quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um comentário sobre moeda

Em um passado "distante", me lembro de ao ler um artigo do ex-presidente do BACEN, Gustavo Franco, uma passagem me chamar muito a atenção. Ela dizia que era irônico o fato de no passado, os "ultra-conservadores" monetários terem dado as mãos aos marxistas mais ortodoxos na defesa do padrão ouro, muito embora o motivo seja para lá de diferente (ou nem tanto).

Lembrei dessa passagem porque ao ler alguns textos liberais internet afora, percebo uma espécie de erro quanto ao ouro e a sua relação com o conceito de moeda. Os marxistas ortodoxos, que Gustavo Franco lembrava, defendiam o padrão ouro porque, ao contrário do papel-moeda sem lastro, o ouro precisava ser extraído e "confeccionado" para que virasse moeda, o que significava que existia um considerável trabalho humano na produção da moeda e conseqüentemente era mais fácil encaixar a teoria do valor trabalho na moeda-ouro do que na moeda sem lastro, afinal, uma moeda que valesse mais, deveria ter mais ouro, logo, ceteris paribus, mais trabalho para sua produção. Algo completamente diferente acontece com a moeda sem lastro cujo trabalho para se pintar 1 ou 1000000 na nota é quase igual, enquanto o valor é totalmente diferente, dificultando as coisas para a teoria do valor trabalho (eles falam em “descolamento do real valor”).

É uma situação engraçada essa porque atualmente muitos liberais tem tido uma espécie de "recaída marxista" nas suas defesas do ouro quando apontam a "relíquia barbara" como uma moeda "mais pura", "nobre" – mais ou menos como o Gustavo Franco lembrava. Alguns chegam a falar até em "verdadeira moeda", "a real moeda". Muitas dessas defesas são defesas cuja intenção final tem meu total apoio: uma luta contra o inflacionismo, contra políticas monetárias expansionistas e contra o domínio do governo sobre o sistema monetário, mas não deixam de estar erradas quanto a "nobreza monetária" do ouro.

O ponto inicial de toda essa conversa é a pergunta: o que é moeda? Moeda é um bem que serve de meio de troca, ou seja, é "uma coisa" cuja utilidade, função é basicamente servir de meio de troca (e não ser classicamente consumida, por exemplo). Para algo vir a se tornar moeda, esse algo precisa ser generalizadamente aceito - qualquer um que queira um bem tem que saber que se aparecer com uma coisa "X", obterá o bem que quer se oferecer "Xizis" suficientes. Assim, o açougueiro sabe que se for até o cinema com um certo bem, conseguirá trocar esse bem por "sessões de cinema". Por outro lado, o dono do cinema aceita de bom grado esses bens que o açougueiro trouxe porque sabe que se levá-los até o marceneiro, conseguirá cadeiras.

Veja que a única coisa que transforma um bem qualquer em moeda é justamente essa crença de que com esse bem eu consigo em troca "todos" os outros bens. A “transformação” de um bem especifico em moeda é fruto dessa crença e nada mais. O ouro, em termos de teoria, não desempenha absolutamente nenhum papel mais relevante que qualquer outro bem. Porém, na prática, foi ele que emergiu espontaneamente como moeda por uma série de razões que não vem ao caso (uma das mais relevantes em termos de economia é a estabilidade/previsibilidade do seu valor como bem de consumo). Alguns liberais, devido a essa fato histórico, passaram a confundir completamente o conceito de moeda com a moeda específica que, de fato, tivemos. O fato do ouro ter sido uma moeda não significa que moeda é ouro e tudo aquilo que não for ouro e é usado como moeda não é uma "real moeda".

