terça-feira, 21 de setembro de 2010

Breve comentário sobre o conceito de “natureza humana”

Vejo muito por aí o seguinte comentário: “não entendo (e na verdade não gosto) muito desse papo de “natureza humana”. Ligo para o que funciona, independente se isso é ou faz parte de alguma natureza humana, que para dizer a verdade, nem acho que exista”. Gostaria de esclarecer alguns pontos em cima deste comentário.

Comecemos do conceito de "natureza": a natureza de uma entidade é aquilo que ela é. Existir é ser alguma coisa e ser alguma coisa é ter uma natureza, é ter uma identidade. Assim, a afirmação de que o homem “não tem natureza”, mais que um absurdo, é uma contradição lógica. Se o homem existe, necessariamente ele tem uma natureza, ele é alguma coisa. Não ter natureza é não existir, é não ser nada. Dizer que o homem não tem natureza é dizer que ele não existe.

O livre-arbítrio (comportamento volitivo) não é uma “negação” da idéia de que o homem tem uma natureza, porque, como dizem os "anti-naturalistas", graças a tal característica o homem escolhe e, portanto, nada na sua vida “precisa ser”. Como característica do homem, o livre arbítrio compõe exatamente o que chamamos de “natureza humana”, compõe o que um homem é. E também não é verdade que “nada na vida do homem precisa ser”. Justamente por ser algo que possui uma certa identidade, um conjunto de característica X (e não Y, Z ou W) – que é a sua natureza – o homem não pode escapar dessa natureza sem se destruir, sem “se acabar” como homem. Para sobreviver, por exemplo, como ser vivo que é, um ser humano precisa se alimentar. Nenhum animal tem a opção de não se alimentar, de “se matar”, só o homem, graças a sua mente volitiva, à sua propriedade sobre si mesmo. Mas isso é escapar da sua natureza? Obviamente que não. Primeiro, a sua propriedade sobre si mesmo (livre arbítrio) é uma de suas características, portanto, é um componente da sua natureza (não uma negação da própria); segundo, se ele não comer (seja por escolha, por deficiência ou por outro motivo como “coerção”) irá morrer do mesmo jeito. Não há escapatória. E irá morrer porque ele é algo que necessita de comida e tal característica é independente da sua escolha, ele é o que é, tem uma dada natureza (assim como o fato dele ter que escolher, ter livre arbítrio, serem fatos independentes da sua vontade e compor essa mesma natureza).

Por ter livre arbítrio, por ser um “ser volitivo”, o homem pode escolher agir contra ele mesmo, contra sua natureza, mas ele nunca conseguirá escapar dessa natureza e ainda permanecer vivo (permanecer como ser humano), ele arcará com as conseqüências dessas escolhas e as conseqüências serão desastrosas, ele se destruirá (e essa possibilidade, de se “auto-destruir”, é um componente da sua natureza). Se ele se negar a comer, morrerá do mesmo jeito por ser o que ele é. Se destruir seu cérebro tentando fugir do “fardo de ter que escolher para viver”, alguém terá que escolher por ele, caso contrário ele morrerá, justamente por ser o que é.

Em termos mais “concretos” peguemos como exemplo a teoria econômica austríaca desenvolvida por Ludwig Von Mises, um famoso “anti-naturalista” (aliás, os economistas costumam ser ardorosos “anti-naturalistas”). A teoria trata de propriedades, características das escolhas humanas. Ela trata exatamente da natureza das escolhas, do que é escolher, daquilo que elas (escolhas) são, daquilo que é inescapável. Para ilustrar esse fato vejamos a proposição misesiana que diz que o objetivo “trocar (ou visar trocar) um estado de menor satisfação por um de maior satisfação” é uma característica presente em todas as escolhas. Ela (teoria) está dizendo algo sobre a natureza dessas escolhas, algo que independe da vontade humana e do conteúdo especifico de cada escolha, algo inescapável, presente em toda ação humana. Dizer que o homem não tem natureza é a negação da própria teoria econômica que muitos "anti-naturalistas" tanto utilizam, porque tal posição rejeita a existência de qualquer coisa relacionada ao homem, como escolhas e ação (nega inclusive sua própria existência como já dissemos). Muitos “relativistas” usam exatamente esse argumento da ausência de uma natureza humana para invalidar a teoria econômica, dizendo que não há possibilidade de conhecer nada com base nas escolhas humanas porque elas são totalmente “livres”, não têm identidade, não têm uma natureza específica. Também é fácil perceber que, dada a natureza humana (livre arbítrio, comportamento volitivo) não é possível apurar ou validar essa natureza apenas olhando para o que os homens, de fato, escolheram (ou como se comportaram) no passado. Em suma, não basta olhar para “história”, para o que aconteceu, quando o assunto é ser humano. Certos comportamentos, pela própria natureza do homem, podem ser destrutivos, visando justamente “escapar” dessa natureza. Obviamente, dada as conseqüências dessas escolhas, se pode dizer algo sobre a sua compatibilidade ou não com a natureza do homem. Apesar de muitas pessoas acharem que são coisas separadas, conseqüências e natureza humana (e de outras entidades obviamente) estão intimamente ligadas.

Eu não posso comer uma pedra, mas posso usá-la para construir muros, calçadas, cabanas etc.. Dois possíveis usos da pedra que, em termos de bem estar, terão conseqüências bem diferentes e que terão essas conseqüências bem diferentes devido à natureza, às características da pedra e do homem. Em termos de economia, o socialismo não funciona porque acaba com o sistema de preços e com os incentivos à produção, mas essas duas coisas (que são destruídas) só são relevantes porque o homem é homem e não uma pedra, um tatu ou uma jaboticaba. Para essas três entidades, preços e produção não tem a mínima relevância e não tem a mínima relevância porque elas são outro tipo de existente, possuem características diferentes das do homem e conseqüentemente reagem de forma diferenciada em relação a outros “estímulos” (que podem nem ser relevantes para seres humanos), ou seja, possuem uma natureza distinta da nossa.

Um outro ponto importante é a tal da “multiplicidade” da natureza humana, o que nos leva a pergunta sobre o como descobrir tal natureza. Não é estranho ouvirmos que a verdadeira natureza humana está no uso/produção de uma linguagem ou no fato de sermos um “animal social” etc.. Note-se que, subjacente a esse problema, já foi aceito que o homem tenha algo como “uma natureza”. Uma confusão básica nesse caso ocorre entre o que é “natureza” e o que é “essência”, embora para vários fins práticos, as duas coisas possam ser usadas como se fossem a mesma coisa. “Natureza humana” significa características que humanos possuem (em maior ou menor grau, quando esse tipo de consideração se aplicar, o que significa que “o quanto” de cada característica as pessoas possuem não é relevante). Assim é da natureza humana andar com dois pés (embora existam humanos que não tenham pés ou mesmo pernas, o que nos leva a criação do conceito de “pessoas deficientes”) ou urinar, por exemplo.

Dentre toda essa gama de características que formam a natureza humana, algumas podem ser definidas como “essenciais” porque são elas que efetivamente separam na nossa cabeça (epistemologicamente) se um determinado existente pode ser “agrupado” sob um dado conceito (como homem) ou se é necessário um novo conceito (como homens-marcianos, se viéssemos a descobrir algum). Perceba que as “essências” e conseqüentemente o tipo de separação mental que fazemos são contextual, i.e, dependem do problema que estamos analisando. Assim, se estamos interessados em separar entidades vivas de não vivas, o “essencial” é a presença de vida e não de “racionalidade/volitividade” ou se tal entidade anda sobre dois pés, nenhum ou quatro. Nesse contexto, o conceito de “ser humano” é inútil e aquelas “coisas” que geralmente chamamos de seres humanos ficam agrupadas sob o conceito mais geral de “seres vivos” (veja que nenhuma das diferentes formas de agrupamentos mentais se contradizem; o homem é um “ser racional” – definição comum do conceito de homem – e também é um ser vivo).

Como a maior parte das discussões sobre natureza humana acontecem no campo da moral e das ciências sociais, a característica essencial que nos separa de outras entidades é a “capacidade volitiva/racional” porque é só pelo fato de termos livre arbítrio, escolhermos e podermos raciocinar, que surgem problemas econômicos, de ciências sociais em geral e problemas morais / éticos. Mas novamente, veja que tal característica não impede o homem de também ser um “animal social” ou “ter linguagem”. Essas duas características também compõem o que é um ser humano, fazem parte da sua natureza (mesmo que você tenha um Tarzan perdido no mato ou um mudo analfabeto por aí) e, como tal, não “se contradizem” – A não pode ser “não A”. No entanto, tais características (da linguagem e da sociabilidade) são “essenciais” (como definido anteriormente) dentro do contexto da economia e da ética (e das ciências sociais em geral)?

