sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O velho “novo desenvolvimentismo”

O maior custo das crises econômicas, ao contrário da opinião reinante, não é o alto desemprego, o PIB em queda, “juros em alta” ou outra conseqüência clássica que cansamos de ouvir. É sim a proliferação de zumbis keynesianos na academia e na mídia. Aqui no Brasil (na América Latina em geral), existe um pessoal que adora ser chamado de “desenvolvimentista”, mesmo que quase todas as suas recomendações sejam extremamente anti-desenvolvimento. Em termos teóricos o desenvolvimentismo se baseia em uma variação “global” do marxismo (a famigerada luta de classes dá lugar à luta entre o sul e o norte, países industrializados versus agrícolas) e naquele keynesianismo jurássico da década de 40/50 que se mostrou bastante resistente por essas bandas (demanda é o que importa e escassez é uma invenção imperialista norte-americana). Adiciona-se a tudo isso uma pitada de fatalismo (existe sempre uma “misteriosa” deterioração dos termos de troca para produtos “não industrializados” que torna imperativo produzir carro no lugar de banana, caso contrário estamos fadados à pobreza).

O resultado prático do desenvolvimentismo nós já conhecemos: duas décadas perdidas, a de 80, com reformas e políticas esdrúxulas tentando corrigir as conseqüências trágicas da aplicação em larga escala desse modelo e a de 90, realmente “arrumando” a casa. O desenvolvimentismo conseguiu a proeza de fazer um social democrata de “alta patente” como Mário Covas afirmar que o Brasil precisava de um “choque de capitalismo” e outro presidenciável a chamar os carros fabricados no país de carroças. E a razão é simples: protecionismo, ao contrário do que afirmam os sábios desenvolvimentistas, não fortalece a industria nacional, a destrói. Para uma industria ser competitiva ela precisa estar à mercê da competição das melhores, é o único incentivo realmente eficaz à busca por eficiência e competitividade.

Mas, mesmo com todos os fracassos do passado, o keynesianismo jurássico, o anti-capitalismo e a idolatria ao governo são resistentes por essas bandas e bastou uma crise para que uma pletora de defensores dessas visões ressuscitasse das suas tumbas e saísse das mofadas salas de algum departamento de economia de universidade federal para a grande mídia defendendo o mesmo de sempre, mais governo e menos mercado. E assim como eles criaram seu vilão imaginário preferido, o fantasmagórico “neoliberalismo”, também criaram um novo herói, o “novo desenvolvimentismo”, uma espécie de recauchutagem do velho, mais ou menos como as TVs fazem com programas de boa audiência como o “Big Brother”: prometem corrigir todos os erros e “chatices” da versão anterior, mas no fundo, não passa da mesma coisa de antes. É a conclusão inevitável que chegamos ao ler o texto O que é o Novo-Desenvolvimentismo?, que tem como um dos seus autores, o ex-ministro do governo FHC Raul Jungman.

Os autores começam explicando o que seria, economicamente, a “visão liberal” (ou a visão dos “rentistas”, segundo eles). Algumas coisas chamam a atenção: é dito que, para os liberais/ortodoxos o principal objetivo da política econômica seria o controle da inflação. Essa é uma forma enganosa de apresentar o problema, uma forma que muitos keynesianos usam para apresentar os “ortodoxos” como “insensíveis” que não ligam para o povo desempregado, só querem saber de inflação, mercado monetário e por aí vai. O que alguns ortodoxos (mais especificamente os “novos clássicos”) dizem é que a “política econômica” não serve para afetar variáveis reais, ela só tem impacto em variáveis nominais (nível de preço, juros nominal etc..). Logo, não existe escolha entre querer “olhar para o desemprego ou olhar para a inflação”. O formulador de políticas que acha isso acabará com o mesmo desemprego de antes da aplicação da política e com uma inflação maior. A política econômica só terá serventia mesmo para controlar a inflação; é isso ou nada (controlar desemprego não é uma opção). Adicionalmente, dependendo do grau de monetarismo do nosso ortodoxo (geralmente os novos clássicos são “bem monetaristas”), a política econômica se resumirá à política monetária, já que a fiscal (seja esperada ou inesperada) não teria efeitos reais e nem nominais relevantes.

