quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A mitologia do câmbio

Se você pegar um livro sobre economia brasileira, história econômica do Brasil ou se aventurar por textos e artigos teóricos de economistas brasileiros mais velhos, existe uma imensa chance de se deparar com o tema “câmbio”. Durante toda a história econômica brasileira, esse foi um dos temas mais debatidos e controversos da nossa economia. Não sou historiador, mas aparentemente não é tão difícil saber por quê. Boa parte da “elite” econômica nacional sempre teve seus rendimentos atrelados a algum tipo de mercado exportador; no período colonial, exportação de pau-brasil e seus derivados e açúcar para a Europa, depois café e hoje outras commodities adicionais como soja. Como existe certa correlação entre poder econômico e poder politico (principalmente antigamente), era “normal” que um preço tão importante para o bolso desse pessoal fosse alvo de acalorados debates.

Economicamente não há nada de diferente entre o câmbio e outros preços. Teoricamente, o que é chamado de taxa de câmbio é a razão de troca entre duas moedas quaisquer. No Brasil, por razões óbvias, câmbio significa o preço, em reais, do dólar – BRL/USD – dólar que, pelo menos por enquanto, é a “moeda padrão” do mundo. O real valorizado significa um dólar desvalorizado, ou seja, uma taxa BRL/USD baixa (câmbio baixo). O real desvalorizado significa um dólar valorizado, logo uma taxa BRL/USD alta (câmbio alto). O que determina essa razão de troca, como com todos os outros preços é a demanda e oferta pelo bem em questão, nesse caso especifico, a demanda e oferta por dólar. A principal razão para alguém demandar moeda estrangeira é a realização de compras no exterior (embora, em épocas turbulentas, alguém possa procurar refúgio em moeda estrangeira). A principal razão para se ofertar moeda estrangeira é compras no mercado local após alguma venda para o exterior (o ofertante recebeu dólares ou outra moeda estrangeira qualquer, mas essas moedas aqui não servem como meio de troca, então o agente busca reais). Dessa forma, entram dólares no país (são a oferta de dólares “do país”) quando há exportações e empréstimos/financiamentos do exterior (entrada de capitais). Saem dólares do país quando há importações e empréstimos/financiamentos para o exterior (saída de capitais).

A maioria das pessoas e mesmo economistas fazem um verdadeiro alarde porque “está saindo dólares” do país (ou algo do tipo) e ficam felizes quando “está entrando dólares”. Isso é um erro derivado do “mercantilismo” que considerava que um país estava ficando mais rico quando entrava mais ouro/prata (moedas da época) do que saia. Se entraram dólares é porque alguém deu outra coisa em troca e se você aceitou dólar, como você não come e nem veste dólares, é porque quer se livrar rapidinho deles trocando por algum bem de verdade. Se existir um mercado perfeitamente livre de dólares, o preço do dólar será dado quando a oferta igualar a demanda, ou seja, a entrada de dólares igualar a saída. Não é necessário preocupação alguma em relação a “entradas” e “saídas” de dólar. Sai dólar quando os agentes econômicos querem comprar coisas no exterior (e é muito bom que eles façam isso, afinal, dólar não enche barriga). Entra dólar quando as pessoas vendem produtos para estrangeiros ou emprestam deles, mas elas só fazem isso porque querem dólares para posteriormente manda-los embora, comprando coisas no exterior (obviamente, dada a existência de moeda, toda a cadeia não envolve necessariamente a mesma pessoa. A pode vender para C estrangeiro, pegar os dólares e trocar por reais com B e B só troca porque vai comprar no exterior. De qualquer forma A só aceita dólares porque sabe que existe algum local que quer dólares internamente para comprar no exterior).

