terça-feira, 27 de abril de 2010

Vale a pena

Sensacional artigo de Thomas Woods traduzido pelo IMB. Recomendo fortemente a leitura:

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=668

PS: Thomas Woods foi um dos palestrantes do Seminário de Economia Austríaca e do Fórum da Liberdade, onde teve o "prazer" de explicar alguns conceitos básicos, como mercado e "mão invisível", ao administrador estrela que participou do evento.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Heterodoxia à "tucanesca"

Yoshiaki Nakano, o intrépido ex-secretário de Mario Covas e um dos “gurus” do PSDB paulista voltou a atacar na Folha de S. Paulo do último domingo. Em um artigo intitulado “Juros e Câmbio de novo!”, o professor da FGV-SP, de novo, expõe seu mercantilismo com pitadas de keynesianismo mal acabado.

Após comemorar a atual situação da economia brasileira, com base na já cansativa demonização da “especulação financeira”, um dos fantasmas gêmeos do neoliberalismo, uma criatura mítica que só existe na cabeça de alguns economistas “pterodoxos” da região, o professor aponta o que para ele são as duas principais ameaças à economia brasileira: inflação e déficit em transação correntes. Com a elevação da inflação, o governo aumentaria os juros, que por sua vez elevaria o câmbio e o déficit em transações correntes. Como esse último é pecado dentro da religião mercantilista professada pelo ex-secretário, o governo não deveria combater a inflação com juros. Ainda segundo o professor, combater inflação com juros revela mais erros, porque desestimula o investimento, diminuindo a capacidade produtiva da economia e assim alimenta a inflação de demanda que o aumento da taxa visa combater.

O Prof. Nakano erra nos dois argumentos, embora esteja certo sobre os riscos da inflação: déficits em transação corrente não são inerentemente ruins. Como o próprio professor diz, são resultado da entrada de capitais no país, um país, diga-se de passagem, pobre que possui baixa poupança e usa poupança externa para financiar seus investimentos. Não há problema algum nisso, muito pelo contrário, com exceção da Inglaterra, todos os países ricos, que em geral, hoje, exportam capital fizeram o mesmo no passado. Déficit em transação corrente só é um mal para quem ainda acha que importar é homicídio e investimento estrangeiro é estupro. Um resquício de mercantilismo que David Ricardo, Jean Baptiste Say e tantos outros economistas clássicos jogaram na tumba do misticismo (ver meus textos “A tara nacional por exportações” e “Um Falso Problema”).

Em relação à inflação, o professor Nakano é pior ainda. Embora não seja errado dizer que inflação é causada por um excesso de demanda agregada, o ponto é que apenas uma única variável causa essa situação: excesso de oferta de moeda. Sem moeda, não há absolutamente nada que faça, em termos agregados, a demanda ser maior que a oferta porque toda oferta implica logicamente em uma demanda de igual valor e obviamente, o inverso também é verdadeiro – ninguém demanda nada, sem ofertar algo de igual valor. Somente a moeda permite que alguém demande sem ofertar nenhum outro bem em troca. Quando os agentes econômicos possuem moeda demais em seus encaixes (excesso de oferta de moeda), eles aumentam sua demanda por bens oferecendo mais moeda por eles. Esse aumento da demanda por bens causa um aumento dos seus preços em termos de moeda. Temos a inflação.

Reduzir gastos do governo, como o professor Nakano sugeriu, é uma boa política, mas não controlará a inflação se, do outro lado, o governo expande a oferta de moeda para manter os juros baixos. Se o governo gasta menos, mais bens ficam a disposição para serem investidos ou consumidos por agentes privados. A demanda agregada não se altera, há apenas uma transferência de valores entre seus componentes – no caso, cai o item “gastos do governo” e sobe o consumo e / ou investimento privado. Não há mudança, em termos reais, na relação entre demanda e oferta agregada. Como sempre, por todo instante, há igualdade entre essas “quantidades”. Por outro lado, se o governo expande a moeda, as pessoas podem comprar mais bens sem restringir sua compra de outros bens. Teremos inflação, simplesmente porque o efeito da queda dos gastos do governo, como explicado, é nulo, não “contrabalanceia” o efeito da expansão monetária na demanda agregada como alega o professor Nakano (ver meu texto “Inflação e gastos do governo”).

