quinta-feira, 15 de julho de 2010

Comentário “filosófico”

Quando alguém pensa em um filósofo, duas imagens vêm à cabeça da maioria: 1) a de uma pessoa completamente desocupado ou 2) a de uma pessoa louca. E, de fato, filosofia, muitas vezes parece conversa de doido (e isso “toma bastante tempo”, o que significa que, de certa maneira, a primeira característica é uma “injustiça”). Navegando por alguns blogs que costumo ler, encontrei esse texto, que usa uma famosa (e estranha) classificação filosófica: a de seres / fatos contingentes X seres / fatos necessários.

O texto começa falando da diferenciação entre “essência” e “existência”. Chama seres cuja suposta “essência” e “existência” são separadas de “seres contingentes”, porque poderiam existir ou não existir. Tal separação já não faz muito sentido. Metafisicamente (ou seja, como é “na realidade”), não existe algo como “essência”, só existe existência. As coisas são o que são. “Essências” são apenas dispositivos cognitivos, são construções da mente para ordenar e agrupar entidades na forma de conceitos. Quando eu percebo algo que, costumeiramente é chamado de homem, não existe algo como “essência” e “acidente” ou a sua “efetivação no mundo real”, existe aquela coisa concreta, aquela entidade na sua totalidade. Ela é o que é (com todas as suas “essências” e “acidentes” juntas, “misturadas”, enfim, em conjunto). Nenhuma das suas características tem um “destaque metafísico”, uma hierarquia metafísica. Ocorre que, assim como observamos “homens”, observamos cachorros, gatos, leões, lesmas etc.. e, em termos cognitivos, não faria sentido, para formar o conceito de homem, usar como “característica chave” ou ”essencial” o fato dele ser um ser vivo ou um animal, justamente porque cachorros, gatos e leões também o são (não separaríamos nada). Além de ser um animal, o homem também é um ser racional – no sentido de ter a possibilidade de usar a razão – e em geral é essa a característica que usamos para “separá-lo” do conceito de cachorro, gato etc.., no entanto, metafisicamente , o homem é o que ele é, com todas essas características juntas, o formando, sem nada que dê prioridade a uma contra outra. A é A.

Se descobríssemos marcianos também racionais, a “essência”, a característica chave usada para formar o conceito homem mudaria, embora, na realidade (metafisicamente), o fulano-homem A continuaria sendo exatamente o que era antes da descoberta do marciano. E mesmo com a essência mudando, o conceito de homem continuaria “englobando” o fulano A, com todas as suas características, incluindo aquela que anteriormente foi chamada de “essência”. Dito isso, metafisicamente, não faz sentido algum separar “essência” de “existência”, algo é o que ele é (e isso inclui “ser todas as suas características”, sejam elas, epistemologicamente, mentalmente, “essências” ou não).

Se não faz sentido separar “essência” de “existência”, também não faz sentido definir algo com base nessa separação (como alguns filósofos fazem com a idéia de contingente). Não há nada que seja “contingente” versus “necessário” metafisicamente. O que existe, existe e é como é. O fato de você pensar em um mundo alternativo, onde não exista o que, de fato, existe no nosso mundo, não tem relevância alguma para determinar a natureza do que existe e muito menos a “contingência” ou não dessas entidades. A natureza, a realidade é independente da sua mente. Rigorosamente, se o simples fato de você imaginar algo diferente do que é, ou imaginar um mundo sem certas entidades que existem nesse, torna esse algo “contingente”, então, tudo seria contingente, nada é necessário, porque imaginar por imaginar, fantasiar é um ato completamente “livre”. No entanto, para tornar a classificação útil de alguma forma os filósofos passam a impor uma restrição na sua imaginação: ela não pode ser contraditória. Mas sob essa restrição tudo que existe seria “necessário”. Para entender o porquê, explicando brevemente, o erro epistemológico fundamental dessa separação entre “contingente e necessário” está no entendimento equivocado do que seja um conceito. Alguns filósofos entendem que conceitos são apenas “o essencial enunciado na sua definição”, que somente esse essencial está “dentro” do conceito. Então, alguém diz que é inimaginável um mundo onde homens não são animais racionais, porque, por definição, homem é um animal racional, logo é uma contradição.