Minha intenção com esse texto não é discutir minuciosamente sobre esses temas, portanto, rapidamente, basta observar algumas regras “hierárquicas” gerais para tentar descobrir uma resposta: porque o homem seria um “animal social” por natureza? Não existe uma característica mais básica que explicaria isso como, por exemplo, a questão das vantagens comparativas (e conseqüentemente a divisão social do trabalho) que permite aos seres humanos atingir um nível maior de bem estar trocando bens entre si? Se sim, ser um “animal social” não é um primário, não é a característica epistemologicamente essencial para definir um homem dentro do contexto das ciências sociais; muito pelo contrário, “animal social” seria um conceito derivado após uma longa cadeia de raciocínio (que desembocaria na idéia de que dada a lei das vantagens comparativas, existe um incentivo a se formar sociedades) . Portanto, existe algo bem mais básico que gera a aludida “humanidade”, relevante para o referido campo de estudo. O mesmo vale para a linguagem. Linguagem não pressupõe a capacidade de raciocinar, de conceitualizar? Linguagem não é um mero “grunhido”, se fosse, praticamente todos os animais teriam uma linguagem e isso também não serviria para diferenciar homens de outros existentes (e assim captar o que origina os problemas relacionados às ciências sociais). Como já foi dito, a minha intenção não foi discutir detalhadamente tal assunto, mas apenas mostrar as linhas gerais que nos permite responder aos “ataques” mais comuns ao conceito de natureza humana (seja um ataque generalizado, contra a própria existência de uma natureza humana, sejam ataques ao seu conteúdo específico).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Alguns erros dos socialistas

[1] Gostaria de comentar sobre alguns erros muito comuns, cometidos por socialistas e simpatizantes, baseados em visões equivocadas de três conceitos básicos: escassez, coerção e liberdade. Apresentarei o significado correto dessas idéias e depois "proposições socialistas" que, direta ou indiretamente, as usam erroneamente, gerando verdadeiros desastres para nossa sobrevivência.

PRIMEIRA PARTE - EXPLICANDO OS CONCEITOS

[2] Escassez é um fato básico com que todos os homens se deparam. É um fato gerado pela natureza do mundo em que vivemos e pela nossa própria natureza. Basicamente significa que não temos tudo o que queremos, não temos todos os meios necessários para satisfazer nossos fins. Não é um fato social, não é uma "arbitrariedade" ou algo gerado por organização social alguma. É um fato inescapável gerado pela natureza do que existe (do "mundo externo" e do homem).

[3] Um Robinson Crusoé, perdido em uma ilha deserta, enfrenta escassez tanto quanto um trabalhador em uma sociedade moderna ou Bill Gates com sua fortuna de bilhões de dólares. Um Robinson Crusoé precisa decidir, por exemplo, se gasta seu tempo pescando ou coletando cocos nas palmeiras. Se coleta cocos ou se dorme, se dorme ou se poupa para construir uma jangada e tenta escapar da ilha. Em relação aos cocos que coleta, precisa decidir se come ou se poupa para um dia ruim, se poupa para tentar pescar outro dia e por ai vai. Um trabalhador em uma sociedade moderna precisa decidir se trabalha no setor X ou no Y, se prefere trabalhar agora ou se investe em capacitação, se o salário que ganha será usado para consumo, para uma poupança (que pode financiar uma capacitação futura), para pagamentos de dividas mais urgentes, para a compra de um presente, dentre outras coisas. Já Bill Gates precisa decidir onde colocar seus bilhões: se investe em A, em B ou em C, se simplesmente consome e se for consumir, consumir o quê e em que momento consumir o quê. Ainda pode escolher se deixa a fortuna de herança para os filhos, se faz caridade, deixa para universidades e instituições de ensino que brigarão entre si por um pedaço da fortuna que é escassa.

[4] Obviamente o "leque de escolhas" de cada um dos nossos exemplos é bastante variado: Robinson Crusoé pode, em um dia normal, escolher entre não comer nada e tomar uma água de coco. Qualquer coisa muito fora dessas opções não faz parte das suas possibilidades. São escolhas impossíveis para ele. Um trabalhador em uma sociedade moderna também pode escolher entre não comer nada e tomar água de coco, mas também pode optar por uma infinidade de outras refeições, como batata frita, iogurte de morango, coca-cola dentre outras. Seu "leque de escolhas" é maior. Isso não o torna livre da "árdua tarefa de escolher", não o torna “livre da escassez”. Enquanto ser humano ele sempre terá que fazer escolhas (porque não pode ter tudo), algumas mais fáceis, outras mais difíceis, mas isso é um fato inescapável. É uma conseqüência da sua própria natureza e do mundo em que vive. Bill Gates, além das opções do Robinson Crusoé e do nosso trabalhador, tem uma variedade ainda maior de opções. Se quiser, ele pode tomar um vinho de US$100 mil, pode pegar um jatinho e fazer uma refeição em qualquer ponto da terra, a custos que o trabalhador e o nosso náufrago nem podem "sonhar". A diferença entre os três é o grau de abundância, de riqueza que possuem. Todos eles enfrentam escolhas, mas o leque de alternativas é maior para o Bill do que para o náufrago. Bill Gates tem opções em "abundância", é rico. O náufrago, naquela situação, não.

[5] A condição "inicial" do homem é a mesma do náufrago, com um agravante. Um náufrago pode ser um cientista, um engenheiro, enfim, um membro relativamente "bem informado" quanto a certas tecnologias modernas. Isso lhe permite fazer algumas "ferramentas", mesmo básicas, que facilitam sua sobrevivência, como uma lança, armadilhas para os animais, talvez uma jangada, uma cabana e até mesmo fogo. O homem das cavernas, do "inicio de tudo", não sabia nada disso. Ele precisou aprender, aprender com o uso da sua mente, com o uso da razão, como fazer até as coisas mais básicas para sua sobrevivência. Aprender, produzir não é fruto do destino, não é um presente de alguma divindade. São escolhas, são atos volitivos. Atos que demandam a adoção de um caminho ao invés de outro. É uma deliberada ação visando "domar" o que existe, tornar essas coisas, meios para um melhor bem estar, é a deliberada opção por amenizar a escassez e conseqüentemente o “custo” que ela impõe ao bem estar humano. Nesse processo existe apenas o homem, a sua mente, seu modo de ganhar conhecimento (a razão) e o "mundo externo", pronto para ser transformado em meio para satisfação de seus fins, pronto para ser colocado sob sua vontade, sob seu controle e disposição, enfim, pronto para ser apropriado, usado e usufruído pelo homem. Somente dessa forma, com o uso da razão, descobrindo "reordenações" corretas do que existe, do "mundo externo" é que o homem pode viver, que o homem pode vencer as forças mais brutais que a escassez lhe apresenta.

[6] Até aqui, tomamos conhecimento do inexorável fato da escassez e do modo, o único modo, que o homem dispõe de superá-la; através do uso da sua mente, do seu trabalho e da apropriação de recursos externos. Um outro modo de dizer a mesma coisa é afirmando que a única maneira de sobrevivência do homem é ter respeitado sua propriedade sobre si mesmo (ou seja, poder usar ele mesmo, sua mente, seu corpo, como bem entender) e sua propriedade sobre bens externos, que ele colocou em uso, que ele usou ou usa na produção de algo (a famosa regra do "primeiro uso" de John Locke). A primeira parte (propriedade sobre si mesmo) é auto-evidente e não necessita de maiores explicações. A segunda parte (propriedade sobre bens naturais / externos) merece explicações adicionais. Nenhum homem pode sobreviver se, primeiro, o fruto do seu trabalho não lhe pertencer. O fruto do seu trabalho é a conseqüência imediata do uso da sua auto-propriedade, i.e, da sua mente e do seu corpo. É o resultado imediato e o único objetivo desse uso. Se aquilo não pode ser usado por ele para satisfação de seus fins, para seu usufruto, o que estamos dizendo é que o homem não tem direito à viver, não pode escapar da escassez mais básica, não pode obter o mínimo necessário para manter suas forças vitais como um animal qualquer faria. No entanto, se limitamos a esse mínimo necessário, estamos afirmando que o homem não pode ser homem. Não pode usar sua mente, sua capacidade, para se elevar em relação aos demais seres vivos, não pode se libertar das agruras básicas da escassez, não pode viver como um ser racional, planejando o longo prazo, com conforto e "abundância". Seu destino é viver como um animal qualquer: da mão para a boca. Obviamente, para que o homem construa uma vida de abundância e conforto, aproveite toda sua capacidade racional e viva de acordo com tal capacidade, é tão necessário quanto que o produto do seu trabalho seja dele, que também "bens naturais externos", que nada mais são do que um fator de produção, também sejam suas propriedades. Não existe produção sem a combinação de trabalho com "bens naturais externos" como terra. Como já foi dito, "o mundo externo" precisa ser colocado sob a vontade da sua mente, precisa ser transformado em um meio, um meio a ser alocado para o fim que o homem desejar. Isso significa simplesmente, precisa tornar-se sua propriedade.