Um outro trecho interessante é o seguinte:

“o “desenvolvimento econômico” é uma competição entre os países para obter “poupança externa”; logo, os déficits em conta-corrente e a apreciação da taxa real de câmbio não são problemáticos, mas são necessários para o “desenvolvimento” do Brasil devido a nossa dependência externa.”

O autor parece “desprezar” a idéia de que déficits em conta corrente não são problemáticos. Como todo “mercantilismo” (e o desenvolvimentismo não é muito mais que isso no campo da economia internacional), déficits em contas externas, por definição, são pecados capitais que devem ser extirpados (geralmente via política cambial ou política monetária expansionista). Para quem desejar explicações mais detalhadas (porém simples) sobre este ponto, sugiro ler um outro texto aqui do blog: Um Falso Problema ,onde explico com mais detalhes essa questão

Voltando a critica do texto, um país tem basicamente duas formas de financiar investimentos: com poupança própria ou com empréstimos (poupança externa), algo parecido com o que ocorre conosco (na verdade o “país” aqui não é nada mais nada menos que a soma de vários indivíduos). Existe algo que diga que, a priori, uma coisa é pior que outra? Obviamente não. Para financiar investimentos maciços, o país precisaria poupar muito, conseqüentemente diminuir muito seu consumo presente. Vale a pena diminuir tanto seu consumo presente? Em geral, as pessoas (países) acham que não e assim obtém poupança externa (de países que já passaram por essa “etapa” no passado), gerando o déficit em conta corrente criticado no texto. Um ponto importante é que nada em relação à eficiência ou correção dessa escolha demanda “políticas de governo”, assim como o governo não precisa determinar se é melhor ou pior para você financiar uma geladeira com poupança própria ou empréstimo, se é melhor para você comprar algo aqui ou importar etc... Por esse motivo um liberal não se preocupará se a opção do mercado (nossa opção) foi poupança própria ou déficit em conta corrente. Tanto o “déficit em conta corrente”, quanto a opção por poupança interna (sem déficit), será resultado da decisão de milhões de agentes econômicos individuais, maximizando seu bem estar da maneira mais eficiente possível. O governo não pode fazer nada para melhorar esse resultado, assim como, em geral, não consegue ser mais eficiente que o setor privado em todo o resto da economia. Dada a estrutura de leis e regulações corretas (as tais reformas microeconômicas também citadas no texto, que basicamente é a velha idéia de fazer as pessoas arcarem com os custos e receberem os benefícios das suas escolhas), os agentes terão os incentivos adequados para escolher o nível ótimo de endividamento externo e nenhuma política de governo poderá elevar o bem estar propiciado por essa escolha.

Seguindo o texto, os autores defendem que:

“para se alcançar o desenvolvimento é essencial aumentar a taxa de investimento, devendo o Estado contribuir para isso por meio de uma poupança pública positiva, fruto da contenção da despesa de custeio.” .

De certa forma, devo dizer que aqui temos uma certa “evolução” em relação ao velho desenvolvimentismo. Antes os desenvolvimentistas defendiam da boca para fora distribuição de renda, mas concentravam renda, justamente tributando os mais pobres com inflação e repassando aos grandes empresários nacionais via subsídios, políticas industriais e BNDES da vida. Não é à toa que a desigualdade social no Brasil (e na América Latina em geral) é tão grande. Agora eles querem cortar “despesas de custeio”, para gerar a mesma “bolsa empresário”. Cortar gastos, tanto de custeio quanto os tais “investimentos estatais” (que eles provavelmente defendem) é uma ótima política, já o governo fazer poupança é uma péssima idéia.