No entanto, segundo esses filósofos, é possível um mundo onde o gelo afunde na água, por exemplo, já que não há contradição nesse comportamento / característica do gelo com o conceito de gelo (que seria água em estado sólido), como ocorre no caso do conceito de homem. Essa “diferença” só acontece porque estamos tratando o conceito (definido pela tal “essência”) como representando só essa essência e excluindo todas as outras características da entidade que o conceito representaria. Portanto, como o fato do gelo não poder afundar na água não está expresso na definição do conceito de gelo, embora isso “faça parte”, constitui o que é chamado de gelo, não temos uma “contradição lógica” ou “interna” e então podemos “imaginar sem cair em contradição” esse mundo. É óbvio que dizer que gelo não afunda na água é tão somente dizer que gelo não é gelo, uma contradição exatamente igual a contida em imaginar um “homem não racional”. Dado que o gelo é o que ele é, todas as suas características são “necessárias”, dado que aquilo compõe o gelo, é o gelo. Só pode existir gelo como ele é, ele é e necessariamente é assim. Por isso, tudo que é, é, e é necessário (o conceito de necessário aqui é completamente dispensável). Não há sentido algum em dividir, em termos metafísicos, os existentes como “contingentes” e “necessários” ou ainda separar “existência” de “essência”. Os existentes simplesmente são, com suas “essências” e “acidentes”, que não são dados metafisicamente, mas sim construções da mente (obviamente baseadas no que é, no que existe).

UPDATE (21/07/2010): Um leitor, que se disse estudante de filosofia, me enviou um e-mail dizendo que não entendeu bem meu posicionamento nessa questão de “necessário versus contingente” e me fez algumas perguntas, dentre elas qual era, afinal, a minha posição? Bem, da forma mais direta que eu consigo me expressar, minha posição é que, essa diferenciação, metafisicamente não faz sentido (ou é um adicional desnecessário, já que tudo seria “necessário”). Os seres simplesmente são (A é A). Pensemos, por exemplo, no clássico problema da indução: você, um belo dia, observa o sol “nascendo” e se pondo. No dia seguinte, novamente o sol “nasce” e se põe. E assim nos dias seguintes. Daí, você pode derivar que o sol sempre vai nascer e se pôr? Essencialmente a questão é: “quem me garante que o sol necessariamente agirá assim?” Porque não pode ser diferente (e ele, amanhã, deixar de “nascer” e se pôr)?

Bem, todas as “ações” do sol são derivadas do que ele é, da sua natureza, ou seja, o Sol sempre agirá de acordo com a sua natureza. A é A. Logo, todas as suas ações “terão que ser sempre assim”, porque elas são “causadas” pelo que o Sol é (são consequências dele ser o que é). Obviamente o sujeito que derivasse que o sol vai nascer e se pôr “eternamente” erraria, mas ele erraria por não conhecer mais a fundo o que é uma estrela, i.e, sua natureza. Se ele tivesse esse conhecimento mais aprofundado, descobriria que estrelas possuem “fases” e em uma dessas fases ela cresceria tanto que “engoliria” a Terra, que deixaria de existir e, portanto, de fazer o movimento de rotação que faz o Sol “nascer” e se “pôr”. Mas ele também descobriria que essas fases levam bilhões de anos, e que, portanto, dada a natureza da Terra e do Sol, inclusive sua idade, o último nascerá e se porá por muitos e muitos tempos. E isso “tem que ser assim” porque o Sol é o que é (uma estrela em uma certa fase, com uma dada idade) e a Terra é um planeta a uma certa posição do Sol, com determinadas forças (que também possuem uma natureza) agindo sobre elas. Se você levar em consideração que as entidades que existem hoje são frutos da “ação” de outras entidades que existiram ou existem (por exemplo, um planeta existe porque outros dois corpos celestes se chocaram e o formaram), então também segue que o que existe é necessário, “tem que ser assim”, afinal, são frutos das ações de existentes que possuíam (ou possuem) uma determinada natureza. Se dois planetas do mesmo tipo da Terra se chocam, eles não vão se transformar em um vaso de rosas, em um pacote de macarrão e nem em um tênis. Eles terão que gerar aquilo que a natureza desses planetas determina. Foi isso que eu quis dizer no texto original quando coloquei que “tudo que é, é, e é necessário (o conceito de necessário aqui é completamente dispensável)”.