Outro erro do “guru Tucano” é enfatizar os juros como elemento que combate a inflação e não a quantidade de moeda. A taxa de juros, por si só, não altera em nada a demanda agregada, ela apenas rearranja os componentes consumo e investimento da mesma. Por exemplo, se a preferência temporal dos agentes aumentou, o consumo presente aumentará às custas da poupança que financia o investimento – o item consumo da demanda agregada sobe e o item investimento cai exatamente no mesmo montante, afinal, o que foi consumido saiu da poupança que era investida. A mudança da taxa de juros, principalmente de curto prazo, é mais um efeito colateral da política de “open market” que o Banco Central usa, do que o “principio ativo” do remédio antiinflacionário. No longo prazo, a taxa de juros real, independe completamente do modo como o Banco Central faz política monetária – se é através do controle direto da oferta de moeda, controle de juros, através de compulsórios ou jogando moeda de helicóptero. Que, em caso de vitória tucana, o Professor fique bem longe do Banco Central.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Seminário de Economia Austríaca e Fórum da Liberdade

Durante os dias 11 e 13 de Abril, Porto Alegre se transformou na capital nacional dos liberais. Ocorreu na cidade o I Seminário de Economia Austríaca, organizado pelo Instituto Mises Brasil e o XXIII Fórum da Liberdade, organizado pelo IEE (Instituto de Estudos Empresarias).

Minhas impressões pessoais foram as melhores. Confesso que nunca tinha visto tantas “araras norueguesas” juntas. Me senti em casa. O Seminário de Economia Austríaca, ouso dizer, teve palestras memoráveis com Joseph Salerno falando sobre a vida de Mises e Rothbard, o modo como os austríacos enxergam a ciência econômica e com Thomas Woods dissertando sobre a esquecida depressão americana de 1920-1921. Lew Rockwell, o lendário fundador do Mises Institute em Auburn nos EUA, respondeu perguntas polêmicas, como a falência das democracias modernas e a questão do Oriente Médio, com uma naturalidade e honestidade intelectual impressionantes. Aliás, nesse último ponto (oriente médio), eu discordo frontalmente do Mr. Rockwell.

Como senão bastasse, tivemos a família Friedman, David (filho de Milton Friedman) e Patri Friedman (neto) também fizeram ótimas palestras. David falou sobre a superioridade em termos de eficiência de um sistema privado de leis e Patri apresentou o polêmico, e maluco, Seasteading (as cidades “desmontáveis” no meio do mar), com, eu diria, uma consistência louvável dada a “exoticidade” da proposta.

Agora, a grata surpresa veio de casa mesmo. Fabio Barbieri e Ubiratan Iório, acadêmicos brasileiros e austríacos (é, isso existe!), ofereceram as palestras mais completas em termos teóricos – os temas foram calculo econômico no socialismo e processo de mercado (talvez empatados com Mark Thornton que falou sobre ciclos econômicos e bolhas). Outro momento especial foi o testemunho de Cleber Nunes, o mineiro que luta contra o governo para ter o direito de educar seus filhos em casa. Um verdadeiro herói. David Friedman recomendou que ele se mudasse para a Califórnia, onde o homeschooling é permitido. No almoço do IEE, onde comi um dos petit gateaus mais deliciosos que a minha memória me permite lembrar, fiquei na mesma mesa que ele e os dois filhos. Lucas Mendes, autor do blog “Austríaco”, escreveu um belo texto sobre a luta de Cleber. Para quem se interessar, eis o link.

