quinta-feira, 15 de abril de 2010

Seminário de Economia Austríaca e Fórum da Liberdade

Durante os dias 11 e 13 de Abril, Porto Alegre se transformou na capital nacional dos liberais. Ocorreu na cidade o I Seminário de Economia Austríaca, organizado pelo Instituto Mises Brasil e o XXIII Fórum da Liberdade, organizado pelo IEE (Instituto de Estudos Empresarias).

Minhas impressões pessoais foram as melhores. Confesso que nunca tinha visto tantas “araras norueguesas” juntas. Me senti em casa. O Seminário de Economia Austríaca, ouso dizer, teve palestras memoráveis com Joseph Salerno falando sobre a vida de Mises e Rothbard, o modo como os austríacos enxergam a ciência econômica e com Thomas Woods dissertando sobre a esquecida depressão americana de 1920-1921. Lew Rockwell, o lendário fundador do Mises Institute em Auburn nos EUA, respondeu perguntas polêmicas, como a falência das democracias modernas e a questão do Oriente Médio, com uma naturalidade e honestidade intelectual impressionantes. Aliás, nesse último ponto (oriente médio), eu discordo frontalmente do Mr. Rockwell.

Como senão bastasse, tivemos a família Friedman, David (filho de Milton Friedman) e Patri Friedman (neto) também fizeram ótimas palestras. David falou sobre a superioridade em termos de eficiência de um sistema privado de leis e Patri apresentou o polêmico, e maluco, Seasteading (as cidades “desmontáveis” no meio do mar), com, eu diria, uma consistência louvável dada a “exoticidade” da proposta.

Agora, a grata surpresa veio de casa mesmo. Fabio Barbieri e Ubiratan Iório, acadêmicos brasileiros e austríacos (é, isso existe!), ofereceram as palestras mais completas em termos teóricos – os temas foram calculo econômico no socialismo e processo de mercado (talvez empatados com Mark Thornton que falou sobre ciclos econômicos e bolhas). Outro momento especial foi o testemunho de Cleber Nunes, o mineiro que luta contra o governo para ter o direito de educar seus filhos em casa. Um verdadeiro herói. David Friedman recomendou que ele se mudasse para a Califórnia, onde o homeschooling é permitido. No almoço do IEE, onde comi um dos petit gateaus mais deliciosos que a minha memória me permite lembrar, fiquei na mesma mesa que ele e os dois filhos. Lucas Mendes, autor do blog “Austríaco”, escreveu um belo texto sobre a luta de Cleber. Para quem se interessar, eis o link.

Terminado o Seminário no Hotel Sheraton, começaria, na PUC-RS, a 23° edição do Fórum da Liberdade, cujo tema eram as “seis lições” de Ludwig Von Mises (uma referência ao livro de mesmo nome do economista austríaco). Sempre ouvi falar do fórum, mas não imaginava que era algo tão grande. E também não tinha noção do tamanho do IEE (para se ter uma idéia, digamos, do “poder” do Instituto, o atual vice governador era ou é da entidade). E o mais interessante, todos os filiados são muito jovens (devem ter menos de 35 anos). Ao contrário do Seminário de Economia Austríaca, o Fórum da Liberdade tem uma “fauna maior” de liberais – temos de “quase social-democratas” a anarco-capitalistas e isso ficou refletido nas palestras. Tivemos um Arminio Fraga claramente dizendo que não era liberal, até David Friedman arrasando o presidente do CADE no painel sobre Intervencionismo, dizendo com todas as letras como o governo só piorava as coisas regulando monopólios. O painel sobre Intervencionismo, aliás, foi um dos pontos altos do evento.

Por outro lado, algumas palestras foram lamentáveis como a de Carlos Ghosn, CEO da Nissan e Renault, que defendeu o salvamento de empresas do setor e a de Stephen Kanitz, que, além de uma arrogância do tamanho do mundo, estava mais perdido que peixe fora d’água; não sabia direito nem o significado de conceitos elementares como “mão invisível” e “mercado”. Confesso que senti vergonha alheia e mais, acho que quem era administrador de empresas sentiu vergonha dupla. Outro “perdido” foi o socialista João Quartim de Moraes. O sujeito participou do painel sobre socialismo e não sabia nem o que era liberalismo (era um daqueles que achava o PSDB o cumulo do tal “neoliberalismo”). Foi atropelado pelos outros palestrantes, os ótimos Rodrigo Constantino, que também participou do Seminário e Juan Fernando Carpío, que lamentou a situação do Equador, seu país de origem.

Se o melhor dos painéis foi David Friedman detonando com as regulações do governo e com o presidente do CADE, os pontos altos da parte mais solene foram os discursos do Hélio Beltrão, presidente do Instituto Mises Brasil ao receber o prêmio Libertas e o discurso de abertura de Luiz Leonardo Fração, presidente do IEE. O discurso do Hélio está aqui. Uma ode ao indivíduo e a liberdade, vale muito a leitura (detalhe, o discurso foi feito na frente de várias autoridades políticas, com destaque para o prefeito de Porto Alegre e o vice governador do Estado). O de Fração chegou a ter partes como “o direito de propriedade está acima dos direitos humanos”, o que gerou uma onda de chiliques socialistas pela internet (obviamente, ele se refere aos direitos humanos do PNDH-3 – Programa Nacional de Direitos Humanos, dado que direitos de propriedade não são direitos de árvores ou de pedras, são direitos humanos).

Acredito que o saldo final foi muito positivo. Mesmo o Seminário de Economia Austríaca, que foi um evento mais “reservado”, atraiu a atenção de jovens do Brasil inteiro. Me recordo de um estudante de economia que veio do Pará e outro do ensino médio de Leme, do interior de São Paulo. O site do Mises Brasil transmitiu o evento ao vivo pela internet e mesmo nos momentos de “problemas técnicos” devido à alta procura, alguns participantes fizeram “transmissões alternativas” por todas as comunidades liberais da internet. Um outro fato positivo, de cunho mais pessoal, finalmente conheci pessoalmente grandes cabeças do liberalismo que só tinha contato pela Internet. Ah, e como me disseram, as gaúchas realmente são lindas.

PS: Lew Rockwell escreveu sobre sua visita ao Brasil.

UPDATE (17/04/2009): Reportagens das revistas VEJA e Época sobre o seminário.

UPDATE (19/04/2009): Texto do IMB sobre os dois eventos, com fotos

2 comentários:

JOÃO MELO disse...

Excelente postagem e a cobertura da VEJA, que acabei de ler e não poderia deixar de postar.
É muito bom ler na grande imprensa as ideias de economistas que pensam num estado mais liberal.
Abraço,
João Melo, direto da selva!!!
E do Pará, o estado mais violento do Brasil!!!

RAFAEL FELIPE disse...

O caso de Cléber Nunes é terrível, ultrapassa os limites do BOM SENSO.
Espero que esse evento seja um fio de esperança em Terras Tupiniquins (e quem sabe outras), nas quais se vc não joga o jogo do governo está perdido... isto é terrivelmente triste!
Parabéns pelo evento, parece ter sido sensacional!