sábado, 12 de março de 2011

Comentário “filosófico”– III: O Dilema da hamburgueria

Nada me deixa mais abismado (para não dizer outra coisa) do que o “relativismo intelectual” (que muitos dão o nome bonito de “ceticismo”). Para quem não sabe o que é isso, é aquela história de que “não existe certo ou errado”, “não existe verdade”, “pode ser certo para você, mas não é para mim”. Em níveis extremos (e mais filosófico-cômico) isso se desdobra em coisas do tipo: não sabemos de nada ou não podemos saber de nada. O que eu vejo é real? Isso que eu vejo existe? Eu existo?

Porque estou falando de tudo isso? Porque em uma visita a uma dessas maravilhosas hamburguerias de São Paulo, ao meu lado estavam dois sujeitos se perguntando se aquilo tudo que eles viam, existia; se eles existiam e coisas do tipo. Eu me pergunto o que leva o sujeito olhando para o outro a se perguntar “eu existo?”. A maioria dessas perguntas sofre do problema que Ayn Rand chamou de “stolen concept” (vou traduzir como “conceito roubado” embora o melhor fosse “conceito esquecido”). A idéia do “stolen concept” pode ser bem exemplificada pela sentença “não existe verdade”. Alguém honesto, diz isso (ou argumenta qualquer coisa) porque acredita que seja verdade / correto aquilo que ele diz/argumenta, logo a defesa desse ponto de vista implica na aceitação, da parte dele, da existência de algo como “verdade”, implica no conceito de “verdade”, i.e, que aquela proposição defendida por ele corresponde ao que é, ao que existe e que, portanto, é verdadeira, caso contrário, se esta correspondência com o que é não valesse, ela seria “falsa” (conceito de falsidade) e não teria porque a pessoa defender o que estava defendendo. Veja que o sujeito tenta negar a “existência da verdade” usando o conceito de verdade, necessitando que exista verdade/ falsidade. É como se ele “pulasse” uma etapa, um passagem lógica no seu raciocínio – no caso, o que dá origem ao conceito de verdade/falsidade e mesmo ao próprio conhecimento sobre qualquer coisa (inclusive se existe ou não verdade). Em suma, é como se ele trapaceasse logicamente, por isso o nome “conceito roubado”. Fazendo a analogia com um jogo de vídeo game, é como se ele usasse um “cheat code” para pular de fase com “todos os poderes” que ele teria que aprender e desenvolver nas fases que pulou.

A pergunta “eu existo” ou “o mundo existe” é outro exemplo típico de “stolen concept”. Por exemplo, para perceber se algo existe ou não é necessária a existência de um ser com um certo atributo chamado consciência, que no caso é o pobre coitado que não sabe se existe. Não existe possibilidade de estar ciente sobre a existência (ou não) de algo (ou melhor, estar ciente sobre uma determinada dúvida em relação a algo), sem uma dada entidade com esse atributo de ciência (da consciência). Se o “mundo” (seja lá o que ele queria dizer com isso) não existe, ele, pelo menos, existe (aqui cabe a famosa frase de Descartes, “penso, logo existo”). Veja que, assim como no exemplo da “verdade”, quando o sujeito afirma ou fica se descabelando com a dúvida sobre a sua própria existência, ele mesmo usa o conceito de consciência que nada mais é do que um atributo de uma entidade, i.e, de algo que existe (no caso, o algo específico é ele). Exatamente como na situação da “verdade não existe”, ele necessita da existência de verdade, negado na frase, para que essa afirmação seja verdade (válida). Quando eu digo “existe algo” ou “isso não existe” ou “não sei se isso existe” está implícito que você está ciente disso, ou seja, que há (existe) uma entidade, com o atributo da consciência, ciente desse aspecto do mundo (ou do universo). O que nos leva, além da conclusão de que você existe, à outra parte: “a existência do mundo”.

Consciência é o atributo de perceber, de estar ciente e obviamente estar ciente implica o objeto da ciência (ser ciente de nada é uma contradição, é não ser ciente, é não ter consciência). Você pode estar ciente de algo que não existe? Obviamente não. Você pode estar ciente da “não existência de algo”, ou seja, de uma característica de algo que existe (por exemplo, o universo) e que não contém uma suposta “coisa” qualquer, i.e, não faz parte da natureza do universo, mas jamais pode estar ciente de algo que não existe. Explicando melhor: primeiro, o que é existir? Existir é ser algo, é ter uma dada natureza, ter uma identidade. Consciência é ter ciência (ou a capacidade de ter ciência) desse algo. Consciência de algo que não existe seria como ter ciência de “nada” (se algo não existe, não tem identidade, é nada, é um “vazio”), que nada mais é do que “não ter ciência”, não ter ciência de coisa alguma. Logo, o atributo da consciência é consciência do que existe, é estar ciente de algo, de uma entidade (e não de “coisa alguma”, “de nada” – isso seria uma contradição, como explicado).

