quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Comentários sobre keynesianismo, escassez e a “Lei de Say”

Não sei quem foi o autor da célebre frase “comece pelo começo”, mas seja lá quem foi, pode-se dizer que era um sábio. Boa parte dos erros teóricos que vemos por aí em ciências sociais, consistem basicamente no abandono desse princípio. Em sociologia, por exemplo, é comum vermos coletivos (“sociedade” é o mais comum), sendo tomados como conceitos primários, como ponto de partida e “indivíduo” como conceito derivado. Em filosofia, “consciência” muitas vezes é tratada como primário e a realidade como derivado. Em economia, uma das versões mais populares é tomar como partida agregados (“consumo”, “investimento”) e não ações individuais (uma versão um pouco mais especifica do problema encontrado em sociologia). Mas nesse campo, existe ainda um erro mais fundamental; a negação do problema econômico primário, a escassez.

Escassez é um dos fatos básicos da realidade com que os seres humanos se deparam. Eles percebem que não tem “coisas” suficientes para saciar todos os seus fins, todos os seus desejos e vontades. Descobrem que, dada a sua natureza, precisam produzir até mesmo “coisas básicas”, percebem que além de produzir, precisam administrar seu tempo em relação ao que produzir, dada as inúmeras alternativas que vão descobrindo. Descobrem que precisam “escolher”, ou seja, selecionar os fins e os meios que saciam de forma mais econômica esses fins. Porque da forma mais econômica? Porque isso lhes permite saciar outros fins que não poderiam ser saciados com um uso desmedido, irresponsável de meios.

Aqui já temos noções básicas e importantíssimas para a economia: a noção de escolha (ou de ação humana), a idéia de preferências, valores, bens e custo. Dizer que as coisas são escassas, significa dizer que não se pode “ter tudo”, que é necessário escolher, abrir mão de X em troca de Y, significa que é preciso escolher certos fins e os meios para se atingir esses fins. Segue naturalmente a idéia de preferências: qual o fim mais desejado? qual o fim menos desejado? Prefiro obter A ou B? Eu valoro, ou seja, dou mais valor, à A ou à B? Veja que “valor” é uma “característica” gerada pela mente humana, não algo intrínseco ao objeto. Aquilo que o homem valora, deseja obter para saciar seus fins, os economistas costumam chamar de “bens”. Os fins em si são agrupados e chamados de “utilidade” – que pode ser entendida como significando satisfação, prazer, felicidade ou simplesmente “algo bom” (logo, o fim último de qualquer indivíduo é “maximizar a utilidade”, maximizar “o que é bom”).

Segue ainda que a escassez específica de algo é derivada do valor que se atribui a esse algo, não é um dado externo à mente ou percepções do indivíduo. Escassez é um primário para a economia, mas não é algo irredutível no contexto geral do nosso pensamento. Ela segue da valoração e da percepção humana por certas coisas (em suma, de processos conscientes, mentais do homem), no entanto, não há escolhas quando essas coisas são obtidas passivamente, sem a necessidade de se deliberadamente tomar um caminho de ação, sem a necessidade de se abrir mão de outra coisa ou de forma mais fundamental ainda, sem a necessidade de se focar mentalmente (direcionar sua mente) na obtenção dessas coisas. Nessa situação, tal “coisa” deixa de estar na escala de preferências de um indivíduo, deixa de ser um “bem” (ou usando um pleonasmo, um “bem escasso”), ela não precisa ser escalonada, não há o que escolher, em suma, não há custo para se obtê-la e obtê-la não demanda foco algum do indivíduo. Todos os teoremas subseqüentes da economia precisam estar logicamente ligados a esses primários, a essa base teórica da escassez e da escolha. Precisam ser “logicamente reduzíveis” a essa base.

O movimento dentro da economia mais bem sucedido em cortar a ligação entre a explicação dos fenômenos econômicos, com o que existe, é perceptível e irredutível a todos nós (os conceitos de escassez e escolha) foi o keynesianismo. Modernamente, a idéia de ancorar a explicação dos movimentos de agregados em planos de ações individuais, escolhas de agentes econômicos, recebeu o nome de “microfundamentação” (nome derivado de microeconomia, que na divisão atual da disciplina, seria o ramo que estuda a lógica da escolha). Os keynesianos clássicos rejeitam a microfundamentação e alguns chegam até a falar em uma absurda “macrofundamentação” da teoria convencional, ou seja, tomar agregados e entes coletivos como primários e não ações individuais. Historicamente o ataque keynesiano à teoria econômica ortodoxa se deu através do abandono da noção de escassez: não explicitamente, mas implicitamente através do ataque à chamada “Lei de Say” e de conceitos como “insuficiência de demanda agregada”. Mas o que era essa lei? Porque foi o alvo escolhido?

