sábado, 29 de outubro de 2011

Um pouco sobre epistemologia e metodologia em economia

Um leitor do blog, estudante de economia, perguntou o que eu achei do artigo de Thomas Sargent e Paolo Surico: “Two Illustrations of the Quantity Theory of Money: Breakdowns and Revivals”. Eu tinha ouvido falar desde artigo devido a uma “discussão interblogs”, mais especificamente entre o “Mão Visível” do Alexandre Schwartsman e o blog do Adolfo Sachsida. Procurei rapidamente na internet o artigo mesmo, mas não achei. Ele saiu na American Economic Review, que, salvo engano, é uma revista acadêmica “fechada” (é preciso pagar para fazer download dos artigos). Portanto, meus breves comentários serão mais sobre o que eu “ouvi falar” do artigo (não o li). Na verdade mais do que comentar esse artigo, queria colocar algo sobre o status epistemológico de artigos/estudos da mesma linha do artigo do Sargent, ou seja, artigos que usam do chamado “empirismo” para testar teorias econômicas.

Antes, para os leitores não economistas, é interessante uma explicação simples sobre o que vem a ser a TQM (Teoria Quantitativa da Moeda). A parte mais visível e “impactante” da TQM é a proposição de que altas taxas de inflação são resultado do excessivo crescimento do estoque de moeda. Outra “versão” diz que, no longo prazo, as taxas de inflação refletem (são iguais, bem próximas etc..) as variações da quantidade de moeda. Essas proposições saem da famosa equação: MV=PY, onde M é o estoque de moeda, V é a velocidade de circulação da moeda (nas versões modernas, V é relacionado inversamente com a demanda por moeda), P é o nível de preços da economia e Y é o produto da mesma. Como pode se observar, a equação é um “truísmo”, é uma espécie de “identidade contábil”, ela sempre e necessariamente é verdadeira, afinal o lado esquerdo diz que com uma determinada quantidade de moeda circulando (MV) “se pagou” as compras realizadas (PY). A equação MV=PY não é, pelo menos na sua versão empírica, a própria TQM. Ela é a base da TQM. Se TQM fosse a própria equação, não existiria tanta discussão sobre a mesma e nem um resultado “empiricamente significativo”, pois aumentos da quantidade de moeda poderiam ser compensadas (para manter a equação válida), por quedas em V, aumentos em P ou aumentos em Y ou ainda uma combinação dos três de todos os tipos imagináveis (por exemplo, caindo P mas aumentando Y muito mais de forma que a equação continuasse válida).

A TQM assim entendida impõe “restrições” aos parâmetros da equação. Para dizer que variações em M – quantidade de moeda – afetam exclusivamente (ou quase exclusivamente) P, tanto V quanto Y precisam permanecer relativamente estáveis em relação às mudanças na oferta monetária. Dessa forma a TQM, como uma teoria empírica, se baseia em duas proposições:

1 – Y (produto), no longo prazo, não tem relação com a quantidade de moeda (M), i.e, mudanças em M não serão refletidas em Y na equação MV=PY.

2 – Mudanças em M, não afetam significativamente V, ou seja, mudanças em M não alteram significativamente a demanda por moeda, os saldos ótimos de moeda real (poder de compra) que os agentes desejam manter como proporção da renda.

A primeira proposição é o núcleo do que conhecemos como “neutralidade da moeda”: variações em M não afetam variáveis reais (como o produto) no longo prazo. Praticamente todos os economistas do chamado “mainstream” (principalmente acadêmicos), a aceitam. No entanto há uma verdadeira guerra em relação à segunda hipótese, a de estabilidade da demanda por moeda. Durante o século XX, esse foi o “coração” do monetarismo mais hardcore de Milton Friedman e alvo de intenso debate entre seguidores do mestre de Chicago e de keynesianos como James Tobim. O debate parecia ter sido vencido por Friedman quando no final da década de 70 o FED decidiu estipular metas para agregados monetários (se a demanda por moeda já era estável, metas para a oferta de moeda – oferta de moeda estável – garantiriam um nível de preços estável). A politica de controle de agregados não foi considerada bem sucedida pelo FED que a abandonou ou, usando uma famosa frase dita por economistas na época, “não fomos nós que abandonamos os agregados, foram os agregados que nos abandonaram”. Segundo muitos teóricos do mainstream, mudanças tecnológicas, inovações financeiras na década de 80 mudaram drasticamente a demanda por moeda (e a própria oferta monetária), tornando o controle direto da segunda extremamente complicado (daí a falha da medida).