[7] Durante a maior parte da historia da humanidade, nós não vivemos de acordo com esses princípios. O homem nunca pode usar sua mente como desejava, nunca pode produzir e usufruir da sua produção. Ele, na maior parte do tempo, produziu para o usufruto de outros. Ele foi um escravo. O homem nunca teve seu direito de propriedade sobre si mesmo e sobre bens externos respeitados. Ele vivia sob "coerção". Coerção significa que ele não é livre para se usar, para usar suas propriedades como ele desejaria. Ao contrário de escassez, que é algo presente independente de onde alguém esteja, é inerente ao ser humano, coerção não existe para, por exemplo, um Robinson Crusoé. Coerção é coerção de outros seres humanos, i.e, só tem significado quando há mais de um ser humano. Coerção é um ato, uma escolha, por iniciar a força contra outro ser humano, contra suas propriedades. Só através do uso da força, alguém pode ser impedido de usar sua mente, de seguir seus valores, de buscar seus próprios fins. A coerção é uma violação do que o homem é, do seu modo de sobrevivência. É a negação do direito à vida, é a deliberada escolha por "sobreviver" como um animal e não como um homem, pois nega aquilo que permite a nós sobrevivermos como tal (a auto-propriedade e a propriedade sobre o mundo externo).

[8] Um leão que ataca o nosso pobre náufrago não o está "coagindo". Um leão não "escolhe", não tem livre arbítrio, não tem comportamento volitivo. Um leão é um dado da natureza e como um dado da natureza precisa ser tratado com "tecnologia", não com ética ou coisa do tipo. O ataque do leão é como um raio, não tem significado ético, não possui "comportamento volitivo" algum. É o inescapável, o dado, assim como a escassez ou a natureza humana. O mundo, o que existe, simplesmente é. Não é errado ou certo, mas sim a base da determinação do que é certo ou errado. A escassez não é justa ou injusta, certa ou errada, ela simplesmente é. A coerção, ao contrário, como sendo fruto (direto ou indireto) de uma ação, de uma escolha, pode ser classificada como justa e injusta e pode ser diferente do que é, afinal, é produto de escolha, de ações humanas. A agressividade do leão, o veneno da cobra, a destruição causada pelo raio é um dado da realidade, simplesmente é. Coerção é ter a força iniciada (no sentido de comportamento propositado) contra você e suas propriedades.

[9] Explicado o que é coerção, chegamos ao nosso último conceito, o conceito de liberdade. Tenho um texto exclusivo para falar de liberdade (quem se interessar pode ler aqui; sugiro fortemente a leitura), logo serei bem mais breve: liberdade, como um derivado do conceito de coerção, também não faz sentido em um mundo de apenas um ser humano, pois liberdade é simplesmente "livre de coerção", ou dito de outra forma, liberdade é ausência de coerção, é simplesmente o respeito ao indivíduo, aquilo que ele é (auto-proprietario e proprietário de bens externos). Veja que nosso Robinson Crusoé, por definição, é livre, afinal, não existe coerção no seu mundo (ele é o único ser humano na ilha).

SEGUNDA PARTE - OS ERROS

[10] Explicado os três conceitos, vamos a segunda parte do texto: usá-los para responder erros muito comuns principalmente vindos de socialistas e simpatizantes (embora liberais "igualitaristas" como Rawls, Amartya Sen, Isaiah Berlin cometam, em grau menor, os mesmos erros). Alguns desses erros já foram tema de textos próprios. Quando for o caso, "linkarei" o referido em algum ponto da explicação.

1 - "No Capitalismo as pessoas não são livres porque são obrigadas a trabalhar"

[11] Essa afirmação nega a escassez explicitamente e faz uma salada de conceitos. Um dos piores erros é misturar o que é fruto de escolhas, de ações humanas e o que é dado, o que independe de qualquer escolha ou vontade humana. Escassez é uma dessas coisas: ela independe da vontade humana. Ela é um fato básico da realidade. Obviamente, por meio de ações humanas, de escolhas, podemos amenizá-la (através da produção). Toda pessoa, mesmo nosso Robinson, isolado na floresta enfrenta escassez e dessa forma, se quiser sobreviver, é "obrigado" a trabalhar. Isso é um fato da natureza. As coisas não caem do céu, são escassas e o meio do homem obtê-las é através da produção. O homem é obrigado a trabalhar, no mesmo sentido em que ele é obrigado a comer se quer sobreviver. Não existe alternativa ao que é dado, à natureza humana (o que um homem é). O homem é assim, não há o que fazer. Ele, como todo ser vivo, precisa comer para sobreviver. No caso dos homens, o meio de se obter comida é produzindo, é usando sua mente para rearranjar elementos existentes através do seu trabalho.

[12] Mas a confusão da afirmação não para por aí. O "obrigado a trabalhar" não pode contrapor o termo "liberdade" como faz na frase. Ninguém obriga o homem a trabalhar em qualquer sentido que contraria, que se opõe, ao conceito de liberdade. Liberdade é ausência de coerção, que por sua vez significa outro homem (ou um grupo deles) iniciar o uso da força contra você e suas propriedades. Você não é livre, quando outro homem te obriga, através da invasão das suas propriedades (i.e, com o uso da força ou ameaça de uso), você a trabalhar. Não quando "a natureza te obriga". A natureza não te "obriga", nem "desobriga". É uma escolha sua, a natureza não tem vontade, opiniões ou preferências quanto a você escolher se matar ou não, trabalhar ou não. Ela simplesmente é. Você é o que você é. Se deseja sobreviver tem que fazer algumas coisas para se manter vivo e esse "tem que fazer" não se contrapõe a absolutamente nada em relação a liberdade. Liberdade significa "livre de coerção", ou ainda "livre do jugo de outros homens", não livre do que você é, livre do mundo, livre da natureza. A confusão básica aqui é entre liberdade e "onipotência".

[13] Para algumas pessoas ser livre é ser "onipotente", i.e, poder fazer qualquer coisa. Homens não podem voar, logo não são livres. Homens não podem escapar da morte, logo não são livres. Homens não podem pular de um prédio de 60 andares e sair andando ou mesmo sobreviver sem comer, logo não são livres. Tal conceito de liberdade é um falso conceito, não se refere a nada que exista no mundo, não se refere a natureza de nenhum existente e sim há alguma criatura "onipotente" da nossa fantasia. Não passa de um desejo infantil, de uma rebelião contra o que existe, contra o mundo. Obviamente tal erro não escapa impune e, assim como pular de um prédio de 60 andares, gera verdadeiros desastres. O mais óbvio é a negação da liberdade "real" e a sua destruição: como liberdade é considerado algo bom (mesmo que a pessoa nem saiba o que é), e a pessoa não é livre porque tem que trabalhar, então temos que acabar com essa obrigação e torná-la livre. Como isso pode ser "feito"? Ora, o fato dela ter que comer, se vestir, consumir outras coisas não some, logo alguém precisa financiar esses gastos, o que significa que alguém será obrigado a pagar pelo consumo da pessoa que quer ficar "desobrigada" de trabalhar. Geralmente nós fazemos isso voluntariamente para filhos, entes queridos até um certo ponto, mas não para estranhos. O que sobra então? Coerção. Você ser obrigado (no sentido real do termo, o de coerção) a trabalhar para sustentar outros. Veja que um falso conceito de "obrigação", de liberdade gerou a destruição na prática da real liberdade, trouxe a tona a "obrigação" que realmente contraria a liberdade. Veja também que se tal política, de obrigar quem trabalha a pagar para outros não trabalharem, for radicalizada, a pessoa que queria ficar "desobrigada" de trabalhar, nunca será tão obrigada a trabalhar quanto agora e terá que fazer pelo básico, terá que trabalhar para sobreviver como um animal, "da mão para boca", porque quem produz terá total incentivo a parar de produzir já que não fica com o beneficio do que produz (o fruto do seu trabalho), destruindo a estrutura de capital da economia e levando a produtividade do esforço humano para níveis baixíssimos.

