segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Valores objetivos x valores subjetivos

[1] Por e-mail, um leitor deste blog, estudante de economia e filosofia, me perguntou se eu não achava "incoerente" defender valores subjetivos na economia e valores objetivos na ética. É uma questão bastante interessante e eu gostaria de dar alguns pitacos sobre o assunto.

[2] Primeiro é importante separar economia de ética. A economia, como ciência, não diz o que deve ser, o que é correto ou errado moralmente, ela diz apenas como o mundo funciona, como as pessoas, sendo o que são, agem. Na terminologia clássica que os estudantes de economia conhecem, a economia é positiva e não normativa. A ética seria a outra parte, a parte normativa, o como deveria ser, como é o certo, o justo e o moral. Muitas coisas que são chamadas de "economia normativa" em manuais de microeconomia ou mesmo em salas de aula realmente não são "normativas". Quando um professor diz que a concorrência perfeita é eficiente no sentido de Pareto, isso não é nenhum juízo moral ou normativo. É apenas conseqüência lógica de um dado modelo e suas definições.

[3] Em um exemplo simples, imagine que um economista diga que um certo mercado é ineficiente porque se aproxima de um monopólio. Em tese, em termos estritamente econômicos, isso é uma proposição positiva. A maioria dos estudantes de economia sabem que, pelo modelo convencional da teoria neoclássica, um monopólio será ineficiente no sentido de Pareto. Agora, a ineficiência é desejável ou não? É boa ou ruim? Se algo é ineficiente, devemos buscar a eficiência? Se sim, por quais meios? Essas são as questões normativas / éticas do problema.

[4] Como uma ciência positiva, a economia deve explicar como as pessoas agem, os mecanismos por trás dessas ações e não fazer qualquer juízo de valor. É aqui que entra o valor subjetivo. Em termos positivos, as pessoas não agem de acordo com valores que elas não percebem, não compreendem ou não concordam, independente de qualquer noção objetiva de certo ou errado. Se a função da economia é estudar como as pessoas agem / escolhem, os valores que motivam suas ações e escolhas devem ser tomados como dados, fora de qualquer escopo de análise em termos morais. Para ilustrar o que estou dizendo, peguemos um drogado e alguém completamente avesso á drogas. Importa muito pouco para uma ciência que quer conhecer como as coisas são se consumir drogas é correto ou não. O que temos, de fato, é que o drogado aceita pagar uma quantia razoável por algo que o "anti-drogas" considera lixo, um "mal". O que para um é um mal, para o outro é um bem - é algo desejável.

[5] Eu acredito que essa seja a explicação mais pragmática do porquê é correto se defender o valor subjetivo em economia, ou mais simples do que "defender valores subjetivos", para os propósitos de ciência positiva, apenas reconhecer que as pessoas agem de acordo com suas escalas de preferências e pouco importa se a ordenação que elas fazem é correta ou não do ponto de vista moral, porque o que se quer é realmente entender como elas agem, estando certo ou errado eticamente.

[6] O outro ponto que eu gostaria de comentar é sobre a própria terminologia "subjetivo" e "objetivo". Em economia ela é muito usada para confrontar de um lado, marxistas e autores chamados clássicos (como Adam Smith e David Ricardo), contra os "neoclássicos" ou filhos da revolução marginalista de Jevons, Walras e Menger. Os defensores do valor objetivo defenderiam uma teoria de valor que imputa a qualidade de ter valor como um atributo direto de um objeto. Assim, por exemplo, se um objeto foi construído com trabalho humano, por ter trabalho humano, ele tem valor de troca. A teoria "objetivista" mais famosa é a de Marx, que basicamente coloca o trabalho humano que uma dada "mercadoria" tem, como origem e causa do seu valor de troca. Nessas teorias, o valor é "único" e é um atributo do objeto em si (que, no caso marxista, foi produzido com trabalho).

