quinta-feira, 22 de abril de 2010

Heterodoxia à "tucanesca"

Yoshiaki Nakano, o intrépido ex-secretário de Mario Covas e um dos “gurus” do PSDB paulista voltou a atacar na Folha de S. Paulo do último domingo. Em um artigo intitulado “Juros e Câmbio de novo!”, o professor da FGV-SP, de novo, expõe seu mercantilismo com pitadas de keynesianismo mal acabado.

Após comemorar a atual situação da economia brasileira, com base na já cansativa demonização da “especulação financeira”, um dos fantasmas gêmeos do neoliberalismo, uma criatura mítica que só existe na cabeça de alguns economistas “pterodoxos” da região, o professor aponta o que para ele são as duas principais ameaças à economia brasileira: inflação e déficit em transação correntes. Com a elevação da inflação, o governo aumentaria os juros, que por sua vez elevaria o câmbio e o déficit em transações correntes. Como esse último é pecado dentro da religião mercantilista professada pelo ex-secretário, o governo não deveria combater a inflação com juros. Ainda segundo o professor, combater inflação com juros revela mais erros, porque desestimula o investimento, diminuindo a capacidade produtiva da economia e assim alimenta a inflação de demanda que o aumento da taxa visa combater.

O Prof. Nakano erra nos dois argumentos, embora esteja certo sobre os riscos da inflação: déficits em transação corrente não são inerentemente ruins. Como o próprio professor diz, são resultado da entrada de capitais no país, um país, diga-se de passagem, pobre que possui baixa poupança e usa poupança externa para financiar seus investimentos. Não há problema algum nisso, muito pelo contrário, com exceção da Inglaterra, todos os países ricos, que em geral, hoje, exportam capital fizeram o mesmo no passado. Déficit em transação corrente só é um mal para quem ainda acha que importar é homicídio e investimento estrangeiro é estupro. Um resquício de mercantilismo que David Ricardo, Jean Baptiste Say e tantos outros economistas clássicos jogaram na tumba do misticismo (ver meus textos “A tara nacional por exportações” e “Um Falso Problema”).

Em relação à inflação, o professor Nakano é pior ainda. Embora não seja errado dizer que inflação é causada por um excesso de demanda agregada, o ponto é que apenas uma única variável causa essa situação: excesso de oferta de moeda. Sem moeda, não há absolutamente nada que faça, em termos agregados, a demanda ser maior que a oferta porque toda oferta implica logicamente em uma demanda de igual valor e obviamente, o inverso também é verdadeiro – ninguém demanda nada, sem ofertar algo de igual valor. Somente a moeda permite que alguém demande sem ofertar nenhum outro bem em troca. Quando os agentes econômicos possuem moeda demais em seus encaixes (excesso de oferta de moeda), eles aumentam sua demanda por bens oferecendo mais moeda por eles. Esse aumento da demanda por bens causa um aumento dos seus preços em termos de moeda. Temos a inflação.

Reduzir gastos do governo, como o professor Nakano sugeriu, é uma boa política, mas não controlará a inflação se, do outro lado, o governo expande a oferta de moeda para manter os juros baixos. Se o governo gasta menos, mais bens ficam a disposição para serem investidos ou consumidos por agentes privados. A demanda agregada não se altera, há apenas uma transferência de valores entre seus componentes – no caso, cai o item “gastos do governo” e sobe o consumo e / ou investimento privado. Não há mudança, em termos reais, na relação entre demanda e oferta agregada. Como sempre, por todo instante, há igualdade entre essas “quantidades”. Por outro lado, se o governo expande a moeda, as pessoas podem comprar mais bens sem restringir sua compra de outros bens. Teremos inflação, simplesmente porque o efeito da queda dos gastos do governo, como explicado, é nulo, não “contrabalanceia” o efeito da expansão monetária na demanda agregada como alega o professor Nakano (ver meu texto “Inflação e gastos do governo”).

Outro erro do “guru Tucano” é enfatizar os juros como elemento que combate a inflação e não a quantidade de moeda. A taxa de juros, por si só, não altera em nada a demanda agregada, ela apenas rearranja os componentes consumo e investimento da mesma. Por exemplo, se a preferência temporal dos agentes aumentou, o consumo presente aumentará às custas da poupança que financia o investimento – o item consumo da demanda agregada sobe e o item investimento cai exatamente no mesmo montante, afinal, o que foi consumido saiu da poupança que era investida. A mudança da taxa de juros, principalmente de curto prazo, é mais um efeito colateral da política de “open market” que o Banco Central usa, do que o “principio ativo” do remédio antiinflacionário. No longo prazo, a taxa de juros real, independe completamente do modo como o Banco Central faz política monetária – se é através do controle direto da oferta de moeda, controle de juros, através de compulsórios ou jogando moeda de helicóptero. Que, em caso de vitória tucana, o Professor fique bem longe do Banco Central.

2 comentários:

Breno disse...

Eu acho que tem algo errado no seu comentário. Fico devendo uma análise melhor, porque não entendo direito o assunto.

Mas acredito que reduzindo gastos, o governo consegue reduzir a dívida, com isso a oferta de moeda.

Então nesse caso seria possível reduzir o juros e a oferta de moeda.

Já que o governo não precisaria mais aumentar a oferta de moeda com os investimentos estrangeiros para rolar sua dívida/gastos.

Uma questão aqui é lembrar que a função da poupança não é meramente criar crédito, mas principalmente poupar recursos.

Financiamento externo é sinal que os brasileiros não estão poupando recursos e isso é ruim.

A parte do dolar eu não sei ao certo, mas acho que talvez seja necessário analisar fora da questão mercantilista.

Do mesmo modo que um cambio fora do lugar para cima faz com que os consumidores locais subsidiem as exportações.

Acredito que seja possível o contrário um cambio distorcido para baixo pode criar um subsidio as importações.

No Brasil não existe cambio flutuante puro, ele é distorcido diretamente pela compra do BC e indiretamente pelo juros.

Como o governo distorce o cambio com recursos dos produtores internos esses acabam por subsidiar as importações.

Eu preciso olhar isso melhor. Mas talvez de para você entender.

Richard disse...

Breno,

Obrigado por ler e comentar o blog.

Sobre a questão da redução da deficit/divida x oferta de moeda, uma redução do primeiro não tem necessariamente nada a ver com o segundo. O governo pode reduzir o deficit e até mesmo a divida e aumentar a oferta de moeda, consequentemente gerando mais inflação (mantida a demanda por moeda constante). Obviamente reduzir deficits e divida tem um impacto na inflação via demanda por moeda. Veja este outro texto meu (Inflação e gastos do governo):

http://depositode.blogspot.com/2008/04/inflao-e-gastos-do-governo.html

Sobre o câmbio, vc tem razão que um câmbio (R$ / USD) artificialmente baixo tbm é ruim. Ocorre que ninguém anda defendendo por aí esse tipo de politica. O perigo é o contrário.