Deixe-me explicar melhor esses pontos. Um dos pilares da chamada “teoria econômica clássica” era o que ficou conhecido como “Lei de Say” (devido ao economista francês Jean Baptiste Say que a descobriu). Keynes, no seu “Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda”, apresentou tal lei com a famosa frase “a oferta cria sua própria demanda”. Não é uma apresentação muito adequada e gera confusões até hoje. Muitas estudantes de economia, e até economistas profissionais, ao se depararem com essa proposição pensam que a lei diz que, caso eu produza 10.000 sapatos, surgirá uma demanda pelos 10.000 sapatos produzidos. A lei de Say, no entanto, não é isso. Ela é uma maneira diferente de dizer que bens são escassos e que uma dada demanda por bens é paga com uma oferta de outros bens de igual valor.

Peguemos um exemplo simples: A é um hábil caçador de alces. Digamos que ele tenha caçado 1.000 unidades econômicas de alce. Ele consome 100 e resolve trocar as outras 900 por outros tipos de alimento. Nosso caçador hipotético então se dirige a algum “mercado” e passa a ofertar 900 alces. Segundo a interpretação errônea da Lei de Say, a sua oferta de 900 alces geraria uma demanda por 900 alces. O erro está exatamente nessa parte final. Pense no seguinte: o sujeito está ofertando 900 alces para quê? Ora, como foi dito sem muita ênfase no começo do exemplo, para obter outros bens. Essa vontade de “obter outros bens” concretizada por uma oferta de 900 alces é a tal “demanda gerada pela oferta dos 900 alces”. Essa demanda não é uma demanda por exatamente 900 alces, mas sim uma demanda, no valor de 900 alces, de uma infinidade de outros produtos que não são alces. O nosso caçador A quer outros bens, mas para demandar outros bens ele precisa antes ofertar algo, produzir algo, pois os bens são escassos, precisam ser produzidos e trocados. Para demandar um valor monetário X em bens, ele precisa ofertar de outro bem o mesmo valor X. Se ele ofertar X+1, estará demandando X+1 em outros bens (ofertar significa oferecer uma troca, ou seja, há uma demanda por algum bem de outro agente econômico). É esse o verdadeiro significado da lei de Say e da tal “oferta criando demanda”. O espelho indissociável de uma oferta é a correspondente demanda de igual valor que compõe o que chamamos de “troca”.

Dito isso, o leitor mais atento deve ter percebido que a lei não garante que o ofertante, de fato, conseguirá vender automaticamente os 900 alces, ela diz apenas que seja lá o que o agente deseja, terá que ser pago por uma oferta de igual valor, ou seja, ela reforça a idéia de escassez, de que os bens não podem ser obtidos “de graça”. O que garante que uma oferta de 900 alces encontrará, agora sim, uma demanda exatamente por 900 alces são os preços. Para facilitar, imagine que nosso caçador A queira trocar alces por um único outro bem, batatas. A então chega com os alces e oferece 1 unidade de alce por 1 unidade fictícia de batatas. Por esse preço, suponha que a quantidade de alces vendidas será de apenas 400, ou seja, nós teríamos um excesso de oferta de alces (no caso 500). Por outro lado, o agente A deseja de batatas, o valor dos 900 alces (senão ele não ofereceria a troca). A parte equivalente a 400 alces já teria sido conseguida com o atual preço, mas faltaria obter o resto das batatas. Logo, assim como nós temos um excesso de oferta de alces, nós temos um excesso de demanda por batatas como “espelho”. De que forma os preços reagirão a isso? Ora, o preço do alce cairá, para as vendas de alce serem “incentivadas” e o preço da batata subirá, o que “desincentivará” a demanda por batatas. Quando esse movimento parará? Exatamente quando os preços igualarem ofertas e demandas em cada mercado, o chamado “market clearing”.