Na prática, não existe absolutamente nenhuma "falsa moeda" (moeda entendida como um meio de troca). Mesmo as moedas de curso forçado, como quase todas do mundo atual, não se mantém por serem de curso forçado. Basta ver o que ocorreu pelo mundo todo quando governos começaram a inflacionar suas moedas de curso forçado. Me lembro que o meu primeiro video game (lá pelo final da década de 80, começo da década de 90) foi pago, na prática, em dólares, mesmo a moeda local sendo de curso forçado. O mercado sempre "dá um jeito" de descartar as moedas ruins sejam elas de curso forçado ou não. Obviamente a moeda continua a existir fisicamente, (as notas de papel não somem), mas ela deixa de ser realmente uma moeda, passa a ser um mero "trampolim" final para a transação ser realizada, uma "burocracia" a mais na transação (que obviamente tem seus custos). Mas ela jamais será demandadada para os saldos de caixa dos agentes econômicos, não será considerada, do ponto de vista dos agentes, um meio de troca. O meio de troca real é aquele outro "papel estrangeiro" que só é convertido “bem no final” da transação para cumprir as leis locais quanto ao curso forçado.

E aqui chegamos ao ponto principal: pouco importa o que fisicamente é uma moeda. Ela pode ser pedaços de papel sem lastro algum (como é hoje), pode ser papeis lastreados em algum outro bem (nesse caso, a moeda realmente é esse bem fonte do lastro) ou ainda ser o próprio bem fonte do lastro que será realmente carregado e trocado - nenhuma característica tirará a classificação de moeda de uma dada coisa enquanto as pessoas acreditarem que aquela coisa lhes possibilita trocar bens facilmente "mais adiante" e por isso elas aceitam essas "coisas" de bom grado. O ouro, reforçando, não tem nenhum papel diferenciado aqui. O que levou o ouro a ser uma moeda foi exatamente a mesma qualidade que os atuais "pedaços de papel sem valor", como dizem alguns liberais e marxistas, possuem: o de ser generalizadamente aceito como meio de troca. O ouro não é "mais moeda" que nenhuma nota de US$1 atualmente (provavelmente é até "menos moeda", dado que é mais difícil trocar bens por ouro do que por dólares).

A questão da moeda sem lastro ter favorecido governos inflacionistas e políticas monetárias desastrosas é um ponto que eu também considero verdadeiro, mas isso não torna o ouro "a real moeda", "a moeda verdadeira" e o dólar ou qualquer papel moeda sem lastro uma falsa moeda. Dado que conseguimos comprar qualquer coisa com dólar, que as pessoas sabem que isso é possível, aceitam esses papeizinhos, os guardam em seus saldos de caixa e essa crença vai se "auto-reforçando" na medida que elas realmente conseguem fazer aquilo que acreditam (comprar quaisquer bens com aqueles papeizinhos), o dólar (e os demais papeis moedas) são moedas tão verdadeiras quanto o ouro foi no passado. É errado, do ponto de vista econômico, afirmar que o ouro é uma "verdadeira moeda" por ser "ouro", por ser um bem com valor "fora do uso monetário" enquanto o papel moeda sem lastro "não tem valor algum". Ele tem valor, exatamente como moeda. As pessoas dão muitos bens em troca desses papeizinhos e com certeza não é nem para come-los nem para usar como papel higiênico. É justamente para comprar outros bens com eles, ou seja, usá-los como meio de troca, como moeda.

2 comentários:

Leandro disse...

Richard, ótimo texto!

Eu já fui padrão-ouro radical, porém, por uma questão "pragmática", deixei de defendê-lo tanto quanto antes (por dois motivos: 1) se os EUA não o adotarem, ninguém mais adotará; 2)O ouro é fácil de ser confiscado pelos governos).

Atualmente tô de namoro firme com o free-banking, mas ainda tem questões que me incomodam ali.

Gostaria de ver um texto seu sobre isso.

Grande abraço!

Richard disse...

Leandro,

Você já leu o texto do link abaixo:

http://depositode.blogspot.com/2009/02/sobre-reserva-fracionada.html

Pule a primeira parte (sobre como funciona reserva fracionada).... acho que você encontrará algo que te interesse

Abs