Atualmente entre economistas tupiniquins e mesmo entre a população em geral existe uma verdadeira “mitologia do câmbio”. Ora é necessário defende-lo de especuladores, ora é preciso leva-lo a um miraculoso “ótimo”, ora é imperativo intervir no seu valor por algum nobre motivo como “desemprego”, saldos indesejáveis em conta corrente e outros tantos. Nunca podemos tirar o “olho” desse pobre preço. Isso quando não ocorre uma “fatalidade no exterior” que distorce o câmbio “verdadeiro”, o que, infelizmente, nos obriga a defendê-lo mais uma vez. A verdade é que economicamente nada disso faz muito sentido. Tirando aqueles que realmente acreditam nessas coisas (por adoção de alguma teoria econômica equivocada), na maioria das vezes esses argumentos são apenas “cortina de fumaça” para lobbies de determinados grupos que possuem suas rendas altamente relacionadas ao câmbio. Como expliquei em outro texto, se uma atividade é muito exposta ao risco do câmbio, isso é um custo que deve ser levado em conta no momento que se escolhe investir nessa atividade. Não faz sentido econômico que terceiros, contra sua escolha, arquem com esse custo, pois isso altera o incentivo a se buscar o investimento ótimo. Obviamente, o investidor da área não está nenhum pouco interessado em “ótimos sociais” e coisas do tipo. Ele adoraria que esse risco fosse “eliminado” à custa de terceiros.

Por que realmente o governo intervém no câmbio?

Os motivos oficiais para a intervenção estão em todos os jornais, não é exatamente sobre isso que quero falar aqui (falarei mais adiante). Como já disse, nenhum desses motivos costumam fazer muito sentido econômico. O ponto aqui é o que realmente leva governos do mundo todo a mexerem tanto no câmbio. Quando falo em “mexer no câmbio”, “intervir no câmbio” não estou me referindo à medidas que indiretamente acabam afetando essa variável (como supostos déficits governamentais altos), mas sim politicas que deliberadamente visam o câmbio, as tais “politicas cambiais”. Além disso, politicas que desvalorizam o real (ou seja, aumentam o câmbio) são bem mais comuns que politicas que fazem o oposto. A razão para isso está no famoso problema dos “benefícios concentrados X custos dispersos”. Exportadores ganham com o dólar alto (real desvalorizado). Também ganham indústrias ineficientes, pois a medida funciona como uma espécie de barreira protecionista. Quem ganha com um real “forte” (valorizado)? Basicamente a grande massa de consumidores que paga mais barato por uma série de bens. O ganho dos segundos (somados) provavelmente será bem maior que os ganhos do primeiro grupo. Mas qual dos dois grupos terá mais incentivos para lutar pelo seu “pedaço de bolo”? Os exportadores e industriais dependentes de proteção constituem um número bem menor de agentes econômicos que a massa de consumidores de um país, mas suas “vidas” dependem do valor do dólar, logo o incentivo individual desse grupo para buscar o subsídio ou a politica cambial favorável é muito maior que para os consumidores que economizariam, no máximo, algumas dezenas de reais por mês em compras com uma politica cambial favorável a eles.

Adicionalmente, existe o problema do “carona” (ou free rider) no grupo maior. Se a politica favorável aos consumidores for aprovada, ela beneficiará tanto consumidores que foram “ativos” na busca por esse resultado (pessoas que gastaram tempo, recursos monetários etc..) quanto aqueles que ficaram em casa apenas “assistindo” e não gastaram nada. Portanto, individualmente existe um incentivo a não fazer lobbies por essa politica. Coletivamente é bastante difícil fazer pressão ou fiscalizar quem está participando ou não do lobby porque o grupo é muito grande. Somadas todas essas características, temos o seguinte: o grupo dos exportadores é bem menor, o que ajuda no controle dos caronas (ainda mais através de sindicatos patronais, confederações etc..) e individualmente cada membro desse grupo ganha muito (ou perde muito) dada a politica cambial a ser adotada. Do outro lado, o grupo dos consumidores é muito grande, dificultando o controle dos caronas (o que gera o incentivo a ninguém fazer nada esperando que outro faça) e para piorar cada membro desse grupo não ganha muito ou perde muito com a politica a ser adotada. Veja que, no final, poucos consumidores teriam que arcam com um custo substancial para fazer lobbies, mas não ganhariam muito com isso, pois o beneficio gigantesco seria distribuído entre todos os consumidores, incluindo aqueles que nada fizeram. Já do lado dos exportadores, o custo do lobby é também substancial, mas devido a um controle maior do carona pode até ser rachado entre mais gente. Do lado do beneficio, como os exportadores tem muito a ganhar ou a perder com a politica, mesmo que o custo de lobby seja alto, o beneficio individual será maior ainda se ele conseguir a politica adequada, logo existe um incentivo a produzir esse lobby pró-desvalorização, enquanto do outro lado (pelas características já mencionadas) não existe o mesmo incentivo para “pressionar” pela politica contrária.

