sábado, 25 de dezembro de 2010

Comentário “filosófico” - II: Livre arbítrio, identidade e causalidade

[1] Em um texto passado falei sobre uma divisão em filosofia que considero bastante sem sentido, a divisão entre “contingência” e “necessidade”. De forma simplificada, a explicação para essa separação é a seguinte: “seres contingentes” seriam aquelas “coisas” que são de um jeito, mas poderiam ser de outro; elas são o que são “por acidente”, pelo acaso ou porque Deus assim o quis. “Seres necessários”, pelo próprio nome, são necessários, não existe “alternativa imaginável” a sua existência. Para exemplificar, um quadrado ter quatro lados é um “fato necessário”, afinal quadrado significa ter quatro lados (iguais) – é inconcebível algo diferente, como um quadrado que não tem quatro lados, mas, digamos, patos podem ser verdes (não existem patos verdes – bem, alguém pode ter pintado algum – mas não seria inconcebível eles serem verdes por natureza).

[2] Basicamente naquele texto eu neguei que existissem fatos/seres “contingentes”. Se fosse para necessariamente (sem trocadilhos) usar tal divisão, todos os existentes e ações, que não incluíssem escolhas humanas, são “necessários”, porque são algo e necessariamente ser algo implica uma dada “identidade” e um correspondente modo de ação. Não há alternativa, algo é o que é e só age de acordo com o que é. Geralmente os filósofos usam o termo “lei da identidade” para a questão do “ser” é “ser algo” (e não outra coisa) e “lei da causalidade” para a questão do ser algo implica em agir de acordo com o que se é (uma bola não pode sair por aí dando bom dia). Comumente é chamado de “determinista” aquele que defende que tudo o que existe (pelo menos dentro de um certo espaço de tempo) não é produto de acaso, mas sim da natureza (i.e, da identidade) de existentes anteriores – um parênteses importante: falei em “um certo espaço de tempo” para não cair na famosa discussão sobre “quem deu ou como foi a origem da existência”. Voltando ao determinismo, uma explicação mais abertamente determinista seria: tudo que é, teria necessariamente que ser assim porque o que gerou o atual estado de coisas tinha uma dada identidade e só podia agir de acordo com essa identidade. Não havia outro “caminho” – daí o termo determinismo já que a natureza das entidades pré-existentes determinam como elas vão agir e consequentemente o que virá a existir.

[3] O grande problema daqueles que geralmente são chamados de “deterministas” é a inclusão, eu diria, um tanto distorcida das escolhas humanas nessa visão de que “tudo é determinado pela natureza da entidade que age”. Além disso, há também uma confusão sobre a própria lei da causalidade, voltarei a essa confusão mais tarde. Os liberais mais “filosóficos” ficam um tanto órfãos nesse assunto porque se encontram rodeados de posições que teoricamente não se encaixam bem na sua “visão de mundo”. De um lado, estão os deterministas “radicais” que dirão algo do tipo: escolhas humanas são ilusórias, essa idéia faz parte de um período “místico”, quando religiosos dominavam a filosofia e as ciências. Não existe “livre arbítrio”, o que existe são apenas reações químicas que determinam o que você irá fazer ou “escolher”. Do outro lado estão os “relativistas” e “místicos radicais”; os primeiros negam qualquer realidade objetiva – tudo é fruto da nossa subjetividade, determinado socialmente – X é X porque “convencionou-se” isso, mas X poderia ser Y ou Z se acontecesse um “evento social” que alterasse essa convenção (é uma negação da idéia de que as coisas possuem uma identidade, são objetivas, não fruto da nossa subjetividade). Já os místicos radicais vêem o mundo (universo) como o “grande playground” de um Deus bastante “intervencionista”. Dentro dessa visão, um terremoto não foi causado pelo movimento de placas tectônicas etc..etc.. foi um “castigo de Deus”. Os místicos radicais acreditam que o que existe é fruto do poder de uma “consciência superior”, logo sem uma natureza definida. Se essa “consciência superior” quiser fazer nevar na Amazônia, ela fará, independente de considerações sobre clima que afirmam ser impossível nevar lá.

[4] Para completar, há ainda uma terceira posição que tem muitos adeptos entre “conservadores/liberais” não ateus: essa terceira posição não nega que as entidades possuem uma natureza e agem de acordo com essa natureza, mas que é assim porque Deus quer. E assim como Deus fez o mundo desse jeito, ele também fez uma “entidade especial” chamada homem que não se enquadra totalmente na lei da identidade e da causalidade, pois Deus deu ao homem o livre arbítrio, o “poder de escolher”. Como se pode ver, tal posição é uma variação mais “racional” do misticismo radical e se encaixa como uma luva em posicionamentos liberais com forte teor religioso, pois mantém basicamente os dois pilares de uma doutrina liberal: a objetividade (a noção de que A é A, que existe o certo e o errado independentemente da “consciência” de cada um ou de convenções sociais) e a noção de livre arbítrio (que no fundo, é a fonte do ideal de liberdade), ao mesmo tempo reforça a necessidade de Deus. Poucos liberais filósofos tentaram conciliar, de forma não religiosa, a questão do livre arbítrio com a lei da causalidade / identidade. Que eu me recorde, dos mais “famosos”, apenas Ayn Rand e Murray Rothbard entraram explicitamente na questão entre “mundo determinista” versus escolhas humanas (pelo próprio campo de atuação, a primeira falou mais do tema que o segundo).

[5] Apresentado o problema o que tentarei argumentar (de forma breve) é que livre arbítrio não implica em violação da lei da identidade ou da lei da causalidade. Também falarei sobre a existência do livre arbítrio, que é negada, como foi mencionado, por deterministas e outras linhas de pensamento, geralmente inimigas da liberdade como o “behaviorismo”. Muito do que eu direi aqui, obviamente, não é “original”, já foi dito por alguém (principalmente por gente como Rothbard, Ayn Rand, Mises etc..), a diferença é que direi por mim, da maneira que entendo essas teorias / argumentos. Não estarei falando por nenhuma escola filosófica, econômica ou mesmo por corrente liberal.

[6] Começando do inicio, a existência do livre arbítrio não pode ser “provada”, no sentido convencional em que usamos a palavra “prova”, simplesmente porque ele (livre arbítrio) é a base de qualquer prova, ou seja, ele é o que as pessoas costumam chamar de “axioma” (ou, dependendo do filosofo/teórico, um “dado a priori” ou ainda um “conceito axiomático”). Uma prova, basicamente, é o ato de fazer regredir logicamente uma proposição ou um conceito de certa complexidade até algo “básico”, “evidente”, algo inescapável, i.e, impossível de ser negado. Mas vejamos porque o “livre arbítrio” se encaixa nessa categoria de “axioma”. Imagine que um teórico determinista diga o seguinte: “o livre arbítrio não existe, tudo o que você faz não faz porque escolheu, porque quis, mas sim porque reações químico-biológicas determinam que você siga um caminho predefinido”. A primeira pergunta a ser feita a ele é: ora, então porque você está argumentando isso comigo? Se o que eu faço, acredito, penso etc.. supostamente é determinado por reações químicas, não é um ato de escolha em focar ou não focar minha mente em determinado assunto, de realizar ações de acordo com meus pensamentos e valores adotados por entender que são corretos, não há nem como e nem porquê me convencer que outro caminho é o correto, que eu devo adotar outra teoria, simplesmente porque está fora do meu escopo escolher, inclusive escolher o que eu devo seguir, que teoria eu acredito ser correta. A própria tentativa de um teórico determinista/behaviorista tentar convencer alguém de que a teoria dele é correta obviamente implica que as pessoas possam decidir se “adotam” ou não essa teoria, implica em aceitar que elas podem escolher se direcionam sua mente para ouvi-lo, dar-lhe alguma atenção, implica em aceitar que elas podem escolher se verificam e analisam os méritos dos seus argumentos e consequentemente se agem ou não de acordo com tal teoria se entenderem que essa teoria é verdadeira ou não.

[7] Não faz sentido algum argumentar com ou tentar convencer algo (ou alguém) que não tenha livre arbítrio, que não pode escolher. Ninguém vai tentar argumentar com o coração para que ele pare de bater porque é inútil fazer o que ele faz ou ainda para bater mais rápido porque faria seu trabalho melhor. E o mesmo vale para todos os outros seres vivos que conhecemos. Só o homem tem a capacidade de escolher, de ser “auto-consciente”, de decidir os rumos que toma, enfim, só o homem tem livre arbítrio. Dito isso, é bem óbvio porque qualquer “prova” e na verdade qualquer conhecimento e pensamento (incluindo suas validações) pressupõe o livre arbítrio. Uma prova, como foi dito é a redução de uma proposição ou um conceito complexo em algo “irredutível” ou “mais evidente possível”. Para provar algo você primeiro precisa conhecer certas coisas e para conhecer certas coisas precisa de um mínimo de pensamento. Você precisa focar sua mente na descoberta da natureza de uma certa entidade e validar essas informações que você adquire checando-as com outras informações que você descobriu anteriormente (i.e, vendo se não são contraditórias) e assim validando seu conhecimento, i.e, realizando uma “prova”. Nada disso seria possível se você não tivesse o controle da sua mente, senão escolhesse em que focar, quando focar e finalmente, se você não pudesse “barrar” o que está errado, é contraditório e “aceitar” o que está correto, assim seguindo em frente.

[8] Mas mais que isso, validar seu conhecimento ou provar algo só é necessário para alguém que pode escolher o que fazer. Se você não escolhe, tudo é determinado fora do seu campo de consciência, “de vontade”, seja lá a correção do caminho adotado não há o que fazer em relação a isso. Dizer a um musculo que ele está errado em fazer e argumentar sobre isso com ele é inútil. Só “entidades” que tem o poder de escolha necessitam de provas, de validação de seu conhecimento, de argumentação, justamente porque elas precisam saber o que é correto para poderem escolher um caminho não destrutivo. Qualquer prova, portanto, qualquer validação de conhecimento implica em livre arbítrio, implica em podermos decidir se algo é valido e se, portanto, precisa ser levado em conta ou não. Músculos, pedras, macacos, cachorros, cobras não precisam dessas coisas porque são movidos por instintos, não por escolhas, i.e, não possuem livre arbítrio.

[9] Como foi dito anteriormente, os parágrafos anteriores não são, estritamente falando, uma prova do livre arbítrio, mas sim o seu estabelecimento como axioma, como uma espécie de “hipótese implícita” em toda validação de conhecimento, em toda prova. Uma prova pressupõe o livre arbítrio, i.e, alguém que escolhe, que decide se algo será levado em conta ou não no seu pensamento e nas suas ações, alguém que necessite validar o seu conhecimento porque pode escolher o que fazer, porque não tem um caminho “pré-determinado”. É impossível provar algo que precisa ser verdadeiro para as provas serem válidas (válidas como forma de determinar a correção ou não de um dado conhecimento).

[10] Estabelecida a validade do livre arbítrio, podemos passar para a questão da natureza/identidade de uma entidade, no caso, seres humanos e a possibilidade de escolher. O “puzzle” entre essas duas coisas, geralmente é apresentado da seguinte forma: o homem tem uma certa natureza, uma determinada identidade, logo precisa agir de acordo com essa identidade, suas ações portanto são determinadas pela sua natureza, logo 1) ou o livre arbítrio não existe 2) ou o homem é uma violação da lei da causalidade porque ele escolhe e como escolha o que ele faz não tem que “ser necessariamente de uma dada forma”, o que ele faz é fruto de uma dada escolha, é “livre”.

[11] Esse tipo de puzzle também é apresentado frequentemente em “campos menos abstratos” como economia. Para fins de ilustração, peguemos o tradicional modelo onde agentes econômicos escolhem as cestas de bens que maximizam sua utilidade sujeito a uma dada restrição orçamentária. Não é incomum a pergunta: mas como podemos falar em escolha se está predeterminado que o agente sempre “escolhe” o que maximiza utilidade ou se ele sempre iguala as razões entre utilidades marginais e preços para todos os bens? Não há escolha, há sim “determinismo”. O argumento pode ir mais longe ainda ao negar que exista qualquer possibilidade de construção de uma ciência da escolha (economia), porque ciência pressupõe o conhecimento de relações determinadas e “constantes” entre variáveis que é absolutamente tudo que não há em algo que é realmente uma escolha, em algo que “não necessariamente tem que ser de algum modo”.