2 - "O Capitalismo gera escassez, que deixaria de existir em um mundo socialista"

[14] Essa proposição, como a anterior, nega a escassez e nega a natureza humana, conseqüentemente não compreende seu meio de sobrevivência. Como já foi dito, a escassez é algo inescapável, o que não significa que não podemos "amenizar" os seus efeitos sobre nosso bem estar. A maneira de se fazer isso tem um nome: capitalismo. É o capitalismo, entendido como o sistema baseado no respeito aos direitos de propriedade dos indivíduos (seus direitos naturais), que permite e incentiva todos a usarem suas habilidades da maneira mais eficiente possível. Faz isso através do sistema de preços, que "premia" (e portanto incentiva) o acerto através dos lucros e "pune" (desincentiva) o erro com prejuízos. Foi Hayek, economista austríaco ganhador do Nobel, que certa vez disse que Marx estava certo; que o proletariado era mesmo uma classe "restrita" ao capitalismo (pensamento do economista alemão), porque se não fosse o capitalismo, o proletariado teria morrido de fome e nunca teria existido.

[15] Foi o capitalismo (mesmo "impuro") que tivemos que permitiu à humanidade deixar a idade das trevas dos ciclos malthusianos, que permitiu a população mais que dobrar em um período relativamente curto. Antes do capitalismo, por quase 300 anos, a população não crescia consistentemente. Por um período existia crescimento, mas tal crescimento esbarrava na baixa produtividade mesmo em setores básicos da economia como o de alimentos. O resultado eram doenças que dizimavam a população, que após um período de baixa, voltava a crescer até bater na barreira da produtividade novamente. Com o capitalismo, o crescimento foi espantoso. As massas migraram para as cidades atraídas pelos altos salários das novas fábricas, o mercado financeiro se desenvolveu permitindo uma captação cada vez maior de poupança, poupança que era melhor investida em termos de eficiência e de risco, deixada nas mãos de homens gananciosos, que só se importavam com o próprio bolso mas que fizeram mais pela humanidade do que qualquer santo. E o mais impressionante: não fizeram todo esse bem porque eram santos, mas sim porque eram "egoístas", queriam lucro e o sistema de preços em um mercado livre, concorrencial permitia que eles alocassem seus recursos da maneira mais produtiva possível.

[16] O capitalismo longe de criar "escassez", criou abundância, uma abundância jamais vista. Uma abundância tão grande que hoje nos ofende ver alguém pedindo comida na rua, uma abundância tão grande que tornam certas imagens da África repulsivas. O capitalismo nos fez esquecer que há pouco mais de 400 anos era a Europa que tinha "imagens de África". Este texto escrito por um desconhecido nascido no interior de um país de terceiro mundo, sendo lido de um computador a, talvez, milhares de quilômetros, conectado em uma rede com outros milhões de computadores é um filho do capitalismo. Uma "quase mágica" que constantemente é ignorada e criticada em blogs, sites e outras coisas que só o capitalismo, com sua alta produtividade, poderia ter gerado e popularizado, facilidades modernas que seus colegas cubanos e norte coreanos nem sabem direito que existe.

[17] O socialismo, ao contrário do capitalismo, gera destruição e miséria ao negar a propriedade privada e ao destruir o sistema de preços. Em relação à propriedade privada, ele acaba com o meio de sobrevivência humana, ele corta o elo entre produzir e “ganhar” pelo que foi produzido, conseqüentemente corta o incentivo a se produzir, a se buscar uma vida melhor. É o clássico problema econômico dos incentivos (se custa fazer algo e você não recebe o beneficio, você não fará). Em relação ao fim do sistema de preços, os agentes econômicos perdem a bússola que, em uma economia de livre mercado, guia a alocação de recursos de forma mais econômica. Qualquer bem pode ser produzido com uma infinidade de combinações de matérias primas e trabalho. Não há meio de decidir qual a maneira mais eficiente, mais econômica de produzir se não existe a possibilidade de mensurar os custos e os benefícios com preços que realmente refletem a escassez dos diferentes fatores de produção e do bem a ser produzido. Só preços, preços “reais”, gerados por mercados, indicam corretamente essa escassez relativa. Essencialmente, o socialismo é a negação do ser humano. É a revolta contra a realidade mais terrível já produzida pelo homem. O número de vítimas no século que passou não deixa dúvidas quanto a isso.

3 - “No capitalismo, um trabalhador não recebe pelo que produz”

[18] Embora eu tenha escrito um texto exclusivamente sobre esse assunto, cabe aqui reforçar de forma resumida a questão do que cada um recebe em uma sociedade capitalista. O argumento padrão que sustenta a afirmação acima é a seguinte: um operário produz vários carros de, digamos, 200 mil reais, mas não ganha nem 20% de um único carro. Embora tal erro aparentemente não seja ligado diretamente a questões como escassez, coerção e liberdade, muitos depois dirão que o operário se sujeita a isso porque não é livre, não tem opção. De brinde, a escassez também é esquecida ao se argumentar em termos “de absolutos” na questão da determinação da remuneração dos fatores. Como já explicamos na refutação da afirmação 1, abundância não é liberdade (embora a segunda seja condição necessária para a primeira). Sobre a questão do ganho do operário, a verdade é que o operário não “produz vários carros” sozinho. Ele é “ajudado” por uma infinidade de outros fatores de produção, como máquinas. Ele é “ajudado” por uma série de poupadores, que deixaram de consumir para fornecer os bens necessários para que fossem construídas não só as maquinas, como também a fábrica em que ele trabalha e, de maneira mais geral, por poupadores que possibilitaram a criação de uma vasta estrutura de capital que permite a produção de uma série de bens de capital, bens intermediários que serão usados na produção final do carro e isso sem a interrupção do fornecimento de bens de consumo “corriqueiros”, que inclusive o operário precisa consumir. Mas, mais ignorado ainda e tão importante quanto, é a “ajuda” que ele recebe de um empreendedor, uma pessoa que, como ninguém, consegue antecipar e descobrir oportunidades de uso lucrativo para os fatores de produção, incluindo o operário, e que assim torna possível uma remuneração a esse operário mais vantajosa do que em qualquer outro lugar ou setor da economia.

[19] Como escrevi no texto mencionado anteriormente: os altos rendimentos pagos a essas pessoas capazes [os bons empreendedores] geram um incentivo para que elas usem essa capacidade [de descobrir oportunidades lucrativas]. Fazendo isso, elas permitem um melhor uso exatamente daqueles fatores de produção menos produtivos. Esse melhor uso eleva também o rendimento desses fatores. Simplificando, é graças ao Bill Gates que popularizou os computadores com seu Windows que alguém que estaria varrendo ruas pode montar uma lojinha para vender computadores ganhando muito mais do que se varresse ruas (e ainda usar o computador na lojinha sem nenhum treinamento relevante).

[20] Pode-se perceber, levando todos esses fatos em conta, que o trabalho que um operário executa na produção de um carro é algo bastante simples, facilmente realizável (em geral, modernamente, consiste em apertar botões). Quanto um novo operário padrão adiciona a produção desse complexo já montado? A resposta a essa pergunta é o quanto ele ganhará. Por se tratar de um trabalho simples, que qualquer um pode fazer, adicionará muito pouco. Para fins de exemplo, imagine uma situação de desequilíbrio, onde um novo operário adicione R$1.000 a produção das empresas de uma dada economia. Uma empresa em particular olha para o mercado de trabalho e descobre que pode contratar trabalhadores para essa função ao salário de R$500,00. Ora, mas ele adiciona R$1000 a produção, logo a empresa tem um lucro de R$500 com a contratação desse funcionário. As outras empresas farão a mesma conta e correrão demandar trabalhadores, que, pelos números, é uma política altamente lucrativa. Os salários começarão a subir até se igualarem ao que um novo funcionário, naquela função, adiciona a produção (que é chamado de produtividade ou produto marginal). Quanto você pagaria a um projetista que pode desenhar um novo carro, espetacular, que renderia vendas na casa dos 100 milhões? Simplificando as coisas (não levando em conta risco), algo muito próximo de 100 milhões, porque é isso que ele adicionaria a produção da sua fábrica, que te geraria de ganho e ele é “único”, não é como um operário padrão que pode ser contratado facilmente.