Generalizando, imagine i bens, onde clip_image002[11] é o preço do bem i e clip_image004[22] é a dotação do bem i de um agente econômico qualquer. Seja clip_image006[22] a quantidade ótima (desejada) do bem i. A “dotação total” de bens de um agente econômico qualquer seria então: clip_image008[11]. A escolha ótima de todos os bens deve respeitar a restrição orçamentária para ser factível (ser possível). Como estamos tratando de bens escassos, toda restrição será gasta de alguma forma, logo:

 clip_image002[17]             (0)

Rearrumando os termos:

clip_image012[11]                (1)

Essa última equação descreve o que foi dito com palavras no parágrafo anterior. Veja que clip_image014[22] representa um mercado particular, o mercado do bem i. clip_image004[23] é quanto o agente tem do bem i e clip_image006[23] é o quanto ele quer ter “no final” de i, dado os preços de mercado. Assim, se o resultado da subtração (clip_image014[23]) for positivo, há um excesso de demanda pelo bem i, se for negativo, temos um excesso de oferta do bem i e se for zero, esse mercado em particular está em equilíbrio. Note que a soma de todos os mercados deve ser necessariamente zero, ou seja, excessos de demandas possuem um valor igual aos excessos de oferta. Essa condição é obtida do fato de que toda restrição é gasta de alguma forma, ou seja, os bens são escassos.

Nós podemos expandir nosso raciocínio para chegarmos em um conceito de “demanda agregada”. Imagine uma economia com n agentes. A equação (1) vale para todos os agentes individualmente na economia. Logo, basta somá-las para obter uma “equação agregada” dos n agentes. Veja que a soma de todas as dotações dos agentes (
clip_image016[11]) é a oferta agregada da economia. A soma das quantidades desejadas (clip_image018[11]) é a demanda agregada da economia. A escassez dos bens nos garante que o “valor monetário” dessas coisas, no agregado, sempre serão iguais (equações 0 e 1), mesmo que mercados particulares estejam em desequilíbrio. Isso significa apenas que, toda demanda precisa ser paga por uma oferta de igual valor. E é o quanto se oferta (se produz) que determina o tamanho da demanda.

Mas mais importante ainda para nossos propósitos, significa que não existe “insuficiência” de demanda agregada, ou seja, não existe superprodução. Veja na equação (1) que os excessos se zeram no agregado, não existe “excesso generalizado”. O excesso em um mercado particular é compensado por excessos de sinal trocado em outros mercados. A questão, portanto, é descobrir qual dentre os setores da economia é lucrativo, em qual setor há os “excessos” e em qual há “escassez”. Supor “super produção” é descartar a igualdade da equação (0), é supor que “sobra” dotação, ou seja, que mais não é melhor que menos, que já chegamos na “saciedade” e que mais bens não são relevantes para seres humanos, i.e, não são escassos. Eis o motivo do keynesianismo teórico representar o abandono da escassez.

A maior parte dos modelos macros microfundamentados não usam “i bens” e “n agentes” como fizemos. Tais modelos trabalham com um agente representativo (ou uma coleção de agentes idênticos) e no lugar de “i bens”, os bens são divididos em “agregados mensuráveis”, a saber, consumo, investimento, gastos do governo etc.. Assim, os “i bens” viram uma espécie de geléia de bens (representado normalmente por “y”) que vai ou para consumo ( c ) ou investimento ( i ) ou gastos do governo ( g ) – na versão do modelo para economia fechada. Adicionalmente, em geral, é suposto que o preço do consumo, do investimento e do gasto do governo são iguais o que permite escrever a restrição orçamentária macroeconômica no famoso formato: y = c + i + g.

Mesmo com o formato da restrição orçamentária modificado, o raciocínio é o mesmo desenvolvido anteriormente: y é a dotação da economia, é o que foi produzido (muitas vezes y é escrito como y(k, l), ou seja, a produção da economia é função dos fatores de produção disponíveis); a escassez dos bens garante o sinal de igualdade entre y e os destinos possíveis de y (em tese, do lado direito da equação teremos todos os destinos possíveis para y). A equação em si, como uma identidade matemática, não trata de causalidade, ela garante apenas a igualdade. No entanto, o uso da igualdade tem como origem e justificação teórica a escassez dos bens. A mesma escassez que garante que um aumento de C não pode gerar um aumento de Y porque não há como demandar (consumir) sem produzir, ou ainda que I não pode aumentar sem diminuir C, porque é necessário produzir antes de consumir, o que no caso específico significa “poupar” antes de “investir”.

