sábado, 21 de maio de 2011

Choques de oferta e inflação

Em época de inflação é normal vermos diagnósticos dos mais diversos tipos sobre as suas causas. Do preço do chuchu, da energia, do petróleo à ganância dos “inescrupulosos empresários”, há sempre uma opinião para todos os gostos e colorações politicas. Dentre os economistas brasileiros “de direita”, uma das versões preferidas (e que fez muito sucesso no passado) diz respeito aos salários: pressões por maiores salários aumentam os custos de produção que consequentemente são repassados aos preços e assim temos inflação, ou, em uma versão alternativa, com maiores salários as pessoas gastam mais elevando os preços (inflação). Diagnósticos nessa linha foram muito defendidos no passado por economistas como Mario Henrique Simonsen e causou verdadeiras catástrofes, como a famigerada “politica salarial” do PAEG.

Não é impossível que “pressões por maiores salários” gerem (indiretamente) inflação, mas o mecanismo não tem nada a ver com “repasse de preços” ou pessoas com o bolso “cheio” gastando mais. Além disso, geralmente o processo que desencadeia o que costumamos chamar de “pressões por maiores salários” é a própria inflação, sendo o segundo mais causa do que consequência do primeiro (os trabalhadores perdem salário real com a inflação e correm atrás para repor). Embora nossos ilustres economistas de direita e de esquerda nunca admitam porque quase sempre estão, de uma forma ou de outra, “criando” o problema, inflação tem uma única causa: excesso de oferta de moeda, i.e, há mais moeda disponível do que as pessoas desejam carregar nas suas carteiras (demanda por moeda).

Antes de continuar, é importante esclarecer um erro, infelizmente comum até entre economistas: a diferença entre “demanda por moeda” e “demanda por riqueza”. Apesar de parecer absurdo, alguns economistas do passado (e do presente também) chegaram a afirmar que descrever inflação como um excesso de oferta de moeda era ridículo porque a demanda por moeda era infinita. Quem não desejaria receber mais e mais moeda? O que o sujeito não percebeu é que o que é infinito é a demanda por riqueza, não por moeda. Se você recebesse R$1 milhão em papel-moeda você não guardaria esse R$1 milhão na sua carteira ou embaixo do colchão. Você trocaria esses papeizinhos por uma infinidade de outras coisas. A sua demanda por moeda significa o quanto você quer de “moeda” (moeda mesmo, papel-moeda ou depósitos à vista) para guardar, para deixar na sua carteira ou no seu colchão, parados sob a forma de uma “reserva”, de um encaixe. As pessoas vão aceitar tanto dinheiro (moeda) quando você quiser dar a elas, porque essa moeda pode ser trocada por outros bens, ou seja, é riqueza, mas elas não vão pegar esse mesmo dinheiro e ficar enchendo seus bolsos de papel.

É justamente pelas pessoas terem uma demanda por moeda “finita” (elas desejam que apenas uma porção da sua renda fique em formato de “moeda”), que a inflação (e a deflação) acaba surgindo. Se as pessoas estão com mais moeda do que a proporção que elas consideram ideal para carregar (o que os economistas costumam chamar de encaixe ou saldo “ótimo”), todo mundo procurará trocar moeda por outras coisas, elevando a razão de troca entre moeda e esses outros bens (você terá que dar mais moeda por um determinado bem). Isso é o que comumente é chamado de “inflação”. Se, por outro lado, as pessoas estão com uma quantidade de moeda inferior a que consideram ideal, elas passam a vender bens em busca de mais moeda, o que gera um aumento do preço deste último (deflação).

Apenas alguns poucos economistas bem heterodoxos rejeitam completamente o que foi colocado acima (por exemplo, aqueles que nem sabem o que é demanda por moeda), mas esses nem são tão problemáticos, o grande problema é que alguns poucos aceitam que, para inflações “consideráveis” (não ruídos em índices de preços), o mecanismo descrito anteriormente seja a única causa desse fenômeno (inflação). Para ilustrar esse ponto, peguemos o que aconteceu na década de 70 e começo da década de 80 nos EUA (e de certa forma no resto do mundo). Esse período (década de 70 principalmente) foi marcado por uma elevada inflação e não demorou muito para acharem um culpado: os xeiques árabes que elevaram o preço do petróleo consideravelmente. O argumento era o seguinte: praticamente toda a indústria é dependente do petróleo, logo maiores custos, maiores preços (inflação). A explicação não passou em nenhum momento pela politica monetária do governo.

