia você não precisa ficar voltando a clássicos e coisas do tipo, porque tudo que eles disseram de útil e aproveitável está incorporado na moderna teoria, então basta você ler bons manuais de economia modernos e, se quiser se aprofundar mais, artigos, papers de revistas acadêmicas sobre os temas que interessar. Seria como na física. Ninguém aprende física lendo Newton ou Einstein diretamente (você lê manuais de física que contém os teoremas relevantes desenvolvidos por eles).

Já a visão de economia como uma “soft Science” nega essa “linearidade” da ciência (seja por questões metodológicas, seja por questões ideológicas etc..). A moderna teoria econômica não é necessariamente a “melhor”, a que incorpora as contribuições do passado. Ela seria uma apenas uma teoria que prevaleceu não necessariamente porque foi a “melhor” (no sentido cientifico, de busca pelo verdadeiro etc..). Dentro dessa visão é muito importante ler os clássicos (e aprender economia seria aprender as varias teorias disponíveis / expostas no passado).

Os austríacos em geral são adeptos de uma visão mais “soft Science” porque eles (e eu concordo) veem um erro filosófico/epistemológico (do empirismo) como uma espécie de contaminador dentro da economia atual. A moderna teoria econômica (empirista), por exemplo, não sabe o que é axiomas, não tem hierarquia lógica e por isso se perde completamente na metodologia que deveria adotar (ver textos O papel da econometria e da matemática em economia e Um pouco sobre epistemologia e metodologia em economia). Vou dar dois exemplos aqui.

O primeiro é a chamada behavioral economics que vem conquistando cada vez mais adeptos. Behavioral Economics é uma tentativa de negar a questão do livre arbítrio e consequentemente da escolha e racionalidade. Os adeptos dessa corrente baseiam suas conclusões em “estudos empíricos” que consistem em experimentos com algum truque lógico que faz com que as pessoas escolham “errado” ou de forma inconsistente (não me lembro de nenhum desses experimentos em particular agora para descreve-los). Isso é uma inversão metodológica que gera uma teoria bizarra. Não é com base na “escolha errada” que você vai para a explicação da escolha em geral ou da racionalidade, do livre arbítrio etc.. É do livre arbítrio, da capacidade de escolher (que é um axioma, é dado) que você busca explicar as escolhas erradas. Mas para entender isso, os empiristas precisariam abandonar essa “filosofia/epistemologia” porque ela nem sabe o que é um axioma, o que é a hierarquia do conhecimento, que todo conhecimento conceitual pressupõe livre arbítrio etc..

Outro exemplo é o clássico “olhe para a realidade”. Se eu olhar para a realidade verei concretos, entidades físicas se movendo. Nada disso me diz absolutamente nada sobre economia. Para que eu entenda o que está acontecendo (em termos de economia) preciso de uma infinidade de conceitos como maximização de lucro, preços, bens escassos, demanda, oferta, escolha etc.. Como eu chego a esses conceitos? A partir do básico, do axioma inescapável da ação humana (ou do livre arbítrio que nos leva a questão da escolha, escassez etc..). Veja a completa inversão metodológica que se tem aqui: o sujeito vê desemprego, por exemplo, e diz que preços não são flexíveis e por isso a teoria ortodoxa está refutada.

Ora, porque preços não são flexíveis? Faz algum sentido eles não serem flexíveis? Não é de um fenômeno complexo como o desemprego que você volta para o básico e afirma que preços não são flexíveis porque os agentes econômicos são bobos, irracionais e não reagem a incentivos (isso, óbvio, é uma caricatura, mas uma caricatura que capta a essência das escolas keynesianas e até da novo keynesiana). A sua explicação de um fenômeno complexo como o desemprego deve partir do básico, do mais básico possível (um axioma) que é correto, é dado. O caminho é do axioma para os fenômenos complexos e não dos fenômenos complexos (do “olhe a realidade”) para o básico.

O “olhe a realidade e veja” em economia não existe. A maioria dos conceitos de economia são conceitos mais complexos, derivados de conceitos mais básicos, que saem da questão da escolha, do livre arbítrio. Você não vê ofertas, demandas, preços por aí. Você vê pessoas, entidades físicas. Você vê uma pedra rolando e uma pessoa andando, mas são fenômenos de natureza distintas e você precisa de uma série de outros conceitos para perceber essa diferença. A pessoa não anda ou para exatamente pelos mesmos motivos que uma pedra rola. Os empiricistas parecem não ter saído daquela época em que um raio era visto como “vontade de alguém” só porque no âmbito das ações humanas uma infinidade de coisas é resultado de vontade, escolha etc..

Dito isso, a diferença entre um chicagoan e um austríaco não é que um faz o teste empírico e outro se contenta com a “lógica” do argumento. Uma vez eu disse aqui que chamar um abridor de lata de sorvete e tentar chupar o abridor não tem nada a ver com lógica. Essa questão de lógica como algo “puramente formal”, desapegado do mais básico material provido pelos nossos sentidos, não tem nada a ver com o que os austríacos ou qualquer clássico apegado “a lógica” defendeu no passado. A diferença entre um austríaco e um chicagoan (nesse aspecto metodológico) é que o austríaco aceita a realidade, incluindo a natureza do cientista / observador (natureza humana) e, portanto, aceita a existência de axiomas como o livre arbítrio, validade dos sentidos, o uso necessário da razão ao invés de sentimentos, emoções para se conhecer algo etc..