[21] Muitos não economistas rejeitam essa visão “marginalista” (de olhar para acréscimos) e argumentam em termos de escolhas entre “absolutos” (todos os operários do mundo, ou nenhum). Eles afirmam: então não é o operário que produz carros? São maquinas? Projetistas? Tire todos os operários da sua fábrica para ver o que acontece. Como já disse em outro texto, tal consideração é válida para qualquer fator de produção ou mesmo para os supostamente “inúteis capitalistas” (senão fosse válida, tal “coisa” não seria escassa, não faria parte de nenhuma preocupação humana). Tire as máquinas da fábrica e veja quantos Mercedes sairão. Tire o trabalho de todos os projetistas e veja que espetáculo de carro será produzido (talvez algo próximo de um Gurgel). Tire a poupança e o capital do capitalista e veja que fantástica fábrica os operários montarão. A escolha entre “todos os operários” ou nenhum não existe no mundo real, nenhuma demanda ou oferta é tomada com base nessas considerações. A pergunta correta a ser feita é: por quanto alguém apertaria o botão para ligar a maquina? Esse alguém aceitará uma quantia X se essa quantia for maior que qualquer outra quantia que ele pode obter fazendo outra coisa. É o valor, é a produção que ele “adiciona” à economia, o seu produto marginal. Eis o seu salário.

4 - "Os liberais defendem a 'liberdade burguesa'. Os socialistas defendem a verdadeira liberdade"

[22] Como a maioria dos leitores de política e assuntos relacionados sabe, os socialistas têm o esquisito hábito de xingar as pessoas e depreciar “coisas” usando o adjetivo “burguês”. Se algo é burguês para um socialista, pode ter certeza que não é algo bom e isso inclui a “liberdade burguesa”. Existem dois significados mais usuais para o termo: um é liberdade dos burgueses de explorarem os operários, pagando salário de fome, sem “direitos trabalhistas” e de cobrarem preços abusivos desse mesmo operário depois como consumidor. O outro significado é mais simples, liberdade burguesa é “liberdade de comprar e vender”. E qual seria a “verdadeira liberdade” socialista? Basicamente a terra do “faz de conta” da abundância. Você não precisa trabalhar, pode escolher tudo que quiser e ainda pode passar a tarde inteira pintando passarinhos na beira do rio ou lendo algum livro de Marx e companhia. Falta só descobrir quem paga a conta (a chata da escassez, de novo, diz “olá”). Como já foi explicado, liberdade não é abundância, no entanto é a tal “liberdade burguesa” que propicia essa abundância (veja a refutação da proposição 2).

[23] Um outro ponto mal compreendido é que a suposta “liberdade burguesa”, que prejudica os pobres operários e ajuda os “barões da industria”, faz exatamente o papel contrário (nesse sentido, seria mais correta chamá-la de “liberdade proletária”). Vejamos, por exemplo, a questão do valor dos salários. A “liberdade burguesa” gera não só um incentivo à poupança (devido a certeza institucional, respeito a propriedade), como uma alocação melhor dessa poupança em investimentos lucrativos. Isso aumenta a quantidade e a produtividade do capital da economia, que por sua vez eleva a produtividade do trabalho que, como explicamos, determina os salários. É por isso que em um país com forte respeito aos direitos de propriedade como os EUA, um operário médio ganha muito mais que um operário latino-americano, ou ainda, é por isso que os sul-coreanos (capitalistas) ganham bem mais que seus vizinhos norte-coreanos (socialistas) mesmo que há 50 anos atrás, antes da divisão, ambos ganhassem a mesma coisa. Lembrando novamente Hayek, Marx realmente estava certo, o proletariado é “filho” do capitalismo, pois esse é o único sistema econômico que permite a sua sobrevivência.

[24] Recentemente, o presidente burguês da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), uma espécie de sindicato patronal, fez uma "desavergonhada" defesa do protecionismo e do intervencionismo (não do livre mercado). Os socialistas, adeptos da idéia de “liberdade burguesa” (boa para burguês, ruim para proletário), não devem ter entendido nada. A razão é muito simples: a tal liberdade burguesa é uma pedra no sapato dos burgueses. Graças a ela, os burgueses não podem parar de inovar, não podem ficar desatentos um só momento, enfim, não podem "viver das glórias do passado". Graças a ela (liberdade burguesa) qualquer moleque “pé-rapado” pode produzir algo novo, lançar no mercado e simplesmente destruir um “império” de uma vida inteira. Graças à “liberdade burguesa”, os burgueses sempre precisam atender aos seus verdadeiros patrões: o consumidor. Seria muito melhor se, através da força, eles pudessem garantir suas posições (ou facilitar as coisas nesse sentido). Eis aí o porquê toda hora vemos “burgueses” defendendo intervenções e regulações do governo na economia (exigência de licenças e autorizações de “agências reguladoras”, protecionismo, incentivos governamentais são os pedidos mais comuns). O que eles querem é subsídios, proteção, não livre mercado, não “liberdade burguesa”. Essa última é uma eterna ameaça as suas posições. É o consumidor constantemente vigiando e avaliando seu trabalho, decidindo se aprova ou não aprova suas decisões. Quem deveria defender a “liberdade burguesa” é exatamente a massa de “proletários” e os consumidores, os dois grandes beneficiários dela.

[25] Um outro exemplo interessante vem do famoso “controle de capitais”. Pelo mundo, todos os ditos socialistas, defendem restrições a movimentação de capitais dizendo que isso é só mais um aspecto da “liberdade burguesa”, liberdade para especular, para lucrar. O que eles nunca levam em conta é que essas restrições, diminuem a quantidade de capital em um dado país e conseqüentemente diminui a produtividade do trabalho e os salários. Por outro lado, a restrição de capital estrangeiro cria uma "reserva de mercado" justamente para os capitalistas locais, que passam a ter lucros maiores do que em um livre mercado exatamente às custas dos trabalhadores (com seus salários "achatados"). Mais uma vez a "liberdade burguesa" beneficiaria justamente os trabalhadores, mas, agora, graças ao fogo amigo (pelo menos da boca para fora) dos socialistas, os trabalhadores são penalizados.

[26] Quanto ao segundo significado de liberdade burguesa (liberdade de comprar e vender), não há muito o que dizer. Liberdade é sim, inclusive (mas não só), liberdade de comprar e vender. E não há nada de errado com isso. Se algo é seu, isso implica que você pode trocá-lo por outra coisa (desde que essa outra coisa seja da pessoa que está na outra ponta da troca). Liberdade de comprar e vender é uma simples derivação da idéia de que liberdade é ausência de coerção (ou respeito aos direitos de propriedade). Quando os socialistas dizem que "liberdade para os liberais é comprar e vender", o que eles querem dizer é que só pessoas com bens tem liberdade. É novamente a confusão entre liberdade e abundância que gera exatamente seu oposto: miséria. Para socialistas e "igualitaristas", só é livre quem tem um "grande leque de escolhas". Liberdade, em termos de "leque de escolhas", não é ter o leque, mas sim a possibilidade de conquistar um grande leque. Para conquistar isso, você é livre, ninguém usará a força, ninguém violará a sua natureza como indivíduo para tentar impedi-lo. Obviamente isso não significa que você conseguirá seus objetivos e nem que esses objetivos são facilmente conquistáveis. O ponto principal, em termos de liberdade, é que assim como você é livre, os outros também são, logo não se pode usar a coerção contra eles para facilitar as coisas para você. As suas "dificuldades" não o torna proprietário dos bens de outra pessoa.

[27] Assim como a maioria dos erros refutados neste texto, esse também esbarra na realidade da escassez. Se alguém quer um grande leque de escolhas, basicamente existem duas opções: ou ele produz, conquista esse leque ou outro terá que produzir. Bens não caem do céu, são escassos. Se, para fins de exemplo, ele não produzirá, então sobra a alternativa de outro produzir. Mas esse outro só produziu tal leque (e continuará produzindo) porque se beneficia desse leque (seja por consumo próprio ou por consumo de entes queridos). Ele o faz voluntariamente porque os custos superam os benefícios. A partir do momento que os benefícios diminuem, sobram os custos e isso levará a pessoa capaz de produzir esse grande leque a não mais produzi-lo. Sobram então o uso cada vez maior da coerção (para obrigá-lo a continuar fazendo) e a miséria (porque sociedade alguma baseada na força funciona e os competentes pararão de produzir de qualquer maneira o leque). Esse é o motivo do socialismo (que é a idéia radicalizada de liberdade como sendo abundância) gerar tantas mortes e se "transformar" em regimes totalitários.