Em termos de bem estar, com base no que explicamos anteriormente, em geral, os agentes econômicos escolhem financiar seus investimentos através de empréstimos e não com cortes de consumo presente (ou com um misto das duas coisas). Para o governo gerar poupança, ele precisa tributar, tirar dinheiro das pessoas para fazer um uso diferente do que elas fariam. Mas o uso que tais pessoas fariam é o uso que geraria mais bem estar para elas e, na ausência de alguma externalidade relevante, mais bem estar “social”. Portanto, tal política diminui o bem estar econômico do país. Além disso, o governo deseja ter poupança para “alocá-la” em investimento de uma forma diferente da que o mercado faria. Mas isso significa menos eficiência e conseqüentemente menos poupança e investimentos ao longo do tempo (supondo que a taxa de preferência temporal das pessoas seja próximo ou igual a “do governo”). Tal política, ao contrário do pretendido, não incentiva investimentos e poupança, ela destrói poupança e investimento desperdiçando recursos, não alocando esses recursos para o uso mais eficiente possível, como faria um sistema de mercado. De certa maneira, tal opção é um “socialismo velado”, uma tentativa (ainda que tímida) de substituir o sistema de preços pela discricionariedade dos burocratas (sem incentivos a buscar eficiência) na alocação de recursos. É impressionante como supostos economistas (dois dos autores o são), mesmo se dizendo keynesianos, assinam um artigo que ignora completamente qualquer consideração sobre como o sistema de preços funciona, como os incentivos importam e as implicações dessas coisas em termos de bem estar. Há uma total desconsideração em relação a microfundamentos.

Como é de praxe entre os economistas tupiniquins que começam a defender muito “política cambial”, “desenvolvimentismo”, há também uma total ignorância sobre o que determina as vantagens do livre comercio e conseqüentemente seu impacto no bem estar da sociedade. Os autores do texto analisado vêem o comércio como uma “guerra” entre países. Se um país exporta esse país “ganha”, se importa, é desastroso, significa que está perdendo, deve reverter o resultado. Assim o governo deve ajudar, com uma política cambial “adequada”, as empresas nacionais nessa guerra (na verdade, segundo os autores a globalização é uma “competição entre estados”). Em relação à falácia de que importar é ruim e exportar é bom, tenho um outro texto só sobre esse assunto: A tara nacional por exportações, sugiro a leitura.

Para perceber o erro dessa “demonização” das importações, basta pensar em como as coisas acontecem com você: você vende algum produto / serviço no mercado, ou seja, exporta bens para outras pessoas. E porque você exporta bens? Exatamente para importar bens de outro grupo de pessoa. Senão existisse moeda, você veria facilmente que para toda exportação (venda para o exterior) existe uma importação (compra do exterior) como contrapartida, afinal, vender é trocar um bem seu por outro bem de outra pessoa. Você veria também que a coisa “boa” é exatamente importar, é comprar / consumir bens produzidos por outros, ou seja, importar e não trabalhar para pagá-los (exportações). Um país que só exporta (trabalha) e não importa (consumo) está simplesmente financiando o consumo / investimento de outro país. Qualquer ser humano adoraria ter um mega déficit com o mundo todo, ou seja, consumir sem pagar. Só os nossos sábios desenvolvimentistas-mercantilistas acham que o bom é pagar (exportar), sem receber nada de volta (importação).

Na parte final do texto, os novos mercantilistas avisam que, ao contrário do que dizem os malvados imperialistas, lacaios do capital internacional, i.e, “neoliberais”, eles não são protecionistas, “pessimistas” em relação aos “termos de troca” e gastadores. A primeira negação é falsa, a segunda merece alguns comentários teóricos adicionais enquanto a terceira aparentemente é verdadeira, porém quase inútil para fins de desenvolvimento. A primeira negação é falsa pelo que diz o próprio texto mais adiante: “O primeiro eixo da estratégia novo-desenvolvimentista exige a adoção de regime cambial que garanta um câmbio competitivo para as empresas nacionais “ . Seria bom avisar aos autores economistas que protecionismo não significa apenas taxar direta e abertamente importação em “90%”, significa também “taxar importação indiretamente” através da desvalorização, em moeda estrangeira, dos salários e rendimentos dos locais. O mais cômico (ou deprimente) é ler que “...a concentração de renda é vista no discurso novo-desenvolvimentista como nociva ao desenvolvimento” – ora, mas “câmbio competitivo para empresas nacionais” é justamente tirar poder de compra do consumidor local (que paga mais caro por uma série de produtos) e subsidiar empresários locais (considerando ainda que quem mais exporta são grandes empresas, é redistribuição de renda exatamente para os grandes empresários). É o mesmo “resultado” do velho desenvolvimentismo, por outras vias (antes a tungada era através da inflação, agora é por meio de “inflação em relação ao exterior”).