Porque o aumento do petróleo por si só não poderia causar inflação? Imaginemos que não existisse moeda e todos os preços fossem na base do “bem X/bem y” (uma maça por uma laranja, duas laranjas ou duas maças por uma melancia etc..). Se o preço do petróleo subiu, menos bens que usam petróleo serão produzidos, elevando a razão de troca (bens sem petróleo/bens com petróleo), ou seja, o preço dos produtos que usam petróleo aumenta porque teríamos que dar mais bens que não usam petróleo em troca, por outro lado isso significa que houve uma “deflação” dos preços de bens que não usam petróleo (você precisa de menos bens “petrolíferos” para obter um bem que não usa petróleo). Não há aumento do “nível de preços” simplesmente porque não há nada parecido com isso sem a existência de moeda. Não existe inflação sem moeda.

Sendo menos abstrato, imagine que a quantidade de moeda na economia está fixa, a demanda por moeda absoluta não se alterou e as pessoas só conseguem comprar bens através de moeda (um mundo bem parecido com o nosso). Se o preço dos bens dependentes de petróleo sobe, você terá que usar mais moeda para comprá-los e para isso terá que tirar moeda da compra de outros bens (já que a sua demanda por moeda é a mesma, você não a diminuiu). Logo, o preço dos bens dependentes de petróleo subirá, mas o preço dos bens não dependentes (que você deixou de comprar) cairá. Obviamente, vendo a partir de um dado índice de preços bastante amplo (e considerando esse índice um medidor para inflação), nada garante que os movimentos contrários apenas dos preços serão iguais de forma que as subidas e as descidas se zerem (o valor – preço vezes quantidade – sim será igual e zerará na variação), mas dado que existem inúmeros bens e consumidores com uma infinidade de preferencias, não há razão para se esperar que o índice final seja consistentemente “elevado” para cima ou para baixo (por isso a minha citação anterior de “inflações consideráveis” versus ruídos em índices de preços).

Só se houvesse mais moeda ou alterações na demanda por moeda seria possível um movimento consistente em uma determinada direção do índice de preços, pois com moeda suficiente, não seria necessário diminuir a demanda de determinados bens para aumentar a de outros. E é exatamente essas alterações na demanda por moeda que normalmente ocorrem quando temos choques como o do petróleo. Choques desse tipo, como já foi dito, aumentam os custos diminuindo a produção de um bem (a curva de custos das firmas é deslocada “para cima”), diminuindo a renda das pessoas. Se as pessoas desejam manter a proporção entre moeda/renda, uma menor renda implicará em uma menor demanda por moeda. Se a oferta de moeda não for enxugada pelo governo (ou o emissor em questão), teremos um excesso desse bem e consequentemente inflação. Esse é o mecanismo correto que faz choques ditos “de oferta” (como o do petróleo) gerarem (indiretamente) inflações. Indiretamente porque, o que gerou mesmo a inflação foi o excesso de oferta de moeda. Se, mesmo com o choque, as pessoas tivessem mantido sua demanda por moeda em valores absolutos (ou seja, mantido o valor dos seus saldos e não a proporção da renda que queriam como moeda), não teríamos tido inflação alguma. A oferta de moeda disponível que era a exata quantidade de moeda que as pessoas queriam manter como encaixes, continuaria sendo o equilíbrio (já que a demanda não mudou).

Explicado tudo isso, podemos voltar às tais “pressões por maiores salários” e perceber que elas, economicamente, são uma espécie de “choque de oferta” como a alta do petróleo. Começando do começo, imagine que por alguma razão, os trabalhadores passem a preferir relativamente mais lazer a trabalho, ou seja, o custo de oportunidade de trabalhar aumente. Isso significa que a oferta de trabalho diminuirá, o que provocará um aumento de salários e uma menor produção. Em geral, essa comunidade de trabalhadores propensos ao lazer terá menos bens para trocar. Tudo exatamente igual ao que ocorreu quando tivemos o choque do petróleo. Um dado fator de produção fica mais caro, diminui a produção, “empobrecendo” as pessoas.