Terminado o Seminário no Hotel Sheraton, começaria, na PUC-RS, a 23° edição do Fórum da Liberdade, cujo tema eram as “seis lições” de Ludwig Von Mises (uma referência ao livro de mesmo nome do economista austríaco). Sempre ouvi falar do fórum, mas não imaginava que era algo tão grande. E também não tinha noção do tamanho do IEE (para se ter uma idéia, digamos, do “poder” do Instituto, o atual vice governador era ou é da entidade). E o mais interessante, todos os filiados são muito jovens (devem ter menos de 35 anos). Ao contrário do Seminário de Economia Austríaca, o Fórum da Liberdade tem uma “fauna maior” de liberais – temos de “quase social-democratas” a anarco-capitalistas e isso ficou refletido nas palestras. Tivemos um Arminio Fraga claramente dizendo que não era liberal, até David Friedman arrasando o presidente do CADE no painel sobre Intervencionismo, dizendo com todas as letras como o governo só piorava as coisas regulando monopólios. O painel sobre Intervencionismo, aliás, foi um dos pontos altos do evento.

Por outro lado, algumas palestras foram lamentáveis como a de Carlos Ghosn, CEO da Nissan e Renault, que defendeu o salvamento de empresas do setor e a de Stephen Kanitz, que, além de uma arrogância do tamanho do mundo, estava mais perdido que peixe fora d’água; não sabia direito nem o significado de conceitos elementares como “mão invisível” e “mercado”. Confesso que senti vergonha alheia e mais, acho que quem era administrador de empresas sentiu vergonha dupla. Outro “perdido” foi o socialista João Quartim de Moraes. O sujeito participou do painel sobre socialismo e não sabia nem o que era liberalismo (era um daqueles que achava o PSDB o cumulo do tal “neoliberalismo”). Foi atropelado pelos outros palestrantes, os ótimos Rodrigo Constantino, que também participou do Seminário e Juan Fernando Carpío, que lamentou a situação do Equador, seu país de origem.

Se o melhor dos painéis foi David Friedman detonando com as regulações do governo e com o presidente do CADE, os pontos altos da parte mais solene foram os discursos do Hélio Beltrão, presidente do Instituto Mises Brasil ao receber o prêmio Libertas e o discurso de abertura de Luiz Leonardo Fração, presidente do IEE. O discurso do Hélio está aqui. Uma ode ao indivíduo e a liberdade, vale muito a leitura (detalhe, o discurso foi feito na frente de várias autoridades políticas, com destaque para o prefeito de Porto Alegre e o vice governador do Estado). O de Fração chegou a ter partes como “o direito de propriedade está acima dos direitos humanos”, o que gerou uma onda de chiliques socialistas pela internet (obviamente, ele se refere aos direitos humanos do PNDH-3 – Programa Nacional de Direitos Humanos, dado que direitos de propriedade não são direitos de árvores ou de pedras, são direitos humanos).

Acredito que o saldo final foi muito positivo. Mesmo o Seminário de Economia Austríaca, que foi um evento mais “reservado”, atraiu a atenção de jovens do Brasil inteiro. Me recordo de um estudante de economia que veio do Pará e outro do ensino médio de Leme, do interior de São Paulo. O site do Mises Brasil transmitiu o evento ao vivo pela internet e mesmo nos momentos de “problemas técnicos” devido à alta procura, alguns participantes fizeram “transmissões alternativas” por todas as comunidades liberais da internet. Um outro fato positivo, de cunho mais pessoal, finalmente conheci pessoalmente grandes cabeças do liberalismo que só tinha contato pela Internet. Ah, e como me disseram, as gaúchas realmente são lindas.

PS: Lew Rockwell escreveu sobre sua visita ao Brasil.

UPDATE (17/04/2009): Reportagens das revistas VEJA e Época sobre o seminário.

UPDATE (19/04/2009): Texto do IMB sobre os dois eventos, com fotos

Moeda, Juros e Deflação

[1] Atualmente, talvez nada seja mais temido na teoria macroeconômica do que a deflação - no sentido usual do termo, uma queda geral dos preços, ou inversamente, um aumento no poder de compra da moeda. Em termos estritamente teóricos, uma deflação não é nada muito diferente de qualquer ajustamento de preços. No caso especifico da deflação, o preço da moeda.