Em relação a segunda negação (do “pessimismo exportador”), os autores escrevem:

“o novo-desenvolvimentismo não padece do “pessimismo exportador” típico do velho-desenvolvimentismo. Dessa forma, a estratégia de desenvolvimento deve estar alicerçada na exportação de produtos manufaturados ou produtos primários de alto valor adicionado como forma de superar a restrição externa ao crescimento.”.

Tirando o erro de achar que exportar gera “desenvolvimento”, é uma benção divina (já explicado brevemente antes e no texto sobre exportações sugerido), há um problema adicional: a fixação sem sentido por “produtos de alto valor adicionado” ou mesmo “manufaturados”. Essa fixação faz parte do mesmo erro sobre o que determina as vantagens do livre comercio (sugiro a leitura do meu texto: Custo Brasil e abertura comercial ou o Vantagens comparativas ou por quê em casa de ferreiro o espeto é de pau…). Um país pode ter vantagem comparativa (que é o que importa para livre comércio) na produção de, por exemplo, laranja, mas não em produzir suco de laranja – o produto com valor adicionado (ou ainda, em produzir ferro, mas não em produzir máquinas, carros, navios etc.. – outros produtos com valor adicionado). Dadas essas vantagens comparativas, o país estará sendo mais produtivo, mais eficiente produzindo laranja e comprando suco de laranja de outro do que produzindo os dois. Ele terá mais suco de laranja produzindo laranjas (e trocando posteriormente por suco) do que produzindo diretamente suco de laranja. Veja que não importa nenhum pouco, em termos de bem estar, desenvolvimento etc.. se o produto é “manufaturado” ou “tem muito valor adicionado”. O que importa são as vantagens comparativas.

Muitos argumentam que liberais tratam vantagens comparativas como se fossem fixas, como se não pudessem ser produzidas ou modificadas. Nenhum liberal faz isso, o que um liberal, ou um economista que saiba economia, dirá é que produzir vantagens comparativas custa, logo é preciso comparar tais custos com os benefícios de se obter essa vantagem. Mas não é isso que qualquer empresário faz muito melhor que o governo? Governo, que aliás, não tem nem interesse em chegar ao resultado correto devido aos próprios incentivos gerados pelo seu funcionamento (que geram captura, rent-seeking etc..). Se construir uma determinada vantagem comparativa é “lucrativo”, agentes privados ávidos por lucro a construirão, sem necessidade de política cambial, industrial ou qualquer outra coisa do tipo. É inútil argumentar que muitas vezes essas vantagens só gerarão lucro em um futuro distante por isso é necessária a intervenção do governo. Ora, essa “lentidão” para gerar lucro é uma característica que impacta o bem estar da sociedade e deve ser levada em conta (como será em um sistema de livre mercado). Investimentos que maturam muito tarde precisam ter uma taxa de retorno futura muito alta para compensar esse período de prejuízo, caso contrário é eficiente optar por outro caminho.

Em relação ao terceiro ponto, o da “gastança”, os autores afirmam:

o “novo-desenvolvimentismo” rejeita a noção equivocada de crescimento sustentado pelo déficit público. Com efeito, os déficits fiscais devem ser usados apenas em momentos de recessão como instrumento para estimular a demanda agregada. As contas públicas devem ser mantidas equilibradas para garantir a solidez e a força do aparato estatal, o qual é estratégico para o desenvolvimento. Isso significa que dívida pública deve ser pequena (como proporção do PIB) e com longo prazo de maturidade.”