Poderia uma consciência ser consciente apenas de si mesma, sem nenhuma referência a “algo externo”? Ou em termos de “existo ou não existo”; sei que existo porque penso, mas e o resto, existe? A resposta à primeira pergunta é um óbvio não: como a consciência se identificaria como uma consciência se não percebesse alguma outra coisa? Isso nos leva a outros “conceitos roubados” usados na dúvida sobre “se eu existo?” ou se o “mundo existe?”. Em relação ao “mundo existir”, o que viria a ser mundo? Se mundo é o nome dado “a tudo”, “ao universo”, a tudo e qualquer coisa que exista, então já resolvemos esse problema. O fato de você estar ciente dessa dúvida implica no axioma da consciência que implica, no mínimo, na sua existência (como já foi explicado), logo, algo (você) existe e o “mundo” (nesse sentido de “existe algo”) obviamente existe. Ocorre que quando alguém diz se “o mundo existe” geralmente a pessoa quer dizer: “o mundo externo”, o mundo concreto, físico, “de fora da minha mente” existe? E é aí que a questão da “consciência consciente apenas de si mesma” ganha relevância porque se isso fosse possível, existiria a possibilidade de você existir e o mundo externo não (já que a existência de consciência – e, portanto sua, só garantiria exatamente isso).

Isso parece conversa de drogado, mas foi o dilema de boa parte dos filósofos ocidentais, um dilema não resolvido que acabou levando a esse “só sei que nada sei” moderno, atualmente tão na moda entre intelectuais. Se a consciência é tomada como um primário, como o axioma básico, algo que é “consciente apenas de si mesmo”, por milagre, sem referência ao “mundo externo” que é o objeto inicial de toda consciência (e que vai lhe permitir ser autoconsciente), a demonstração de que o mundo externo existiria passaria por tentar achar algo que existe, mas não temos consciência o que por razões óbvias seria impossível (“se achamos algo que existe”, estamos conscientes do fato e a missão falharia). Aí surgem coisas esdrúxulas como as ouvidas na Hamburgueria: será que o mundo existe? Como ter certeza disso? E outras nem tão ruins como o filme Matrix (que, pelo menos na primeira versão, trata dessas questões).

Vamos então retornar ao conceito de consciência: consciência é o atributo que permite a ciência do que existe. Como surge então a autoconsciência? Uma consciência qualquer, como já foi dito não poderia se identificar como consciência sem ter ciência de alguma outra coisa. Ela se tornará ciente de que é consciente exatamente quando perceber “olha, sou ciente do fato X, do fato Y”. Na prática como isso ocorre conosco? Começa quando percebemos ainda bem pequenos, que, por exemplo, ao fecharmos os olhos não temos mais ciência do que o sentido da visão nos transmite e que ao abri-los voltamos a ter ciência “do mundo lá fora”. O mesmo com a audição, tato por exemplo. Mais tarde percebemos que existem coisas “lá fora” que possuem atributos diferentes das que existem “na nossa mente” como peso, tamanho etc.. Percebemos que controlamos boa parte do processo de estar ciente ou não de algo (fechando e abrindo os olhos, tapando ou não os ouvidos, passando ou não a mão, cheirando ou não..), i.e, percebemos que somos autoconscientes, temos consciência da nossa consciência do mundo externo e temos como ativar ou não esse processo dependendo da nossa escolha. Toda essa divisão entre o “meu mundo interno”, a minha mente e o “mundo externo” com atributos como cor, textura, peso, tamanho, servem como base para a formação do conceito de “eu” de um lado e “mundo externo, físico” de outro.

Reparem na longa trajetória até o aparecimento do “eu”, da identificação de você como “outra coisa”, da sua autoconsciência e consequentemente da separação da existência em algo como “mundo interno, da mente, da consciência – o eu” e “mundo externo, físico”. Temos aqui mais um caso de “stolen concept”, no caso o conceito de “eu” que só pode ser formado exatamente com a observação de que existe algo “dentro” que é diferente do que existe “lá fora”. Veja que é necessário perceber que você observa algo “lá fora” para que se tenha a identificação da autoconsciência, do “interno” e que esses “mundos” são diferentes; o que demanda a divisão entre “eu” e “outro” ou o mundo externo em geral. Assim, como nos outros casos de “stolen concept”, “eu” demanda a necessidade de se ter um mundo externo, de se observar esse mundo externo e assim se tornar ciente da sua autoconsciência e fazer a diferenciação necessária para a formação desse conceito. Não faz sentido, portanto dizer: “eu sei que existo, mas e o mundo externo?”. Você só formou o conceito de “eu”, de “autoconsciente” porque observou exatamente o “lá fora”, i.e, porque existe o mundo externo (e obviamente você).

