terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O que vem antes? Poupança ou investimento

Recentemente foi publicado no Estadão um artigo intitulado “Poupança e Investimento”. Confesso que fiquei estarrecido ao ler o artigo. A idéia de que o investimento vem antes da poupança é uma das maiores bizarrices da suposta “macroeconomia keynesiana”. Mas a coisa sempre pode ficar pior, principalmente quando aparece um “econometrista” querendo testar/provar que isso é verdade ou quando um doutor em economia escreve em um jornal de grande tiragem que :

“....A segunda contribuição importante [contribuição para a teoria de que o investimento antecede a poupança], esta advinda da análise da experiência de desenvolvimento dos países, denota que especialmente no caso asiático a hipótese keynesiana se confirmou...” – negrito meu

Quando alguém disser que investimento vem antes de poupança, um bom começo antes de dar risada é perguntar o que a pessoa entende por poupança e investimento. Às vezes a mesma palavra pode ser usada para conceitos completamente diferentes, mesmo que exista um certo senso comum sobre seu uso. Só isso para salvar a tal proposição keynesiana.

Em economia, poupança significa trocar (quando é dada essa possibilidade, ver mais a frente) bens presentes por bens futuros. Você deixa de consumir hoje, para consumir amanhã. Basicamente, você tem 2 maças, come 1 e guarda a outra para amanhã. Você poderia consumir as duas “hoje” (consumo presente), mas preferiu abrir mão desse consumo presente (1 maça), para consumir no futuro. Veja que poupança é o nome dado a uma ação humana, uma escolha (dada as circunstâncias você consome menos). É isso que a faz ter algum sentido econômico. Definições que não se relacionam com as ações dos agentes econômicos não podem logicamente fazer qualquer sentido em uma teoria da escolha, ou seja, a economia.

E o que é investimento? Embora seja mais difícil definir do que poupança, basicamente imagine a seguinte situação: você tinha 2 maças e come 1. A outra você pega, tira as sementes e planta. Num futuro um pouco mais distante, se tudo correr bem você terá uma macieira (ou seja, várias maças). Acho que ninguém discorda que isso é um “investimento”. Basicamente um investimento é usar bens presentes de forma a gerar mais bens no futuro, ou seja, aplicar os bens poupados de forma a obter mais bens no futuro.

Logicamente, dado o que se chama de “poupança” e “investimento”, o segundo sai do primeiro. A poupança é a fonte do investimento. Não há necessidade alguma de técnicas econometricas, análises de séries econômicos; basta ver o que é cada conceito. Alguns economistas “empiricistas” estão tão contaminados por uma metodologia completamente equivocada que não percebem nem o absurdo do que dizem. Alguns afirmam coisas tão certas quanto a morte começando a sentença com “os dados mostram que....”, tornando a situação cômica, para não dizer outra coisa. Nesse caso da poupança ou investimento, os dados (no sentido que os empiristas usam) não mostram e nem “desmostram” nada. Esses empiristas ficariam estarrecidos se disséssemos que dado o que é “azul” e o que é “amarelo”, com certeza não existe nenhum objeto azul e amarelo ao mesmo tempo e não é necessário econometria para mostrar isso.

No caso da poupança e investimento, aquilo que a economia chama de poupança vem, por definição, antes do investimento. Poupança é simplesmente o conjunto de bens “não consumidos” que permite alocá-los para a “multiplicação dos bens” no futuro – o investimento. Se algum conjunto de séries econômicas indicar o contrário, duvide até do papa, mas jamais duvide da proposição lógica que segue dos conceitos. É como ter achado um “objeto azul e amarelo ao mesmo tempo”... Duvide dos seus óculos, reveja se você classificou azul e amarelo adequadamente (aliás, isso para séries econômicas é vital, nem sempre o que se chamou de poupança para construir uma série foi, economicamente, poupança), mas obviamente não brigue com a lógica, com o que as coisas são. Pela natureza dos dois conceitos, poupança vem sempre e necessariamente antes do investimento. Um, a poupança, é a ação que permite o outro (investimento).

Por último gostaria de comentar a seguinte frase (que não é o posicionamento do autor do texto, ele só estava expondo a teoria):

“Portanto, a palavra-chave [para a teoria keynesiana] no caso é a criação de fontes alternativas de financiamento e crédito que independam de uma poupança prévia, no sentido de privação do consumo.” – negrito meu

Nenhuma fonte de financiamento de investimento independe de “poupança prévia”. É exatamente isso que está em discussão. Não adianta um banco emitir “papeizinhos” sem poupança e chamar aquilo de crédito. O recebedor desse crédito terá que ir ao mercado com essa nova moeda e o que ele conseguirá, no máximo, é fazer subir os preços e através de algum efeito redistributivo (porque ele recebeu o dinheiro primeiro do banco), conseguir os bens para financiar o seu projeto. Essa obtenção de bens através da redistribuição gerada por emissões adicionais de crédito foi chamada de “poupança forçada” por alguns economistas, com destaque para o austríaco Friedrich Hayek (a pessoa é “forçada” a diminuir o seu consumo porque os preços sobem e os seus rendimentos não) e tem um papel crucial na teoria austríaca dos ciclos econômicos. Mas até nesse caso existe uma poupança, ou, se você não aceitar que isso é poupança, só está dizendo que os bens foram tirados “veladamente” das pessoas, o que não altera a essência da proposição clássica, a de que um conjunto de bens precisa ser “não consumido” para ser investido.

A situação “menos complicada” é aquela em que não há efeitos redistributivos (digamos, porque todo mundo esperava a expansão do crédito) e o tal crédito adicional só vira inflação. Não existe bens poupados (nem convencionalmente e nem “à força”) a disposição do cidadão com os papeizinhos adicionais para que ele os realoque na produção de bens futuros.

No fim das contas, falar em investimento vindo antes da poupança é exatamente como afirmar que uma bola é quadrada. Se é bola, não pode ser quadrada. Se teve investimento, então os bens investidos tiveram que sair de algum lugar e esse “algum lugar” é comumente chamado de poupança (são os bens que as pessoas não consumiram, não “destruíram” previamente).

Um comentário:

Rafael Felipe disse...

são essas idéias malucas (entre outras) as fontes das pérolas do sr. Guido Mantega...

até minha mãe, D. Helenita, sabe que se vc não economizar feijão no almoço, não vai ter para o jantar...