Em um mundo sem moeda, onde os preços são razões de troca entre diferentes bens (sem um denominador comum), se todos os bens usassem trabalho, sem a possibilidade de substitui-lo em nenhum grau, nada ocorreria com essas razões de troca. O resultado seria apenas menos bens a disposição para serem trocados, mas uma laranja continuaria sendo trocada por uma maça já que nada atingiu relativamente mais o mercado de laranjas do que o de maças. Se existissem bens “intensivos em mão de obra” e “intensivos em capital”, os primeiros ficariam mais caros e os últimos mais baratos, ou seja, não teríamos nada semelhante a um aumento “generalizado de preços”. Sem moeda esse aumento generalizado é impossível.

Tal aumento, apesar de possível, também não ocorreria em um mundo com moeda, sem alteração da demanda absoluta de moeda e com a oferta permanecendo constante. Como explicado anteriormente, se o preço de uma série de bens subiu, você tem que direcionar mais moeda para a compra desses bens e com isso tira moeda da compra de outros bens. Assim, o preço dos bens que receberam mais moeda sobe (ou permanece alto), enquanto o preço dos bens que os consumidores deixaram de comprar (tiraram moeda), cai. É o mesmo mecanismo descrito anteriormente quando falei do choque do petróleo. Obviamente se, a demanda por moeda permanecer constante como proporção da renda (e não seu nível absoluto), uma menor renda (provocada pelo choque na oferta de trabalho) implicará uma menor demanda por moeda e consequentemente (dado que a oferta de moeda está constante), teremos inflação. Esse é o mecanismo correto que faria um aumento dos salários (gerado por uma restrição da oferta de trabalho) provocar inflação.

Em resumo, nenhum “choque de oferta” por si só tem o poder de gerar inflação. Inflação é simplesmente uma queda no preço (poder de compra) da moeda e isso só ocorrerá quando a oferta desse bem (moeda) for maior que a sua demanda. Se os tais choques de oferta não mexerem nessa relação monetária, não teremos inflação. Só somos bombardeados diariamente com economistas (geralmente do governo) dizendo o contrário porque na maioria das vezes a culpa pela inflação é da emissão excessiva de moeda realizada pelo próprio governo (e não por alterações na demanda por moeda). Assumir que o governo está produzindo a inflação implicaria, além do tradicional atestado de incompetência, em uma série de reformas econômicas que muito poucos governantes estão dispostos a acatar (corte de gastos, por exemplo). Portanto, é muito mais fácil botar a culpa no chuchu, nos salários “altos demais”, nos xeiques árabes que controlam o petróleo, do que assumir a própria culpa pelo problema. Para piorar, botar a culpa em outro quase sempre vem acompanhada de uma permissão para agir contra esse culpado, ou seja, aumenta a área de poder e intervenção do próprio governo (quem não se lembra, ou não ouviu falar de coisas como “fiscais” para controlar preços, controles tabelados de preços, fiscais atrás de bois nas fazendas alegando que a alta do preço da carne era culpa dos criadores e por aí vai...).

domingo, 15 de maio de 2011

Retaliar com barreiras comerciais é um bom caminho?

Muitos “intervencionistas” não se assumem como tal, eles dizem que não defendem a priori, como um “mandamento moral”, a intervenção do estado na economia, são apenas pragmáticos que acreditam que em certas situações, a melhor maneira de lidar com um problema específico é chamando o governo, mas que não há razões para achar que este é superior ao mercado em todas as situações assim como o contrário não seria válido.

Eu costumo dizer que esse povo defende uma espécie de “governo robô”, que só existe na cabeça deles. É como se o governo tivesse um botão de “liga e desliga” que o defensor da intervenção aciona conforme a sua vontade. Se a intervenção é momentaneamente desejável segundo algum critério do sujeito, ele “liga” o governo para fazer exatamente aquilo que tem em mente. Quando o momento passa, o nosso intervencionista desliga o governo e tudo volta a ser como antes.