[12] Antes de continuar, é importante esclarecer uma certa confusão sobre a lei da causalidade (a confusão mencionada no começo do texto). A lei basicamente é um “corolário” da lei da identidade (segue diretamente desta). Se algo existe esse algo é alguma coisa, tem uma identidade. Existência é identidade. Se esse algo é alguma coisa, ele precisa agir de acordo com o que ele é, ele não pode agir “contra a sua natureza” ou “aparte dessa natureza” porque ele existe e “ser” é “ser alguma coisa” (algo que age aparte de sua natureza não teria identidade, portanto não seria nada, não existiria), logo, suas ações são determinadas ou “causadas” pela sua natureza, pela sua identidade. Veja que a ênfase é na “ação de uma entidade” e não na entidade em si. Muitas entidades podem ter causas ou terem sido causadas (por exemplo, a nossa lua provavelmente foi gerada pelo choque de um grande meteoro com a Terra), mas a lei da causalidade não afirma que toda entidade seja causada (ou tenha causa), o que ela afirma é que toda ação é causada e é causada pela natureza da entidade que age. Não há nada necessariamente sendo dito sobre a natureza em si da entidade que age. A natureza da entidade é e simplesmente é. Obviamente, em muitos casos podemos conseguir rastrear “porque” certas entidades existem, como elas surgiram, mas uma suposta falha em obter essas respostas não significa uma violação da lei da causalidade e mais importante ainda, o fato de não existir (metafisicamente) causa para uma entidade não implica em invalidação da lei da causalidade. Tal lei se refere à ações de entidades, não as próprias entidades.

[13] Estou falando tudo isso porque, segundo alguns, existe no âmbito da discussão do livre arbítrio uma espécie de “problema da primeira causa” como existiria quando se discute a existência do universo. Quem causou o universo? Alguém pode responder, sem muito sucesso, o Big Bang! A pergunta então se torna quem causou o Big Ban (ou quem/o que colocou a tal “singularidade” que gerou o Big Ban)? Essas perguntas refletem a visão distorcida da lei da causalidade que mencionei anteriormente. Elas entendem que a lei da causalidade diz que “entidades necessariamente precisam ser causadas”. Elas não precisam ser causadas, são suas ações que são. No âmbito do livre arbítrio a pergunta se torna: o que causa a consciência? O que causa o livre arbítrio? Livre arbítrio e consciência são atributos de uma dada entidade, são parte da sua natureza e consequentemente da sua identidade, logo não precisam ser causadas e uma falha em achar qualquer causação para essas coisas não significa uma invalidação da lei da causalidade simplesmente porque em termos de causação de entidades, a lei é “opcional” (na verdade não é uma lei). Novamente, a lei da causalidade se refere à ações, não ao autor da ação.

[14] Muitas pessoas tem grande dificuldade em aceitar que certos existentes podem não ter causa. A maioria pára na famosa questão: quem ou o que criou o que existe sem perceber que tal pergunta não faz sentido algum. Para fins desse texto, em termos de lei da identidade e de lei da causalidade ambas as leis são “consequência” da existência de algo (A é A – i.e, existe e é algo e age de acordo com o que é), logo é completamente sem sentido se perguntar sobre “a causação da existência” ou “quem causou a existência”. Antes da “causação” é necessária a existência, pois é dela que se deriva tal lei. Por mais óbvio que seja: não existe causa e identidade sem existência.

[15] Explicado essa característica da lei da causalidade, temos então que o livre arbítrio não é o que precisa ter uma causa, ele simplesmente é parte da identidade da entidade chamada “ser humano”. Tal parte dessa natureza produz, “causa”, o que chamamos de escolha, de ações humanas. Mas essas ações humanas, por serem frutos de escolha, terem como causa o poder do homem de decidir o caminho que deseja, não teriam uma natureza, uma identidade definida? Como tudo o que existe a resposta é sim, elas tem (veja que falei que tudo que existe tem identidade e não em ter causa). O estudo da natureza das escolhas basicamente se divide nos campos da economia, da psicologia e da ética. O primeiro campo trata do aspecto positivo das escolhas, como elas de fato são, sua natureza, não sobre seu conteúdo especifico, mas sim seus aspectos gerais. A psicologia tenta explicar porque o conteúdo especifico é aquele e não outro (embora eu acredite que fracasse completamente nesse quesito. Até aqui a economia se mostra mais relevante). Já a ética estuda qual o conteúdo especifico que as escolhas deveriam ter.

[16] Para fins de ilustração sobre a natureza das escolhas, peguemos duas leis econômicas, a lei da utilidade marginal decrescente e a “maximização de utilidade”, ou mais correto, o principio de que toda ação visa um estado de satisfação maior. Esse último é bastante óbvio se nos perguntarmos: dado que uma pessoa não foi forçada, se ela age da forma que age, o faz porque espera ficar melhor do que estaria senão agisse dessa forma. Absolutamente nenhuma ação humana, independente do conteúdo concreto que venha a ter, não segue tal “lei”, portanto, é inteiramente “determinista” nesse sentido. O grau de determinação de uma dada escolha humana, dado os meios de observação e analise que temos, é esse. Nada viola nem a lei da causalidade e nem a lei da identidade. E é assim dada a natureza do homem, de possuir livre arbítrio.

[17] A lei da utilidade marginal decrescente é outro exemplo. Dado um estoque de X “unidades relevantes” do bem A, a utilidade da X-ésima unidade é menor do que a utilidade da X-1ésima unidade, que por sua vez é menor que a utilidade da X-2ésima e assim por diante. Em termos mais concretos, suponha que você tenha uma laranja e as alocações possíveis são: alimentação própria, plantação e alimentação do cachorro. É óbvio que você irá alocar a sua única laranja naquele uso que lhe dá maior bem estar. Para fins de exemplo, suponhamos que seja na alimentação própria. Imagine que caminhando você encontra outra laranja. Você já tem uma laranja para alimentação própria, que é o uso que lhe dá mais bem estar, assim você alocará a laranja adicional no “segundo uso mais urgente”, que suponhamos seja a plantação. Essa é a lei da utilidade marginal decrescente. As laranjas adicionais serão usadas para saciar usos menos urgentes que as anteriores, logo terão utilidade cada vez menor. É outra característica de qualquer escolha humana, faz parte da “identidade” das ações humanas e é completamente “determinado”. Faz parte do famoso “tem que ser assim”.

[18] Isso significa que escolhas humanas são como quaisquer outras ações de outras entidades? Depende o que se quer dizer com “ser como quaisquer outras ações”. Como quaisquer outras ações elas têm uma causa, no caso, o livre arbítrio, i.e, a natureza da entidade que age (nisso são exatamente iguais a outras ações e cumprem fielmente a “lei da causalidade”). E elas também têm uma identidade, como quaisquer outras ações de outras entidades (i.e, elas são alguma coisa). O ponto chave é que essa identidade não é igual a identidade das ações de outras entidades; por elas serem fruto do livre arbítrio há uma imprevisibilidade do seu conteúdo concreto porque esse conteúdo concreto depende de uma infinidade de processos mentais e valorações que ninguém pode ter acesso, em suma, elas dependem do livre arbítrio. Elas são escolhas e como escolhas, em termos de conteúdo concreto, não precisariam ser necessariamente o que foram. Mas isso não é o mesmo que dizer que “a sua natureza é não ter natureza” ou “sua identidade é não ter identidade”. Nós demos dois exemplos de características imutáveis, determinadas, presentes em toda escolha, em toda ação “causada” pelo livre arbítrio. Basicamente toda a chamada “economia austríaca” (ou, mais especificamente, economia misesiana) é um exemplo dessa natureza “fixa” e previsível das escolhas humanas. A economia é a revelação dessa natureza.

[19] Por fim eu gostaria de comentar a famosa tese de que “a natureza do homem é não ter natureza”. Essa é a conclusão mais comum de quem acredita que o livre arbítrio é uma exceção à lei da identidade e da causalidade (essa última no caso das ações). Em termos mais concretos, muitos dizem: veja o suicídio, ele é a prova mais cabal de que o homem não está “preso à uma natureza” ou ainda de que ele pode agir “contra sua própria natureza”.

[20] Primeiro, como já foi dito, não ter natureza é não existir. Se algo existe esse algo é alguma coisa, ou seja, tem uma identidade, uma determinada natureza. Algo que não tem identidade não é nada, logo, não existe. Certamente quem diz que o homem não tem natureza ou, parnasianamente que “sua natureza é não ter natureza”, não está querendo dizer que o homem não existe. Ou a pessoa não compreende o conceito de natureza, de identidade ou o que ela quer é “carta branca” para negar o que existe, o que é. Ela não quer levar em conta o “objetivo”, quer se refugiar no puro relativismo com saídas do tipo “é verdade para você, mas não para mim” ou “não existe certo ou errado” e por aí vai. Não é atoa que toda doutrina politica “anti-humana” (socialismo, nazismo, fascismo...) começa com algum grande subjetivismo (consciências coletivas, sociais, raciais, “vontade da nação”) que nega uma natureza objetiva e única do ser humano.

[21] Segundo, sobre o suicídio, como toda ação realizada por uma dada entidade, obviamente ele não vai “contra a natureza dessa entidade” no sentido de ser incompatível com essa natureza, de estar “além ou aparte dessa natureza”. Em suma, como toda ação, vale a lei da causalidade. Como o homem tem livre arbítrio, viver para ele é uma escolha e como toda escolha há pelo menos duas alternativas, que nesse caso é: a) continuar vivendo (o que demanda uma série de outras escolhas e gera o fenômeno da “moral”) ou b) dar fim a tudo. Novamente, não há nada que viole as leis da identidade e da causalidade.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A tal “guerra cambial”

Como não se fala em outra coisa nos últimos dias, pensei em escrever um novo texto comentando a tal "guerra cambial", mas não teria muito a acrescentar em relação a outro artigo escrito aqui no blog sobre desvalorização cambial. Me refiro ao Desvalorização artificial do câmbio: um péssimo negócio.

Os demais países, no lugar de reclamarem, deviam é "agradecer" o governo dos EUA por tão generosamente transferir riqueza dos seus habitantes locais para o resto do mundo, em suma, por subsidiar o consumo do resto do mundo às custas do empobrecimento dos próprios americanos. Mas obviamente, nada disso acontecerá. Aqui, como no restante do globo, o governo continuará reclamando da desvalorização, continuará falando em "guerra cambial" e usará a expansão monetária americana como pretexto para subsidiar os grandes e ineficientes exportadores locais através da mesma artimanha aplicada lá (desvalorização). Adicionalmente, capitaneada pelos economistas “jaboticabas”, a defesa da prática da "economia da impressora" (basta emitir moeda que tudo se resolve) ganhará status de “política necessária”. Se a inflação aparecer, a culpa é da trágica “guerra cambial” imposta pelos yankees imperialistas. Infelizmente, aparentemente os keynesianos, mais uma vez, conseguiram fazer o mundo acreditar que ficará mais rico, se sairá "melhor", aquele que mais usar a impressora. Além dos exportadores, a HP também agradece.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O governo deve diminuir a volatilidade do câmbio?

Em uma conversa com alguns conhecidos sobre economia veio à tona o assunto da volatilidade cambial. Dos quatro economistas na conversa, três eram favoráveis ao câmbio flexível “impuro”, ou seja, flexível, mas com o governo intervindo para evitar muita volatilidade. Eu acredito que essa posição seja um erro, um erro derivado principalmente da não compreensão adequada da função dos preços nos mercados.

Preços basicamente funcionam como sinais que refletem a escassez de determinado bem em relação aos demais e assim dão as diretrizes para investimentos por toda a economia. Se o preço de um bem qualquer sobe, a principio, os ofertantes sabem que é vantajoso (lucrativo) ofertar mais desse bem, diminuindo sua “escassez”. Se o preço de um bem cai, é hora de diminuir a quantidade ofertada, é hora de deslocar fatores de produção e capital para a produção de outro bem cujo preço relativo esteja “mais alto”. Dessa forma, o resultado final será uma alocação de recursos eficiente, uma alocação que acaba saciando as necessidades mais urgentes dos consumidores, gastando o mínimo possível de recursos escassos (pelo menos o mínimo conhecido por seres humanos). Fazendo uma analogia, preços são como o cão guia de um cego. Eles indicam a hora de parar, avançar, mudar de direção etc..levando o cego de forma segura ao seu destino.