Feita uma breve apresentação e voltando aos dias atuais, o artigo de Sargent teria demonstrado que mesmo no longo prazo a relação entre emissão de moeda e inflação anda “falhando”, ou seja, a TQM (entendida como a proposição empírica de que a demanda por moeda é relativamente estável e, portanto, emissões de moeda devem causar inflação) estaria sendo “refutada” ou não corroborada. As perguntas a serem feitas, me parecerem ser:

1) A TQM pode ser refutada por estudos empíricos?

2) O que pode ser refutado ou não dessa forma?

Antes de entrar em mais detalhes, em relação à pergunta 1 eu acredito que sim, que a TQM pode ser refutada dessa forma. A estabilidade ou não da demanda por moeda é algo que precisa ser verificado historicamente, nada garante que ela será estável ou instável, assim como com qualquer demanda por qualquer bem. Isso não significa que toda vez que temos inflação “persistente” ela tenha outra causa além do excesso de oferta de moeda. Uma emissão “maior” de moeda pode não gerar inflação porque a demanda por moeda pode aumentar (por algum motivo não sistematicamente relacionado à maior oferta de moeda) e absorver essa emissão (o que “violaria empiricamente” a TQM que mantém a demanda por moeda relativamente estável), mas se estamos tendo inflação não há dúvida de que a oferta de moeda é excessiva (oferta de moeda maior que a demanda) e essa proposição não é passível de ser refutada empiricamente. Estou dizendo isso porque muitos interpretam a suposta refutação da TQM como uma refutação da proposição de que “toda inflação é sempre um fenômeno monetário” (ou que toda inflação é causada por excesso de oferta de moeda), o que considero um erro.

Ano passado escrevi um texto sobre o que considero a metodologia adequada em economia. Acho que seria interessante a leitura porque a maior parte do que direi aqui é relacionado ao que escrevi nesse texto (e acredito que para quem o leu é até “consequência natural” o que direi). Explicando rapidamente a parte “que interessa”: em economia, assim como em qualquer ramo do conhecimento temos uma certa “hierarquia lógica” que significa basicamente que conceitos mais complexos são reduzíveis a conceitos mais básicos que por sua vez são reduzíveis a fatos elementares (muitas vezes “sensoriais”), fatos inescapáveis cuja prova não pode ser solicitada pois esses fatos são a própria base de qualquer prova (eles precisam ser automaticamente válido para se provar qualquer coisa). Esse ponto de partida, não arbitrário, que nos é imposto pela natureza do que existe (incluindo nós) é chamado de axioma.

Um ponto importante a se destacar é que axiomas não são arbitrários, eles não são, como muitos empiristas gostam de dizer, “um mero ponto de partida que eu defino/escolho como axioma”. Os axiomas são objetivos, eles são o que são dada a natureza do que existe e o nosso meio de conhecer o que existe. Por exemplo, se alguém pede que eu prove que uma determinada cadeira existe, qual a maneira que qualquer pessoa “normal” procederia? Simplesmente pegaria a tal cadeira, apontaria para ela e diria para a outra pessoa: “está aqui, não disse que ela existe”. Isso é uma prova? Se o outro não está apenas de “chacota” com você, sim é uma prova. Para seres humanos não há nada mais elementar do que os sentidos, do que o ver, tocar, cheirar etc.. Os nossos sentidos são a estrutura básica pela qual recebemos “dados” do mundo externo, o meio básico que nos torna cientes de algo. Para fins da nossa discussão, é óbvio que a possibilidade de conhecer algo implica que o canal pelo qual recebemos as informações mais básicas, tomamos ciência de algo, precisa ser válido. Se ver não é suficiente, pensar (no sentido de tentar aprender, compreender algo do mundo) é inútil. Nós só pensamos, conceitualizamos, em cima dos dados primários que recebemos dos nossos sentidos. Se eles não nos dão informação do que existe, se o que eu vejo não é real, estamos pensando sobre nada, não conhecemos nada (e nem podemos), logo nenhuma teoria pode ser verificada como verdadeira ou falsa e qualquer discussão sobre refutação, correção de teorias perde o sentido.