Um exemplo dessa visão está ocorrendo exatamente agora na pendenga comercial entre o governo brasileiro e o argentino. Como é sabido, aproveitando a tara por protecionismo com a oportunidade oferecida pelos portenhos, o governo brasileiro dificultou a importação de carros da Argentina. Já que não é de bom tom se dizer protecionista e nem afirmar que a medida é uma retaliação às barreiras protecionistas levantadas anteriormente pela Argentina, o governo brasileiro tratou de dizer que a medida serve apenas para monitorar melhor o fluxo comercial do setor automotivo. Se foi por “amores ao protecionismo” ou por retaliação nós não sabemos, mas certamente não foi pelo motivo alegado. Para os propósitos deste texto, vamos supor que o motivo foi o “menos pior” dentre os disponíveis: por retaliação. Vamos aceitar a hipótese altamente improvável de que o governo brasileiro está convencido das benesses do livre comércio, mas que está tentando conseguir da Argentina o fim (ou diminuição) de algumas barreiras e para isso “blefa” com protecionismo também.

Voltando a idéia do “governo robô” e assumindo a hipótese acima temos o seguinte quadro: sabemos que o melhor dos mundos seria Argentina e Brasil não terem barreiras protecionistas, mas a Argentina colocou barreiras, o que nos faz perder. Se o governo não intervier, nós ficaremos abertos e eles fechados. É um cenário melhor do que nos fecharmos também, mas é uma situação pior do que se eles estivessem abertos como nós, logo, podemos usar o governo para nos fecharmos temporariamente, causando perdas a eles de forma que se “rendam”, desistam dessa politica protecionista e se abram novamente e quando isso ocorrer o nosso governo sai de cena e abre a economia novamente. É o típico exemplo de intervenção “pragmática”, “pontual” que supostamente melhora a situação de maneira geral.

Milton Friedman, economista de Chicago, gostava de dizer que nada é mais eterno que órgãos estatais criados sob a alegação de alguma politica temporária. Ele falava do FMI (Fundo Monetário Internacional) que foi criado para “garantir” o funcionamento do tratado de Bretton Woods, mas que continua firme e forte 40 anos após o fim do dito tratado que lhe deu origem. No Brasil nós temos inúmeros exemplos da mesma tendência. Um fantástico é o do Banco do Brasil, criado por Dom João para “fomentar o desenvolvimento”, continua vivo até hoje, mesmo depois de ter sido criado o BNDES (outro banco que teria a mesma função), SUDENE, SUDAM e até a Caixa Econômica Federal (mais voltada a subsidiar o setor de construção civil)– ou seja, mais de um século depois e com várias estatais e órgãos destinados a fazer a mesma coisa (ou quase a mesma coisa), o Banco do Brasil continua firme.

O velho mestre de Chicago falou de órgãos, mas o mesmo pode ser dito de politicas públicas como subsídios, tarifas, impostos etc.. Em suma, o governo não é um robô que você liga e desliga a hora que bem entende e a razão é muito simples. Não existe incentivo para se “desativar” uma imensa gama de politicas econômicas. Peguemos como exemplo a idéia de retaliar barreiras protecionistas. Imagine que uma dada proteção beneficia um setor da economia em $10 e prejudique toda a massa de consumidores em $20 que terá que pagar mais caro pelos mesmos produtos ou por produtos de pior qualidade. Economicamente, portanto, ela seria uma tarifa ineficiente que gera destruição de riquezas. Mas, por outro lado, mesmo que ela destrua riquezas, ela também redistribui riquezas em uma direção que faz toda diferença e gera os incentivos para sua execução. Os $10 ganhos pelo setor protegido é um valor muito alto mesmo que você divida tal valor por todos os membros desse setor. Já os $20, mesmo sendo o dobro do valor no total, individualmente, dada a imensa massa de consumidores, não significará muita coisa. Logo, individualmente cada membro do setor a ser protegido tem um belo incentivo para fazer lobbies e pressão em prol das barreiras, já a massa de consumidores, individualmente, não tem o mesmo incentivo para lutar contra as mesmas. O resultado final, muito provavelmente, será a aplicação das barreiras.