Mas assim como os preços indicam a escassez ou a “urgência” (segundo os critérios dos demandantes) na produção de um dado bem, o que obviamente impacta a “utilidade” desses agentes, eles também indicam outra característica que também tem efeitos significativos sobre nosso bem estar: risco. Todo mundo, pelo menos a maioria, preferiria um investimento de menor risco se tivesse diante de si a seguinte escolha: dois investimentos com igual rentabilidade, mas com diferentes riscos, um “maior”, outro “menor”. Importante frisar que risco aqui significa basicamente “volatilidade de rendimentos”. Significa que, no primeiro caso, com risco menor, o rendimento médio é de 5%, mas pode variar entre 4% e 6%, enquanto no de maior risco pode ser de -10% a 10%. As pessoas, em geral, são “aversas ao risco”. Elas preferem 5% garantido a 5% esperado, incerto (5% que podem ser efetivamente 6%, 3%, 4%, -10% ou 10%). É uma característica de um dado investimento que impacta o bem estar do investidor. Uma situação corriqueira que mostra bem essa situação é a contratação de seguros. As pessoas preferem pagar um pouco para terem certeza que terão um “carro inteiro” no lugar de correrem o risco e acabarem com o carro roubado ou batido.

Voltando ao dólar, assim como a volatilidade dos retornos de um investimento expressa o risco desse investimento e, portanto liga o “sinal amarelo” daqueles que são “aversos ao risco”, a situação se passa de maneira idêntica com o dólar e setores próximos (dólar que nada mais é do que um exemplo de ativo). A volatilidade do dólar, independente das causas (falarei disso mais adiante), é o sinal na economia de “área perigosa”, de que investir nesse ativo ou em setores muito sensíveis a ele é, digamos, “arriscado”. Apagar o sinal não “melhora” a situação do investidor, apenas o faz tomar mais risco do que ele efetivamente tomaria. De novo, usando a analogia do cego, é como se ele odiasse a lentidão do seu cão guia porque o cão consegue diferenciar os sinais do semáforo. Diante da lentidão (o pobre cão fica parando no sinal vermelho), ele troca de animal. Compra um que não sabe ver sinais. Agora sim! Provavelmente o cego, chegará mais rápido ao seu destino... ou não. Não sabemos se o astuto cidadão ficará vivo durante o percurso, o risco que ele está tomando é muito maior agora, não desapareceu (muito pelo contrário) só porque ele tratou de ignorar os “sinais que estavam diante de seus olhos”.

O erro fundamental nessa questão é encarar os preços como causa/origem do “mal” e não como conseqüência, como um sinal que indica algo relevante sobre a economia. É o mesmo erro cometido por “pessoas comuns” que quando acham que o preço da banana está alto, defendem que o governo fixe preços mais baixos. Elas não percebem que a alta dos preços é o sinal de que há um descompasso entre a oferta e a demanda de bananas, que os preços não são mero “capricho da natureza”, produto do mau humor dos ofertantes ou quaisquer outras coisas que poderiam ser solenemente ignoradas sem afetar a disponibilidade de bananas. Para complicar, essa desconsideração do real significado dos preços só deixa a situação pior: o governo fixa um preço máximo para bananas abaixo do preço de mercado e ninguém mais encontra bananas (nem caras e nem baratas). O mesmo acaba ocorrendo com a volatilidade do dólar. O dólar ser volátil é conseqüência de uma série de fatores que precisam ser levados em conta na hora de se decidir pela compra ou não desse ativo (no caso específico, estamos falando do risco do ativo). Se o governo destrói esse sinal, por exemplo, travando o dólar, as pessoas tomarão mais risco do que elas gostariam de tomar. Quando o governo não conseguir mais “segurar” o dólar, o impacto negativo no bem estar dessas pessoas, que tomaram risco demais, será bem maior do que se desde o começo elas tivessem levado esse risco em consideração. No caso em particular, o não conseguir “segurar o dólar” pode ser o governo não ter reservas para manter a moeda americana valendo menos do que ele “realmente vale” ou o governo não ter como controlar a inflação ou a deterioração da situação fiscal mantendo reservas excessivas para fixar o dólar valendo mais do que ele “realmente vale”.

As conseqüências do estouro dessa política de “esconder o risco”, seja do dólar ou de outro ativo, já foram sentidas no Brasil várias vezes (e recentemente gerou uma quebradeira bancária nos EUA). A última, em termos locais, se deu no fim do câmbio fixo, quando as pessoas ficaram muito expostas ao risco do dólar porque seu valor era “travado”, garantido pelo governo, ou seja, algo supostamente confiável. Quando a política de “travamento” ficou insustentável e o dólar disparou, as pessoas viram o quanto custou essa política equivocada quanto ao risco; suas dividas simplesmente duplicaram, triplicaram. O cego, que substituiu o seu pobre cão tinha sido atropelado. É justamente a volatilidade de um ativo (seu risco expresso em termos de preço) que sinaliza aos agentes econômicos que aquilo tem efetivamente um risco. Obviamente dado o conhecimento desse risco o agente decide o quanto investe nesse ativo, levando em consideração os custos relevantes.

Mas o que causa a volatilidade do dólar? Ela tem “fundamento” ou é apenas capricho de malvados especuladores que manipulam o mercado ao seu bel prazer? Primeiro que se um dado ativo pode ser manipulado dessa forma, já é um sinal de que há um grande risco em investir nele, logo, a volatilidade se torna extremamente necessária para sinalizar esse fato. Independente da “nobreza” da causa do risco, ele existe, está lá e precisa ser levado em conta. Deixando de lado essa “visão conspiratória”, outras causas mais “verificáveis” podem ser listadas. A mais comum é a falta de confiança da política monetária brasileira. Durante a maior parte do século XX (até a década de 90), a política monetária nacional sempre foi sinônimo de “maluquice”. Conseqüência dos nossos economistas jaboticabas que achavam que a gravidade não funcionava abaixo da linha do Equador. Na década de 90, após calote e meia dúzia de planos fracassados, a inflação foi debelada e a política monetária passou a ser mais civilizada, mas ainda sofreu com a combinação de cambio fixo e altos déficits fiscais. Apenas em 1999 com o estabelecimento de cambio flexível e metas de inflação, a coisa começou a andar nos trilhos. Em 2002, com a troca de governo, novamente a desconfiança tomou conta e o dólar, juros e inflação subiram. No entanto, apesar da desconfiança, os novos governantes agiram corretamente e mostraram que a política não mudaria (e continua até hoje sem mudanças).

Embora governantes manterem uma política monetária correta seja uma boa noticia, o melhor mesmo seria qualquer governante ter o mínimo de poder sobre isso. No Brasil tal arranjo não existe e ainda está distante. A dependência muito grande dos rumos da política monetária em relação à “opinião” do governante é um fator de risco considerável, que somente reformas institucionais (como a independência do BC) podem amenizar. Como no caso brasileiro a política monetária está muito atrelada à opinião dos governantes do momento, qualquer mudança na opinião pública, qualquer “espirro externo” pode levar a uma “mudança de rumo” e isso é exatamente risco, volatilidade. Como o valor do dólar está diretamente ligado à oferta monetária de reais e a inflação, se essas coisas são voláteis, o dólar tende a ser também. Como dito, qualquer coisinha errada, aos olhos do governo, pode ser motivo para mudanças rápidas e efetivas de política monetária e, conseqüentemente, por fortes variações no dólar. Um governo mais “preso” em relação à política monetária diminui consideravelmente esse fator de risco.

Outra fonte de volatilidade tem a ver com o tamanho do mercado de dólar no Brasil, que, por sua vez é determinado pelo grau de abertura do país. Como o mercado é “pequeno” (país fechado), qualquer pequena movimentação se transforma em uma grande variação do dólar. Para perceber isso, imagine a seguinte situação simplificada: dois países (A e B), onde em um dos países, no A, as importações e entradas de capital/exportações são de 500, enquanto em B são de 50 (totalizando 1000 e 100 respectivamente). A elasticidade câmbio-exportação é de 2 para os dois países e, por fim, para simplificar, o câmbio dos dois países em relação a uma moeda estrangeira padrão é 1 (moeda local/moeda estrangeira). Vejamos em quanto o câmbio precisa mudar para equilibrar uma fuga de capital da ordem de 5. A e B terão que aumentar suas exportações em 5 (o financiamento externo para importações caiu em 5, logo o próprio país precisa gerar esses 5 adicionais para manter o nível de importação). A elasticidade câmbio-exportação diz que um aumento de 1% no câmbio (moeda local/moeda estrangeira), aumenta as exportações em 2%. Como A precisa aumentar suas exportações em 1%, basta um aumento de 0,5% do câmbio (unidade de moeda estrangeira compra mais moedas locais) para atingir o ajuste necessário. Já B precisa aumentar suas exportações em 10% (5 de 50), logo o câmbio precisa subir 5%! O mesmo choque gerou, em um país aberto, um aumento de 0,5% no câmbio, enquanto no fechado gerou um aumento de 5% (10 vezes mais). Se imaginarmos os dois países sofrendo constantemente esses pequenos choques para todos os lados (entrada e saída de capitais, choques positivos e negativos de demanda por exportações etc..), o câmbio de B será bem mais volátil que o de A, pois, para B, é necessária uma maior variação da sua moeda para a realização dos ajustes necessários.

Essa questão do “tamanho do mercado” também nos leva a velha questão do “capital especulativo” gerar volatilidade e atrapalhar a “economia real”. Sem entrar muito na discussão se essa diferenciação entre “economia real” e “economia imaginária” faz sentido, novamente: independente da “nobreza de propósitos” dos capitais que entram no país, eles, efetivamente, entram e saem, com isso afetam o câmbio, o que significa um fator de risco para investimentos dependentes do dólar e que, portanto, deve ser refletido na volatilidade dos preços para os agentes levarem em consideração esse risco nas suas decisões. Se algo é muito arriscado e não gera um retorno esperado suficientemente alto, então é eficiente não investir nesse algo. Só para exemplificar, imagine que um governo precise desses capitais de curto prazo para se financiar. Essas “ondas” de capitais de curto prazo geram movimentos no câmbio considerados “indesejados”. O governo então resolve fixar o câmbio. Sem o risco da variação do dólar, os agentes ficam expostos a dólar mais do que ficariam em uma situação de livre mercado. O câmbio não refletiu as “saidinhas” de capital durante o tempo, mas eles saíram e, de repente, podem sair em um numero bem maior, tornando o câmbio fixo insustentável (como se viu em 98/99). Quando o câmbio estourar (resultado dessa fuga de capitais), os agentes finalmente arcarão com os custos da posição altamente exposta em dólar que tomaram. A política do governo só serviu para incentivar essa tomada excessiva de risco e agravar a necessidade de ajustes na economia. Dei como exemplo a fixação do câmbio abaixo do valor de equilíbrio, mas o resultado se repete na situação contrária também. O câmbio (BRL/USD) excessivamente alto (acima do valor de mercado) funciona como uma espécie de “subsídio” as atividades exportadores, que são altamente sensíveis ao valor do dólar (possuem risco em dólar). Novamente, a não sinalização da volatilidade dos retornos desses investimentos através dos preços gera uma exposição ao risco do ativo em questão maior do que a que seria eficiente (nesse caso, as pessoas vão produzir toneladas de laranja para exportar quando o correto seria produzir outros bens menos dependentes do dólar).

Para concluir, a melhor política contra essa volatilidade “indesejada”, causada por movimentos de capital de curto prazo não é esconder, maquiar essa volatilidade dos preços, é simplesmente abrir o país, além, óbvio, do próprio governo realizar um ajuste fiscal, já que muito desse capital vem justamente para financiá-lo. Como já escrevi em outro texto (sugiro a leitura), a política adequada também não é “taxar capital de curto prazo”. Taxar capital, além de prejudicar a liquidez do mercado secundário de ações e títulos, conseqüentemente, dificultando o desenvolvimento, “fecha” ainda mais o país. Se menos capital externo entra, menor a capacidade do país em trabalhar com moeda estrangeira (o seu mercado de moeda estrangeira diminui), gerando aqueles efeitos de ajustes descritos anteriormente para o caso de um país fechado. Qualquer “movimentaçãozinha” na demanda ou oferta de dólar gerará uma variação grande no câmbio, tornando-o “excessivamente volátil”, característica essa que a política visava combater. Como muitas políticas freqüentemente propostas, não passa de um tiro no próprio pé.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O velho “novo desenvolvimentismo”

O maior custo das crises econômicas, ao contrário da opinião reinante, não é o alto desemprego, o PIB em queda, “juros em alta” ou outra conseqüência clássica que cansamos de ouvir. É sim a proliferação de zumbis keynesianos na academia e na mídia. Aqui no Brasil (na América Latina em geral), existe um pessoal que adora ser chamado de “desenvolvimentista”, mesmo que quase todas as suas recomendações sejam extremamente anti-desenvolvimento. Em termos teóricos o desenvolvimentismo se baseia em uma variação “global” do marxismo (a famigerada luta de classes dá lugar à luta entre o sul e o norte, países industrializados versus agrícolas) e naquele keynesianismo jurássico da década de 40/50 que se mostrou bastante resistente por essas bandas (demanda é o que importa e escassez é uma invenção imperialista norte-americana). Adiciona-se a tudo isso uma pitada de fatalismo (existe sempre uma “misteriosa” deterioração dos termos de troca para produtos “não industrializados” que torna imperativo produzir carro no lugar de banana, caso contrário estamos fadados à pobreza).