Para o caso brasileiro, a situação descrita acima sempre ocorreu de forma mais agressiva porque a “elite” econômica e politica eram os mesmos grupos e o rendimento dessa elite era positivamente correlacionado com o valor da moeda estrangeira (moeda estrangeira forte significava produtos mais baratos, competitivos no exterior e poder de compra interno mais forte para quem recebia em moeda estrangeira). Em países onde não existe um grupo muito forte e coeso em relação ao câmbio ou um grupo de exportadores suficientemente influentes, as politicas protecionistas tendem a ser mais focalizadas (e menos generalistas como “politicas cambiais”). Nesses casos o que se vê são tarifas de importação altas ou subsídios para determinados produtos (produtos agrícolas, cuja produção se concentra em alguns grandes e influentes produtores é o exemplo mais clássico). Outro fator determinante para o tipo de politica que cada país terá é o poder sindical (ou de organização) relativo dos diferentes grupos com diferentes interesses. O grupo relativamente mais sindicalizado ou com capacidade de organização maior (o que diminui o problema do carona) tende a conseguir capturar as politicas de governo para si.

No Brasil um fator adicional reforça a tendência a se realizar protecionismo via câmbio. Dado o excesso de regulação interna e as famigeradas “politicas industriais”, há uma relativa concentração da economia em grandes confederações de indústrias e coisas do tipo, o que reforça a geração de lobbies (isso no lado da demanda, do lado da oferta existe um governo que interfere em tudo, sem muitas leis e instituições efetivas de controle, o que facilita “qualquer politica”). E como todos esses grupos de interesse são beneficiados por politicas cambiais de desvalorização, há o reforço para as politicas sempre seguirem nessa mesma direção.

Antes de encerrar essa parte, gostaria de comentar um pouco sobre a politica contrária (valorização cambial). Como no Brasil todo mundo defende politica de desvalorização cambial, esses mesmos defensores vão jurar de pé junto que não estão defendendo desvalorização nenhuma, protecionismo algum e que o que está ocorrendo na verdade é uma “valorização irreal”, acima do “equilíbrio”, do “ótimo” etc.. Logo, embora realmente politicas de valorização cambial sejam raríssimas, lendo jornais temos a sensação de que elas sempre foram executadas. Esse tipo de politica tem muito pouca demanda por duas razões: primeiro, não existe nenhum grupo muito forte que se beneficia dela (como já foi explicado, em geral, o principal beneficiado direto por tais politicas seriam os consumidores, mas esse grupo sofre do problema do carona e não tem ganhos individuais que fazem frente ao custo dos lobbies). Adicionalmente, não há um grupo de “importadores” politicamente fortes (importadores são muito mal vistos em um ambiente de mentalidade mercantilista). O segundo motivo é que uma politica desse tipo é custosa ao governo. Para manter o real “valorizado” (valorizado aqui quero dizer, acima da taxa que ele teria em um livre mercado), o governo precisa ter reservas de dólar (que obviamente custam) e em grande quantidade dependendo da meta de valorização desejada. Para piorar, a situação fiscal deve estar sob controle, pois grandes déficits “atiçam” a desconfiança de que o governo vai aumentar a quantidade de reais na economia, não tendo reservas suficientes para fazer a conversão real/dólar na taxa prometida.