A validade dos sentidos, portanto, é um axioma, é um axioma porque é algo inescapável. Como você provaria que isso (a validade dos sentidos) está errado? Provavelmente usando como base seus olhos, tato, olfato. Mas se isso é verdade (os sentidos não são validos) e você usou seus sentidos para “provar”, então eles transmitiram algo correto e são validos. O próprio conceito de “provar” usado aqui é dependente da validade dos sentidos. A prova de algo implica mostrar a ligação lógica desse algo com outra coisa mais elementar, no limite, com dados puramente sensoriais do tipo “ali está a cadeira”, “algo está aqui, olhe”. Em um sentido mais geral e um pouco mais rigoroso, a consciência é um axioma (a tentativa de nega-la é afirmar algo sobre o que existe, logo estar ciente de algo que existe, i.e, consciência). A validade dos sentidos é um corolário desse axioma, pois os sentidos são o meio que nos torna cientes de algo. Se a consciência é a capacidade de estar ciente de algo (algo que existe), então o meio que leva a isso necessariamente é valido (valido = nos permite estar cientes do que existe). Veja que dizer que os sentidos são válidos não é uma mera “opção”, uma “hipótese” que escolhemos por conveniência e podemos jogar fora a hora que quisermos. É um axioma necessário, a base de qualquer teoria ou conhecimento subsequente. Jogar o axioma fora implica jogar qualquer teoria fora (inclusive a do sujeito que está descartando o axioma).

Toda essa exposição no presente texto sobre axiomas tem um motivo importante. A teoria econômica (mais pura) é uma teoria sobre as implicações da existência de um desses “axiomas”, no caso, a capacidade de escolher, ou mais filosoficamente, o livre arbítrio (vou usar o termo “livre arbítrio” e “ação humana” como os austríacos a entendem como sendo a mesma coisa, embora haja certa discussão sobre isso). A Teoria da Relatividade de Einstein, a mecânica clássica, teoria da evolução etc.. também são montadas, derivadas de axiomas objetivos (como a validade dos nossos sentidos). Absolutamente todas as teorias humanas (verdadeiras e falsas) o são. Mas elas não tratam diretamente desses axiomas, seus objetos de estudo são outros. A economia não, seu ponto de partida é a questão da escolha, da ação humana. Antes de prosseguir, para quem se interessar, tenho um texto mais detalhado sobre a explicação do livre arbítrio como sendo um axioma, sugiro a leitura. No texto anteriormente sugerido (sobre metodologia em economia), eu dividi a economia em dois grandes blocos, um, que por simplicidade, chamei de “lógica da escolha” ou “núcleo” e outro bloco “empírico”. O núcleo (ou a lógica da escolha) se refere a desdobramentos lógicos do conceito de ação humana (ação propositada, escolha de meios para atingir um dado fim – também escolhido). Esse núcleo não seria passível de refutação empírica porque é consequência de um axioma, algo que é inescapável, atestadamente verdadeiro (toda tentativa de refuta-lo implica e pressupõe sua validade). Como já foi dito, no caso especifico da economia esse axioma é a ação humana (toda tentativa de nega-la é uma ação humana, i.e, uma ação visando um fim, um comportamento propositado, o que confirma sua existência / validade).

É importante ressaltar que quando eu digo que o núcleo não é “passível de refutação empírica” eu não quero dizer que você não possa verificar esse núcleo na realidade. Você pode verifica-lo a todo o momento introspectivamente, observando que a sua própria ação de verifica-lo tem um proposito (o de verificar o axioma) e que isso é uma ação humana. O que eu quero dizer com “não passível de refutação empírica” é que basicamente nenhum experimento externo, nenhuma observação de dados externos (como níveis de consumo, investimento, bolinhas se batendo etc..) irá adicionar qualquer coisa sobre a existência e validade desse axioma. Obviamente, o fato de você não conseguir valida-lo dessa forma (através de dados externos) não significa que ele não exista, que não seja valido (essa é uma das falhas básicas do empirismo e do materialismo). Basta observar introspectivamente o que você está fazendo, que você tem um proposito e está usando meios para tentar atingir/cumprir esse propósito (e que isso é a ação humana, o axioma basilar da economia).