[28] Os socialistas costumam olhar para URSS, Coréia do Norte, Cuba e afirmar que aquilo não foi socialismo. Foi uma deturpação, uma corrupção do belo sonho de Marx e companhia. Mas aquilo não foi uma corrupção. Aquilo é a conseqüência inevitável de se rejeitar o que é, inclusive de se rejeitar a natureza humana (o que o homem é). É a inevitável conseqüência de se rejeitar problemas básicos como a escassez, de se construir conceitos como liberdade que não são aplicáveis no mundo real, conceitos que têm em suas raízes a negação do que existe, de como as coisas são. O socialismo não passa de um delírio, de uma deliberada cegueira em relação ao que é. As conseqüências jamais poderiam ser diferentes: a morte e a destruição do ser humano. Não se pode esperar nada diferente de um homem que sonha ter asas e salta de um prédio de 80 andares achando que o sonho é a realidade.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O papel da econometria e da matemática em economia

[1] Dentro da economia que se utiliza do famoso “individualismo metodológico” temos duas correntes básicas, uma a dos “neoclássicos” que é predominante dentro do grupo e a outra, comumente chamada de austríacos, bem menos numerosa. Há um longo histórico de debates sobre o que diferencia uma da outra, se a diferenciação faz sentido ou não. De um lado, como posições extremas, temos a famosa frase do economista Milton Friedman dizendo que “não existe economia austríaca, existe boa ou má economia”, enquanto do outro temos posições como a negação completa da idéia de maximização de utilidade e da idéia de equilíbrio (Ludwig Lachmann é um exemplo dessa radicalização).

[2] O que quero discutir neste texto é um específico ponto de discordância entre as duas escolas: o uso de matemática e estatística (a utilização dessa última é o tema que julgo mais critico). Historicamente, a posição metodológica explícita da chamada “Escola Austríaca” começou como uma reação contra a “Escola Histórica Alemã”. A Escola Histórica defendia o que mais tarde seria conhecido por “historicismo”, que basicamente é a idéia de que fatos históricos devem ser considerados como dados primários, como a fonte das explicações econômicas para um dado problema e não “teorias abstratas”, baseadas em “Robinsons Crusoés”, indivíduos imaginários aparte do seu “contexto social e histórico”. Os austríacos da época, por outro lado, argumentaram que fatos históricos por si só não nos forneciam explicação alguma. Era preciso uma teoria, uma teoria geral, baseada nas ações dos indivíduos que nos permitisse “compreender” esses fatos históricos e lhes dar significado.

[3] Mais tarde, Ludwig Von Mises (“filiado” a escola Austríaca) desenvolveu mais explicitamente tal método. Para os austríacos, a teoria econômica não é “empírica” (no sentido usual do termo, como dependente de experimentos externos, de coleta e observação de séries de dados etc..), ela é “dedutiva”, e é deduzida a partir de um dado irredutível, a ação humana. Ação humana é o axioma da economia e é um axioma não por capricho ou escolha arbitrária, mas sim porque tudo o que pensamos, fazemos, imaginamos é uma ação humana. Ela é o fato irredutível, inescapável. Qualquer tentativa de negá-la implica no seu “uso”, na sua confirmação. Como eu coloquei em um outro texto:

[ação humana] É todo comportamento propositado, consciente. É um ato de consciência (de vontade), um ato que aloca meios para obtenção de fins (tem um propósito). Um exemplo que costumo dar e talvez ajude a entender melhor esse conceito é o funcionamento do coração. O seu coração continuar batendo é uma “ação humana” ou não? Enquanto esse tema não está na sua mente, você não se torna “ciente” dele, ele não “entra” na sua consciência, o coração bater é um mero dado da natureza, como é o Sol, ou algum verme perdido em um planeta distante que você não tem a mínima idéia se existe ou não, ou ainda como o fato de você ter que comer para viver ou mesmo ser consciente. Mas veja o seu caso. Quando eu citei o batimento do coração, esse tema entrou na sua mente, você se tornou ciente dele e mesmo assim você não saiu correndo, pegou uma faca e a enfiou no peito (pelo menos eu espero que não). Esse “não movimento”, essa escolha interna que você fez ao estar ciente do coração batendo: “deixarei ele aí, quietinho, batendo”, isso é uma ação humana dentro da economia austríaca. Esse exemplo, acho bom porque tem todos os elementos mais confusos do conceito de ação: primeiro enfatiza bem a questão da consciência – o coração ficar batendo sem você estar com a sua mente focada nisso, “ciente do tema”, não é uma ação humana, é um dado da natureza ou um “dado externo”. A partir do momento que você foca no tema, que ele “entra” na sua mente, e você em pensamento “diz”: “deixe-o aí”, isso é uma escolha, uma ação humana, um comportamento consciente. Você escolheu viver. Você “agiu” no sentido usado pelos austríacos em economia. Veja que ação não tem nada a ver com “movimento”. Você continuou sentado na cadeira, não se moveu, mas agiu, escolheu permanecer vivo.

Porque a ação humana é verdadeira (existe)? A maneira mais simples de provar é perceber que a sua negação é ela mesma uma ação humana (consciente, propositada), o que confirma a sua veracidade. Em qualquer pensamento humano está implícita a idéia de ação humana (como definida acima). É por isso que ela foi chamada por Ludwig Von Mises de “verdade a priori”. ”

[4] A partir do estabelecimento desse axioma, os austríacos derivam todos os conceitos e conjuntos de teoremas que ganharão o nome de “teoria econômica”. Veja que não foi necessário o uso de econometria, de coleta de dados ou observações de cunho histórico para se chegar a essa teoria. Ela foi derivada logicamente de algo que é inescapável, é verdadeiro e, portanto, como sendo apenas desdobramentos lógicos de algo verdadeiro (axioma da ação), ela é necessariamente verdadeira. Não existe a necessidade e nem a possibilidade de qualquer observação empírica externa invalidar tal teoria, porque isso implicaria a negação do axioma de ação humana, o que seria impossível, uma contradição (você está fazendo uma ação humana, está tendo um comportamento consciente, propositado).

[5] Um ponto importante, para os propósitos deste texto, é que embora o uso de econometria ou algo do tipo é claramente desnecessário e inútil dentro da visão de método explicitada acima (a econometria não poderia confirmar nem refutar nada nessa perspectiva), o uso de matemática em si não interferiria (aparentemente) no método. Carl Menger, o “primeiro austríaco”, preferiu uma exposição verbal a usar matemática “mais avançada” como fizeram os seus colegas da Revolução Marginalista, Jevons e Walras. Essa tradição permaneceu entre os austríacos, sendo radicalizada e, de certa forma, justificada mais tarde, devido a erros “graves” provocados por neoclássicos no famoso debate sobre o calculo econômico no socialismo. No entanto, o problema está mais no entendimento do que a matemática representa, do que na sua inaptidão completa em traduzir problemas econômicos.

[6] Qual o grande beneficio do uso da matemática em economia? Ela permite uma representação simplificada e, muitas vezes, logicamente rigorosa de alguns problemas econômicos. O exemplo mais gritante são os chamados modelos de equilíbrio geral. Com matemática é possível representar inúmeros mercados, a partir de problemas de otimização (escolhas de agentes econômicos) e “simular” o processo de “equilibramento” dos mercados. Outros usos da matemática, comuns, são as derivações de coisas como efeito renda, efeito substituição, ônus de um imposto, medidas monetárias para ineficiência (os triângulos de peso morto) e alguns teoremas interessantes envolvendo vantagens comparativas que deixam qualquer liberal com um sorriso de orelha a orelha (me refiro aqueles teoremas que dizem que com vários países e vários bens, todo país terá vantagem comparativa em pelo menos um bem – vai depender do número de países e de bens se será um bem, se será uma vantagem comparativa “compartilhada” ou será vantagem em mais de um bem).

[7] A própria representação do problema de escolha dos consumidores através da matemática permite “vôos mais altos” ao deixar bastante explicita relações abstratas entre preferências, preços, demanda e oferta permitindo fazer isso com inúmeros bens ao mesmo tempo e aproximando o problema abstrato da realidade dos agentes econômicos nos mercados. Em suma, a matemática facilita a compreensão, com lógica rigorosa, explicitando as hipóteses usadas, das relações em um sistema econômico envolvendo muitos agentes e muitos bens (os tais modelos de equilíbrio geral).