Porque eu disse anteriormente que essa posição era um “avanço” quase inútil (comparando com o velho desenvolvimentismo) em termos de desenvolvimento econômico? Como já expliquei em outros textos neste blog (ver, por exemplo, Propaganda Enganosa e crescimento econômico, Comentários sobre keynesianismo, escassez e a “Lei de Say”), realmente é um erro afirmar que déficit público gera crescimento de longo prazo (porque estimularia a demanda agregada). Também é um erro afirmar que déficits fiscais estimulam a economia no curto prazo, mas, novamente, o saldo final, em comparação, com o velho desenvolvimentismo é de avanço, infelizmente um avanço mínimo.

Permita-me explicar o adjetivo “mínimo” (ou o quase inútil). O que gera crescimento econômico “per capita” é aumento de produtividade com aumento de capital (humano e físico) e, dependendo do grau de desordem do país, reformas institucionais que permitam uma melhor alocação dos recursos já disponíveis (como ocorreu na China, por exemplo). Déficits fiscais prejudicam o crescimento porque déficits hoje, basicamente, implicam em impostos amanhã e impostos são fontes de ineficiência, eles prejudicam aquele mecanismo de incentivos que move os indivíduos a usarem sua máxima capacidade, a levar todos os custos e benefícios em conta nas suas ações e assim escolher “otimamente”. Resumindo, impostos geram “peso morto”. Mas além do peso morto eles geram outro desperdício. O mercado, através das decisões maximizadoras de milhões de agentes, aloca os recursos disponíveis da maneira mais eficiente possível, i.e, da maneira que mais produto seja gerado a um menor custo. O governo, por sua vez, não tributa para replicar o que o mercado faz, ele tributa exatamente para “mudar” a alocação de mercado, o que significa uma menor produção, menos eficiência já que os agentes privados teriam todo o incentivo para buscar o maior superávit possível entre benefícios e custos.

O que significa tudo isso? Que além do peso morto que nada mais é do que uma “perda de produto”, uma espécie de custo econômico dos impostos, uma porção do PIB, a porção que o governo arrecada todo ano, está sendo alocada de maneira ineficiente, está contribuindo menos para o crescimento econômico do que contribuiria nas mãos da iniciativa privada. Quando os novos desenvolvimentistas dizem que são contra um governo gastador, mas defendem igualmente um governo grande, porém poupador, eles não estão mudando em nada esse quadro. O que importa não é se o governo está gastando muito ou poupando muito, mas sim a porcentagem do PIB que ele (governo) mantém sob seu controle que será dado exatamente pelo máximo entre gastos e arrecadação. Se a arrecadação é maior que os gastos, o que o governo está tomando da economia é exatamente o que ele arrecadou (é a parcela do PIB que ele “aloca”, que ele controla), a existência de poupança não muda o fato que ele só gera tal poupança porque deseja usar essa poupança para fins diversos daqueles que o mercado usaria, logo, alocações que diminuem a eficiência e retardam o crescimento econômico. Alguns podem argumentar que a intenção nem é usar a poupança para fins diferentes daqueles que o mercado priorizaria, mas sim a própria geração de poupança que o mercado sozinho não gera. Mas isso também significa uma alocação ineficiente, diferente daquela que maximiza o bem estar social, significa que o governo está obrigando as pessoas a adotarem uma proporção entre consumo presente e consumo futuro diferente da proporção “ótima” que elas escolheriam livremente. Quando há déficit a história é exatamente a mesma: o governo aloca uma parte do PIB (no caso, o valor do déficit, que é a tributação hoje mais a tributação adicional futura trazida a valor presente) em atividades diferentes das que o mercado priorizaria, gerando ineficiência e menos desenvolvimento. Em ambos os casos, tanto de déficit quanto de superávit também há o mesmo peso morto (no caso do déficit é necessário hipóteses um pouco mais restritivas, mas em linhas gerais, o resultado vale). Eis o porque chamei de “avanço mínimo”. O avanço fica por conta de que pelo menos os novos desenvolvimentistas (os autores do texto) não acham que a carroça vem na frente dos bois (que investimento vem antes de poupança).