Os supostos motivos econômicos para intervenção no câmbio

Antes de entrar na questão dos motivos econômicos para intervenção no câmbio, é importante falar um pouco sobre o que determina o “preço de equilíbrio” do dólar. Como já dissemos antes, é a oferta e demanda por dólar. A questão é o que esse preço de equilíbrio representa, para onde ele “tende” a ir. Imagine um mundo de um único bem representativo que pode ser comprado em A e B, sem custos adicionais, com as moedas dos respectivos locais (que tem os mesmos nomes dos locais). Adicionalmente suponha que o preço desse bem seja 2A em A e 1B em B e a taxa de câmbio (A/B) seja de 1. Repare então que um morador de A pode comprar o bem por 2A em A ou pode pegar 1A comprar 1B e assim comprar o mesmo bem em B (que custa 1B). Obviamente ele (e todos os moradores de A e B) preferirão comprar o bem em B, o que deve produzir não só uma queda do preço do bem em A, uma subida do preço do bem em B e da taxa A/B (já que as pessoas estão trocando mais moeda A por B). Quando esses movimentos de subidas e descidas cessarão? Quando não existir diferença entre comprar o bem com a moeda A em A ou comprar em B com a moeda B. Para perceber isso vamos supor que os preços do bem em A e em B são fixos (respectivamente 2A e 1B). Com o câmbio (A/B) em 1, há um incentivo para se comprar moeda B e comprar o bem em B. Isso eleva o preço da moeda B, ou seja, A/B aumenta. Imagine que chegue a A/B = 1,5. Nesse caso, alguém pode comprar o bem em A pagando 2A ou pegar 1,5A trocar por 1B e comprar o bem por 1B em B. Esse incentivo para comprar em B (e comprar moeda B) só vai acabar quando o câmbio (A/B) chegar à 2. Nesse cenário, qualquer um pode comprar o bem por 2A em A ou pegar os 2A trocar por 1B e comprar o bem em B. Não faz mais diferença alguma comprar com a moeda A ou com a moeda B, logo não há mais incentivo para se vender uma e comprar a outra.

Generalizando o que foi dito, o preço de uma moeda em relação à outra, tende a refletir seus respectivos poderes de compra. Assim uma moeda que permite comprar, com uma mesma quantidade, o dobro de bens que outra, tenderá a custar duas vezes mais. Obviamente tudo isso é uma derivação de um modelo “abstrato”, sem custos de transporte, tarifas de importação e com bens “comercializáveis”. Muitos economistas resolveram testar empiricamente a teoria exposta acima que ficou conhecida como teoria da Paridade do Poder de Compra (PPC) e descobriram que ela não “funcionava muito bem”. Obviamente ela não funcionará de forma pura porque existe uma infinidade de ruídos no mundo real. Existem custos de transporte, às vezes o que nós achamos que é o mesmo bem não é o mesmo bem (um perfume comprado em Nova Iorque é o mesmo, para os consumidores, que um perfume comprado no interior do Mato Grosso?), nem todos os bens são “tradables” e as preferências entre países podem ser diferentes (o que altera os preços relativos internos dos bens, não permite selecionar uma cesta padrão representativa etc..). A questão é que para todos os bens da economia (inclusive os non-tradables se existir movimentação de capitais), existirá o mesmo movimento descrito acima em busca de lucros comprando com uma ou outra moeda. Essa constelação de agentes comprando e vendendo moedas, de acordo com as oportunidades de lucros que eles se deparam, determina no final a “verdadeira taxa de câmbio”. Assim como com outros preços da economia, é um tanto absurdo falar em “câmbio ótimo”, “câmbio ideal” diferente daquele gerado por um sistema de livre mercado. Ao preço gerado pelo mercado, todos os demandantes compram exatamente a quantidade de dólares que os ofertantes estão dispostos a ofertar. Não há ninguém que valora comprar $1 a mais por aquele preço e ninguém disposto a ofertar $1 a mais pelo mesmo preço. Todas as “necessidades” de compra e venda foram saciadas.