Nos mantendo no tema do artigo do Sargent e considerando o núcleo da teoria econômica (que é todo o desdobramento lógico do conceito de ação humana), nós vamos chegar a idéia de “moeda”. Moeda é o nome dado a um bem que passa a ser generalizadamente usado (e aceito) como meio de troca e não para consumo direito. Percebemos também que, por esse bem ser usado em todas as transações, as relações de troca de todos os outros bens passam a ser expressas em termos desse bem generalizadamente aceito (a moeda passa a ser unidade de conta). Por fim, vemos que o que comumente é chamado de “inflação”, não passa de um aumento da quantidade de moeda que temos que dar em troca para obter uma infinidade de bens e que só a existência de uma moeda a torna possível. Em um mundo de escambo, sem um bem como unidade de conta, temos apenas preços relativos (Qtde do bem 1 / Qtde do bem 2), logo é impossível um aumento generalizado de preços porque se o preço relativo exemplificado acima sobe, o seu inverso (Qtde do bem 2 / Qtde do Bem 1) cairá.

Os conceitos de moeda (ou o conceito mais geral de “bens”), de demanda, de oferta de bens seguem diretamente do axioma da ação humana. A idéia de que quando há um excesso de oferta de um bem, ceteris paribus, o preço deverá cair é um desdobramento do conceito de ação (escolha). Essa proposição crua não é passível de refutação empírica. Ela é consequência lógica de um axioma verdadeiro. Quando alguém observa um conjunto de variáveis (como preço, quantidade negociada) e diz que os dados mostram um excesso de oferta e o preço subindo, essa pessoa certamente não refutou a lógica da escolha. Ela ou simplesmente interpretou os dados de maneira completamente equivocada (o que é muito comum), ou não conseguiu captar uma variável relevante no seu modelo que geraria esse resultado que os dados mostram, sem contradizer a lógica da escolha. Como explico no texto sugerido sobre metodologia, a lógica da escolha dá ao economista restrições (proposições) que seja lá a explicação que ele dê para um fenômeno “observável”, não podem ser violadas ou contrariadas. A lógica da escolha seria assim o primeiro “teste eliminatório” do modelo empírico apresentado.

Dito isso, a proposição “toda inflação é causada por um excesso de oferta de moeda” é uma dessas proposições derivadas da lógica da escolha que são certas “a priori” (a priori em relação ao teste empírico) porque ela é simplesmente um caso especifico da proposição “toda queda de preço de um bem X é causada por um excesso de oferta do bem X”. Lembrando que inflação é tão somente a queda do preço da moeda, ou como já foi dito, eu preciso dar mais moeda em troca de bens. Veja que “excesso de oferta do bem X” comporta várias situações específicas: uma queda da demanda porque um substituto apareceu, com oferta constante, demanda constante com oferta subindo porque um insumo ficou mais barato, aumento de oferta e demanda, mas com o primeiro sendo maior, uma queda de demanda por mudanças de gostos etc.. Mas todas essas versões, todas as quedas de preço (preço verdadeiro) serão geradas por uma oferta maior que uma demanda (excesso de oferta). E isso é válido para a moeda também: a queda do preço da moeda (vulgo inflação) é causada por um excesso de oferta de moeda (tenho alguns textos falando mais detalhadamente sobre isso, sugiro a leitura do último)

O leitor mais atento pode ter percebido que a TQM supostamente refutada por Sargent e Surico consiste de um desses cenários específicos dentro do conceito mais geral de “excesso de oferta de moeda” e que esses cenários precisam sim ser escolhidos de acordo com estudos empíricos, mas que nenhum deles refutará a afirmação de que “inflação é causada por excesso de oferta de moeda” porque essa afirmação é impossível de ser refutada, ela é um desdobramento lógico de um axioma e um axioma, justamente pela sua natureza, justamente por ser um axioma, é inescapável. E qual o cenário específico que a TQM representa? A idéia de que a oferta cresceu muito rápido enquanto a demanda ficou relativamente estável, ou em termos mais diretos, que o governo “exagerou” no uso da impressora. Assim como no caso do preço do bem X qualquer, o preço da moeda pode cair porque a demanda caiu e a oferta ficou estável, porque a oferta subiu e a demanda ficou estável (cenário da TQM), a oferta e demanda subiram, mas a primeira subiu mais ou ainda porque as duas caíram, mas a demanda caiu mais etc.. Nenhum cenário refutará a afirmação do “excesso de oferta”, os cenários apenas acrescentarão informações a essa afirmação (o excesso de oferta, no caso das inflações do período X foi causada por Y).