[7] Já o subjetivismo defende que o valor não é um atributo da coisa, do objeto, mas sim uma qualificação criada pela mente humana. Alguém percebe que "aquela coisa" pode servir a um dado propósito seu e dada essa percepção atribui um valor aquilo. Assim, duas coisas iguais fisicamente, dependendo do propósito de cada agente, de como ele percebe o mundo e de seus gostos, podem ter valores completamente diferentes. Justamente por terem valores diferentes para cada individuo é que essas coisas serão trocadas dando origem ao fenômeno dos mercados e da noção de preço de equilíbrio.

[8] Essa diferenciação em economia entre "valor objetivo" e "valor subjetivo" não é, diretamente, a mesma existente no campo da ética, embora elas possam ser ligadas. Quando em ética falamos em valores objetivos, o que queremos dizer é que algo é comprovadamente certo ou comprovadamente errado. O "comprovadamente certo/errado" aqui significa que pode ser demonstrado que algo é certo/errado, seja através da lógica que torna a negação de certas coisas a própria confirmação dessas coisas, seja através do próprio reconhecimento do que um ser humano é e conseqüentemente o reconhecimento da compatibilidade de certos valores à essa natureza. Veja que "objetivo" aqui não é um atributo de coisas independentes do ponto de vista e da natureza humana. Roubar é errado porque implica a negação da propriedade privada, o que 1) por sua vez nega o único meio de vida humana: a produção e a conseqüente propriedade dessa produção 2) implica em uma contradição com a idéia de auto-propriedade. O objetivo aqui é completamente definido dentro do que somos, da nossa natureza e do nosso conhecimento do mundo. Ele não é um atributo de coisas externas ao ser humano e suas ações. O subjetivo, dentro da ética, seria a impossibilidade de provar a correção de um valor, de uma ética. É o famoso "pode ser certo para você, mas para mim não é".

[9] Como a ética se refere a ações e escolhas humanas, a tradicional dicotomia da economia não é aplicável, pois não há nada fora de ações humanas que interesse a ética, que possa ser alvo de juízo de valor. Quando eu digo que o "valor é objetivo" em economia, estou dizendo que o valor é um atributo da coisa, é uma propriedade dela, externa a qualquer ponto de vista humano. Em ética, a mesma sentença significa que é possível demonstrar que algo é correto ou não, exatamente dentro daquele conjunto de conhecimento que temos a nossa disposição.

[10] No entanto, como disse anteriormente, os campos podem ser ligadas. Dizer que o valor é objetivo em economia significa que, em tese, existe uma maneira de mensurar esse "valor correto" e que esse valor correto pode estar ou não se refletindo nos preços de mercado (embora, para a teoria ter as conseqüências que os marxistas desejam, os preços deveriam orbitar esse "valor correto"). Os "objetivistas economicos" tem uma dificuldade imensa com isso ao, por exemplo, serem confrontados com o porquê uma Ferrari custa consistentemente muito mais que um Omega mesmo que não exista, em termos de trabalho, nada que justifique tamanha diferença. Eles lançam mão do conceito de "fetiche", que para mim não é nada mais nada menos do que a rendição ao valor subjetivo dos neoclássicos/austríacos.

[11] No campo da ética, defender o "objetivismo" implica quase nas mesmas coisas. Aquilo que realmente está sendo executado, aqueles valores que estão sendo seguidos, o que as leis dizem que é justo, não necessariamente é o "correto". Existe uma separação entre "o que ocorre" e "o que é certo" (como preços e valor de troca). No subjetivismo, nos dois campos, essa separação não existe. Se uma Ferrari custa muito mais que um Omega, automaticamente é porque as pessoas valoram muito mais a Ferrari que o Omega. Para uma ciência positiva, que quer explicar a lógica da ação e não fazer juízo de valor, isso é completamente legitimo e lógico. Se alguém, supondo que possa escolher entre X e Y (e é essa a real escolha na sua mente), escolhe X, então é porque X é preferível a Y (X tem mais valor que Y). Não faz sentido admitir o contrário. Na ética, o subjetivismo também acaba deixando de lado o "juízo de valor" ao afirmar que "ninguém está certo" ou que não existe certo ou errado, justamente no campo cuja função seria exatamente essa.