O resultado prático do desenvolvimentismo nós já conhecemos: duas décadas perdidas, a de 80, com reformas e políticas esdrúxulas tentando corrigir as conseqüências trágicas da aplicação em larga escala desse modelo e a de 90, realmente “arrumando” a casa. O desenvolvimentismo conseguiu a proeza de fazer um social democrata de “alta patente” como Mário Covas afirmar que o Brasil precisava de um “choque de capitalismo” e outro presidenciável a chamar os carros fabricados no país de carroças. E a razão é simples: protecionismo, ao contrário do que afirmam os sábios desenvolvimentistas, não fortalece a industria nacional, a destrói. Para uma industria ser competitiva ela precisa estar à mercê da competição das melhores, é o único incentivo realmente eficaz à busca por eficiência e competitividade.

Mas, mesmo com todos os fracassos do passado, o keynesianismo jurássico, o anti-capitalismo e a idolatria ao governo são resistentes por essas bandas e bastou uma crise para que uma pletora de defensores dessas visões ressuscitasse das suas tumbas e saísse das mofadas salas de algum departamento de economia de universidade federal para a grande mídia defendendo o mesmo de sempre, mais governo e menos mercado. E assim como eles criaram seu vilão imaginário preferido, o fantasmagórico “neoliberalismo”, também criaram um novo herói, o “novo desenvolvimentismo”, uma espécie de recauchutagem do velho, mais ou menos como as TVs fazem com programas de boa audiência como o “Big Brother”: prometem corrigir todos os erros e “chatices” da versão anterior, mas no fundo, não passa da mesma coisa de antes. É a conclusão inevitável que chegamos ao ler o texto O que é o Novo-Desenvolvimentismo?, que tem como um dos seus autores, o ex-ministro do governo FHC Raul Jungman.

Os autores começam explicando o que seria, economicamente, a “visão liberal” (ou a visão dos “rentistas”, segundo eles). Algumas coisas chamam a atenção: é dito que, para os liberais/ortodoxos o principal objetivo da política econômica seria o controle da inflação. Essa é uma forma enganosa de apresentar o problema, uma forma que muitos keynesianos usam para apresentar os “ortodoxos” como “insensíveis” que não ligam para o povo desempregado, só querem saber de inflação, mercado monetário e por aí vai. O que alguns ortodoxos (mais especificamente os “novos clássicos”) dizem é que a “política econômica” não serve para afetar variáveis reais, ela só tem impacto em variáveis nominais (nível de preço, juros nominal etc..). Logo, não existe escolha entre querer “olhar para o desemprego ou olhar para a inflação”. O formulador de políticas que acha isso acabará com o mesmo desemprego de antes da aplicação da política e com uma inflação maior. A política econômica só terá serventia mesmo para controlar a inflação; é isso ou nada (controlar desemprego não é uma opção). Adicionalmente, dependendo do grau de monetarismo do nosso ortodoxo (geralmente os novos clássicos são “bem monetaristas”), a política econômica se resumirá à política monetária, já que a fiscal (seja esperada ou inesperada) não teria efeitos reais e nem nominais relevantes.

Um outro trecho interessante é o seguinte:

“o “desenvolvimento econômico” é uma competição entre os países para obter “poupança externa”; logo, os déficits em conta-corrente e a apreciação da taxa real de câmbio não são problemáticos, mas são necessários para o “desenvolvimento” do Brasil devido a nossa dependência externa.”

O autor parece “desprezar” a idéia de que déficits em conta corrente não são problemáticos. Como todo “mercantilismo” (e o desenvolvimentismo não é muito mais que isso no campo da economia internacional), déficits em contas externas, por definição, são pecados capitais que devem ser extirpados (geralmente via política cambial ou política monetária expansionista). Para quem desejar explicações mais detalhadas (porém simples) sobre este ponto, sugiro ler um outro texto aqui do blog: Um Falso Problema ,onde explico com mais detalhes essa questão

Voltando a critica do texto, um país tem basicamente duas formas de financiar investimentos: com poupança própria ou com empréstimos (poupança externa), algo parecido com o que ocorre conosco (na verdade o “país” aqui não é nada mais nada menos que a soma de vários indivíduos). Existe algo que diga que, a priori, uma coisa é pior que outra? Obviamente não. Para financiar investimentos maciços, o país precisaria poupar muito, conseqüentemente diminuir muito seu consumo presente. Vale a pena diminuir tanto seu consumo presente? Em geral, as pessoas (países) acham que não e assim obtém poupança externa (de países que já passaram por essa “etapa” no passado), gerando o déficit em conta corrente criticado no texto. Um ponto importante é que nada em relação à eficiência ou correção dessa escolha demanda “políticas de governo”, assim como o governo não precisa determinar se é melhor ou pior para você financiar uma geladeira com poupança própria ou empréstimo, se é melhor para você comprar algo aqui ou importar etc... Por esse motivo um liberal não se preocupará se a opção do mercado (nossa opção) foi poupança própria ou déficit em conta corrente. Tanto o “déficit em conta corrente”, quanto a opção por poupança interna (sem déficit), será resultado da decisão de milhões de agentes econômicos individuais, maximizando seu bem estar da maneira mais eficiente possível. O governo não pode fazer nada para melhorar esse resultado, assim como, em geral, não consegue ser mais eficiente que o setor privado em todo o resto da economia. Dada a estrutura de leis e regulações corretas (as tais reformas microeconômicas também citadas no texto, que basicamente é a velha idéia de fazer as pessoas arcarem com os custos e receberem os benefícios das suas escolhas), os agentes terão os incentivos adequados para escolher o nível ótimo de endividamento externo e nenhuma política de governo poderá elevar o bem estar propiciado por essa escolha.

Seguindo o texto, os autores defendem que:

“para se alcançar o desenvolvimento é essencial aumentar a taxa de investimento, devendo o Estado contribuir para isso por meio de uma poupança pública positiva, fruto da contenção da despesa de custeio.” .

De certa forma, devo dizer que aqui temos uma certa “evolução” em relação ao velho desenvolvimentismo. Antes os desenvolvimentistas defendiam da boca para fora distribuição de renda, mas concentravam renda, justamente tributando os mais pobres com inflação e repassando aos grandes empresários nacionais via subsídios, políticas industriais e BNDES da vida. Não é à toa que a desigualdade social no Brasil (e na América Latina em geral) é tão grande. Agora eles querem cortar “despesas de custeio”, para gerar a mesma “bolsa empresário”. Cortar gastos, tanto de custeio quanto os tais “investimentos estatais” (que eles provavelmente defendem) é uma ótima política, já o governo fazer poupança é uma péssima idéia.

Em termos de bem estar, com base no que explicamos anteriormente, em geral, os agentes econômicos escolhem financiar seus investimentos através de empréstimos e não com cortes de consumo presente (ou com um misto das duas coisas). Para o governo gerar poupança, ele precisa tributar, tirar dinheiro das pessoas para fazer um uso diferente do que elas fariam. Mas o uso que tais pessoas fariam é o uso que geraria mais bem estar para elas e, na ausência de alguma externalidade relevante, mais bem estar “social”. Portanto, tal política diminui o bem estar econômico do país. Além disso, o governo deseja ter poupança para “alocá-la” em investimento de uma forma diferente da que o mercado faria. Mas isso significa menos eficiência e conseqüentemente menos poupança e investimentos ao longo do tempo (supondo que a taxa de preferência temporal das pessoas seja próximo ou igual a “do governo”). Tal política, ao contrário do pretendido, não incentiva investimentos e poupança, ela destrói poupança e investimento desperdiçando recursos, não alocando esses recursos para o uso mais eficiente possível, como faria um sistema de mercado. De certa maneira, tal opção é um “socialismo velado”, uma tentativa (ainda que tímida) de substituir o sistema de preços pela discricionariedade dos burocratas (sem incentivos a buscar eficiência) na alocação de recursos. É impressionante como supostos economistas (dois dos autores o são), mesmo se dizendo keynesianos, assinam um artigo que ignora completamente qualquer consideração sobre como o sistema de preços funciona, como os incentivos importam e as implicações dessas coisas em termos de bem estar. Há uma total desconsideração em relação a microfundamentos.

Como é de praxe entre os economistas tupiniquins que começam a defender muito “política cambial”, “desenvolvimentismo”, há também uma total ignorância sobre o que determina as vantagens do livre comercio e conseqüentemente seu impacto no bem estar da sociedade. Os autores do texto analisado vêem o comércio como uma “guerra” entre países. Se um país exporta esse país “ganha”, se importa, é desastroso, significa que está perdendo, deve reverter o resultado. Assim o governo deve ajudar, com uma política cambial “adequada”, as empresas nacionais nessa guerra (na verdade, segundo os autores a globalização é uma “competição entre estados”). Em relação à falácia de que importar é ruim e exportar é bom, tenho um outro texto só sobre esse assunto: A tara nacional por exportações, sugiro a leitura.

Para perceber o erro dessa “demonização” das importações, basta pensar em como as coisas acontecem com você: você vende algum produto / serviço no mercado, ou seja, exporta bens para outras pessoas. E porque você exporta bens? Exatamente para importar bens de outro grupo de pessoa. Senão existisse moeda, você veria facilmente que para toda exportação (venda para o exterior) existe uma importação (compra do exterior) como contrapartida, afinal, vender é trocar um bem seu por outro bem de outra pessoa. Você veria também que a coisa “boa” é exatamente importar, é comprar / consumir bens produzidos por outros, ou seja, importar e não trabalhar para pagá-los (exportações). Um país que só exporta (trabalha) e não importa (consumo) está simplesmente financiando o consumo / investimento de outro país. Qualquer ser humano adoraria ter um mega déficit com o mundo todo, ou seja, consumir sem pagar. Só os nossos sábios desenvolvimentistas-mercantilistas acham que o bom é pagar (exportar), sem receber nada de volta (importação).

Na parte final do texto, os novos mercantilistas avisam que, ao contrário do que dizem os malvados imperialistas, lacaios do capital internacional, i.e, “neoliberais”, eles não são protecionistas, “pessimistas” em relação aos “termos de troca” e gastadores. A primeira negação é falsa, a segunda merece alguns comentários teóricos adicionais enquanto a terceira aparentemente é verdadeira, porém quase inútil para fins de desenvolvimento. A primeira negação é falsa pelo que diz o próprio texto mais adiante: “O primeiro eixo da estratégia novo-desenvolvimentista exige a adoção de regime cambial que garanta um câmbio competitivo para as empresas nacionais “ . Seria bom avisar aos autores economistas que protecionismo não significa apenas taxar direta e abertamente importação em “90%”, significa também “taxar importação indiretamente” através da desvalorização, em moeda estrangeira, dos salários e rendimentos dos locais. O mais cômico (ou deprimente) é ler que “...a concentração de renda é vista no discurso novo-desenvolvimentista como nociva ao desenvolvimento” – ora, mas “câmbio competitivo para empresas nacionais” é justamente tirar poder de compra do consumidor local (que paga mais caro por uma série de produtos) e subsidiar empresários locais (considerando ainda que quem mais exporta são grandes empresas, é redistribuição de renda exatamente para os grandes empresários). É o mesmo “resultado” do velho desenvolvimentismo, por outras vias (antes a tungada era através da inflação, agora é por meio de “inflação em relação ao exterior”).

Em relação a segunda negação (do “pessimismo exportador”), os autores escrevem:

“o novo-desenvolvimentismo não padece do “pessimismo exportador” típico do velho-desenvolvimentismo. Dessa forma, a estratégia de desenvolvimento deve estar alicerçada na exportação de produtos manufaturados ou produtos primários de alto valor adicionado como forma de superar a restrição externa ao crescimento.”.