2 comentários:

Anônimo disse...

O simples fato de você se perguntar se você existe de fato comprova que você existe. No entanto, considerando o fato de que tudo ocorre dentro da sua mente (nada do que você percebe ou sente ocorre de modo externo ao seu corpo), não é possível você afirmar, com absoluta certeza, o que é real, embora você saiba que algo é real, pois algo existe, já que você percebe algo.
Você apenas o faz por uma questão pragmática, para que você possa "tocar" a sua vida (o que é o mais sensato).
Se você estivesse em matrix, como saberia que você está em matrix? Saberia que existe, e que matrix existe, mas não saberia o que é real. Portanto, não saberia o que é verdade, excetuando o fato de que você existe e que matrix existe.

Richard disse...

Matrix é um caso complicado pq é um filme, uma obra de ficção e aí cabe qq coisa...

se você percebe algo ele é real. Seus sentidos só reagem porque algo “ativou” eles e esse algo (dado que é alguma coisa) existe. Agora se aquilo que vc percebe (que é real) é aquilo que vc acha que percebe, isso é um erro, digamos, no campo conceitual. Por exemplo, se você vê um “Papai Noel” seus sentidos não te forneceram algo que não existe.
Eles lhe passaram, dentro da natureza deles, uma coisa lá, gorda, vestida de vermelho (que existe) e você inferiu que aquilo era o “papai noel”, no caso, o que falhou não foi os seus sentidos em passar o que existe, mas sim a sua mente ao “avaliar” a informação.

Dito isso, eu não me lembro especificamente como a Matrix funcionava, mas obviamente está fora de qualquer sistema analisável porque é um filme cujo autor inventa uma máquina/programa de computador que te leva a um mundo paralelo que não é “real” e nem o próprio filme te dá detalhes dessas coisas, de como elas funcionam (pelo que eu me lembro), como isso seria possível etc.. (ninguém se lembra que antes era de um jeito e depois ficou de outro?, ninguém passou, deixou escrita essas coisas? ), enfim....
Mas dado que naquele filme vc consegue distinguir o que é sonho de realidade (como nós realmente fazemos, por isso os dois conceitos), os sentidos funcionam perfeitamente, a pessoa não é louca etc.. o que eu diria é que para produzir aquilo, algo externo real precisa interagir com os seus sentidos para formar aquele mundo. Num certo sentido aquele mundo seria “real” (é resultado da interação entre algo que existe com os seus sentidos, que tbm existem), ele só não seria o que vc imaginava que ele fosse (um mundo único etc..), como no caso do papai noel ou mesmo daquelas miragens no deserto ou efeitos estranhos da luz (por exemplo, em dias de calor, olhando para o horizonte, parece que o chão virou água). Em nenhum desses casos seus sentidos deixa de “transmitir” o que é real, aí com as informações cabe a você, sua mente, processa-las e se você ao processa-las diz que a miragem é aquilo mesmo (a figuira que ela gera) o erro foi conceitual, não em relação aos sentidos e a transmissão do que existe (afinal, ondas de luz, que existem e atingem seu olho, estavam gerando aquele efeito que também, dada a natureza das duas coisas, seu olho e a luz, existe, foi causado por essas entidades). Um exemplo menos viajado, por exemplo, a mesa marrom, “tranquila” que você observa, não “passa” de um monte de átomos bem estranhos que, em nivel atomico, nada se parece com “marrom” ou com essa superfície serena e estável que você vê. Mas isso significa que a mesa que você vê não é real? Não, significa que você a percebe através de meios humanos, no caso, através do olho, do tato etc..

Agora, como eu disse, o Matrix não é passível de analise porque ele simplesmente inventa tudo isso e pronto, joga lá. É como se eu inventasse que seus sentidos fossem conscientes e te enganassem ou um ET sobrenatural de intoxica e coisas do tipo. Se eu invento um filme cuja natureza da nossa consciência, dos nossos sentidos é modificada (implicitamente) pelo autor do filme, tudo é possível mesmo....