[2] Os agentes econômicos possuem uma certa "dotação inicial” de bens e precisam decidir como utilizar, alocar esses bens. Normalmente essa dotação inicial não é a melhor em termos de bem estar. Existem bens em quantidades superiores ao desejado e bens em quantidades inferiores. Para resolver esse problema, as pessoas trocam os bens "em excesso" pelos bens que estão "em falta". No entanto, um dos bens dessa cesta é diferente de todos os outros. Ele possui uma função especial, a de facilitar a obtenção de outros bens. O nome desse bem é moeda. Nós demandamos moeda principalmente porque nossa dotação inicial de bens é muito pouco diversificada. A maioria tem apenas "trabalho" (na verdade capacidade de trabalho) como parte dessa dotação. Nosso bem estar pode ser enormemente aumentado se nós trocarmos trabalho por uma infinidade de outros bens. Mas tal troca não é, inicialmente, tão simples quanto nós, felizes membros de uma sociedade moderna, imaginamos.

[3] Para um agente dotado de trabalho conseguir essa infinidade possível de bens ele teria que achar uma também infinidade de proprietários que queiram, naquele momento, exatamente o tipo de trabalho que o nosso heróico agente tem a ofertar. Seria uma tarefa ingrata, uma tarefa da qual a moeda nos liberta. Moeda é simplesmente um bem generalizadamente aceito, uma espécie de "coringa", que nos permite pegar qualquer bem no mercado (obviamente, desde que você tenha "coringas" suficientes). E as pessoas demandam moeda por essa facilidade, a facilidade de, por exemplo, um marceneiro não precisar às três da manhã, quando precisar de um remédio urgente, ter que achar um farmacêutico que queira uma cadeira.

[4] Quando falo em "demanda por moeda" é importante deixar claro que não estou me referindo a "demanda por dinheiro", onde dinheiro quer dizer "riqueza" ou renda. Nossa demanda por riqueza, i.e, bens no sentido mais geral, é infinita e insaciável. Senão fosse assim, bens não seriam escassos, não afetariam absolutamente em nada nosso bem estar e certamente seria uma tremenda perda de tempo nos preocuparmos com problemas econômicos (que, estritamente falando, nem existiriam). Demanda por moeda significa demanda por uma certa quantidade de um bem que é altamente "trocável", um bem que é aceito generalizadamente em troca de todos os outros bens. Numa economia moderna, esse bem é basicamente os papeizinhos que chamamos de "dinheiro" e saldos em conta corrente, sacáveis a qualquer momento com cartões de débito ou cheques.

[5] Todos nós temos que decidir quanto da nossa riqueza será alocado na forma desses papeizinhos e nessas contas (chamadas comumente de depósitos à vista). E temos que fazer isso porque nosso bem estar aumenta quando temos a nossa disposição esse serviço de "troca instantânea" que a moeda nos oferece. Nosso bem estar aumenta em sabermos, por exemplo, que no caso de uma emergência, de uma situação inesperada, temos bens que nos permite obter qualquer outro bem que necessitarmos, sem precisarmos sair atrás de alguém que queira especificamente aquilo que produzimos como ofertantes. Em “linguagem econômica”, a moeda presta serviços como diminuição do custo de transação (ou como alguns chamaram "custo de sola de sapato") ao eliminar a famosa "dupla coincidência de desejos" do escambo e também nos "segura" contra riscos (o exemplo da emergência das três da manhã do marceneiro).