Isso nos leva a outra pergunta, o que eu acho da demonstração da causa primeira para existência de Deus. Como eu disse no texto original, não tenho muito interesse nessa questão e nunca li a demonstração do próprio autor. Já vi outras pessoas falando sobre ela, como o texto que motivou toda essa discussão. O que me parece é que para “cortar” o eterno sequenciamento de “causas” e assim evitar a famosa pergunta: “qual a causa de ou quem causou Deus?”, o pessoal que defende a demonstração costuma usar a idéia de “ser necessário” versus “contingente”. Bem, como tudo que existe (não fruto de escolhas humanas) seria necessário, então a resposta é invalida e faltaria responder mesmo “quem ou o que causou Deus?”. A própria idéia de dividir o que existe e ocorre entre “contingente” e “necessário” remonta a uma era primitiva do pensamento humano, onde as pessoas acreditavam que coisas como “chuvas”, “terremotos” eram castigo de algum deus. Assim como uma pessoa escolhe se vai comprar uma camisa branca ou vermelha (e o que ela decide não teria que ser “necessariamente assim”, afinal, existe algo chamado consciência, livre arbítrio), essa mesma característica “contingente” é transplantada para todo o universo que seria do jeito que é pela escolha de alguma “superconsciência divina”, assim chove porque “deus quer”, pessoas morrem porque foi “a vontade de Deus”, o sol nasce e se põe porque Deus quer, mas amanhã ele pode não querer (eclipses, por exemplo, eram vistos como “obra de deuses”) e por aí vai.

A última pergunta era se eu era ateu e o que achava das religiões. Digamos que no meu atual “estado de conhecimento”, não sou ateu, sou “agnóstico” (não sei se Deus existe ou não). Sobre o que eu acho das religiões. Isso demandaria um texto exclusivo, mas, posso dizer brevemente que não vejo com bons olhos os princípios epistemológicos por trás da “fé” (incluindo a religiosa). A fé é, pela sua natureza, anti-razão. É uma escolha por negar a realidade, o que é. É uma deliberada opção por não aceitar o que o raciocínio, a lógica nos diz. É fechar o olho para o que é. Um exemplo simples desse comportamento é a insistência católica em achar que uma virgem deu a luz a um menino. Não adianta mostrarmos por A + B que seres humanos não se reproduzem dessa forma, que não é a natureza dessa entidade. Eles se negam a aceitar isso. Isso para não falar de um morto que "sai voando" do túmulo, ou um humano que literalmente "multiplica" peixes, cura doenças com movimentos de mão no ar, ou com reza. Não adianta mostrar que a natureza dos seres humanos não permite a eles "ressuscitar" (aliás, nenhum ser vivo faz isso), nem literalmente multiplicar peixes, curar doenças com “movimentos de mão no ar” e nem matar vírus / bactérias por “telepatia”. Não, eles "têm fé" e agem de acordo com essa crença, agem de acordo com o impossível, o contraditório. Agem como se A não fosse A.

Não há nada mais ameaçador do que alguém não aceitar que A é A, não aceitar o que é. É a mais profunda negação de "humanidade" - a negação em usar sua mente, sua capacidade de raciocínio para conhecer e em última instância a negação de qualquer relação com base no convencimento, na argumentação. É a opção pela destruição, por negar a realidade. Não é nada muito diferente de um drogado que se entope em drogas para "esquecer a realidade", fugir dos problemas e faz maluquices por aí. A fé, inclusive a fé religiosa, é um tapa-olho, uma fuga completa da realidade, do que é. Nesse aspecto, a religião é extremamente anti-humana - é o anti-método da sobrevivência humana, é a negação da razão. É a opção pelo abismo. Obviamente nada disso significa que religiões pelo mundo não defenderam alguns valores corretos (embora com a justificação errada).