Por fim, se introduzirmos moeda há alguma alteração no mecanismo da Lei? Eu diria que a principal alteração é apenas semântica. Muitos economistas argumentaram que Say não estava interessado na questão da moeda e que, portanto, sua lei só vale em “economias de escambo”. Isso não é correto. Para os propósitos deste texto, excluamos a moeda da categoria de “bens”. Dessa forma teremos dois grandes mercados: o real (contendo todos os bens exceto moeda) e o mercado monetário, cujo único item negociado é moeda. Alguém que oferte X em moeda, portanto, está demandando X em bens e o oposto também vale: alguém que demanda X em moeda, está ofertando X em bens. Assim, nós transformamos os bens na geléia de bens dos modelos macro e o preço desses bens corresponde a uma espécie de “nível de preços”, ou seja, o preço dessa grande cesta de bens em termos de moeda.

Dada as hipóteses acima, nossa dotação se transforma em clip_image020[11], o que nos dá clip_image022[11], onde c são bens em geral, m é moeda, os asteriscos denotam os ótimos de cada item e o clip_image024[11] as respectivas dotações. Separado dessa forma, quando existe um excesso de moeda (clip_image026[11]), temos como contrapartida uma uma falta de bens (clip_image028[11]). Assim, os preços dos bens (que representa o nível de preços) deve aumentar, i.e, inflação. No caso de termos “falta” de moeda (clip_image030[11]) a conseqüência será um “excesso” de bens (clip_image032[11]), o que provocará uma queda dos preços em termos de moeda (deflação). Esses “excessos” e “faltas” de bens não são uma violação da lei de Say, não representam nada de diferente do que foi explicado anteriormente. Esses resultados, apresentados dessa forma, são gerados apenas por uma específica divisão dos mercados entre “bens menos moeda de um lado” e moeda do outro. A conseqüência em si, no mundo real, continua a mesma. Demandas precisam ser pagas com ofertas de igual valor, pois os bens são escassos (o que significa que no agregado, considerando todos os mercados, não há excessos) e preços relativos equilibram os mercados particulares (no nosso último modelo, o “preço relativo” na verdade é o nível de preço – o preço da cesta de bens em termos de moeda).

Explicado tudo isso, podemos perceber porque os keynesianos (incluindo o próprio Keynes) rejeitaram a lei de Say. Como ela é derivada exclusivamente do fato de que bens são escassos e por isso são alvos de alguma destinação dada por um agente econômico (consumo, investimento etc..), é impossível existir “insuficiência de demanda agregada” (os excessos, no agregado, são zerados) em um sentido diferente daquele explicado por nós ao separarmos moeda de outros bens. Em termos reais (sem considerar moeda e a separação feita), não existe tal coisa. Excessos são setoriais, específicos em determinados mercados. A “demanda agregada” é sempre igual a “oferta agregada”. Isso contradiz o keynesianismo já no seu inicio e restabelece a escassez como problema central da economia.

4 comentários:

Anônimo disse...

Qdo vc diz que toda renda precisa ser gasta pq os bens são escassos, vc esta dizendo que as pessoas não poupam?

Desculpe, não sou economista.

Richard disse...

Anônimo,

Não, não estou dizendo isso. No lugar de “toda renda precisa ser gasta” troque para “toda renda precisa ser usada” (ou alocada). Poupança é um uso, uma destinação da “renda”, uma alocação (na verdade seria alocação da riqueza, mas enfim, para os propósitos do texto dá no mesmo).

Em termos do que foi colocado, os ativos que representam o ato de “poupar” (como um CDB, uma ação etc..) seria um dos xzinhos da equação da restrição. Se o sujeito poupa guardando moeda no colchão, entra naquela discussão final sobre moeda e bens (ele aumenta a quantidade de moeda desejada).

No entanto, existem maneiras de escrever restrições orçamentárias intertemporais (que captam não só todos os bens, mas todos os “períodos de vida” do sujeito) que são mais adequadas para representar poupança e investimento, mas o fundamento é o mesmo da restrição “não temporal” (aquela usada no texto que não tratou de tempo).

Rafael Guthmann disse...

Usou o word para fazer essas equações legais?

Richard disse...

hahahahahaha.... a versão 2007. Mas depois o blogspot ferrou com tudo... desnivelou as linhas.