Quando o assunto é desenvolvimento, não há muito mistério (muito embora zilhões de economistas, interpretando correlação como sendo causalidade, tentem “mistificar” o assunto). Se um governo realmente está interessado em gerar “poupança produtiva” e desenvolvimento econômico, deveria oferecer políticas monetárias sólidas e consistentes, diminuir sua participação no PIB e realizar reformas institucionais que protejam direitos de propriedade, gerando “confiança institucional”. Todas essas recomendações passam longe do desenvolvimentismo, seja o novo ou o velho.

7 comentários:

Flávio disse...

Oi, Richard. No penúltimo parágrafo você diz: "a existência de poupança não muda o fato que ele só gera tal poupança porque deseja usar essa poupança para fins diversos daqueles que o mercado usaria, logo, alocações que diminuem a eficiência e retardam o crescimento econômico."

Minha dúvida é em relação a última afirmação de que o governo necessariamente retarda o crescimento econômico. Se o governo usar a poupança para investimentos mais do que as pessoas usuariam, não haveria aumento na taxa de crescimento?

Isso não é o mesmo que dizer que o governo é eficiente, apenas mostraria que maior crescimento (medido em termos de aumento de PIB) não é o mesmo que maior bem-estar (eficiência), porque o PIB não leva em consideração muitas coisas que geram bem-estar, como o lazer por exemplo.

Richard disse...

Oi Flávio.

Sim, vc está certo. Lá no começo do texto, qdo falo da intervenção do governo gerar mais ou menos poupança (e consequentemente crescimento), eu coloco entre parenteses "supondo que a taxa de preferência temporal das pessoas seja próximo ou igual a “do governo”".... o ideal seria eu alertar novamente sobre essa hipótese no final, mas ia ficar muito repetitivo, não sei...

de qq forma, é isso q vc falou mesmo. Se o governo tiver uma preferencia temporal mais baixa, vai gerar mais poupança, crescer mais embora isso signifique menos bem estar e seja "ineficiente"...

Anônimo disse...

Olá Richard.Tenho uma dúvida (Estou escrevendo nesse post porque foi o primeiro que apareceu na busca por "inflação").

O sistema de preços permite sinalizar aos empresários onde há restrição de oferta. Isso permite que eles se adaptem, ampliando sua oferta e beneficiando, com isso, o consumidor, que terá a sua demanda atendida por preços mais baixos. Mas se o governo controla a inflação, como saber onde há restrição de oferta?

Por outro lado, se o governo não controla a inflação, isso causará um problema político, pois deixará a população insatisfeita, considerando que a adaptação dos empresários não será instantânea e os preços continuarão subindo. Qual a solução?

E, por fim, o controle de inflação não é no mínimo questionável (embora tenha a sua importância política), na medida em que restringe a demanda, cabendo a população decidir o que compra ou nao?

Richard disse...