Tirando o erro de achar que exportar gera “desenvolvimento”, é uma benção divina (já explicado brevemente antes e no texto sobre exportações sugerido), há um problema adicional: a fixação sem sentido por “produtos de alto valor adicionado” ou mesmo “manufaturados”. Essa fixação faz parte do mesmo erro sobre o que determina as vantagens do livre comercio (sugiro a leitura do meu texto: Custo Brasil e abertura comercial ou o Vantagens comparativas ou por quê em casa de ferreiro o espeto é de pau…). Um país pode ter vantagem comparativa (que é o que importa para livre comércio) na produção de, por exemplo, laranja, mas não em produzir suco de laranja – o produto com valor adicionado (ou ainda, em produzir ferro, mas não em produzir máquinas, carros, navios etc.. – outros produtos com valor adicionado). Dadas essas vantagens comparativas, o país estará sendo mais produtivo, mais eficiente produzindo laranja e comprando suco de laranja de outro do que produzindo os dois. Ele terá mais suco de laranja produzindo laranjas (e trocando posteriormente por suco) do que produzindo diretamente suco de laranja. Veja que não importa nenhum pouco, em termos de bem estar, desenvolvimento etc.. se o produto é “manufaturado” ou “tem muito valor adicionado”. O que importa são as vantagens comparativas.

Muitos argumentam que liberais tratam vantagens comparativas como se fossem fixas, como se não pudessem ser produzidas ou modificadas. Nenhum liberal faz isso, o que um liberal, ou um economista que saiba economia, dirá é que produzir vantagens comparativas custa, logo é preciso comparar tais custos com os benefícios de se obter essa vantagem. Mas não é isso que qualquer empresário faz muito melhor que o governo? Governo, que aliás, não tem nem interesse em chegar ao resultado correto devido aos próprios incentivos gerados pelo seu funcionamento (que geram captura, rent-seeking etc..). Se construir uma determinada vantagem comparativa é “lucrativo”, agentes privados ávidos por lucro a construirão, sem necessidade de política cambial, industrial ou qualquer outra coisa do tipo. É inútil argumentar que muitas vezes essas vantagens só gerarão lucro em um futuro distante por isso é necessária a intervenção do governo. Ora, essa “lentidão” para gerar lucro é uma característica que impacta o bem estar da sociedade e deve ser levada em conta (como será em um sistema de livre mercado). Investimentos que maturam muito tarde precisam ter uma taxa de retorno futura muito alta para compensar esse período de prejuízo, caso contrário é eficiente optar por outro caminho.

Em relação ao terceiro ponto, o da “gastança”, os autores afirmam:

o “novo-desenvolvimentismo” rejeita a noção equivocada de crescimento sustentado pelo déficit público. Com efeito, os déficits fiscais devem ser usados apenas em momentos de recessão como instrumento para estimular a demanda agregada. As contas públicas devem ser mantidas equilibradas para garantir a solidez e a força do aparato estatal, o qual é estratégico para o desenvolvimento. Isso significa que dívida pública deve ser pequena (como proporção do PIB) e com longo prazo de maturidade.”

Porque eu disse anteriormente que essa posição era um “avanço” quase inútil (comparando com o velho desenvolvimentismo) em termos de desenvolvimento econômico? Como já expliquei em outros textos neste blog (ver, por exemplo, Propaganda Enganosa e crescimento econômico, Comentários sobre keynesianismo, escassez e a “Lei de Say”), realmente é um erro afirmar que déficit público gera crescimento de longo prazo (porque estimularia a demanda agregada). Também é um erro afirmar que déficits fiscais estimulam a economia no curto prazo, mas, novamente, o saldo final, em comparação, com o velho desenvolvimentismo é de avanço, infelizmente um avanço mínimo.

Permita-me explicar o adjetivo “mínimo” (ou o quase inútil). O que gera crescimento econômico “per capita” é aumento de produtividade com aumento de capital (humano e físico) e, dependendo do grau de desordem do país, reformas institucionais que permitam uma melhor alocação dos recursos já disponíveis (como ocorreu na China, por exemplo). Déficits fiscais prejudicam o crescimento porque déficits hoje, basicamente, implicam em impostos amanhã e impostos são fontes de ineficiência, eles prejudicam aquele mecanismo de incentivos que move os indivíduos a usarem sua máxima capacidade, a levar todos os custos e benefícios em conta nas suas ações e assim escolher “otimamente”. Resumindo, impostos geram “peso morto”. Mas além do peso morto eles geram outro desperdício. O mercado, através das decisões maximizadoras de milhões de agentes, aloca os recursos disponíveis da maneira mais eficiente possível, i.e, da maneira que mais produto seja gerado a um menor custo. O governo, por sua vez, não tributa para replicar o que o mercado faz, ele tributa exatamente para “mudar” a alocação de mercado, o que significa uma menor produção, menos eficiência já que os agentes privados teriam todo o incentivo para buscar o maior superávit possível entre benefícios e custos.

O que significa tudo isso? Que além do peso morto que nada mais é do que uma “perda de produto”, uma espécie de custo econômico dos impostos, uma porção do PIB, a porção que o governo arrecada todo ano, está sendo alocada de maneira ineficiente, está contribuindo menos para o crescimento econômico do que contribuiria nas mãos da iniciativa privada. Quando os novos desenvolvimentistas dizem que são contra um governo gastador, mas defendem igualmente um governo grande, porém poupador, eles não estão mudando em nada esse quadro. O que importa não é se o governo está gastando muito ou poupando muito, mas sim a porcentagem do PIB que ele (governo) mantém sob seu controle que será dado exatamente pelo máximo entre gastos e arrecadação. Se a arrecadação é maior que os gastos, o que o governo está tomando da economia é exatamente o que ele arrecadou (é a parcela do PIB que ele “aloca”, que ele controla), a existência de poupança não muda o fato que ele só gera tal poupança porque deseja usar essa poupança para fins diversos daqueles que o mercado usaria, logo, alocações que diminuem a eficiência e retardam o crescimento econômico. Alguns podem argumentar que a intenção nem é usar a poupança para fins diferentes daqueles que o mercado priorizaria, mas sim a própria geração de poupança que o mercado sozinho não gera. Mas isso também significa uma alocação ineficiente, diferente daquela que maximiza o bem estar social, significa que o governo está obrigando as pessoas a adotarem uma proporção entre consumo presente e consumo futuro diferente da proporção “ótima” que elas escolheriam livremente. Quando há déficit a história é exatamente a mesma: o governo aloca uma parte do PIB (no caso, o valor do déficit, que é a tributação hoje mais a tributação adicional futura trazida a valor presente) em atividades diferentes das que o mercado priorizaria, gerando ineficiência e menos desenvolvimento. Em ambos os casos, tanto de déficit quanto de superávit também há o mesmo peso morto (no caso do déficit é necessário hipóteses um pouco mais restritivas, mas em linhas gerais, o resultado vale). Eis o porque chamei de “avanço mínimo”. O avanço fica por conta de que pelo menos os novos desenvolvimentistas (os autores do texto) não acham que a carroça vem na frente dos bois (que investimento vem antes de poupança).

Quando o assunto é desenvolvimento, não há muito mistério (muito embora zilhões de economistas, interpretando correlação como sendo causalidade, tentem “mistificar” o assunto). Se um governo realmente está interessado em gerar “poupança produtiva” e desenvolvimento econômico, deveria oferecer políticas monetárias sólidas e consistentes, diminuir sua participação no PIB e realizar reformas institucionais que protejam direitos de propriedade, gerando “confiança institucional”. Todas essas recomendações passam longe do desenvolvimentismo, seja o novo ou o velho.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Breve comentário sobre o conceito de “natureza humana”

Vejo muito por aí o seguinte comentário: “não entendo (e na verdade não gosto) muito desse papo de “natureza humana”. Ligo para o que funciona, independente se isso é ou faz parte de alguma natureza humana, que para dizer a verdade, nem acho que exista”. Gostaria de esclarecer alguns pontos em cima deste comentário.

Comecemos do conceito de "natureza": a natureza de uma entidade é aquilo que ela é. Existir é ser alguma coisa e ser alguma coisa é ter uma natureza, é ter uma identidade. Assim, a afirmação de que o homem “não tem natureza”, mais que um absurdo, é uma contradição lógica. Se o homem existe, necessariamente ele tem uma natureza, ele é alguma coisa. Não ter natureza é não existir, é não ser nada. Dizer que o homem não tem natureza é dizer que ele não existe.

O livre-arbítrio (comportamento volitivo) não é uma “negação” da idéia de que o homem tem uma natureza, porque, como dizem os "anti-naturalistas", graças a tal característica o homem escolhe e, portanto, nada na sua vida “precisa ser”. Como característica do homem, o livre arbítrio compõe exatamente o que chamamos de “natureza humana”, compõe o que um homem é. E também não é verdade que “nada na vida do homem precisa ser”. Justamente por ser algo que possui uma certa identidade, um conjunto de característica X (e não Y, Z ou W) – que é a sua natureza – o homem não pode escapar dessa natureza sem se destruir, sem “se acabar” como homem. Para sobreviver, por exemplo, como ser vivo que é, um ser humano precisa se alimentar. Nenhum animal tem a opção de não se alimentar, de “se matar”, só o homem, graças a sua mente volitiva, à sua propriedade sobre si mesmo. Mas isso é escapar da sua natureza? Obviamente que não. Primeiro, a sua propriedade sobre si mesmo (livre arbítrio) é uma de suas características, portanto, é um componente da sua natureza (não uma negação da própria); segundo, se ele não comer (seja por escolha, por deficiência ou por outro motivo como “coerção”) irá morrer do mesmo jeito. Não há escapatória. E irá morrer porque ele é algo que necessita de comida e tal característica é independente da sua escolha, ele é o que é, tem uma dada natureza (assim como o fato dele ter que escolher, ter livre arbítrio, serem fatos independentes da sua vontade e compor essa mesma natureza).

Por ter livre arbítrio, por ser um “ser volitivo”, o homem pode escolher agir contra ele mesmo, contra sua natureza, mas ele nunca conseguirá escapar dessa natureza e ainda permanecer vivo (permanecer como ser humano), ele arcará com as conseqüências dessas escolhas e as conseqüências serão desastrosas, ele se destruirá (e essa possibilidade, de se “auto-destruir”, é um componente da sua natureza). Se ele se negar a comer, morrerá do mesmo jeito por ser o que ele é. Se destruir seu cérebro tentando fugir do “fardo de ter que escolher para viver”, alguém terá que escolher por ele, caso contrário ele morrerá, justamente por ser o que é.

Em termos mais “concretos” peguemos como exemplo a teoria econômica austríaca desenvolvida por Ludwig Von Mises, um famoso “anti-naturalista” (aliás, os economistas costumam ser ardorosos “anti-naturalistas”). A teoria trata de propriedades, características das escolhas humanas. Ela trata exatamente da natureza das escolhas, do que é escolher, daquilo que elas (escolhas) são, daquilo que é inescapável. Para ilustrar esse fato vejamos a proposição misesiana que diz que o objetivo “trocar (ou visar trocar) um estado de menor satisfação por um de maior satisfação” é uma característica presente em todas as escolhas. Ela (teoria) está dizendo algo sobre a natureza dessas escolhas, algo que independe da vontade humana e do conteúdo especifico de cada escolha, algo inescapável, presente em toda ação humana. Dizer que o homem não tem natureza é a negação da própria teoria econômica que muitos "anti-naturalistas" tanto utilizam, porque tal posição rejeita a existência de qualquer coisa relacionada ao homem, como escolhas e ação (nega inclusive sua própria existência como já dissemos). Muitos “relativistas” usam exatamente esse argumento da ausência de uma natureza humana para invalidar a teoria econômica, dizendo que não há possibilidade de conhecer nada com base nas escolhas humanas porque elas são totalmente “livres”, não têm identidade, não têm uma natureza específica. Também é fácil perceber que, dada a natureza humana (livre arbítrio, comportamento volitivo) não é possível apurar ou validar essa natureza apenas olhando para o que os homens, de fato, escolheram (ou como se comportaram) no passado. Em suma, não basta olhar para “história”, para o que aconteceu, quando o assunto é ser humano. Certos comportamentos, pela própria natureza do homem, podem ser destrutivos, visando justamente “escapar” dessa natureza. Obviamente, dada as conseqüências dessas escolhas, se pode dizer algo sobre a sua compatibilidade ou não com a natureza do homem. Apesar de muitas pessoas acharem que são coisas separadas, conseqüências e natureza humana (e de outras entidades obviamente) estão intimamente ligadas.