10 comentários:

Joel Pinheiro disse...

"Metafisicamente (ou seja, como é “na realidade”), não existe algo como “essência”, só existe existência. As coisas são o que são".

Acho que não fui muito claro na minha exposição.
Essência é aquilo que uma coisa é. Portanto, ao afirmar "as coisas são o que são" você afirma que elas têm essências. Um homem é diferente de uma pedra, ou seja, são coisas diferentes. Ou seja, têm essências diferentes (qualidades, atributos, características diferentes).

Outra coisa é o fato de existir ou não. Um cavalo existe hoje em dia. Um tiranossauro não. Há 60 milhões de anos, existia o tiranossauro e não existia o cavalo. Da essência de cavalo, ou da essência de tiranossauro (ou seja, de suas características), não se pode concluir se eles existem ou não.

Imagine um azteca de antes das navegações européias. Ele nunca tinha visto um cavalo. Alguém poderia descrever para ele um cavalo; ele teria, então, algum conhecimento (ainda que parcial) da essência de cavalo, das características que um cavalo tem. Mas nem por isso saberia se de fato existem ou não cavalos no mundo. Para esse azteca, o cavalo poderia ser uma criatura mitológica inventada por alguém, assim como o unicórnio. O azteca não teria base para afirmar que existem cavalos e não unicórnios. Como ele pode descobrir, de fato, que existem cavalos? Observando um. A descrição da essência do cavalo, por mais detalhada e completa que fosse, não lhe daria o conhecimento da existência do cavalo. Portanto, a existência não está contida na essência.

Isso nada contraria o princípio de identidade ("A é A") e nenhum de seus derivados ("o que existe, existe";, "o que é, é"; "o que é branco, é branco"; etc). Ninguém discorda que A é A. Aliás, ao dizer isso, se está afirmando que A tem uma essência, e que portanto é ele mesmo e não uma outra coisa (B).

Agora, a não ser que você mostre que, da definição de cavalo ou de qualquer outro ser, seja possível demonstrar apoditicamente que ele existe, então você também é logicamente obrigado a aceitar que há seres contingentes. Seres que podem existir ou não existir. E de fato: há 5 bilhões de anos, não havia cavalos. Hoje, há cavalos. Daqui a 500 bilhões de anos, provavelmente não haverá cavalos. O cavalo pode, portanto, existir ou não existir. Sua essência não implica necessariamente nenhuma das duas possibilidades.

Abraços!

Joel Pinheiro disse...

Colocar o problema em termos causais determinísticos (e hoje em dia, dado o estado da ciência, parece que a realidade não se comporta exatamente assim) não o resolve, apenas empurra o problema para o passo anterior.

O primeiro instante, a primeira configuração da matéria que deu origem a todas as outras, é necessária? Há contradição lógica em pensar que o universo tivesse tido um ponto de partida tal que, ao invés de surgirem homens, nenhuma forma de vida jamais se constituísse? Como derivar, do princípio de identidade, alguma configuração particular de matéria?
Se você me disser que não sabe como, então sua crença de que é tudo necessário também é fé, e não fruto de dedução lógica.

Joel Pinheiro disse...

Por fim, deixo uma pergunta, que acho que é um tema que você poderia transformar em artigo, se é que já não o fez.

Você parece, neste artigo, que não aceita a idéia do livre arbítrio. A ação humana é tão necessária quanto o cair de uma pedra. Como isso se concilia com a defesa do liberalismo e, mais do que isso, com uma defesa em termos morais?

Richard disse...