[12] Em resumo, não há contradição entre defender que valores são subjetivos em economia e objetivos em ética: 1) porque mesmo se considerarmos que eles são objetivos nos dois campos, para os propósitos da economia (explicar a lógica da escolha), valores objetivos que as pessoas não seguem ou não percebem, desconhecem etc.. ao agir / escolher não tem a mínima relevância. A economia até poderia nos ensinar que será desastroso (de algum ponto de vista normativo) não segui-los, mas a correção ou não dos valores que as pessoas seguem não tornaria a economia mais certa ou mais errada. 2) De fato, o "valor objetivo" em economia não tem o mesmo significado de "valor objetivo" em ética. No primeiro caso, dizer que o valor é objetivo, em termos positivos, implica em dizer que essa característica é um atributo do objeto em si (que tem trabalho humano, por exemplo), algo totalmente externo a mente humana e aos propósitos do agente em questão. Já em ética, implica em dizer que é possível demonstrar que algo é certo, justamente considerando o "universo humano".

[13] Por último, imaginemos que a teoria marxista do valor (a teoria objetivista em economia mais divulgada) esteja correta. Isso implicaria automaticamente que o conceito de "exploração" seria positivamente verdadeiro, ou seja, os "burgueses" exploram o "proletário". Como eu disse, o conceito seria verdadeiro positivamente, ele descreve / explica corretamente como as coisas acontecem (embora continue sendo inútil para a economia entendida como a teoria da escolha)... No entanto a imaginária veracidade positiva do conceito de exploração não diz se o fato de as coisas acontecerem de tal forma é moralmente errado ou certo. Obviamente a palavra "exploração" é completamente carregada de aspectos morais, o que torna essa separação quase impossível e, de fato, ela nunca é feita. Quando um marxista diz que o capitalismo é baseado em exploração, ele não diz isso somente com a intenção de explicar como as coisas são, mas está interessado também no "teor ético" da proposição.

[14] Mas para fazer valer o "teor ético" da proposição, um marxista teria que derrubar muitas outras proposições éticas que hierarquicamente estão acima da questão da exploração. Ele teria que derrubar, por exemplo, o porquê um proletário não poderia livremente aceitar se tornar mais produtivo usando máquinas de um burguês e "deixar um pouco desse esforço" (a mais-valia) para o burguês. Provavelmente, um marxista atacaria isso afirmando que as máquinas do burguês também foram fruto de exploração anterior e por ai vai. A economia positiva correta faria muita falta nessa hora pois seria impossível ele compreender o fenômeno da poupança, dos juros e a alocação intertemporal de bens que o capitalista propicia e que isso é um serviço produtivo.

[15] Dentre outras razões é aqui que entra o porquê dos marxistas se virarem tanto para a história e fazerem dessa área uma espécie de "território vital" - eles precisam de um pecado original para combater a moral verdadeira do direito de propriedade que o conceito de exploração, mesmo visto pelo aspecto ético, não consegue derrubar. Eles precisam da fábula do "camponês pobre, porém feliz" vivendo em um paraíso sendo roubado pelo burguês que assim o deixa sem escolha - ou ele aceita "deixar parte do seu esforço" ou morre de fome. Veja que, mesmo a máxima liberal de que cada um é responsável pela sua vida e que ninguém é obrigado a fornecer leques de escolha a ninguém, também seria derrubada, devido ao "roubo original". É por essas e outras que a revolução industrial e algumas leis de cercamento viraram um dos assuntos preferidos desse povo. Elas fazem o papel de "pecado original" que permite ao conceito de exploração implicar em uma série de proposições éticas contrárias ao que chamamos de capitalismo e livre mercado, coisa que não seria possível sem uma violação de propriedade anterior.

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