Eu não posso comer uma pedra, mas posso usá-la para construir muros, calçadas, cabanas etc.. Dois possíveis usos da pedra que, em termos de bem estar, terão conseqüências bem diferentes e que terão essas conseqüências bem diferentes devido à natureza, às características da pedra e do homem. Em termos de economia, o socialismo não funciona porque acaba com o sistema de preços e com os incentivos à produção, mas essas duas coisas (que são destruídas) só são relevantes porque o homem é homem e não uma pedra, um tatu ou uma jaboticaba. Para essas três entidades, preços e produção não tem a mínima relevância e não tem a mínima relevância porque elas são outro tipo de existente, possuem características diferentes das do homem e conseqüentemente reagem de forma diferenciada em relação a outros “estímulos” (que podem nem ser relevantes para seres humanos), ou seja, possuem uma natureza distinta da nossa.

Um outro ponto importante é a tal da “multiplicidade” da natureza humana, o que nos leva a pergunta sobre o como descobrir tal natureza. Não é estranho ouvirmos que a verdadeira natureza humana está no uso/produção de uma linguagem ou no fato de sermos um “animal social” etc.. Note-se que, subjacente a esse problema, já foi aceito que o homem tenha algo como “uma natureza”. Uma confusão básica nesse caso ocorre entre o que é “natureza” e o que é “essência”, embora para vários fins práticos, as duas coisas possam ser usadas como se fossem a mesma coisa. “Natureza humana” significa características que humanos possuem (em maior ou menor grau, quando esse tipo de consideração se aplicar, o que significa que “o quanto” de cada característica as pessoas possuem não é relevante). Assim é da natureza humana andar com dois pés (embora existam humanos que não tenham pés ou mesmo pernas, o que nos leva a criação do conceito de “pessoas deficientes”) ou urinar, por exemplo.

Dentre toda essa gama de características que formam a natureza humana, algumas podem ser definidas como “essenciais” porque são elas que efetivamente separam na nossa cabeça (epistemologicamente) se um determinado existente pode ser “agrupado” sob um dado conceito (como homem) ou se é necessário um novo conceito (como homens-marcianos, se viéssemos a descobrir algum). Perceba que as “essências” e conseqüentemente o tipo de separação mental que fazemos são contextual, i.e, dependem do problema que estamos analisando. Assim, se estamos interessados em separar entidades vivas de não vivas, o “essencial” é a presença de vida e não de “racionalidade/volitividade” ou se tal entidade anda sobre dois pés, nenhum ou quatro. Nesse contexto, o conceito de “ser humano” é inútil e aquelas “coisas” que geralmente chamamos de seres humanos ficam agrupadas sob o conceito mais geral de “seres vivos” (veja que nenhuma das diferentes formas de agrupamentos mentais se contradizem; o homem é um “ser racional” – definição comum do conceito de homem – e também é um ser vivo).

Como a maior parte das discussões sobre natureza humana acontecem no campo da moral e das ciências sociais, a característica essencial que nos separa de outras entidades é a “capacidade volitiva/racional” porque é só pelo fato de termos livre arbítrio, escolhermos e podermos raciocinar, que surgem problemas econômicos, de ciências sociais em geral e problemas morais / éticos. Mas novamente, veja que tal característica não impede o homem de também ser um “animal social” ou “ter linguagem”. Essas duas características também compõem o que é um ser humano, fazem parte da sua natureza (mesmo que você tenha um Tarzan perdido no mato ou um mudo analfabeto por aí) e, como tal, não “se contradizem” – A não pode ser “não A”. No entanto, tais características (da linguagem e da sociabilidade) são “essenciais” (como definido anteriormente) dentro do contexto da economia e da ética (e das ciências sociais em geral)?

Minha intenção com esse texto não é discutir minuciosamente sobre esses temas, portanto, rapidamente, basta observar algumas regras “hierárquicas” gerais para tentar descobrir uma resposta: porque o homem seria um “animal social” por natureza? Não existe uma característica mais básica que explicaria isso como, por exemplo, a questão das vantagens comparativas (e conseqüentemente a divisão social do trabalho) que permite aos seres humanos atingir um nível maior de bem estar trocando bens entre si? Se sim, ser um “animal social” não é um primário, não é a característica epistemologicamente essencial para definir um homem dentro do contexto das ciências sociais; muito pelo contrário, “animal social” seria um conceito derivado após uma longa cadeia de raciocínio (que desembocaria na idéia de que dada a lei das vantagens comparativas, existe um incentivo a se formar sociedades) . Portanto, existe algo bem mais básico que gera a aludida “humanidade”, relevante para o referido campo de estudo. O mesmo vale para a linguagem. Linguagem não pressupõe a capacidade de raciocinar, de conceitualizar? Linguagem não é um mero “grunhido”, se fosse, praticamente todos os animais teriam uma linguagem e isso também não serviria para diferenciar homens de outros existentes (e assim captar o que origina os problemas relacionados às ciências sociais). Como já foi dito, a minha intenção não foi discutir detalhadamente tal assunto, mas apenas mostrar as linhas gerais que nos permite responder aos “ataques” mais comuns ao conceito de natureza humana (seja um ataque generalizado, contra a própria existência de uma natureza humana, sejam ataques ao seu conteúdo específico).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Alguns erros dos socialistas

[1] Gostaria de comentar sobre alguns erros muito comuns, cometidos por socialistas e simpatizantes, baseados em visões equivocadas de três conceitos básicos: escassez, coerção e liberdade. Apresentarei o significado correto dessas idéias e depois "proposições socialistas" que, direta ou indiretamente, as usam erroneamente, gerando verdadeiros desastres para nossa sobrevivência.

PRIMEIRA PARTE - EXPLICANDO OS CONCEITOS

[2] Escassez é um fato básico com que todos os homens se deparam. É um fato gerado pela natureza do mundo em que vivemos e pela nossa própria natureza. Basicamente significa que não temos tudo o que queremos, não temos todos os meios necessários para satisfazer nossos fins. Não é um fato social, não é uma "arbitrariedade" ou algo gerado por organização social alguma. É um fato inescapável gerado pela natureza do que existe (do "mundo externo" e do homem).

[3] Um Robinson Crusoé, perdido em uma ilha deserta, enfrenta escassez tanto quanto um trabalhador em uma sociedade moderna ou Bill Gates com sua fortuna de bilhões de dólares. Um Robinson Crusoé precisa decidir, por exemplo, se gasta seu tempo pescando ou coletando cocos nas palmeiras. Se coleta cocos ou se dorme, se dorme ou se poupa para construir uma jangada e tenta escapar da ilha. Em relação aos cocos que coleta, precisa decidir se come ou se poupa para um dia ruim, se poupa para tentar pescar outro dia e por ai vai. Um trabalhador em uma sociedade moderna precisa decidir se trabalha no setor X ou no Y, se prefere trabalhar agora ou se investe em capacitação, se o salário que ganha será usado para consumo, para uma poupança (que pode financiar uma capacitação futura), para pagamentos de dividas mais urgentes, para a compra de um presente, dentre outras coisas. Já Bill Gates precisa decidir onde colocar seus bilhões: se investe em A, em B ou em C, se simplesmente consome e se for consumir, consumir o quê e em que momento consumir o quê. Ainda pode escolher se deixa a fortuna de herança para os filhos, se faz caridade, deixa para universidades e instituições de ensino que brigarão entre si por um pedaço da fortuna que é escassa.

[4] Obviamente o "leque de escolhas" de cada um dos nossos exemplos é bastante variado: Robinson Crusoé pode, em um dia normal, escolher entre não comer nada e tomar uma água de coco. Qualquer coisa muito fora dessas opções não faz parte das suas possibilidades. São escolhas impossíveis para ele. Um trabalhador em uma sociedade moderna também pode escolher entre não comer nada e tomar água de coco, mas também pode optar por uma infinidade de outras refeições, como batata frita, iogurte de morango, coca-cola dentre outras. Seu "leque de escolhas" é maior. Isso não o torna livre da "árdua tarefa de escolher", não o torna “livre da escassez”. Enquanto ser humano ele sempre terá que fazer escolhas (porque não pode ter tudo), algumas mais fáceis, outras mais difíceis, mas isso é um fato inescapável. É uma conseqüência da sua própria natureza e do mundo em que vive. Bill Gates, além das opções do Robinson Crusoé e do nosso trabalhador, tem uma variedade ainda maior de opções. Se quiser, ele pode tomar um vinho de US$100 mil, pode pegar um jatinho e fazer uma refeição em qualquer ponto da terra, a custos que o trabalhador e o nosso náufrago nem podem "sonhar". A diferença entre os três é o grau de abundância, de riqueza que possuem. Todos eles enfrentam escolhas, mas o leque de alternativas é maior para o Bill do que para o náufrago. Bill Gates tem opções em "abundância", é rico. O náufrago, naquela situação, não.

[5] A condição "inicial" do homem é a mesma do náufrago, com um agravante. Um náufrago pode ser um cientista, um engenheiro, enfim, um membro relativamente "bem informado" quanto a certas tecnologias modernas. Isso lhe permite fazer algumas "ferramentas", mesmo básicas, que facilitam sua sobrevivência, como uma lança, armadilhas para os animais, talvez uma jangada, uma cabana e até mesmo fogo. O homem das cavernas, do "inicio de tudo", não sabia nada disso. Ele precisou aprender, aprender com o uso da sua mente, com o uso da razão, como fazer até as coisas mais básicas para sua sobrevivência. Aprender, produzir não é fruto do destino, não é um presente de alguma divindade. São escolhas, são atos volitivos. Atos que demandam a adoção de um caminho ao invés de outro. É uma deliberada ação visando "domar" o que existe, tornar essas coisas, meios para um melhor bem estar, é a deliberada opção por amenizar a escassez e conseqüentemente o “custo” que ela impõe ao bem estar humano. Nesse processo existe apenas o homem, a sua mente, seu modo de ganhar conhecimento (a razão) e o "mundo externo", pronto para ser transformado em meio para satisfação de seus fins, pronto para ser colocado sob sua vontade, sob seu controle e disposição, enfim, pronto para ser apropriado, usado e usufruído pelo homem. Somente dessa forma, com o uso da razão, descobrindo "reordenações" corretas do que existe, do "mundo externo" é que o homem pode viver, que o homem pode vencer as forças mais brutais que a escassez lhe apresenta.

[6] Até aqui, tomamos conhecimento do inexorável fato da escassez e do modo, o único modo, que o homem dispõe de superá-la; através do uso da sua mente, do seu trabalho e da apropriação de recursos externos. Um outro modo de dizer a mesma coisa é afirmando que a única maneira de sobrevivência do homem é ter respeitado sua propriedade sobre si mesmo (ou seja, poder usar ele mesmo, sua mente, seu corpo, como bem entender) e sua propriedade sobre bens externos, que ele colocou em uso, que ele usou ou usa na produção de algo (a famosa regra do "primeiro uso" de John Locke). A primeira parte (propriedade sobre si mesmo) é auto-evidente e não necessita de maiores explicações. A segunda parte (propriedade sobre bens naturais / externos) merece explicações adicionais. Nenhum homem pode sobreviver se, primeiro, o fruto do seu trabalho não lhe pertencer. O fruto do seu trabalho é a conseqüência imediata do uso da sua auto-propriedade, i.e, da sua mente e do seu corpo. É o resultado imediato e o único objetivo desse uso. Se aquilo não pode ser usado por ele para satisfação de seus fins, para seu usufruto, o que estamos dizendo é que o homem não tem direito à viver, não pode escapar da escassez mais básica, não pode obter o mínimo necessário para manter suas forças vitais como um animal qualquer faria. No entanto, se limitamos a esse mínimo necessário, estamos afirmando que o homem não pode ser homem. Não pode usar sua mente, sua capacidade, para se elevar em relação aos demais seres vivos, não pode se libertar das agruras básicas da escassez, não pode viver como um ser racional, planejando o longo prazo, com conforto e "abundância". Seu destino é viver como um animal qualquer: da mão para a boca. Obviamente, para que o homem construa uma vida de abundância e conforto, aproveite toda sua capacidade racional e viva de acordo com tal capacidade, é tão necessário quanto que o produto do seu trabalho seja dele, que também "bens naturais externos", que nada mais são do que um fator de produção, também sejam suas propriedades. Não existe produção sem a combinação de trabalho com "bens naturais externos" como terra. Como já foi dito, "o mundo externo" precisa ser colocado sob a vontade da sua mente, precisa ser transformado em um meio, um meio a ser alocado para o fim que o homem desejar. Isso significa simplesmente, precisa tornar-se sua propriedade.