Muitos economistas, diante da suposta falha empírica da teoria da PPC passaram a adotar a famosa regra de não arbitragem de juros internacional para “explicar” o câmbio. Desconsiderando risco e expectativas de mudanças cambiais, basicamente a teoria diz que os movimentos no câmbio acompanham diferenciais das taxas de juros entre os países. Assim, capitais fluiriam dos países com taxas baixas para países com taxas altas, elevando a procura pela moeda do país com taxa alta e diminuindo a procura pela moeda do país com taxa baixa (alterando a taxa de câmbio entre essas moedas). Essa teoria é muito usada por alguns defensores da desvalorização do real. Eles alegam que como os juros no Brasil são muito altos relativamente ao resto do mundo (devido a uma série de fatores, como uma “politica monetária equivocada”, gastos excessivos etc..), há uma entrada maciça de capitais, o que gera a valorização do real.

Como já foi dito, existe uma infinidade de bens e preços que geram oportunidades de ganhos que são levadas em conta pelos agentes econômicos e assim formam a demanda e oferta de moedas (de acordo com o raciocínio exposto no começo desta seção). Se um mercado em particular fará diferença ou não nessa demanda e oferta, dependerá do seu tamanho. Em sociedades modernas que participam do mercado internacional de capitais e considerando uma mobilidade de capitais sem grandes custos, diferenciais de taxas de juros são sim um fator de determinação do câmbio (assim como eram os preços do bem genérico no país A e no país B). Ocorre que não há nada demais nesse fato e nenhuma necessidade de se valorizar ou desvalorizar artificialmente o real por isso. Se as taxas de juros em um país são altas, isso significa que a produtividade marginal do capital (PmgC) é alta no local (provavelmente porque há pouca poupança, pouco capital). Logo, naturalmente capitais deixarão áreas com PmgC baixa (juros baixo) e migrarão para regiões com juros altos (alta PmgC). Exatamente como aconteceu na historinha dos países A e B, quando os bens fluíam de B para A porque era mais barato comprar em B. Não há nada economicamente errado com isso. Se os fluxos de entrada e saída forem grandes, as taxas baixarão no país com taxas altas, aumentarão no país com taxas baixas e valorizarão a moeda do país com juros altos em relação à moeda do país com juros baixos. Exatamente o que ocorreria no caso do bem genérico descrito anteriormente. Se o fluxo for pequeno em relação ao tamanho do setor “externo” dos países, muito pouco do câmbio se movimentará. O ajuste provavelmente se dará apenas nas subidas e descidas das taxas de juros internas. O preço que sofrerá mais variações por causa do ajuste dependerá do tamanho dos mercados e da abertura externa de cada país. Países mais fechados tendem a ter um câmbio mais volátil porque qualquer pequena variação absoluta na demanda e oferta de moeda estrangeira acaba representando, relativamente ao tamanho do mercado de moeda desse país, variações consideráveis (para quem se interessar, explico melhor esse ponto no texto específico sobre volatilidade do câmbio indicado anteriormente).

Diante do exposto, muitos argumentam o seguinte: “é um absurdo que o câmbio de um país seja determinado por movimento de capitais, puramente financeiros e não pelas necessidades de ajuste nas exportações e importações, ou seja, pelas necessidades da “economia real”, produtiva. Como se o câmbio for deixado livre é a economia financeira que prevalecerá, o governo faz muito bem em regular o preço da moeda estrangeira e proteger o lado real de variações provocadas por especulação e mercados financeiros”.