Sobre as suas perguntas:
Eu não sei o que você quer dizer com primeiro instante. Seria algo como o instante em que “do nada”, tudo passou a existir? o instante em que “tudo não existia” e passou a existir? Se for isso é uma contradição. “Nada”, é um conceito relativo – derivado de existência, implica existência. Eu posso dizer, por exemplo, “nada existe no meu bolso”, mas veja que isso é uma condição, uma característica de um outro espaço que existe (no caso do exemplo, meu bolso). Existência é o ponto de partida. Se “nada existe”, “nada” existe. Há algo, não faço idéia do que seja, que vc simplesmente está chamando de “nada” (talvez algo parado, um “universo / espaço morto”) que existe. O que seria um “nada”? Não existe uma “não existência”. Logo, dado que “existência existe” (como gostava de dizer Ayn Rand), todo o “formato” do que existe é derivado da natureza de existentes anteriores e também dos presentes. Você pode ficar recuando eternamente e só vai bater nesse axioma: existência existe. Eu dizer que “não sei como as coisas eram no passado, antes do big ben”, ou coisa do tipo, só implica que eu não sou onisciente, não conheço um monte de coisas, não que eu tenho fé em algo relacionado a isso já que como foi dito no começo, "existência existe" é a base, o ponto de partida. Não tem como negá-lo (de certa forma não existiria, pela lógica, algo como “primeiro instante”).

Sobre a outra pergunta é um tema que daria um texto mesmo e eu precisaria pensar melhor. Mas, não sou um determinista, pelo menos não no sentido mais comum dado a isso (a de negar o livre arbítrio). Existem duas coisas de natureza distintas: “fatos metafísicos” e “fatos feitos / causados pelo homem” (em alguns casos essas coisas se misturam). Obviamente o fato de existir “fatos feitos pelo homem” é um fato metafísico, é derivado do que o homem é e ele não tem poder algum sobre essa natureza – ele é assim. Pois bem, “fato metafísico” é aquilo e pronto, é independente de qualquer vontade humana. Eles seriam “necessários” no sentido que eu descrevi no texto (principalmente no update). Fatos feitos / causados pelo homem são escolhas, não são “necessários”, são frutos da vontade humana. No update eu coloco entre parênteses algumas vezes (fatos que não são escolhas humanas, ações não humanas etc..) justamente para separar essas duas coisas. O livre arbítrio, como tudo que é um “fato metafísico” tem uma natureza definida, é “necessário” e a natureza dele é exatamente essa questão da escolha, da vontade etc.. Mas reforço: ele tem uma natureza definida, não vai “além” do que essa natureza determina. Eu não consigo levantar um prédio mesmo que eu fique concentrado, focado nisso “levanta!levanta!”. Fatos feitos pelo homem, depois de feitos, obviamente também tem uma natureza, mas isso não o torna “necessário”, justamente porque foi fruto de escolha, de vontade humana, essa é a sua natureza. Digamos então, que a natureza de fatos gerados pela escolha humana é justamente a de não ser “necessários”.
Agora, um detalhe de tudo isso: em um sentido bastante genérico, sem levar em conta o conteúdo especifico das escolhas, escolhas humanas também são “necessárias”. Pense, por exemplo, na “praxeologia” de Mises. Alguém escolhe algo cujo resultado esperado é “menor satisfação em relação a outras alternativas”? Não. Logo, toda ação / escolha humana necessariamente está limitada por isso, ou “é determinada” por isso. Não deixa de ser um “fato necessário” em relação a escolhas humanas. Enfim, é mais ou menos isso.

Anônimo disse...

Richard, muito interessante o texto e a discussão posterior.


Obrigado por responder minhas perguntas.

Pelo que eu pude perceber lendo tudo, vc muda a classificação das coisas de necessário e contingente para "metafisicamente dado" e "feito pelo Homem" e essas coisas são classificações diferentes. Por exemplo, todo fato metafisicamente dado e' necessário, mas nem tudo que existe e' necessário, porque existem "fatos produzidos pelo homem" que não teriam que ser necessariamente o q são - e' a questão da escolha, da consciência.