[7] Durante a maior parte da historia da humanidade, nós não vivemos de acordo com esses princípios. O homem nunca pode usar sua mente como desejava, nunca pode produzir e usufruir da sua produção. Ele, na maior parte do tempo, produziu para o usufruto de outros. Ele foi um escravo. O homem nunca teve seu direito de propriedade sobre si mesmo e sobre bens externos respeitados. Ele vivia sob "coerção". Coerção significa que ele não é livre para se usar, para usar suas propriedades como ele desejaria. Ao contrário de escassez, que é algo presente independente de onde alguém esteja, é inerente ao ser humano, coerção não existe para, por exemplo, um Robinson Crusoé. Coerção é coerção de outros seres humanos, i.e, só tem significado quando há mais de um ser humano. Coerção é um ato, uma escolha, por iniciar a força contra outro ser humano, contra suas propriedades. Só através do uso da força, alguém pode ser impedido de usar sua mente, de seguir seus valores, de buscar seus próprios fins. A coerção é uma violação do que o homem é, do seu modo de sobrevivência. É a negação do direito à vida, é a deliberada escolha por "sobreviver" como um animal e não como um homem, pois nega aquilo que permite a nós sobrevivermos como tal (a auto-propriedade e a propriedade sobre o mundo externo).

[8] Um leão que ataca o nosso pobre náufrago não o está "coagindo". Um leão não "escolhe", não tem livre arbítrio, não tem comportamento volitivo. Um leão é um dado da natureza e como um dado da natureza precisa ser tratado com "tecnologia", não com ética ou coisa do tipo. O ataque do leão é como um raio, não tem significado ético, não possui "comportamento volitivo" algum. É o inescapável, o dado, assim como a escassez ou a natureza humana. O mundo, o que existe, simplesmente é. Não é errado ou certo, mas sim a base da determinação do que é certo ou errado. A escassez não é justa ou injusta, certa ou errada, ela simplesmente é. A coerção, ao contrário, como sendo fruto (direto ou indireto) de uma ação, de uma escolha, pode ser classificada como justa e injusta e pode ser diferente do que é, afinal, é produto de escolha, de ações humanas. A agressividade do leão, o veneno da cobra, a destruição causada pelo raio é um dado da realidade, simplesmente é. Coerção é ter a força iniciada (no sentido de comportamento propositado) contra você e suas propriedades.

[9] Explicado o que é coerção, chegamos ao nosso último conceito, o conceito de liberdade. Tenho um texto exclusivo para falar de liberdade (quem se interessar pode ler aqui; sugiro fortemente a leitura), logo serei bem mais breve: liberdade, como um derivado do conceito de coerção, também não faz sentido em um mundo de apenas um ser humano, pois liberdade é simplesmente "livre de coerção", ou dito de outra forma, liberdade é ausência de coerção, é simplesmente o respeito ao indivíduo, aquilo que ele é (auto-proprietario e proprietário de bens externos). Veja que nosso Robinson Crusoé, por definição, é livre, afinal, não existe coerção no seu mundo (ele é o único ser humano na ilha).

SEGUNDA PARTE - OS ERROS

[10] Explicado os três conceitos, vamos a segunda parte do texto: usá-los para responder erros muito comuns principalmente vindos de socialistas e simpatizantes (embora liberais "igualitaristas" como Rawls, Amartya Sen, Isaiah Berlin cometam, em grau menor, os mesmos erros). Alguns desses erros já foram tema de textos próprios. Quando for o caso, "linkarei" o referido em algum ponto da explicação.

1 - "No Capitalismo as pessoas não são livres porque são obrigadas a trabalhar"

[11] Essa afirmação nega a escassez explicitamente e faz uma salada de conceitos. Um dos piores erros é misturar o que é fruto de escolhas, de ações humanas e o que é dado, o que independe de qualquer escolha ou vontade humana. Escassez é uma dessas coisas: ela independe da vontade humana. Ela é um fato básico da realidade. Obviamente, por meio de ações humanas, de escolhas, podemos amenizá-la (através da produção). Toda pessoa, mesmo nosso Robinson, isolado na floresta enfrenta escassez e dessa forma, se quiser sobreviver, é "obrigado" a trabalhar. Isso é um fato da natureza. As coisas não caem do céu, são escassas e o meio do homem obtê-las é através da produção. O homem é obrigado a trabalhar, no mesmo sentido em que ele é obrigado a comer se quer sobreviver. Não existe alternativa ao que é dado, à natureza humana (o que um homem é). O homem é assim, não há o que fazer. Ele, como todo ser vivo, precisa comer para sobreviver. No caso dos homens, o meio de se obter comida é produzindo, é usando sua mente para rearranjar elementos existentes através do seu trabalho.

[12] Mas a confusão da afirmação não para por aí. O "obrigado a trabalhar" não pode contrapor o termo "liberdade" como faz na frase. Ninguém obriga o homem a trabalhar em qualquer sentido que contraria, que se opõe, ao conceito de liberdade. Liberdade é ausência de coerção, que por sua vez significa outro homem (ou um grupo deles) iniciar o uso da força contra você e suas propriedades. Você não é livre, quando outro homem te obriga, através da invasão das suas propriedades (i.e, com o uso da força ou ameaça de uso), você a trabalhar. Não quando "a natureza te obriga". A natureza não te "obriga", nem "desobriga". É uma escolha sua, a natureza não tem vontade, opiniões ou preferências quanto a você escolher se matar ou não, trabalhar ou não. Ela simplesmente é. Você é o que você é. Se deseja sobreviver tem que fazer algumas coisas para se manter vivo e esse "tem que fazer" não se contrapõe a absolutamente nada em relação a liberdade. Liberdade significa "livre de coerção", ou ainda "livre do jugo de outros homens", não livre do que você é, livre do mundo, livre da natureza. A confusão básica aqui é entre liberdade e "onipotência".

[13] Para algumas pessoas ser livre é ser "onipotente", i.e, poder fazer qualquer coisa. Homens não podem voar, logo não são livres. Homens não podem escapar da morte, logo não são livres. Homens não podem pular de um prédio de 60 andares e sair andando ou mesmo sobreviver sem comer, logo não são livres. Tal conceito de liberdade é um falso conceito, não se refere a nada que exista no mundo, não se refere a natureza de nenhum existente e sim há alguma criatura "onipotente" da nossa fantasia. Não passa de um desejo infantil, de uma rebelião contra o que existe, contra o mundo. Obviamente tal erro não escapa impune e, assim como pular de um prédio de 60 andares, gera verdadeiros desastres. O mais óbvio é a negação da liberdade "real" e a sua destruição: como liberdade é considerado algo bom (mesmo que a pessoa nem saiba o que é), e a pessoa não é livre porque tem que trabalhar, então temos que acabar com essa obrigação e torná-la livre. Como isso pode ser "feito"? Ora, o fato dela ter que comer, se vestir, consumir outras coisas não some, logo alguém precisa financiar esses gastos, o que significa que alguém será obrigado a pagar pelo consumo da pessoa que quer ficar "desobrigada" de trabalhar. Geralmente nós fazemos isso voluntariamente para filhos, entes queridos até um certo ponto, mas não para estranhos. O que sobra então? Coerção. Você ser obrigado (no sentido real do termo, o de coerção) a trabalhar para sustentar outros. Veja que um falso conceito de "obrigação", de liberdade gerou a destruição na prática da real liberdade, trouxe a tona a "obrigação" que realmente contraria a liberdade. Veja também que se tal política, de obrigar quem trabalha a pagar para outros não trabalharem, for radicalizada, a pessoa que queria ficar "desobrigada" de trabalhar, nunca será tão obrigada a trabalhar quanto agora e terá que fazer pelo básico, terá que trabalhar para sobreviver como um animal, "da mão para boca", porque quem produz terá total incentivo a parar de produzir já que não fica com o beneficio do que produz (o fruto do seu trabalho), destruindo a estrutura de capital da economia e levando a produtividade do esforço humano para níveis baixíssimos.

2 - "O Capitalismo gera escassez, que deixaria de existir em um mundo socialista"

[14] Essa proposição, como a anterior, nega a escassez e nega a natureza humana, conseqüentemente não compreende seu meio de sobrevivência. Como já foi dito, a escassez é algo inescapável, o que não significa que não podemos "amenizar" os seus efeitos sobre nosso bem estar. A maneira de se fazer isso tem um nome: capitalismo. É o capitalismo, entendido como o sistema baseado no respeito aos direitos de propriedade dos indivíduos (seus direitos naturais), que permite e incentiva todos a usarem suas habilidades da maneira mais eficiente possível. Faz isso através do sistema de preços, que "premia" (e portanto incentiva) o acerto através dos lucros e "pune" (desincentiva) o erro com prejuízos. Foi Hayek, economista austríaco ganhador do Nobel, que certa vez disse que Marx estava certo; que o proletariado era mesmo uma classe "restrita" ao capitalismo (pensamento do economista alemão), porque se não fosse o capitalismo, o proletariado teria morrido de fome e nunca teria existido.

[15] Foi o capitalismo (mesmo "impuro") que tivemos que permitiu à humanidade deixar a idade das trevas dos ciclos malthusianos, que permitiu a população mais que dobrar em um período relativamente curto. Antes do capitalismo, por quase 300 anos, a população não crescia consistentemente. Por um período existia crescimento, mas tal crescimento esbarrava na baixa produtividade mesmo em setores básicos da economia como o de alimentos. O resultado eram doenças que dizimavam a população, que após um período de baixa, voltava a crescer até bater na barreira da produtividade novamente. Com o capitalismo, o crescimento foi espantoso. As massas migraram para as cidades atraídas pelos altos salários das novas fábricas, o mercado financeiro se desenvolveu permitindo uma captação cada vez maior de poupança, poupança que era melhor investida em termos de eficiência e de risco, deixada nas mãos de homens gananciosos, que só se importavam com o próprio bolso mas que fizeram mais pela humanidade do que qualquer santo. E o mais impressionante: não fizeram todo esse bem porque eram santos, mas sim porque eram "egoístas", queriam lucro e o sistema de preços em um mercado livre, concorrencial permitia que eles alocassem seus recursos da maneira mais produtiva possível.

[16] O capitalismo longe de criar "escassez", criou abundância, uma abundância jamais vista. Uma abundância tão grande que hoje nos ofende ver alguém pedindo comida na rua, uma abundância tão grande que tornam certas imagens da África repulsivas. O capitalismo nos fez esquecer que há pouco mais de 400 anos era a Europa que tinha "imagens de África". Este texto escrito por um desconhecido nascido no interior de um país de terceiro mundo, sendo lido de um computador a, talvez, milhares de quilômetros, conectado em uma rede com outros milhões de computadores é um filho do capitalismo. Uma "quase mágica" que constantemente é ignorada e criticada em blogs, sites e outras coisas que só o capitalismo, com sua alta produtividade, poderia ter gerado e popularizado, facilidades modernas que seus colegas cubanos e norte coreanos nem sabem direito que existe.

[17] O socialismo, ao contrário do capitalismo, gera destruição e miséria ao negar a propriedade privada e ao destruir o sistema de preços. Em relação à propriedade privada, ele acaba com o meio de sobrevivência humana, ele corta o elo entre produzir e “ganhar” pelo que foi produzido, conseqüentemente corta o incentivo a se produzir, a se buscar uma vida melhor. É o clássico problema econômico dos incentivos (se custa fazer algo e você não recebe o beneficio, você não fará). Em relação ao fim do sistema de preços, os agentes econômicos perdem a bússola que, em uma economia de livre mercado, guia a alocação de recursos de forma mais econômica. Qualquer bem pode ser produzido com uma infinidade de combinações de matérias primas e trabalho. Não há meio de decidir qual a maneira mais eficiente, mais econômica de produzir se não existe a possibilidade de mensurar os custos e os benefícios com preços que realmente refletem a escassez dos diferentes fatores de produção e do bem a ser produzido. Só preços, preços “reais”, gerados por mercados, indicam corretamente essa escassez relativa. Essencialmente, o socialismo é a negação do ser humano. É a revolta contra a realidade mais terrível já produzida pelo homem. O número de vítimas no século que passou não deixa dúvidas quanto a isso.