Esse argumento sofre de um problema crônico em economia: o de olhar agregados sem microfundamentos e criar divisões onde não existe divisão alguma. Imagine que vivemos em um mundo de escambo (ou seja, não há moeda). Capital não é algo com vida própria que entra e sai sem pessoas demandarem ou ofertarem. Se há entrada de capital, algum agente local está emprestando e dado que não existe moeda, está emitindo um “título” em troca de bens, ou seja, está também importando (estão entrando bens do estrangeiro na economia). Se um indivíduo local, compra do exterior mais do que vende, ou seja, tem um déficit em conta corrente (que no caso seria equivalente a um déficit de balança comercial), o rombo é tapado por entradas de capital, mas essas coisas não são “independentes”, separadas. Não existe um “rombo” que posteriormente deve ser preenchido com financiamento externo. O rombo só existe porque alguém emprestou capital aos locais que puderam comprar mais do exterior sem ter que pagar (enviar bens para o exterior). Não existe divisão alguma entre “lado real” e “lado financeiro”.

Quando introduzimos moeda, a cadeia de emprestar do exterior, importar bens e depois, no futuro, exportar mais do que importou no passado para pagar a dívida, não será toda realizada pela mesma pessoa, mas o seu funcionamento será idêntico ao descrito acima para economia de escambo. Entrada de capitais em um país significa que o mesmo está tendo déficit em conta corrente (que inclui o “lado real” da economia, como a balança comercial e de serviços) e a entrada de capitais é justamente o que permite esse déficit. A entrada de capitais só acontece porque consumidores no país local assim demandam. Se a taxa de juros em um país é alta significa que os habitantes desse país pagam “bem” para quem lhes permitir consumir/investir mais recursos do que produzem, ou seja, as pessoas estão demandando capital/poupança do exterior justamente para “gerarem” déficit na “balança comercial” (supondo aqui que conta corrente se resuma a balança comercial) – elas querem consumir (importar) sem pagar agora (exportar).

Os mercantilistas nunca foram capazes de entender que moeda não é riqueza. Nunca conseguiram compreender que um país não exporta para obter “moeda”, um país exporta justamente para pagar pelas importações que deseja fazer. O lado bom do comércio internacional (como o de qualquer comércio), não é pagar, mandar bens para o exterior (exportar), é justamente a ponta contrária, importar, consumir os bens do exterior. Se um país tem entrada de dólares (entrada de capital), obviamente não é para comermos, nem vestirmos a moeda americana. É simplesmente para usar esses dólares na obtenção de bens de fora (importar). Não há separação alguma entre o lado “real” do balanço de pagamentos (a tal conta corrente) e o lado financeiro/monetário (a conta de capital). Como todo balanço, ele se zerará no final porque retrata aplicações e origem de recursos (se eu comprei de fora mais do que vendi, de algum lugar deve ter vindo dinheiro para fazer isso e foi exatamente da entrada de capitais).

Entender a natureza econômica das importações e das exportações é o segredo para perceber o quanto estão erradas a imensa maioria das politicas e analises de economia internacional que vemos em jornais e na boca de membros do governo. Tenho um pequeno texto apenas sobre isso (A “tara nacional” por exportações). Sugiro fortemente a leitura. Essa compreensão vai ajudar nos dois próximos “mitos siameses” usados para defender o controle do câmbio (na verdade a desvalorização do real): desemprego e proteção à “indústria nacional”.

Antes de tudo é importante perceber o básico: se o real está “valorizado” (segundo algum critério subjetivo de alguém que quer vê-lo mais barato), as pessoas vão comprar mais bens no exterior, ou seja, as importações vão subir. Mas as importações precisam ser pagas, porque até onde se sabe, os estrangeiros não estão a fim de comer ou vestir reais. Se eles quisessem fazer isso, estaríamos no paraíso. Imprimir notas de R$500 deve custar quanto? Um pequeno pedaço de papel mais a tinta, energia da impressora e só. Em troca de algo tão barato (papeizinhos pintados) obteríamos celulares, computadores, chocolate belga, queijo suíço etc.. Infelizmente o mundo não é assim. Os estrangeiros querem reais para trocar por bens daqui, logo temos que produzir esses bens para eles, ou seja, temos que exportar para eles. Veja que aumentos de importação são a condição necessária para aumentos de exportação (exportações são apenas o pagamento, o “outro lado” das importações). Não faz o menor sentido econômico aquela visão catastrofista de que um país aberto, sem competitividade vai ser arrasado, ter toda indústria destruída, vai importar muito e não exportar nada (seria ótimo se conseguíssemos isso). A dura realidade é que teremos que pagar as importações, logo, infelizmente (e não felizmente) teremos que exportar.