Mais importante ainda para nossa discussão é a “retirada de uma barreira”. Assim como o incentivo é maior pelo lado de quem recebeu o subsídio na hora de criar a barreira (dado o valor que o subsídio representa individualmente), também será maior para quem se beneficia dele na hora de derrubar a mesma barreira. O setor que será “desprotegido” perderá muito individualmente, enquanto os consumidores (também individualmente) ganharão pouco. Mesmo que no agregado, o montante ganho pelos últimos seja maior que o perdido pelos primeiros, a politica tende a não sair porque o incentivo mais forte na produção de lobbies e pressão está com o primeiro grupo. Barreiras protecionistas, portanto, podem não ser tão “eternas” quanto os órgãos/estatais lembrados por Friedman, mas são bem resistentes. Aplicar novas barreiras, mesmo que seja como retaliação, temporárias etc.. é brincar com fogo. Depois de criadas, a derrubada das mesmas não é tão simples como os defensores parecem acreditar.

Para complicar nada garante que uma nova barreira terá como resposta do “outro lado”, menos barreiras. Assim como A retaliou criando uma barreira, B pode responder do mesmo jeito, aumentando as suas barreiras. O resultado final será ambos os países fechados e com uma montanha de barreiras comerciais para serem derrubadas (o que como já foi explicado não é tão simples). Governos não são deuses fora de qualquer influência e incentivos, que são acionados ou desligados conforme a vontade de um “planejador central” ou de algum intelectual. Eles são formados e influenciados por pessoas iguais a quaisquer outras. Assim como uma empresa de sorvete fabrica os sabores que os demandantes mais estão dispostos a pagar, o governo também produzirá leis e regulamentos conforme a demanda daqueles que mais caro estão dispostos a “pagar”. E dada a natureza de um governo (de dispor sobre a propriedade de todos), infelizmente, na maior parte dos casos, sempre o lado que demanda algum privilégio, algum subsidio terá essa disposição a pagar mais e acabará levando a regulamentação.

Mesmo assumindo que a politica do governo brasileiro foi de retaliação (e não uma deliberada escolha pelo protecionismo), se trata de uma péssima politica. Se um país está se fechando, podemos até tentar convencê-lo do contrário, mas em termos de politica comercial o melhor que podemos fazer é nos abrirmos ainda mais, ou, se já tivermos tarifas zero, não fazer nada. Dadas as circunstâncias é a politica que gera o maior ganho. Cair na estratégia de retaliação só aumenta o prejuízo. O resultado mais provável é que não consigamos abrir o país que se fechou (até porque ele se fecha pelos mesmos incentivos perversos descritos anteriormente) e ainda temos as nossas próprias barreiras para tentar derrubar depois.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Comentário sobre o euro

Com a crise das dívidas na Europa, principalmente em Portugal e na Grécia, muitos analistas vêm se perguntando se adotar o euro foi uma boa política para esses países, se não teria sido melhor cada país continuar com sua própria moeda e conseqüentemente com uma política monetária “própria”. Muitos economistas argumentaram algo nessa direção usando como base o conceito de “zonas monetárias ótimas”, desenvolvido pelo economista, ganhador do prêmio Nobel, Robert Mundell.

Antes de prosseguir na questão do euro, uma explicação breve sobre a idéia de zonas monetárias ótimas: imagine que temos duas áreas diferentes (A e B), cada uma com sua respectiva moeda. Adicionalmente, suponha que há um choque positivo de oferta na região A fazendo com que os preços dessa região caiam, de forma que os moradores de B e os próprios moradores de A preferirão comprar em A no lugar de comprar em B. No entanto, de acordo com nosso exemplo, existe uma moeda para cada local, logo moradores de B precisam comprar moeda da região A para realizarem seus planos de compra. Assim a moeda B tende a se desvalorizar em relação à moeda de A e essa desvalorização ocorrerá até que se torne indiferente comprar uma dada cesta de bens em A (com a moeda de A) ou em B (com a moeda de B). Nesse cenário, o ajuste foi realizado através de um único preço, o câmbio. Os preços em A ou em B não precisaram se mover para que o equilíbrio nas economias se reestabelecesse. Agora peguemos o mesmo mundo hipotético do exemplo anterior, mas com uma hipótese diferente: não existam duas moedas. A e B possuem a mesma moeda e A, novamente, sofre um choque que leva à queda de preços. Como o ajuste se processaria? Quase da mesma forma que antes, os moradores de B comprariam em A diretamente, pois agora há uma única moeda comum, elevando os preços em A e baixando os preços em B até que se torne indiferente comprar em um ou outro local. Veja que nesse último cenário, os preços em A e os preços em B precisaram se mover para que o ajuste fosse feito. No outro cenário, bastou o movimento de um único preço, a taxa de câmbio entre as moedas.