Como resultado disso, aceita a hierarquia lógica dos conceitos. Um austríaco jamais aceitará, por exemplo, uma inversão metodológica como foi parte do monetarismo de Friedman que adotava “expectativas adaptativas”, sem microfundamentação alguma, sem uma ligação sólida com a teoria da escolha para explicar desemprego e pior ainda, jamais aceitaria que o desemprego seja usado como “confirmação” de que preços são rígidos (essa última uma inversão total da ordem lógica da explicação). E aceitação dessas coisas por parte de empiristas, seja chicagoans ou não, não tem nada a ver com “explicar a realidade”. Assim como alguém não está “explicando a realidade” quando diz que como pedras rolam (se movem) e pedras não tem livre arbítrio, seres humanos, que aparecem (fisicamente) se movendo, também não tem livre arbítrio. É impossível explicar qualquer coisa em economia sem se utilizar de conceitos como demanda, preço, oferta, maximização e todas essas coisas saem do fato básico e elementar da escolha, do livre arbítrio. É uma contradição, uma negação do que existe usar conceitos que pressupõe a existência de algo para negar qualquer uma dessas bases (desse existente, esse atributo básico). Não há descolamento maior da realidade do que dizer que A é não A e isso é os empiricistas que costumam fazer.

Em seguida na discussão levantou-se uma dúvida sobre a questão do “olhe a realidade” (se boa economia não seria feita justamente olhando para a realidade), que foi respondida por mim com o seguinte e-mail:

Só explicando um pouco melhor a questão do "olhe a realidade e veja", no fundo, toda ciência teria como fonte a realidade. O que eu quis dizer é que o simples ato de "olhar" não te dá informações suficientes para o conceito, por exemplo, de demanda, mas te dá informação sobre a existência de alguma coisa física (uma cadeira, por exemplo) ou um efeito de luz que gera uma cadeira (e depois você descobre q era uma miragem). Essa informação "básica" fornecida pelos seus olhos é o ponto de partida, a partir dela desenvolvemos a teoria e chegamos ä conceitos e elaborações mais complexas.

Quando alguém diz "olhe a realidade, olhe o desemprego, como você pode dizer que os mercados se ajustam?" existe um monte de conceitos que não são dados a ninguém simplesmente pelo ato de olhar (como você olhar a cadeira e falar: existe algo físico q eu chamo de cadeira). É preciso uma longa cadeia de raciocínio para se falar em desemprego, mercados, ajuste de mercado. Você não vê realmente nada disso, você vê pessoas andando de um lado pro outro, talvez carregando coisas e trocando essas coisas (isso seus olhos te fornecem), a partir daí o observador desenvolve o conceito de trocas, benefícios mútuos, preços, livre mercado, demanda, oferta, ajustes etc.. E com base nessas coisas avançamos e particularizamos para um fator de produção (trabalho,no caso) e chegamos a idéia de desemprego (economicamente falando). O que eu quero dizer com isso é que existe uma "teoria prévia" (desenvolvida com o básico que você obtém dos seus sentidos, por introspecção etc.. ou seja, olhando para a realidade (externa/interna), mas usando o que realmente seus olhos enxergam, os dados primários que você recebe). Desemprego, rigidez de preço, não são dados primários, não são conceitos primários, eles precisam de vários conceitos mais básicos.

Quando olhamos para "fatos econômicos", não vemos fato econômico nenhum porque eles não existem como primários, como entidades físicas (diretamente observáveis), você vê pessoas fazendo alguma coisa (entidades físicas, concretos). É uma teoria prévia, com conceitos formados a partir dos tais axiomas e conceitos básicos que vai lhe permitir interpretar e analisar aquilo, aqueles movimentos físicos e diretamente observáveis como fato econômico. Um índio que não entendesse nada de economia veria pessoas de um lado para o outro (como você vê mesmo), não interpretaria aquilo como um "fato econômico" como nós fazemos porque ele não tem a série de conceitos bases que formam a economia. Nesse sentido, ele vai "olhar para a realidade" e não verá nada economicamente significante (talvez ele nem saiba o que é isso).

Resumindo, a realidade "imprimi" em você os fatos mais básicos apenas, como a existência de uma cadeira que você vê na sua frente (nem é bem assim, estou forçando um pouco só para ilustrar), mas tirar desses simples fatos observados algo como "dados empíricos sobre um fenômeno econômico" envolve toda uma teoria e um instrumental teórico anterior a esses tais fatos econômicos que os empiristas dizem servir de base p/ testar a teoria básica. Antes você precisa interpretar aquela série de ações físicas como um fato econômico e para isso precisa de uma teoria anterior (desenvolvida com dados primários da realidade, como o livre arbítrio, a existência de ação humana). O empirismo produz nesse campo uma inversão lógica.