3 - “No capitalismo, um trabalhador não recebe pelo que produz”

[18] Embora eu tenha escrito um texto exclusivamente sobre esse assunto, cabe aqui reforçar de forma resumida a questão do que cada um recebe em uma sociedade capitalista. O argumento padrão que sustenta a afirmação acima é a seguinte: um operário produz vários carros de, digamos, 200 mil reais, mas não ganha nem 20% de um único carro. Embora tal erro aparentemente não seja ligado diretamente a questões como escassez, coerção e liberdade, muitos depois dirão que o operário se sujeita a isso porque não é livre, não tem opção. De brinde, a escassez também é esquecida ao se argumentar em termos “de absolutos” na questão da determinação da remuneração dos fatores. Como já explicamos na refutação da afirmação 1, abundância não é liberdade (embora a segunda seja condição necessária para a primeira). Sobre a questão do ganho do operário, a verdade é que o operário não “produz vários carros” sozinho. Ele é “ajudado” por uma infinidade de outros fatores de produção, como máquinas. Ele é “ajudado” por uma série de poupadores, que deixaram de consumir para fornecer os bens necessários para que fossem construídas não só as maquinas, como também a fábrica em que ele trabalha e, de maneira mais geral, por poupadores que possibilitaram a criação de uma vasta estrutura de capital que permite a produção de uma série de bens de capital, bens intermediários que serão usados na produção final do carro e isso sem a interrupção do fornecimento de bens de consumo “corriqueiros”, que inclusive o operário precisa consumir. Mas, mais ignorado ainda e tão importante quanto, é a “ajuda” que ele recebe de um empreendedor, uma pessoa que, como ninguém, consegue antecipar e descobrir oportunidades de uso lucrativo para os fatores de produção, incluindo o operário, e que assim torna possível uma remuneração a esse operário mais vantajosa do que em qualquer outro lugar ou setor da economia.

[19] Como escrevi no texto mencionado anteriormente: os altos rendimentos pagos a essas pessoas capazes [os bons empreendedores] geram um incentivo para que elas usem essa capacidade [de descobrir oportunidades lucrativas]. Fazendo isso, elas permitem um melhor uso exatamente daqueles fatores de produção menos produtivos. Esse melhor uso eleva também o rendimento desses fatores. Simplificando, é graças ao Bill Gates que popularizou os computadores com seu Windows que alguém que estaria varrendo ruas pode montar uma lojinha para vender computadores ganhando muito mais do que se varresse ruas (e ainda usar o computador na lojinha sem nenhum treinamento relevante).

[20] Pode-se perceber, levando todos esses fatos em conta, que o trabalho que um operário executa na produção de um carro é algo bastante simples, facilmente realizável (em geral, modernamente, consiste em apertar botões). Quanto um novo operário padrão adiciona a produção desse complexo já montado? A resposta a essa pergunta é o quanto ele ganhará. Por se tratar de um trabalho simples, que qualquer um pode fazer, adicionará muito pouco. Para fins de exemplo, imagine uma situação de desequilíbrio, onde um novo operário adicione R$1.000 a produção das empresas de uma dada economia. Uma empresa em particular olha para o mercado de trabalho e descobre que pode contratar trabalhadores para essa função ao salário de R$500,00. Ora, mas ele adiciona R$1000 a produção, logo a empresa tem um lucro de R$500 com a contratação desse funcionário. As outras empresas farão a mesma conta e correrão demandar trabalhadores, que, pelos números, é uma política altamente lucrativa. Os salários começarão a subir até se igualarem ao que um novo funcionário, naquela função, adiciona a produção (que é chamado de produtividade ou produto marginal). Quanto você pagaria a um projetista que pode desenhar um novo carro, espetacular, que renderia vendas na casa dos 100 milhões? Simplificando as coisas (não levando em conta risco), algo muito próximo de 100 milhões, porque é isso que ele adicionaria a produção da sua fábrica, que te geraria de ganho e ele é “único”, não é como um operário padrão que pode ser contratado facilmente.

[21] Muitos não economistas rejeitam essa visão “marginalista” (de olhar para acréscimos) e argumentam em termos de escolhas entre “absolutos” (todos os operários do mundo, ou nenhum). Eles afirmam: então não é o operário que produz carros? São maquinas? Projetistas? Tire todos os operários da sua fábrica para ver o que acontece. Como já disse em outro texto, tal consideração é válida para qualquer fator de produção ou mesmo para os supostamente “inúteis capitalistas” (senão fosse válida, tal “coisa” não seria escassa, não faria parte de nenhuma preocupação humana). Tire as máquinas da fábrica e veja quantos Mercedes sairão. Tire o trabalho de todos os projetistas e veja que espetáculo de carro será produzido (talvez algo próximo de um Gurgel). Tire a poupança e o capital do capitalista e veja que fantástica fábrica os operários montarão. A escolha entre “todos os operários” ou nenhum não existe no mundo real, nenhuma demanda ou oferta é tomada com base nessas considerações. A pergunta correta a ser feita é: por quanto alguém apertaria o botão para ligar a maquina? Esse alguém aceitará uma quantia X se essa quantia for maior que qualquer outra quantia que ele pode obter fazendo outra coisa. É o valor, é a produção que ele “adiciona” à economia, o seu produto marginal. Eis o seu salário.

4 - "Os liberais defendem a 'liberdade burguesa'. Os socialistas defendem a verdadeira liberdade"

[22] Como a maioria dos leitores de política e assuntos relacionados sabe, os socialistas têm o esquisito hábito de xingar as pessoas e depreciar “coisas” usando o adjetivo “burguês”. Se algo é burguês para um socialista, pode ter certeza que não é algo bom e isso inclui a “liberdade burguesa”. Existem dois significados mais usuais para o termo: um é liberdade dos burgueses de explorarem os operários, pagando salário de fome, sem “direitos trabalhistas” e de cobrarem preços abusivos desse mesmo operário depois como consumidor. O outro significado é mais simples, liberdade burguesa é “liberdade de comprar e vender”. E qual seria a “verdadeira liberdade” socialista? Basicamente a terra do “faz de conta” da abundância. Você não precisa trabalhar, pode escolher tudo que quiser e ainda pode passar a tarde inteira pintando passarinhos na beira do rio ou lendo algum livro de Marx e companhia. Falta só descobrir quem paga a conta (a chata da escassez, de novo, diz “olá”). Como já foi explicado, liberdade não é abundância, no entanto é a tal “liberdade burguesa” que propicia essa abundância (veja a refutação da proposição 2).

[23] Um outro ponto mal compreendido é que a suposta “liberdade burguesa”, que prejudica os pobres operários e ajuda os “barões da industria”, faz exatamente o papel contrário (nesse sentido, seria mais correta chamá-la de “liberdade proletária”). Vejamos, por exemplo, a questão do valor dos salários. A “liberdade burguesa” gera não só um incentivo à poupança (devido a certeza institucional, respeito a propriedade), como uma alocação melhor dessa poupança em investimentos lucrativos. Isso aumenta a quantidade e a produtividade do capital da economia, que por sua vez eleva a produtividade do trabalho que, como explicamos, determina os salários. É por isso que em um país com forte respeito aos direitos de propriedade como os EUA, um operário médio ganha muito mais que um operário latino-americano, ou ainda, é por isso que os sul-coreanos (capitalistas) ganham bem mais que seus vizinhos norte-coreanos (socialistas) mesmo que há 50 anos atrás, antes da divisão, ambos ganhassem a mesma coisa. Lembrando novamente Hayek, Marx realmente estava certo, o proletariado é “filho” do capitalismo, pois esse é o único sistema econômico que permite a sua sobrevivência.

[24] Recentemente, o presidente burguês da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), uma espécie de sindicato patronal, fez uma "desavergonhada" defesa do protecionismo e do intervencionismo (não do livre mercado). Os socialistas, adeptos da idéia de “liberdade burguesa” (boa para burguês, ruim para proletário), não devem ter entendido nada. A razão é muito simples: a tal liberdade burguesa é uma pedra no sapato dos burgueses. Graças a ela, os burgueses não podem parar de inovar, não podem ficar desatentos um só momento, enfim, não podem "viver das glórias do passado". Graças a ela (liberdade burguesa) qualquer moleque “pé-rapado” pode produzir algo novo, lançar no mercado e simplesmente destruir um “império” de uma vida inteira. Graças à “liberdade burguesa”, os burgueses sempre precisam atender aos seus verdadeiros patrões: o consumidor. Seria muito melhor se, através da força, eles pudessem garantir suas posições (ou facilitar as coisas nesse sentido). Eis aí o porquê toda hora vemos “burgueses” defendendo intervenções e regulações do governo na economia (exigência de licenças e autorizações de “agências reguladoras”, protecionismo, incentivos governamentais são os pedidos mais comuns). O que eles querem é subsídios, proteção, não livre mercado, não “liberdade burguesa”. Essa última é uma eterna ameaça as suas posições. É o consumidor constantemente vigiando e avaliando seu trabalho, decidindo se aprova ou não aprova suas decisões. Quem deveria defender a “liberdade burguesa” é exatamente a massa de “proletários” e os consumidores, os dois grandes beneficiários dela.

[25] Um outro exemplo interessante vem do famoso “controle de capitais”. Pelo mundo, todos os ditos socialistas, defendem restrições a movimentação de capitais dizendo que isso é só mais um aspecto da “liberdade burguesa”, liberdade para especular, para lucrar. O que eles nunca levam em conta é que essas restrições, diminuem a quantidade de capital em um dado país e conseqüentemente diminui a produtividade do trabalho e os salários. Por outro lado, a restrição de capital estrangeiro cria uma "reserva de mercado" justamente para os capitalistas locais, que passam a ter lucros maiores do que em um livre mercado exatamente às custas dos trabalhadores (com seus salários "achatados"). Mais uma vez a "liberdade burguesa" beneficiaria justamente os trabalhadores, mas, agora, graças ao fogo amigo (pelo menos da boca para fora) dos socialistas, os trabalhadores são penalizados.

[26] Quanto ao segundo significado de liberdade burguesa (liberdade de comprar e vender), não há muito o que dizer. Liberdade é sim, inclusive (mas não só), liberdade de comprar e vender. E não há nada de errado com isso. Se algo é seu, isso implica que você pode trocá-lo por outra coisa (desde que essa outra coisa seja da pessoa que está na outra ponta da troca). Liberdade de comprar e vender é uma simples derivação da idéia de que liberdade é ausência de coerção (ou respeito aos direitos de propriedade). Quando os socialistas dizem que "liberdade para os liberais é comprar e vender", o que eles querem dizer é que só pessoas com bens tem liberdade. É novamente a confusão entre liberdade e abundância que gera exatamente seu oposto: miséria. Para socialistas e "igualitaristas", só é livre quem tem um "grande leque de escolhas". Liberdade, em termos de "leque de escolhas", não é ter o leque, mas sim a possibilidade de conquistar um grande leque. Para conquistar isso, você é livre, ninguém usará a força, ninguém violará a sua natureza como indivíduo para tentar impedi-lo. Obviamente isso não significa que você conseguirá seus objetivos e nem que esses objetivos são facilmente conquistáveis. O ponto principal, em termos de liberdade, é que assim como você é livre, os outros também são, logo não se pode usar a coerção contra eles para facilitar as coisas para você. As suas "dificuldades" não o torna proprietário dos bens de outra pessoa.

[27] Assim como a maioria dos erros refutados neste texto, esse também esbarra na realidade da escassez. Se alguém quer um grande leque de escolhas, basicamente existem duas opções: ou ele produz, conquista esse leque ou outro terá que produzir. Bens não caem do céu, são escassos. Se, para fins de exemplo, ele não produzirá, então sobra a alternativa de outro produzir. Mas esse outro só produziu tal leque (e continuará produzindo) porque se beneficia desse leque (seja por consumo próprio ou por consumo de entes queridos). Ele o faz voluntariamente porque os custos superam os benefícios. A partir do momento que os benefícios diminuem, sobram os custos e isso levará a pessoa capaz de produzir esse grande leque a não mais produzi-lo. Sobram então o uso cada vez maior da coerção (para obrigá-lo a continuar fazendo) e a miséria (porque sociedade alguma baseada na força funciona e os competentes pararão de produzir de qualquer maneira o leque). Esse é o motivo do socialismo (que é a idéia radicalizada de liberdade como sendo abundância) gerar tantas mortes e se "transformar" em regimes totalitários.

[28] Os socialistas costumam olhar para URSS, Coréia do Norte, Cuba e afirmar que aquilo não foi socialismo. Foi uma deturpação, uma corrupção do belo sonho de Marx e companhia. Mas aquilo não foi uma corrupção. Aquilo é a conseqüência inevitável de se rejeitar o que é, inclusive de se rejeitar a natureza humana (o que o homem é). É a inevitável conseqüência de se rejeitar problemas básicos como a escassez, de se construir conceitos como liberdade que não são aplicáveis no mundo real, conceitos que têm em suas raízes a negação do que existe, de como as coisas são. O socialismo não passa de um delírio, de uma deliberada cegueira em relação ao que é. As conseqüências jamais poderiam ser diferentes: a morte e a destruição do ser humano. Não se pode esperar nada diferente de um homem que sonha ter asas e salta de um prédio de 80 andares achando que o sonho é a realidade.