Assim, resumindo a questão com base na visão que tenho sobre metodologia em economia, a proposição de que “inflação é causada por um excesso de oferta de moeda” faz parte do núcleo da teoria econômica. Como derivação direta do axioma da ação humana ela não pode ser refutada empiricamente, porque como caminho lógico único a partir do axioma da ação, ela é inescapável (assim como axioma). Para ver isso diretamente basta pensarmos daquela maneira generalizada mencionada anteriormente, em cima da proposição “a queda do preço do bem X é causada por um excesso de oferta do bem X” e dos conceitos usados na proposição (preço, demanda, oferta, bens), dessa forma retornaremos ao axioma da ação que é inescapável e confirmamos a validade da proposição mais específica.

Por outro lado, a TQM (entendida como a proposição de estabilidade da demanda por moeda) não faz parte do núcleo da teoria econômica, ela é uma proposição que não tem relação unidirecional com o axioma da ação. Por relação “unidirecional” quero dizer o seguinte: o que a TQM diz que é confirma, nos leva até o axioma da ação humana através da “regressão lógica”, mas a ação humana não nos leva ao que a TQM diz que é. Tanto a TQM quanto outro cenário alternativo são compatíveis com a ação humana. O axioma da ação humana não basta como critério de validação da TQM (porque outros cenários são igualmente compatíveis), logo é necessário a “análise histórica” (ou simplesmente, analise de dados externos, a prática do “empirismo”). Sargent e Surico fizeram isso em relação à TQM (pelo menos é o que me parece). Salvo erros de estatística, econometria (o que eu duvido que eles tenham cometido, até porque saiu na conceituada AER), a discussão acabará caindo em coisas como escolha de dados, agregados, método econométrico usado, teste Y mais adequado que teste X etc..

Antes de terminar, sobre essa relação de “coisas passiveis de teste empírico” e coisas que não podem ser refutadas por testes empíricos em economia, deixe-me dar mais dois exemplos muito comuns: um mais simples e outro mais complicado. O primeiro é a famosa “inversão keynesiana”: investimento gera poupança. Tenho um texto simples sobre isso e sugiro a leitura (link aqui). Basicamente o que os keynesianos fazem é criar modelos matemáticos (normalmente sem microfundamentação) onde o investimento “antecede” a poupança e então partem para mostrar com dados que o que eles disseram está correto. Para piorar a situação, dada a adoção do empirismo que não reconhece a hierarquia lógica do conhecimento, que acha que axioma é algo artificial, uma mera “hipótese” usada por conveniência, os neoclássicos aceitam a “brincadeira” e tentar provar com técnicas estatísticas o contrário: que poupança antecede o investimento. Nesse caso, a solução é muito simples e chega a ser bizarro que tal discussão tenha sido levada a sério. Basta ver o que significa o conceito de poupança, porque ele surge quando falamos em ação humana e o conceito de investimento (e sua mesma ligação com a ação humana). Poupança é parte da renda (ou da riqueza) que as pessoas não consomem hoje porque preferem consumir diretamente no futuro, ou deixar de herança ou mesmo investir. Enfim, poupança é uma troca de consumo presente por algum consumo futuro. Ora e investimento? É exatamente um dos usos, hoje, da poupança. Podemos ter uma variação de conceitos como “poupança forçada” ou mesmo um investimento feito de bens roubados etc.. mas nada altera o fato de que é necessário um conjunto de bens ou fatores de produção produzidos e não consumidos (uma poupança) para que haja investimento. Não se usa (investe), o que não existe, logo, é impossível o investimento vir antes da poupança (veja este texto).

O outro exemplo, mais complicado, também vem dos keynesianos: a idéia de que déficit fiscal estimula a economia. Existem várias explicações do porque isso aconteceria, mas geralmente a considerada keynesiana mesmo é a teoria de que politicas fiscais estimulam a chamada demanda agregada. Também nesse caso, tenho textos mais detalhado explicando porque tal proposição é falsa, o link está aqui e aqui (recomendo a leitura). Basicamente a explicação de que déficits estimulam a demanda agregada é gerada pelo não entendimento do conceito de bens e escassez. Imagine o seguinte: como todos os bens são escassos, então todo bem é considerado e alocado em algum lugar. Vamos definir as alocações em consumo (C ), investimento (I ) e gastos do governo (G) – a soma dessas três coisas, em uma economia fechada, formam a tal “demanda agregada” (o uso que as pessoas fizeram desses bens). Bem, não é preciso ser gênio para perceber que se G aumentar, sendo os bens escassos e, portanto, sempre usados para alguma coisa, então C ou I terão que diminuir de forma a deixar a soma constante (porque a soma é a soma dos bens existentes, de tudo que foi produzido e, por serem escassos, usados). Logo é impossível qualquer aumento de componentes da demanda agregada gerar realmente um aumento da mesma (porque o aumento será compensando por um decréscimo de igual valor em outro componente).