[6] Mas como todo serviço vendido em mercados, existe um preço a se pagar. A não ser que você seja o presidente do Banco Central, é necessário ofertar bens para obtermos moeda. Esses bens que ofertamos são o preço da moeda. O marceneiro oferece cadeiras em troca de moeda. O padeiro pão, o professor aulas e assim por diante. É importante atentar para o seguinte: ninguém está interessado na quantidade física de moeda e sim em uma determinada quantidade de poder de compra. Eu não vou preferir R$5 em 5 notinhas de R$1 a R$10 composto por uma nota de dez, só porque no primeiro caso são 5 papeizinhos e no último só 1. Quando qualquer agente demanda mais moeda, ele não está interessado em mais papeis, ele está interessado em mais poder de compra a sua disposição, ou como muitos economistas de mercado dizem, mais "liquidez". Para obter esse maior poder de compra, ele só tem uma alternativa: restringir sua demanda e aumentar sua oferta de bens. Se todos os agentes se comportarem assim, nós teremos uma tendência de queda no preços dos bens, ou seja, será necessário menos moeda (poder de compra) para comprar o mesmo bem e a razão é a simples aplicação da lei da oferta e da demanda: está ocorrendo um aumento da oferta de bens e uma diminuição da sua demanda. A essa diminuição do preço dos bens, é comumente dado o nome de deflação.

[7] A primeira pergunta que devemos nos fazer é simples: porque os agentes demandam mais moeda? A resposta mais simples, e talvez esclarecedora, que podemos dar é: porque isso aumenta seu bem estar. Ninguém está sendo forçado a demandar mais moeda. As pessoas o fazem voluntariamente. E ninguém faz algo voluntariamente para diminuir seu bem estar. Quando os agentes econômicos desejam aumentar seus encaixes, existem duas possibilidades: eles podem aumentar esses encaixes com mais notas, mais papeizinhos ou podem ficar com até menos papeizinhos, desde que cada papelzinho compre mais bens. A comunidade como um todo não tem a primeira opção, porque o aumento físico do encaixe de um agente corresponde a uma diminuição de igual montante no encaixe de outro agente. É um jogo de "soma zero" - o aumento de um vem da diminuição, no mesmo montante, do outro. Já a segunda opção (aumento do poder de compra da moeda) é a deflação. A deflação “aumenta” o bem estar da comunidade ao permitir que ela aumente os seus encaixes voluntários. Obviamente, existe uma terceira possibilidade: a da quantidade física de moeda aumentar e aí, teríamos de volta, também para a comunidade, a possibilidade de aumentarmos os encaixes sem uma alteração no preço da moeda. O ponto principal é que não há nada intrinsecamente ruim na deflação, muito pelo contrário. Ela é o meio pelo qual os agentes podem aumentar seus encaixes em um mundo onde a oferta de moeda é constante (ou pouco elástica a variações de preço). Dado que aumentos de encaixes são voluntários, a possibilidade de se fazer isso quando se desejar, aumenta o bem estar dos agentes.

[8] Um detalhe importante em toda essa discussão é não se deixar confundir pela expressão "aumentar a oferta de moeda" e considerar que aumentar a oferta de moeda seria tão benéfico quanto, por exemplo, aumentar a oferta de bananas. Como já foi dito, o bem que os agentes estão demandando não é papeis pintados de verde com números na frente, mas sim poder de compra. Dado que a deflação propicia o mesmo poder de compra ótimo desejado pelos agentes, que um suposto aumento da oferta de moeda geraria, não há base (com esses argumentos) para afirmar que é melhor saciar o aumento da demanda por moeda com um aumento da oferta, no lugar de um aumento do seu preço. Veja que no caso de outros bens, como bananas, a quantidade física desses bens é relevante, por isso aumentos de oferta desses bens se traduzem em um aumento do bem estar. No caso da moeda não. Qualquer quantidade física de moeda pode gerar qualquer quantidade de poder de compra (ou, numa outra terminologia "moeda real").

[9] Dito o básico sobre oferta e demanda por moeda, podemos especular sobre uma das relações mais confusas e mal esclarecidas da economia moderna: a relação entre juros e moeda. Reparem que chegamos até aqui sem nem ao menos tocar no assunto juros, algo bem diferente do que ocorre nos manuais modernos (nem tão modernos) de macroeconomia, onde a taxa de juros aparece como o preço que equilibra demanda e oferta de moeda. Eu considero isso um erro e o erro básico é uma misteriosa separação entre as decisões sobre consumo, quantidade de moeda e poupança herdada da economia keynesiana. Na maioria desses modelos, o consumo e, portanto, a poupança, são determinados pela renda do individuo e a misteriosa "propensão marginal a consumir" que Keynes tirou da sua cabeça confusa sem maiores explicações.