Alem disso, essas classificações seriam epistemologicas e não "metafísicas", já que como vc disse, o que existe, existe. E' e pronto.

Entendi corretamente?

Mauro disse...

Joel,

"Da essência de cavalo, ou da essência de tiranossauro (ou seja, de suas características), não se pode concluir se eles existem ou não."

Se o que vc está chamando de essência é o conjunto de características do tiranossauro, não existir ou ser fruto da imaginação de alguém ou ter sido extinto é uma dessas características e, portanto compõe a essência, logo pela essência é possível saber se o ente existe ou não.

Joel Pinheiro disse...

Mauro, você pode definir assim se você quiser. Mas a contingência continuará existindo, agora tendo sido transferida para dentro da essência dos seres. As características da espécie tiranossauro, por exemplo, incluem "existe no momento T do universo" e "não existe no momento Z do universo". Disso se conclui que uma terceira característica também se predica dele: "Pode existir ou não existir, dependendo do momento do universo em que se esteja". E aqui já voltamos à conclusão: sua existência não é necessária; ele pode tanto existir quanto não existir. E então teremos que explicar, com base num ser que não o tiranossauro, os predicados do tipo "existe no momento T do universo".

No fim, concluiremos que tem de haver um ser tal que seus predicados de existência não sejam contingentes, mas que decorram necessariamente de outros predicados de sua essência.

É só uma mudança no jeito de falar.

Mauro disse...

Caro Joel,

Acho que em nenhum momento foi dito que qualquer ente que existe, existirá para sempre. No entanto, o fato dele existir em T e não existir em Z é um fato necessário, só poderia ser assim dada sua natureza. O exemplo dos planetas se chocando que o Richard dá no texto é um caso desses. O planeta que não existia em T, mas passou a existir em Z e é necessário - necessariamente segue da natureza do choque de dois corpos celestes com uma outra determinada natureza.

E acredito que você tenha mudado o seu ponto: partindo da essência, como foi definido, eu consigo determinar a existência. Se isso é 'ser necessário', então tudo é necessário.

Abçs
Mauro

Joel Pinheiro disse...

Não, você só retrocedeu um passo. Dado o choque dos planetas, o novo planeta é necessário. Ok, mas DADO o choque dos planetas.

Dado a nebulosa, o choque dos planetas é necessário. Ok, mas DADO a nebulosa.

Dado o big bang, a nebulosa é necessária. DADO o big bang.

Ou seja, em todos eles a existência tem que ser explicada por algo que lhes é externo.
Sim, você pode chamá-los de necessários, mas desde que faça a distinção entre um ser que é necessário DADO um outro ser e um ser que seja necessário simpliciter, ou seja, sem a necessidade de qualquer outro ser que cause sua existência.

Por fim, não mudei meu ponto na resposta anterior; só adaptei a linguagem para o seu novo uso dela. Nada muda se eu deixo de usar o conceito normal de características para usar uma versão expandida na qual entrem dados pontuais de existência nos diversos instantes de tempo. Isso é só uma questão de uso da linguagem, sem impacto na realidade.
Se você passa a definir essência de uma forma que inclua quando e onde o ser existe, daí é claro que a existência passa a fazer parte da essência. Mas isso não muda o ponto do argumento: a existência continua a depender de algo externo ao ser. Ela não se deriva necessariamente das demais características (não-existenciais) do ser.

DADAS as condições do universo (isto é, do conjunto dos seres), a existência de qualquer ser particular num determinado instante é necessária. Mas e o que explica o universo, o conjunto dos seres, esse antecedente do condicional? O que explica que as relações totais dos seres sejam estas e não outras, que também seriam logicamente consistentes? Ele é necessário? Como se prova isso?

Mauro disse...

Caro Joel,

Você irá sim retroceder até chegar em DADO a existência, como Rand dizia. E a existência existe. Não há antes, depois da existência ou qualquer coisa alternativa a ela.

E quem disse que essência eram todas as características de uma entidade foi você. Apenas mostrei a incoerência da sua posição.

Abçs
Mauro