Bem, assumindo o conceito de inflação “convencional”, você está misturando dois “aumentos de preços” diferentes. O que sinaliza para o empresário o que ele deve produzir, se ele deve ou não aumentar a oferta de um dado bem é o que os economistas chamam de “alteração de preços relativos”. Inflação, no sentido convencional, é um aumento “do nível de preços”. Usando um exemplo simples. Suponha um mundo com três bens A, B e C e um outro bem D que serve de moeda. A custa 1D, B=2D e C=0,5D. Preço relativo é o preço de um bem em relação ao outro (o preço relativo de A em termos de B é 0,5, de A em termos de C é 2). Um empresário gostaria de produzir mais Bs se de 2D ele passar a custar 4D enquanto os outros ficam custando o mesmo que antes. Isso é uma alteração de preços relativos. Mas se todos os três bens tiverem seu preço aumentado em 50%, a vantagem em produzir A ou B ou C continua a mesma porque não se alterou o preço de um em termos do outro. Isso é o que se comumente chama de “inflação”. De certa forma é um erro, por exemplo, quando os imóveis começam a subir de preço, se falar em “inflação”. Se todos os outros preços permanecem “estáveis”, isso provavelmente é uma alteração de preços relativos.
Economicamente, alterações de preços relativos em geral decorrem de alterações na preferencia dos consumidores, avanços técnicos setoriais etc.. São alterações desse tipo que guiam a produção de forma eficiente. Inflação (uma subida generalizada de todos os preços) é provocada por alterações de ordem monetária (na oferta e demanda de moeda) e, teoricamente, não afetariam a alocação de recursos porque “todos” os preços subiriam percentualmente de maneira parecida. Esse resultado, de que a inflação não causa efeitos reais é chamado de “neutralidade da moeda”
Bem, isso é uma “pincelada” sobre o tema, existe uma infinidade de discussões sobre tudo isso (eu mesmo ia escrever um texto falando de neutralidade da moeda). O ponto é: porque inflação deveria ser evitada se é “neutra” e alterações de preço relativo não? Bem, a segunda parte da pergunta tem uma resposta meio óbvia: porque alterações de preço relativo geram uma alocação de recursos (produção) eficientemente. A primeira parte da pergunta tem uma infinidade de resposta que passam pela “não neutralidade” realmente da moeda. Entre as principais:

Richard disse...

1) Durante as inflações, principalmente as altas, os preços não sobem realmente “no mesmo ritmo” o que gera alterações de preço relativo e assim distorcem a alocação de recursos (diminuem o bem estar do consumidor) já que injeções monetárias não representam preferencias dos consumidores e nem algum progresso técnico local.
2) Como nossa moeda é de “curso forçado”, inflação significa um imposto por carregar moeda e como todo imposto gera ineficiência (as pessoas demandam menos moeda do que o ´ótimo já que ela “derrete” no seu bolso). Além disso, as pessoas passarão a gastar recursos reais para “escapar” desse imposto (veja, por exemplo, o que aconteceu na hiperinflação brasileira – bancos eram “inchadíssimos”, as pessoas tinham que ficar indo o caixa eletrônico a toda hora, as empresas contratavam um exercito de contadores para “descobrirem” seu real ganho etc..)
3) A previsibilidade do futuro fica comprometido com uma moeda com altas taxas de inflação (supondo que as altas taxas alterem preços relativos como dito anteriormente) e isso desincentiva investimentos de longo prazo e até mesmo a poupança
Enfim, resumindo, alterações de preço relativo acontecem naturalmente no mercado (preços sobem e descem a toda hora e, dado que vc tem um monte de bens se o seu índice de inflação for suficientemente amplo, a taxa de inflação permanecerá “estável”). Essas são as alterações que importam na alocação de recursos. Inflação, por outro lado, é gerada por um excesso de oferta de moeda, é uma espécie de tributação por “demandar” moeda. Assim como o governo deve maneirar nos impostos normais, ele deve maneirar na inflação (ainda mais se vc levar em conta o quão fácil e supostamente popular é emitir moeda). Uma vez que o governo caia na história de que “inflação pode ser bom” (mesmo no curto prazo), muito provavelmente a coisa degringolará e trará problemas graves de eficiência para economia (tributos geram isso, as pessoas passarão a gastar recursos reais para escapar etc..)
Isso para ficar só no campo econômico. No campo moral/politico a inflação (na verdade o poder de emitir excessivamente moeda de curso forçado) é um perigo maior ainda. Ela praticamente garante “super poderes” ao governo.

Espero ter respondido

Anônimo disse...