Os keynesianos tentaram uma infinidade de fugas para fugir dessa obviedade como a questão de “capacidade ociosa”, “falta de pleno emprego” etc.. mas, como já dissemos, todas elas, em um sentido relevante para a economia e consequentemente para a ação humana, implicariam em uma violação da escassez, que por sua vez “é” o próprio axioma da escolha, da ação humana (você só escolhe porque é escasso, se não fosse, não precisava escolher e se não precisasse escolher, não seria relevante para o estudo da economia). Logo, dentro da nossa divisão em núcleo e “modelos empíricos”, a explicação keynesiana pura que fala em “vazamento de poupança”, viola a Lei de Say (veja aqui) e coloca a demanda agregada como algo que pode ser aumentado por simples aumento de um dos seus componentes estaria desafiando o núcleo (o próprio axioma da ação humana e seus desdobramentos lógicos) e deveria ser rejeitado sem a necessidade de qualquer trabalho empírico ou coisa do tipo (estaria na mesma situação do investimento vindo antes da poupança).

Por fim, ainda existem duas outras explicações do porque um aumento dos gastos do governo poderia estimular a economia: salário rígido e uma mais “microfundamentada” que fala em efeito renda prevalecendo sobre efeito substituição dada a tributação futura esperada pelo maior déficit. Quanto ao salário rígido, ele teria a ver mais com expectativas que os trabalhadores formam sobre a inflação futura. Não vou me alongar muito aqui, mas estamos falando basicamente da questão do tipo de expectativa a ser considerada no modelo: expectativas racionais versus expectativas adaptativas, por exemplo. Eu considero que isso não é uma questão empírica porque envolve a própria questão de maximização de utilidade. Não faz sentido supor que um agente econômico não use todas as informações consideradas relevantes para prever uma variável que afeta tão diretamente seu bem estar. Logo, os modelos empíricos precisam usar hipóteses de expectativas que não sejam “irracionais” no sentido de contradizer a maximização de utilidade. Ademais, nessa questão de rigidez, uma hipótese “empírica” seria a força dos sindicatos ou a legislação trabalhista que trava os salários. São assuntos passiveis de verificação empírica (se essas instituições geram rigidez), que embasariam explicações para uma efetividade maior das politicas de governo no curto prazo compatível com o núcleo da escolha (teoria econômica).

E finalmente, a questão do efeito substituição ser menor que o efeito renda. Rapidamente, o argumento é o seguinte: o governo gasta mais hoje e isso significa mais tributação futura (e os agentes hoje consideram esse custo futuro). Mais tributação significa menos salário (renda). Quando isso acontece há dois efeitos em jogo:

1) substituição: o custo de oportunidade de não trabalhar diminuiu porque você vai ganhar menos, o que significa que você trabalhará menos.

2) renda: bens (incluindo lazer) são considerados bens normais, como sua renda diminuiu (salário menor), você vai comprar menos bens (incluindo lazer), o que implica que você trabalhará mais.

A justificativa para que gastos do governo aumente o produto no curto prazo é de que, pelo menos em algum momento, o efeito renda (2) prevalece sobre o substituição (1) e assim o resultado é uma oferta maior de trabalho e consequentemente mais produto. Veja que, como a renda do sujeito cai, mesmo com mais produto, seu bem estar diminui porque a combinação lazer/trabalho está fora (abaixo) do ótimo. Como pode se observar nesse “modelinho”, algumas hipóteses são “heroicas” (como a questão da tributação futura “equivaler” à tributação presente), mas compatíveis com a lógica da escolha e o veredito final teria que vir através de testes empíricos. O núcleo, por si só, não estaria sendo violado. Esse é um exemplo de proposição considerada keynesiana (pelo menos a “casca” dela) e que, dada a justificativa, não violaria a lógica da ação humana (o núcleo da teoria econômica).