Mas se o país não vai ser arrasado, voltar à idade da pedra sem nenhuma indústria ou comércio, porque tanta gente apoia medidas protecionistas através do câmbio? A resposta basicamente foi dada na primeira parte deste texto. Um grupo forte politicamente ganha com medidas protecionistas, tem incentivo a fazer lobbies por isso e como governos não são entidades “alienígenas”, não são formados por anjos oniscientes vindos de outro mundo, a politica acaba sendo implementada porque é ela que é demandada com mais força no tal “mercado politico”. Economicamente, quando um país fechado (seja via tarifas, regulações, seja via politicas de desvalorização do câmbio) se abre temos a falência e a quebra de todas as indústrias ineficientes, ou seja, indústrias que não são capazes de competir com outras indústrias internas por fatores de produção, pois usam esses fatores para produzir algo que pode ser obtido a um custo menor lá fora. A barreira protecionista, portanto, é um subsídio à ineficiência, ela transfere renda de toda população, que acaba pagando mais caro pelos produtos do setor protegido, para os industriais (principalmente) e trabalhadores do setor protegido. A tarifa cambial é mais generalista, ela transfere renda dos consumidores e setores dependentes de importação para todos os setores exportadores. A essência continua a mesma, mas agora amplificada.

Se uma indústria local precisa de proteção para não quebrar é porque ela não consegue fatores de produção (trabalho, capital) a um preço suficientemente baixo para tornar a atividade lucrativa considerando o preço do bem que ela produzirá com esses fatores. Mas o que significa isso? Basicamente que outras indústrias elevaram o preço dos fatores a esse preço que a indústria protegida não consegue pagar (senão não seria o preço pedido no mercado), logo elas (essas outras indústrias) produzem algo mais desejado, mais lucrativo com esses mesmos fatores, por isso é que pagam o preço de mercado. As indústrias protegidas querem apenas usar esses mesmos fatores que estão produzindo algo que os consumidores aprovam, para produzir bens que os consumidores não querem (por isso não pagam um preço para o bem suficientemente alto que compense o uso dos fatores). Isso significa que economicamente, gera mais produção, valor e consequentemente mais bem estar, tirar fatores das indústrias protegidas (ou seja, falir essas indústrias e gerar desemprego nesses setores) e alocar essa mão de obra nas indústrias que conseguem produzir eficientemente, nas indústrias que possuem vantagens comparativas. Para quem não está familiarizado com o conceito de vantagens comparativas e sua importância para o comércio e alocação de recursos, sugiro a leitura de dois textos deste blog: Vantagens comparativas ou por quê em casa de ferreiro espeto é de pau... e Custo Brasil e abertura comercial.

A mão de obra desempregada na indústria ineficiente será absorvida em outros setores que serão turbinados pela abertura econômica (como setores dependentes de importação, com vantagens comparativas etc..). No longo prazo, a abertura propicia uma maior produtividade, pois aloca os fatores de produção nos setores mais lucrativos, com vantagens comparativas elevando os salários de maneira geral na economia. Ainda em termos de produtividade, as indústrias nacionais, agora expostas ao “know-how” do mundo todo precisam investir em competitividade, ficarem atentas às novas formas de produzir e administrar, enfim, não existe mais a renda fácil gerada pelo protecionismo. Eis aí o caminho para fortalecer a indústria local. É o caminho oposto ao defendido pelos mercantilistas. Com protecionismo (mesmo o cambial), não há incentivo à inovação e à busca pela competitividade. Há apenas incentivo ao comodismo e à geração de lobbies para manter a proteção. Nós brasileiros, infelizmente, estamos vivenciando esse cenário há muito tempo, muito provavelmente desde séculos passados. Talvez esteja na hora de mudar e deixar o câmbio em paz.

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