O que formaria então uma zona monetária ótima? Segundo os economistas adeptos desse conceito, a resposta estaria no custo dos dois tipos de ajuste. Por exemplo, se os preços tiverem um grau de rigidez considerável em uma das regiões, deflações (o ajuste de preço para baixo) poderiam levar a recessões, o que significa que fazer o ajuste através dos preços pode ser um caminho bem custoso, o que implica que uma única moeda para ambas as regiões não é um bom negócio, ou seja, elas não formariam uma “zona monetária ótima”. Esse seria o caso da Europa. Devido a legislações trabalhistas rigorosas, sindicatos poderosos e uma mobilidade de fatores entre países não tão grande (principalmente por questões culturais), os preços (principalmente salários) seriam rígidos, dificultando ajustes via preços necessários em uma região com moeda única.

Dentro desse cenário surgiria o segundo argumento contra o euro, um argumento mais “amigável” a quem possui uma visão “keynesiana” da economia. Dada a rigidez de preços, a política monetária seria um instrumento possível de estabilização econômica, que se perde com a moeda única. Se determinada região sofresse um choque de demanda agregada, o governo poderia aumentar a oferta de moeda, elevando a inflação e diminuindo o salário real, mantendo o nível de emprego e do produto. Com uma moeda única, não há essa possibilidade (a não ser que se convença o controle central da moeda a fazer isso por causa de uma dada região). De qualquer forma a coisa se torna mais complicada.

Eu considero todos esses argumentos falhos na sua origem (rigidez de preços) e, ao contrário da visão de que o euro agrava certos problemas, creio que ele sirva mais como um disciplinador de países com políticas equivocadas do que um agente do caos. Deixe-me explicar esse ponto. O euro basicamente está sob a administração do Banco Central alemão, famoso pelo seu conservadorismo monetário. Qual seria a principal função da política monetária? Discordo que seja melhorar a taxa de desemprego ou o crescimento econômico. Como já sabemos de longa data, a política monetária não serve para esses propósitos. A única coisa que ela pode fazer é controlar a inflação. O argumento padrão, de uso da política monetária como fomentadora do emprego e do crescimento tem como base uma visão, atribuída a Keynes, de que agentes econômicos olham para variáveis nominais ao invés de variáveis reais. Assim, o trabalhador não aceita reduzir seu salário nominal, mas “é mais dócil” quando o poder real do mesmo salário é reduzido via inflação. Essa é uma visão ultrapassada, não há a mínima racionalidade em afirmar que as pessoas se importam com o “rótulo” do seu salário, mas não com o poder real dele (que em última instância é o que determina o seu bem estar).

Uma versão mais sofisticada para a rigidez de preços diz respeito a expectativas e contratos. Um defensor dessa tese diria: “OK, concordo que não há sentido em afirmar que o salário nominal é o que importa, mas queira ou não, é ele que é negociado em contratos de trabalho e é negociado com base em uma expectativa de inflação futura. Se essa inflação esperada mudar, o contrato não será ou, no mínimo, demorará para ser reajustado, o que implica em uma certa “rigidez de preços” (no caso rigidez de salário)”. Embora seja, aparentemente, uma explicação plausível, ela não faz muito sentido econômico. Imagine que os salários de uma economia estão em equilíbrio, ou seja, o salário real corresponde ao produto marginal do trabalho e iguala oferta e demanda de trabalho. Um choque aleatório causa uma deflação, elevando o salário real que passa, portanto, a estar acima da produtividade marginal. Os demandantes de trabalho, o mais rápido possível para evitarem prejuízos, chamam os ofertantes e propõe mudanças nos contratos com salários nominais menores, caso estes não aceitem, alguns serão demitidos. Ora, os trabalhadores, dado que suas preferências não mudaram, aceitarão prontamente, afinal eles estarão recebendo o mesmo salário real de antes (que era o suficiente para que eles fechassem o contrato). Dados os atuais contratos baseados em um outro nível de preços, a deflação não esperada abre espaço para uma “melhora de Pareto”, um ganho mútuo entre as partes. Não há justificativa para acreditar na manutenção dos contratos (e, portanto, na rigidez de preço) mesmo com ambos os lados tendo incentivo a alterá-lo.