[10] Veja que a noção de preferência temporal, de que os juros são o preço que governa consumo presente e consumo futuro, é deixada de lado. Os juros passam a determinar, dentro do montante poupado que já foi previamente dado pela "propensão marginal a consumir", o quanto vai para moeda e o quanto vai para "títulos". Deixando o agente com a escolha apenas entre títulos e moeda, é derivada a tradicional demanda por moeda dos livros textos: um aumento do preço dos títulos i.e, uma queda dos juros (dado que juros é definido como valor de face dividido por preço do título), diminui a demanda por títulos - como seria com qualquer bem. Mas diminuir a demanda por títulos, significa aumentar a demanda por moeda pois, misteriosamente, o agente só pode escolher entre moeda e títulos. Imagine que, nesse modelo, o preço dos títulos está acima do preço de equilíbrio, o que significa dizer que a taxa de juros está abaixo do equilíbrio. Se os preços dos títulos estão acima do equilíbrio, há uma oferta de títulos maior que a demanda. O espelho disso é uma demanda por moeda maior que sua oferta. Assim, o preço dos títulos começará a cair (taxa de juros subir) levando a uma diminuição da oferta de títulos. Mas diminuir a oferta de títulos significa diminuir a demanda por moeda, afinal, o agente só troca títulos por moeda. Quando o preço dos títulos atingir o equilíbrio (e conseqüentemente a taxa de juros), a oferta de títulos será igual a demanda, o que implica em dizer que a demanda e oferta de moeda também serão iguais. Esse é o famoso mecanismo que gera o "clássico" equilíbrio do mercado monetário apresentado nos livros textos de “inspiração keynesiana”.

[11] De toda essa história, é verdade que aumentos / quedas de juros gerarão quedas / aumentos da demanda por moeda, mas não é verdade que aumentos / queda da demanda por moeda gerarão aumentos / quedas de juros. Sobre a primeira parte, se a taxa de juros aumenta, aumenta o custo de oportunidade por "não poupar", isso significa que aumenta o custo de oportunidade de consumir e de manter moeda (dado que nenhum dos dois "pagam" juros). Veja que aqui não fazemos nenhuma restrição à cesta que o agente pode escolher. Ao contrário do modelo keynesiano, não é feita uma escolha inicial entre consumo e poupança (que independe dos juros nesse modelo) e depois, dentro da poupança, uma escolha entre títulos e moeda. O agente, com base nos preços de mercado, incluindo a taxa de juros, escolhe "tudo", de maneira conectada, a fim de obter o maior bem estar possível.

[12] Mas e a outra relação, de moeda para juros? Se a demanda por moeda aumentar, os juros subirão, servindo como "preço" para equilibrar oferta e demanda nesse mercado? A resposta é não. Aumentos da demanda por moeda não têm relação com a determinação da taxa de juros (lembrando; taxa de juros real, já que taxas de juros nominais dependem da inflação, que por sua vez, é gerada pela relação entre demanda / oferta de moeda). Os juros reais são determinados pela proporção entre consumo e poupança, ou seja, pela preferência temporal dos agentes. Aumentos e quedas da demanda por moeda não alteram necessariamente essa relação. Um aumento da demanda por moeda pode ser "financiado" por uma diminuição do montante poupado, o que levaria a um aumento da taxa de juros, como também pode ser financiado por uma diminuição do consumo, que levaria a uma queda da taxa de juros (o oposto do diagrama keynesiano). Há ainda a alternativa de financiar esse encaixe maior com uma diminuição "igual" entre consumo e poupança (mantendo a proporção entre os dois), o que deixaria a taxa real de juros inalterada. Não há ligação direta de demanda por moeda para juros.