[8] Como tudo, existe o lado negativo. Por exemplo, no começo da explicação sobre os benefícios da matemática, disse que era possível “simular” o processo de equilibramento dos mercados. Um dos maiores erros históricos no uso da matemática em economia (que ocorreu no debate sobre o cálculo socialista) foi a idéia de que aquilo que aparece como uma “incógnita” nos modelos matemáticos puros, podia ser preenchido com valores específicos e usado para planejar a economia. Isso é resultado da não compreensão do que aqueles termos significam e da função econômica de um mercado, não é um problema em si da matemática. No máximo, é um problema do empirismo e do uso de econometria, que falaremos mais adiante.

[9] Outro problema apontado no uso da matemática é a sua incapacidade em expressar relações causais. O caso mais famoso é a identidade: Y = C + I + G. À toda hora na imprensa e mesmo da boca de economista ouvimos: uma queda do consumo levará a uma queda do PIB, um aumento dos gastos do governo poderá elevar o PIB, sempre tendo em mente a relação acima. Como identidade pura, se o lado direito sobe, o lado esquerdo também tem que subir para manter a igualdade. Obviamente o que falta aí é a compreensão do contexto e da teoria econômica (o que causa o quê), além claro, do modo como a matemática representa as coisas. Se falta relação causal em matemática, então é dever do economista levar isso em conta quando estiver “lendo em matematiquês”. Agora, se o economista conhecer a natureza da linguagem que está usando (que ela não representa causalidade, por exemplo), não temos vantagens em usa-lá na economia? Bem, pelos benefícios citados anteriormente, acredito que sim.

[10] Outro ponto é que nenhum tipo de pensamento chega a conclusões corretas e robustas se parte de bases erradas, se esquece do básico e começa fora de contexto. E isso independe da língua ou representação que está o pensamento. Se nós olharmos a tal identidade Y = C+I+G, por exemplo, dentro do contexto de um modelo macro microfundamentado, onde existe um agente que resolverá o tradicional problema de otimização sujeito a restrições tecnológicas (a famosa função de produção usada em economia ortodoxa) e restrições econômicas (no caso, essa identidade), é impossível alguém olhar para aquela identidade e, considerando o todo, afirmar que se “C” subir, Y subirá. Ele até pode afirmar algo do tipo: bem, se você quer consumir mais, terá que ter mais PIB, mas não indicando um sentido causal do tipo: se subir C então sobe Y.

[11] E a estatística? Pode ser usada em economia? O problema da estatística (e econometria, vou usar aqui como se fossem a mesma coisa) é que ela é uma ferramenta para um determinado propósito “perigoso”: a analise de dados derivados de “experimentos externos”. Como nós explicamos anteriormente, isso contraria aquela visão austríaca de que experimentos externos não podem ser usados para “refutar” a teoria. Para os austríacos, é a teoria (que é verdadeira a priori) que deve ser usada para analisar, dar significado aos dados.

[12] Isso significa que a estatística é inútil e não deve ser usada em economia? Se, por teoria econômica, entendermos apenas teoremas e corolários gerais que são definidos do conceito de ação humana, que formam uma espécie de “lógica da escolha”, então sim, significa que estatística é inútil e não deve ser usada porque sua utilização visa “testar” a teoria contra dados externos e esse teste, como explicado, é um erro, uma contradição, afinal, o teste é uma ação humana (o que confirma o axioma e qualquer derivação lógica desse axioma, logo, tal teste pressupõe toda “lógica da escolha”, afinal, ele é uma escolha).

[13] Mises considerava que economia era apenas esse núcleo, essa “lógica da escolha”. No entanto, atualmente o nome “economia” é dado a uma série de desdobramentos dessa lógica da escolha. Peguemos, por exemplo, um modelo estocástico de equilíbrio geral dinâmico como os usados em estudos de ciclos pela ortodoxia. Esses modelos fazem suposições especificas sobre preferências (formatos de função de utilidade, a questão da indivisibilidade do trabalho etc..), sobre choques e restrições enfrentados pelos agentes. Tais modelos, não contrariam em nada a chamada “lógica da escolha”. Eles são apenas modelos específicos que respeitam essa lógica. A “lógica da escolha” diz que as pessoas maximizam utilidade (ou, em termos mais comuns, trocam (ou visam trocar) um estado de menor satisfação, por um de maior satisfação).

[14] Um modelo específico supõe que, por exemplo, o agente fará essa troca (ou essa maximização) escolhendo uma geléia de bens chamada “consumo” e um outro bem chamado lazer e que o prazer que essas coisas geram para ela, nas diferentes quantidades, será descrito por uma determinada função de utilidade que representam uma relação ordinal, racional (dentro do significado da teoria econômica) de infinitas combinações de horas de lazer e consumo. Citei um modelo que usa bens “consumo” e lazer e uma determinada função de utilidade, mas temos uma infinidade de possibilidades (podemos usar “bens tradeables”, “bens nontradeables” e lazer, podemos ter moeda, consumo e lazer, podemos ter uma mistura dos dois e, até, dependendo do propósito ter um bem especifico de um lado, como chinelos azul com bolinhas amarelas e do outro “a geléia de bens” chamada de consumo).

[15] O que quero dizer com tudo isso é que a partir da lógica da escolha, podemos derivar infinitos modelos específicos completamente de acordo com essa lógica. Esse “cinturão” de modelos e de teorias periféricas ao núcleo, atualmente, é chamado de economia. Em alguns casos viraram até “correntes econômicas”. Embora o monetarismo não tenha bases microfundamentadas (ou seja, não esteja ligado diretamente a lógica da escolha, ao problema de escolha de um agente econômico), uma hipótese fundamental para seus resultados teóricos e suas correspondentes prescrições de política é a existência de uma demanda de moeda estável. Podemos derivar modelos microfundamentados com demandas de moeda estável ou instável (isso dependerá de considerações sobre preferências, choques que o agente enfrentará etc..), nenhum dos dois refutará o núcleo, muito pelo contrário, tais modelos tem como base esse núcleo Deste fato surgem duas questões: primeiro, porque derivar esses modelos mais específicos? Segundo, tendo um porque, como selecioná-los?

[16] Modelos mais específicos podem servir para análise de problemas econômicos, que não são respondidos através do "core". Um exemplo tradicional é a questão da inflação. Dado os conceitos de moeda, poder de compra da moeda e todo o aparato da lógica da escolha, sabemos que a inflação é causada por um "excesso de moeda". Mas o que causou o excesso de moeda em uma infinidade de altas inflações passadas? Uma mudança na demanda por moeda ou na oferta? A resposta a essa pergunta só pode ser dada por um modelo mais especifico, pronto para ser calibrado e testado junto a uma série de dados estatísticos. Um outro exemplo: o governo gera um déficit fiscal. Segundo o economista Robert Barro, as pessoas podem considerar os títulos do governo como não sendo "net wealth", afinal, ele terá que pagar os impostos futuros para financiar o déficit. Assim sendo, um aumento do déficit do governo implicaria em uma redução do consumo dos agentes (um aumento da poupança) e conseqüentemente, a manutenção da taxa de juros independente do déficit (resultado que ficou conhecido como "Equivalência Ricardiana"). Uma outra possibilidade seria as pessoas considerarem títulos públicos como "net wealth" (por exemplo, porque os impostos não subirão enquanto ela estiver viva e ela não se importa muito com o "herdeiro"), logo não haveria queda de consumo e aumento da poupança, o que geraria um aumento da taxa de juros. Como saber de que forma as pessoas realmente se comportam? Veja que nenhum dos dois comportamento, nenhuma das duas "historinhas", viola a lógica da escolha.

[17] Um outro exemplo vem da teoria da renda permanente. Agentes com preferências convexas tendem a suavizar o consumo ao longo do tempo (é um resultado "matemático"). Logo, um aumento de renda, se for permanente, gera um aumento do consumo, porque o agente receberá esse valor maior ao longo de toda sua vida e ele poderá consumir mais por todos os períodos. Um aumento de renda "temporário" tende a gerar um aumento de consumo menor ou "quase nulo", porque esse aumento é único (ou somente por alguns poucos períodos) e o agente, com as preferências convexas, prefere distribuir esse consumo ao longo do tempo, logo, o consumo propiciado pela renda mais alta será distribuído ao longo de todos os períodos de escolha relevantes. Mas nada "a priori" garante que o agente terá preferências convexas. A verificação "indireta" desse comportamento (e, portanto, desse modelo particular com preferências convexas) deve ser feita observando os dados.