Na situação contrária, de inflação não esperada, o mesmo incentivo em se rever o contrato estará presente. Se o salário real diminuiu, o ofertante tem o incentivo a aceitar pagar um salário nominal maior porque, em termos reais, ele já fazia isso e caso ele não aceite, qualquer outro ofertante aceitará porque lucrará com isso (o salário real atual está abaixo do produto marginal do trabalho). Logo, um livre mercado não gera rigidez de preços/salários. A única fonte de rigidez relevante é o próprio governo, com leis trabalhistas, leis que criam dificuldades para demissão e, principalmente, com subsídios para sindicatos (através de impostos sindicais, obrigatoriedade de filiação, legislação especial etc..). Quanto às expectativas, não há razão para supor que qualquer agente econômico não faça uso das informações disponíveis relevantes para estimar algo tão importante para seu bem estar. Se um governo promete uma inflação de 4% (em um sistema de metas de inflação), consegue credibilidade entre os agentes e, no final das contas, não cumpre, ele pode em um primeiro momento conseguir alguma queda do salário real através da “surpresa monetária”, mas dificilmente isso durará muito, os agentes incorporarão não só a nova inflação, como também passarão a desconfiar do governo e a próxima vez que ele prometer os 4%, ninguém acreditará, o que levará a “surpresas monetárias negativas” se o executor da política, de fato, quiser cumprir o que prometeu (os 4% de inflação).

Assim, a função básica da política monetária é o controle da inflação. E isso é o que de melhor ela pode fazer para a questão do emprego e do crescimento econômico. As tentativas de fuga dessa limitação apenas gerarão mais inflação e nada a mais em termos de emprego ou crescimento (aliás, muito pelo contrário). Para piorar, a volta a uma politica monetária de combate à inflação, dado o desvio anteriormente feito, será sem dúvida custosa, pois será necessário ganhar a confiança dos agentes da economia com medidas “de choque”. Tendo isso em mente, o euro é um bom caminho rumo a uma política monetária mais adequada. Peguemos, por exemplo, Portugal e Alemanha. A inflação média do escudo (moeda portuguesa antes do euro), se comparada a do marco alemão e do euro, foi bem maior. Portugal sempre teve uma das piores políticas monetárias da Europa. Diante de tal histórico, é uma boa política acabar com a administração do banco central português e substituí-lo pelo “alemão” (na verdade, o BC Europeu). Tal política, além de atacar o foco principal do problema (a alta inflação gerada pelo BC Português), também resolve problemas de credibilidade tornando a conversão de uma alta taxa de inflação para uma baixa pouco custosa.

Se o BC português tivesse, após anos e anos de péssima política monetária, anunciado que “agora sim, a inflação será combatida e mantida em níveis baixos”, os portugueses dificilmente acreditariam. Se o BC português então resolvesse cumprir a promessa ele causaria uma “surpresa monetária negativa”, podendo gerar problemas de realocação e crises, ainda mais com os sindicatos fortes existentes na Europa (embora em Portugal eles não sejam tão fortes). A aderência ao euro traz essa credibilidade perdida. Os agentes econômicos vêem a política e dizem: “agora sim, adeus inflação”, ajustando as suas expectativas e assim minimizando os efeitos reais “danosos” que a desinflação poderia gerar. Algo muito parecido se passou na América Latina no começo da década de 90 com as várias moedas locais sendo atreladas ao dólar, que era comandado por um banco central bem mais confiável que os bancos centrais locais.

Dessa forma, o euro amarrou as mãos de vários bancos centrais com péssimo histórico como os de Portugal, Espanha, Grécia e mesmo alguns “medianos” como o francês e o italiano. Todos esses países trocaram políticas monetárias inflacionistas e de menor qualidade pela “excelente” política monetária alemã (que realmente é quem comanda o euro). De maneira bem menos radical e crível, foi o que os países latino-americanos tentaram fazer no começo dos anos 90 para controlar suas inflações locais (trocaram suas próprias políticas pela política monetária dos EUA).