Em resumo, então, seria isso:
1. Os preços são determinados pela oferta e procura. Se a demanda por um certo bem aumenta, o respectivo preço aumenta. Isso leva a um aumento da produção no respectivo setor. Trata-se dos preços relativos, que não é objeto do controle de inflação, em razão de ser benéfico à alocação dos recursos.
2. A quantidade de moeda em circulação influencia diretamente o nível geral de preços. Maior a quantidade, maior o nível. Isso é o objeto do controle de inflação, em razão de distorcer os preços relativos, uma vez que os preços não se alteram simultaneamente (entre outros motivos, que na verdade não entendi (essa coisa de "tributação" da moeda e de gastar recursos reais para escapar disso ficaram meio obscuro para mim, mas tudo bem; o primeiro motivo basta)).

Eu suponho que quando você fala na quantidade de moeda, está se referindo às emissões do Bacen.
1. Quando se fala em controle de inflação, se fala em taxa de juros (Selic). Como isso está relacionado com a emissão de moeda, e para quem vai essa moeda?
2. Por que essa emissão de moeda provoca uma alteração geral dos preços? Por que não seriam alterações setoriais?
3. O corte orçamentário de 50 bi recém anunciado pelo governo significaria a utilização de um dos dois lados do controle da oferta de moeda (coloca-se com a emissão do Bacen, e se tira com cortes orçamentários)?

Deculpe a leiguice.

Richard disse...

Respondendo rapidamente suas perguntas:
1 – Atualmente todos os governos fazem política monetária usando operações de compra e venda de títulos. No Brasil, a política monetária usa a taxa SELIC como parâmetro. Essa taxa é uma taxa média de uma cesta de títulos públicos negociados e registrados no “SELIC” (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia). Sobre mais detalhes em relação à taxa SELIC, leia o texto deste link: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=344

Quando o governo quer “aumentar a taxa de juros”, ele vende títulos e tira moeda do mercado (dá títulos ao mercado e toma moeda). Quando ele quer diminuir a taxa de juros, ele compra títulos, ou seja, tira títulos do mercado e despeja moeda. Essa é a ligação “comum” de juros, inflação e moeda. Lembrando que Juros de um título = Valor de Face / Preço do título (logo, comprar títulos eleva o preço dele e diminui sua taxa de juros e vice versa). Leia o texto linkado anteriormente que lá há explicações bem mais detalhadas. E a moeda vai geralmente para bancos / fundos que trabalham com grandes quantias de títulos públicos.

2 – Como eu disse na resposta anterior, ela, de fato, modifica preços relativos. A suposição de que ela não alteraria preços relativos é uma espécie de “benchmark” ou é usada como uma hipótese de “longo prazo”. Em tese, mais ou menos moeda no mercado não altera os gostos das pessoas, não altera as suas capacidades técnicas, produtivas, não altera a disponibilidade de capital, trabalho etc.. e são essas coisas que determinam preços relativos. Agora, para explicar com mais detalhes seria necessário um texto mais longo. O problema dessa hipótese de “neutralidade da moeda” é que, por exemplo, se eu te der R$1.000.000.000,00 recém impressos, você fica mais rico, porque os preços dos bens não acompanharam essa “inflação monetária”. Economicamente é como se eu transferisse bens de outras pessoas para você porque você, com essa dinheirama, vai elevar os preços de alguns bens (diminuindo a renda real, a riqueza real, de outros demandantes, fazendo com que eles abrão mão desses bens com preços mais altos para vc comprar). O “longo prazo” significa que esses efeitos redistributivos se anulam mais a frente (uns ficam mais ricos, outros mais pobres, mas em média as coisas se compensam), que o novo dinheiro já se espalhou por todo o mercado e não causa mais essas perturbações setoriais e relativas iniciais (e tudo, no agregado, volta ao que era antes, mas com um nível de preços mais alto). Procure na internet (no site do Mises Brasil ou no americano mesmo) por neutralidade da moeda.

3 – Sobre a pergunta 3, eu não sou daqueles que acha que cortes no orçamento afetam “diretamente” a inflação, mas existe sim uma grande corrente de economistas que diz isso, que vc pode combater inflação com uma combinação de política fiscal e política monetária. Tenho um texto falando sobre isso, explicando melhor minha posição. Se vc quiser ler, o link é este: http://depositode.blogspot.com/2008/04/inflao-e-gastos-do-governo.html