[13] Voltando a questão da deflação, note que não faz o menor sentido o temor keynesiano por "entesourar moeda". Para os keynesianos, moeda entesourada é "renda vazada" do famoso fluxo circular da renda que supostamente é a base do funcionamento do capitalismo. Quando a poupança é transformada em compra de títulos, de certa forma, as empresas ainda "recebem" de volta a renda não consumida dos agentes, o que não ocorreria no caso da moeda. Logo, de cara temos um erro evidente: não existe moeda "não entesourada". Toda moeda, em qualquer instante do tempo, está sempre "entesourada" no encaixe de algum agente. O que alguns economistas chamam de "circulação da moeda", não é nada mais do a transferência de moeda entesourada de A, para o entesouramento de B. Outro erro mais grave é não compreender o próprio serviço produtivo que a moeda gera. A moeda é um bem justamente porque podemos "entesourá-la" a fim de evitarmos custos e risco, como foi explicado no começo do texto. Ela é algo que desejamos para guardar, manter em nossas carteiras, não para ficar "circulando" seja lá o que isso signifique.

[14] Além de tudo o que foi dito, não há nada de "socialmente nocivo", "economicamente prejudicial" quando alguém no lugar de "poupar" comprando títulos prefere guardar moeda em baixo do colchão. Os bens poupados, não consumidos pelo nosso “conservador poupador”, continuam fisicamente intactos, nas prateleiras dos estabelecimentos comerciais prontos para serem usados como bens de capital em um alargamento da estrutura de produção da economia. A única diferença é que, dado o aumento da demanda por moeda, os preços nominais serão mais baixos do que senão tivesse havido tal aumento. Também é invalido argumentar que poupar colocando dinheiro embaixo do colchão não baixa a taxa de juros e conseqüentemente não produz o equilíbrio entre investimento e poupança. Como explicado no texto “Um pouco sobre a teoria austríaca do capital”, os juros estão por toda a economia, não são simplesmente um "preço" formado no mercado de títulos. Todos os estágios de produção, de banana a computadores, podem ser encarados como "títulos" onde se paga um preço inicial e no final de um período se recebe um dado "valor de face" (com o juro sendo essa divisão entre Pt / P0).

[15] Por último, como uma espécie de ataque à deflação temos o famoso "paradoxo do juro zero". Imagine uma economia em equilíbrio, ou seja, com uma taxa natural de juros perpassando toda economia (uma taxa de retorno igual em todos os setores da economia). O que aconteceria se nós tivéssemos uma deflação maior que essa taxa de juros natural? Ou, em outras palavras, se teoricamente os juros nominais fossem "negativos" (taxa de juros real + inflação seria menor que zero, porque o último é negativo, porém maior em módulo que o primeiro termo). Essa "suposição" consegue reunir todos os piores erros de economia monetária em uma coisa só. Quando alguém pergunta isso, ele está imaginando duas "teorias": 1) uma grande deflação precisará elevar a taxa de juros real, pois o juro nominal não pode ser negativo, o que significa que isso traria implicações negativas ao crescimento. 2) A versão keynesiana catastrófica: o sistema econômico tende a se desintegrar já que como a moeda passa a "pagar juros", ninguém mais compra títulos ou bens de consumo, "secando" o fluxo circular de renda, fazendo com que essa renda não "volte" para as empresas que deixarão de investir, demitirão todos, instalando o apocalipse na terra.

[16] Para começar a responder essas objeções, é preciso lembrar o sentido causal dos fenômenos econômicos (algo que o mainstream econômicos, geralmente, despreza). Nenhum acontecimento econômico é "sem causa". Só está ocorrendo uma deflação, porque as pessoas estão aumentando seus encaixes, sua demanda por moeda (e a oferta de moeda está fixa ou não cresce tanto quanto a demanda). Como já foi dito, não há absolutamente nada de "nocivo" nisso, muito pelo contrário, dado que é uma escolha, um ato voluntário, o bem estar dos agentes econômicos aumenta com o sucesso dos "fins escolhidos" e a deflação, que eleva o poder de compra da moeda, é o meio pelo qual se torna possível aumentar esses encaixes.