Mas obviamente, trocar de moeda, passar a responsabilidade de uma administração do sistema monetário mais responsável para outro país não resolve todos os problemas. Não adianta muito os governos locais quererem ter uma moeda saudável e não se comportarem adequadamente. Isso nos leva ao problema da “inconsistência das políticas”: um mesmo governo faz duas políticas que são inconsistentes, que se chocam e, uma hora ou outra, acabam se tornando insustentáveis. Imagine que Portugal não tivesse aderido ao euro e passasse a, de fato, praticar uma política monetária restritiva do escudo. Portugal poderia ganhar a confiança dos agentes promovendo, por exemplo, um forte ajuste fiscal. Ajustes fiscais diminuem a probabilidade do governo precisar imprimir moeda para pagar as contas, ou seja, diminuem a probabilidade de inflação alta no futuro, o que por sua vez traz uma inflação menor hoje. O grau de sucesso de tal politica dependerá da intensidade do ajuste e da real possibilidade política de fazê-lo (não adianta nada prometer cortar as despesas pela metade, mas não ter apoio para cumprir), no entanto, independente dessas considerações, essas “promessas/medidas” seriam um rumo “consistente” com a meta de diminuir a inflação.

O mesmo não se pode dizer quando, por um lado, o governo diz que “não quer mais inflação”, mas não corta gastos e até aumenta suas despesas. Infelizmente foi isso que a América do Sul fez na década de 90 e que os países da periferia do euro fizeram no século XXI. Se Portugal não tivesse adotado o euro, mas mesmo com o escudo, tivesse tentado uma política monetária restritiva, provavelmente tal caminho junto com aumentos de gastos teria produzido a famosa “aritmética Indesejada monetarista”. Portugal não conquistaria a confiança dos agentes econômicos na sua luta contra a inflação. Os agentes não aceitariam a moeda portuguesa e o final seria inflação e juros mais altos. Dependendo do efeito dos juros na divida (e da calamidade das próprias contas do governo), a situação fiscal poderia se deteriorar rapidamente e a inflação, diante da expectativa de uma grande monetização, explodiria.

Com o euro, a parte do controle da inflação está “garantida”. Os agentes econômicos não esperam que a divida de Portugal seja monetizada já que os lusitanos não têm essa alternativa porque não são eles que guardam a impressora. Mas isso não torna a política de gastança menos “inconsistente” com uma moeda saudável. Se Portugal não pode imprimir moeda para se financiar, tem que cortar gastos ou aumentar impostos ou aumentar a divida. O aumento da divida tem limites e aumenta a taxa de juros portuguesa devido não ao risco de “monetização”, mas o próprio risco de calote, até chegar a um limite onde o mercado seca e as linhas de créditos são cortadas. Resta então o corte de gastos ou aumento de impostos. Não existe mais a “mágica” da tributação escondida gerada pela inflação, os portugueses vêem claramente o estrago e os custos que políticas de gastança podem causar. O euro, portanto, além de garantir uma moeda estável, serve como um disciplinador, como uma amarra que obriga governos a fazer reformas necessárias. Ele torna essas reformas questão de sobrevivência, torna essas reformas necessárias aos olhos dos próprios cidadãos comuns. E para completar o serviço, evita o uso de políticas populistas-keynesianas nos momentos difíceis de necessidade de reformas. Não há saída, não há “miragem”. Cortes de gastos, orçamentos austeros precisam ser adotados. Com o euro, a farra acabou.

Não estou dizendo que sempre, em todo momento, é melhor ter uma única moeda no lugar de várias moedas. Eu sou um defensor da idéia de que o número de moedas existentes deve ser produto de um mercado livre e não de tratados governamentais envolvendo moedas de curso forçado. O que estou defendendo neste texto é que, dada a atual organização do mundo, é melhor que moedas ruins sejam trocadas por moedas administradas de maneira mais racional. É melhor que escudos, dracmas, liras sejam substituídas por euros. É melhor deixar um banco central mais responsável administrando uma única moeda do que deixar vários bancos centrais inflacionistas espalhados por aí. O euro cumpriu esse papel. Ele tirou poder de bancos centrais que historicamente não fizeram uma boa administração monetária, que não conseguiram controlar as inflações locais. Hoje, esses países com histórico ruim de politica monetária, possuem uma moeda mais saudável e não podem fugir da realização de reformas vitais e dolorosas que teriam sido postergadas através do uso da inflação.