[18] Esses três exemplos mostram modelos específicos (visando resolver determinados problemas), que não contradizem a lógica da escolha. São modelos que precisam do "empirismo" para serem selecionados como válidos ou não, mas que independentemente do resultado desse "testes empíricos", não colocam "em xeque" a lógica da escolha.

[19] Mises dizia que modelos como os três exemplos não era economia, era história econômica. Ferramentas estatísticas nunca poderiam fornecer ou descobrir leis econômicas no mesmo sentido que tais métodos permitem a descoberta de leis fisicas. A razão para isso é que o homem escolhe, ele age (no sentido descrito no começo do texto), tem consciência, propósito. O máximo que tais ferramentas poderiam fazer é mostrar como o homem agiu no passado, como escolheu no passado. O austríaco está corretíssimo nesse ponto. Independente do nome usado para essas teorias "periféricas" em relação à lógica da escolha (economia ou história econômica), estatística não descobre mesmo "leis econômicas", mas existe uma derivação não muito correta dessa proposição: a de que é impossível prever o valor futuro de certas variáveis econômicas.

[20] Um dos principais propósitos, senão o principal, de se construir modelos específicos é a previsão de algumas variáveis. Para ficar em exemplos óbvios, bancos e instituições financeiras em geral se interessam e muito por estimativas da inflação futura, juros, valores de moedas estrangeiras e para isso é importante construir um modelo mais detalhado que gere estimativas robustas dessas variáveis (por isso eles formam áreas econômicas e pagam por esse serviço). O comportamento do consumo em função de déficits do governo, pode interessar empresas de uma infinidade de setores. E, por fim, até mesmo governos se interessam por previsões a fim de realizarem alguma política. Independente de se ele deve ou não fazer alguma política, políticas que levam em conta custos e benefícios, que são melhor informadas sobre possíveis relações entre variáveis, tendem a fazer menos estragos que uma "política cega", que não considera nenhum custo ou beneficio, nenhuma possível relação entre as variáveis.

[21] Um fato importante a ser observado é que previsões não são algum tipo de mágica, quiromancia ou coisa do tipo. As previsões supõe que o mesmo modelo que "gerou" os dados no passado, continuará sendo válido no futuro. Se isso for verdade e o modelos foi bem escolhido, as previsões se revelarão corretas, caso contrário ocorrerá erro. Explicando melhor: os dados que um economista tem a sua disposição foram produzidos por escolhas particulares de milhões de agentes econômicos. O economista, baseado nesses dados, tentará construir um modelo que, quando calibrado com parâmetros básicos deve gerar como output um valor para a variável de interesse muito próximo do real valor que essa variável teve na série. Se o modelo passa por esse "teste", é dito que ele "fita" a série ou os dados (uma "aportuguesação" do inglês "fit"). Veja que o modelo foi construído com base no histórico de escolhas passadas dos agentes. Se esse padrão de escolhas permanecer, o modelo continuará "fitando" os dados, ou seja, gerará valores futuros das variáveis que serão próximos dos seus reais futuros valores. Nesse caso, a previsão estará correta. Como se pode observar, a critica tradicional de que "como se trata de escolhas humanas, elas não podem ser previstas", não é muito correta. Enquanto o padrão de escolhas humanas continuar sendo tal que é "como se" aquele modelo desenvolvido pelo economista fosse o gerador dessas escolhas, a previsão será possível. Se ocorrer uma mudança do padrão, um novo modelo terá que ser desenvolvido (ou uma revisão no modelo atual terá que ocorrer).

[22] Um outro ponto é a questão da reação dos agentes econômicos ao próprio modelo de previsão, o que deu origem a chamada "Critica de Lucas" (devido a Robert Lucas, economista de Chicago, prêmio Nobel de 1995). Imagine que o governo siga a seguinte política: se o PIB cair em X%, ele diminui a taxa de juros em Y% porque isso resultará (segundo um modelo empírico previamente desenvolvido), em um aumento do PIB em X%. Lucas argumentou que se o agente sabe (ou aprende) tal política, ele antecipará essa política e o efeito sobre o PIB será nulo. Em termos do que já tínhamos dito, aquela "mudança de padrão de escolhas" que destruiria a capacidade preditiva do modelo, certamente acontecerá se uma política for consistentemente implementada com base em um padrão de escolha anterior. A solução de Lucas para esse problema foi a defesa de modelos microfundamentados, que internalizavam essa reação dos agentes gerando uma robustez maior aos modelos (que acabou também servindo de ataque metodológico aos antigos "mega-modelos" keynesianos de dezenas de equações, sem ligação alguma com o problema de escolha tradicional).

[23] Apresentado o porque criamos modelos mais específicos em economia, nos resta selecionarmos quais modelos são corretos. Assim como a lógica da escolha nos permite formular uma infinidade de modelos mais detalhados, não deve ser surpreendente que um conjunto de dados pode ser "fitado" por uma série de modelos contraditórios entre si. Uma das controvérsias mais comuns desse tipo é a velha questão do porque o país X se desenvolveu. Em linhas gerais, é comum economistas intervencionistas defenderem que o país em questão se desenvolveu porque fez política industrial, se fechou, enfim, teve uma participação ativa do governo no processo. Economistas um pouco mais liberais dirão que as políticas de um governo podem ajudar, mas no máximo são subsidiarias. Já economistas muito liberais dirão que o país se desenvolveu apesar das políticas de governo, que no fundo mais atrapalham do que ajudam. Um olhar "mais simples" para os dados de praticamente todos os países ditos "desenvolvidos" comportam as três explicações. Todos eles tiveram políticas de governo com crescimento econômico durante suas respectivas histórias. Mas afinal, as políticas ajudaram ou atrapalharam? O país cresceu por causa das políticas ou apesar delas?

[24] Um primeiro teste para qualquer modelo especifico que queira explicar algo é a sua compatibilidade com o núcleo da teoria econômica (ou a lógica da escolha). Em outras palavras o modelo deve ser microfundamentado, ou seja, a história que ele conta para explicar as relações causais entre as variáveis deve ter como base agentes econômicos racionais, maximizando utilidade sujeito a restrições diversas (em uma linguagem mais austríaca, o modelo não deve contradizer o axioma da ação humana, o que inclui todos os teoremas derivados desse axioma). O modelo especifico pode "fitar" perfeitamente os dados, mas se não está de acordo com a lógica da escolha, está errado, não é válido. A sua "compatibilidade" com os dados não demonstra nada, pois ele é contraditório, ilógico. Ele viola o axioma da ação, que é o básico, o "evidente por si só", as fundações de todo o edifício de conhecimento subseqüente que chamamos de economia. Temos aqui a reafirmação da econometria e do empirismo em geral como um método auxiliar, subsidiário, que jamais se sobrepõe ao "apriorismo" da lógica da escolha.

[25] Excluído os modelos não microfundamentados, temos aqueles que passaram pelo crivo do apriorismo. A partir daí, tal método não pode nos dizer mais nada. É necessário um método auxiliar e não há outro método a não ser o famoso "teste do pudim". A econometria, dentro da economia, é o instrumento mais desenvolvido para analise de dados empíricos. Esta aí o seu papel dentro da teoria econômica (novamente, considerando que teoria econômica inclui o núcleo (lógica da escolha), mais esses modelos específicos baseados nessa lógica). O papel da econometria basicamente é ajudar na seleção de modelos microfundamentados, é um método para aplicações mais especificas da lógica da escolha. Como já foi mencionado, obviamente a econometria tem seus limites mesmo nesse papel. Previsões tem limites, mensurações em economia também. Logo, não é tão incomum a econometria não "selecionar" nenhum modelo vencedor. Nesse caso, deve ser preferido o modelo mais simples, que demanda menos hipóteses adicionais, enfim, que seja menos especifico e esteja mais próximo teoricamente da lógica da escolha. Modelos "empíricos" nada mais são do que especificações de parâmetros que permanecem como " conceitos gerais" na lógica da escolha, como por exemplo, os conceitos de preferências, de restrições, de bens. Um modelo que exija menos especificações desse tipo, exige menos econometria, se afasta menos do "apriorismo" da lógica da escolha. Sob outra ótica, um modelo mais simples que explica tão bem quanto um modelo mais complexo é um modelo com um custo menor (custo intelectual/teórico, de processamento, de obtenção de dados), que gera o mesmo beneficio. É racional escolhe-lo. Com isso respondemos (em linhas gerais), como modelos específicos devem ser selecionados.