[17] A deflação, portanto, não é um “karma da natureza”, ela é causada por agentes tentando aumentar seu bem estar. Quando os agentes econômicos obtiverem o nível ótimo de moeda, o equilíbrio entre demanda e oferta de moeda se restabelecerá e os preços deixarão de cair. Nesse tema, a diferença fundamental entre, inflação-deflação e juros é que o primeiro é um ajuste, ocorrerá enquanto houver diferenças de demanda e oferta de moeda, conseqüentemente deixará de “existir” quando essa disparidade acabar. Já o juro não é um sintoma de desequilíbrio, ele é o próprio preço que equilibra ofertas e demandas ao longo do tempo. Dito isso, se os agentes esperam uma alta deflação (ou seja, um aumento do preço da moeda no futuro), não há razão para que eles fiquem sentados, esperando essa deflação para comprar moeda mais cara no futuro. A demanda por moeda aumentará hoje e a deflação esperada se tornará uma deflação atual, ocorrerá hoje, agora, para permitir o aumento dos encaixes dos agentes. Realizado esse aumento, ela (deflação) cessa e não altera em absolutamente nada a rentabilidade de qualquer investimento na economia. Obviamente, todos os preços serão nominalmente mais baixos, mas a diferença entre custos e receitas será a mesma de antes, não causando alterações “reais”.

[18] Independente de tudo isso, e “divagando” um pouco mais, as pessoas não demandam moeda para comer, beber ou dormir nelas. Elas demandam moeda para comprar outros bens, bens que são escassos. Não faz sentido algum, portanto, que moeda seja a coisa mais “desejada do mundo” e ninguém queira bem algum. Se assim ocorresse, nós não teríamos nenhum problema relevante se a produção desses bens caísse, afinal, nós não queremos esses bens. No limite, qualquer bem deixaria de ser escasso e viveríamos em um paraíso venerando nossas moedinhas (ou tentando comê-las). Demandar moeda, manter um encaixe, implica custos e um deles é a “utilidade perdida” por escolher moeda e não bens presentes ou bens futuros. Em um determinado ponto, a utilidade marginal da moeda se igualará as demais utilidades de consumo presente e consumo futuro, o que cessa o desejo por mais moeda dos agentes. Seja lá com que quantidade de moeda e consumo esse equilíbrio ocorrerá, em comparação com a situação de desequilíbrio anterior, o agente estará melhor, seu bem estar terá aumentado (caso contrário ele não se moveria de uma cesta para outra).

[19] Assim, ao contrário do que muitos dizem, a deflação não é um “monstro” que deve ser evitado a qualquer custo. O maior problema causado pelas deflações tem outra origem, o governo. O exemplo típico é a rigidez de preços, principalmente de salários. No Brasil, por exemplo, é proibido baixar salários nominalmente. Se ocorrer uma deflação, dado que o salário nominal está travado, teremos um aumento do salário real o que implica em uma demanda por trabalho menor e conseqüentemente desemprego no curto prazo. Mas esse desemprego não é causa natural da deflação. Se os preços não sofressem a intervenção do governo, o salário nominal cairia, mantendo o salário real inalterado e conseqüentemente o equilíbrio do mercado de trabalho.

[20] Para efeitos práticos, esse medo injustificável da deflação vem sendo usado para algo muito pior: a promoção da inflação. Como Mises dizia, a deflação, como problema econômico, é “inofensivo”, pois nenhum governo estaria disposto a torrar seu orçamento em uma política monetária deflacionária, anti-popular, que beneficia os credores em detrimento dos devedores (e geralmente o governo é o maior devedor da economia). Mas, ao contrário, todo governo tem um forte incentivo para promover a inflação; e o medo popular da deflação, fomentado por exércitos de economistas, é um desses incentivos. Eu não sou um “deflacionista”, no sentido de advogar qualquer política monetária (seja 100% de reserva, padrão ouro, congelamento da base etc..) que vise à deflação – entendida como variação negativa do “nível de preços”. No entanto, mesmo para os não deflacionistas é importante desmistificar o tema. É uma arma a menos para os inflacionistas, esses sim, bastante perigosos e, infelizmente, poderosos.