quinta-feira, 3 de junho de 2010

Conceitos fora do lugar….

Eu acreditei que não precisaria escrever o que vou escrever mais abaixo porque esse blog é, principalmente, voltado para liberais e "simpatizantes", de forma que, mesmo que eu ficasse feliz em ver um marxista ou socialista de qualquer corrente por aqui, "mudando de lado" com a contribuição do blog, as linhas que se seguem são a refutação de um argumento claramente coletivista, que eu imaginei, estivessem bem longe da "mente" ou boca de um liberal, ou se estivesse perto, fosse usado com mais cuidado, tamanha a incompatibilidade com essa doutrina.

No entanto, infelizmente, o tal tipo de argumento apareceu em um grupo de liberais que desejavam defender a existência do governo sobre bases, digamos, "morais". Como esses liberais também apóiam direitos de propriedade (pelo menos por enquanto), o mote da defesa foi o de que "imposto não é roubo" e para defender isso, o argumento foi exposto da seguinte maneira: "o povo que está sob um determinado governo apóia não só a existência do governo, como várias de suas politicas, logo não se pode falar em roubo já que o sujeito que paga impostos apóia o que o governo faz com o dinheiro ou a sua própria existência."

Não precisa ser muito esperto para dizer: ok, é verdade, mas é mentira que o povo apóia a existência do governo e as politicas de um dado governo. Por exemplo, eu não apóio a existência de governo, então, de duas uma: 1) ou o povo não apóia a existência de governo ou 2) eu não faço parte do povo em questão. E mesmo que 99,9% apoie, continua sendo roubo realizado contra quem não apóia.

Mas a coisa não parou por aí: segundo os defensores do argumento do "povo apóia", minha objeção não é válida porque "povo", na verdade, quer dizer "maioria". Se povo só quer dizer maioria, então o argumento pró "imposto não é roubo" continua sendo errado, porque a minoria também paga imposto. Mas o mais incrível são as maravilhosas conclusões que podemos tirar desse espetáculo, por exemplo: Se uma politica de governo ou o próprio governo tem apoio do povo, então ela(ele) é justa(justo), enfim, é legitimo - é a premissa básica que os defensores dos impostos usaram. Lembre-se, povo significa maioria (o tal conceito de povo). Segue então: Hitler tinha apoio do povo alemão, logo seu governo totalitário e o exterminio, assassinato de judeus eram justos e não constituiram crime ou invasões de propriedade, pois só é invasão de propriedade quando o povo não concorda, o que não era o caso.

É dificil acreditar que distorções como povo = maioria tenham vindo de um liberal, ainda mais para ser usada como foi. Ela poderia ter muito bem saído da mente de "neosocialistas" que eu critico no texto "Sobre a democracia e revoltas contra governos eleitos", mas de liberais? Ainda segundo o mesmo raciocinio, os alemães judeus "sofreram eutanásia" no holocausto, afinal, eles morreram pelas mãos de outro ser humano e não foi invasão de propriedade, não foi coerção, já que o povo apoiava, o que é uma estupidez. Embora o conceito de "povo" tenha algumas aplicações ou mesmo uma função interessante "economizadora" (eu não preciso ficar falando, toda hora, que todos os 190 milhões de pessoas nascidos em um território chamado Brasil etc..etc..), o seu uso na discussão em questão é simplesmente absurdo, é errado, pois ele não serve para "representar" aquela entidade que se queria realmente representar. O argumento de que "se o povo apóia não é roubo" valeria se povo aqui representasse 100% de todas as pessoas sob determinado governo. Se povo = maioria, então o povo apoiar não quer dizer nada. Além de me excluir, por exemplo, do tal povo (que se for o brasileiro, é mais um erro).

Outro malabarismo é o conceito de "representão politica". Algo como: fulano é o seu representante politico quer você queira, quer não. É uma variação do primeiro argumento e como ele, não faz o menor sentido: ora, o que é ser representante de alguém (pelo menos de pessoas adultas)? É ser contratado ou fazer um acordo com o representado, atender um pedido do representado, ser chamado e aceito por ele, para defender os interesses dele (representado), o ponto de vista dele, enfim, representá-lo. Até onde eu sei, não fiz acordo e nem solicitei ao Lula, por exemplo, que me representasse, que além disso, diga-se de passagem, nem defende o "meu ponto de vista", "meus interesses" etc.. A, eu diria, "insanidade" nessa discussão, chegou ao ponto de se defender, com todas as letras que "Hitler representava os judeus alemães". Ora, é óbvio que seja lá o que o sujeito queria defender, isso não tem absolutamente nada a ver com representação. Também não adianta falar que isso é uma representação "diferente", é uma "representação politica". Ainda estando dentro do conceito de representação e usando o termo representação, continua sendo errado, uma distorção. Hitler pode ser o "xpto", "scrubou", "azytwy" politico dos judeus alemães, mas não tem nada de "representação" no que ele era.

O pior é que, no assunto discutido, a idéia de "representação politica" é usada dentro do significado de "representação" mesmo e nós voltamos ao argumento do "apoiar o governo": "como os governantes são nossos representantes, impostos não são roubo, eles estão lá porque queremos, para representar o povo". Aí temos que ler que Hitler era o representante dos judeus alemães. Eu não vi a cara do sujeito que escreveu isso, mas eu espero que ele tenha ficado envergonhado.

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