domingo, 14 de junho de 2009

Bancos ganham com a “taxa básica de juros” nas alturas?

A resposta a essa pergunta parece ser um óbvio sim, assim como alguém, num primeiro momento, responde que um vendedor de bananas ganha mais se o preço da banana subir. Ocorre que no caso dos bancos, existe uma pequena diferença – eles não possuem bananas próprias. Bancos são meros intermediadores financeiros. O que eles vendem, no fundo, não é “dinheiro”, mas sim serviços de intermediação.

Se a taxa de juros da economia sobe, sobe também os juros que um banco precisa pagar para realizar captações, ou seja, tomar dinheiro dos poupadores para repassar aos emprestadores. Em cima desses juros básicos (de captação), o banco então adicionará um “plus” (chamado de spread) que será o preço do seu serviço. Não há nada óbvio que diga que juros básicos altos (no caso brasileiro, a SELIC) significará lucros maiores. É mais provável que quedas de juros sejam mais favoráveis, afinal, o custo de captação cai e, dependendo do grau de concorrência, tal queda não é repassada aos consumidores finais, o que “alarga” o spread.

Acredito que a confusão seja causada por um erro no que se refere a atividade de um banco. Voltando ao vendedor de bananas e sem entrar em considerações mais elaboradas sobre elasticidade de oferta e demanda, em tese, em um primeiro momento, se o preço da banana subir, não há nada que diga que o preço dos fatores de produção de banana subiram também, de forma que há um aumento da diferença entre o custo da banana e seu preço de venda (obviamente, quanto mais organizado e eficiente for o mercado, menor será o tempo desse “aumento de lucro”). Essa é a razão do “sim” como resposta à pergunta “se o preço da banana o vendedor lucra mais?”. No caso dos bancos a mesma dissociação entre o custo e o preço do bem final não é possível, porque os juros também são o custo do banco, o custo de obter recursos e é essencialmente com recursos de terceiro, emprestados, que um banco trabalha. Ele faz intermediação financeira, não é o banco o poupador.

A história de que bancos faturam muito com a taxa de juros básica alta não tem fundamento econômico. É mais uma criação de inflacionistas e esquerdistas para tornar políticas monetárias rígidas contra a inflação alvo de “impopularidade”, além de desvirtuarem a real causa dessa alta – uma moeda sem confiança e um governo gastão. Os juros seriam “altos” não porque o governo gasta muito ou porque durante toda história deste país nunca houve uma política monetária que merecesse algum respeito (aliás, políticas monetárias essas implementadas por boa parte dos economistas que defendem que o juro é alto por causa dos banqueiros que lucrariam com isso). Seriam altos pela sede de lucro dos banqueiros. É a justificativa perfeita, nada melhor do que uma “conspiração por lucro” (querer lucro honestamente já é um crime, imagine “às escondidas”, com fraudes, complôs) e ainda por cima de banqueiros (que já são vistos como o diabo na terra).

Para terminar, um outro ponto também um tanto mal compreendido envolvendo títulos públicos federais. Tirando títulos pós-fixados (que eu me lembre só as LFTs são assim, em termos de juros), quedas de juros elevam o preço do título pré-fixado, o que gera um ganho para alguém que possui um (por exemplo, um poupador que comprou uma LTN). Aumentos de juros têm o efeito contrário, derrubam o preço dos títulos pré-fixados, logo geram uma perda para o possuidor de um desses títulos (obviamente a perda e o ganho é no valor da sua carteira, não é, de fato, um dinheiro que saiu ou que entrou, no final, ele vai receber os mesmos R$1000 no valor de face do título). Para o governo variações no preço dos seus títulos pré-fixados não tem a menor relevância também em termos de divida (afinal, ele já captou na primeira venda e o que ele vai pagar no final está fixo). O incentivo perverso nesse caso, é justamente na parte do pagamento do valor fixo no final do título. R$1000 daqui 10 anos com uma inflação de 5% a.a vale bem mais, em termos reais, que R$1000 daqui a 10 anos com inflação de 15% a.a. Logo, há um incentivo, para o próprio governo “destruir” sua divida imprimindo moeda (fazendo inflação). É para evitar coisas desse tipo que existem vários títulos pós-fixados, como a LFT que é corrigida pela SELIC (que em tese, no longo prazo, acompanha a inflação) e a NTN-B, corrigida pelo IPCA (índice oficial de inflação).

Voltando a questão dos ganhos com alta de juros, em termos de títulos públicos em mercado secundário (ou seja, após a venda inicial que o governo faz ao mercado), somente as LFTs, no curto prazo, poderiam “seguir” o raciocínio de que altas de juros levam a ganhos maiores de investidores de títulos públicos. No caso das NTN-Bs, os juros são fixados e o fato da inflação ser alta ou baixa não altera o seu ganho real. E títulos pré-fixados em juros e não corrigidos pela inflação, sofrem ganhos iniciais com quedas de juros (obviamente, se a expectativa de inflação se torna alta, o preço desses títulos também cai, já que todos começam a vender, elevando as taxas de juros – essa é, na prática, a famosa “equação de Fisher” que diz que a taxa de juros nominal sobe quando a inflação esperada também sobe). Resumindo, no curto prazo, se as expectativas não são racionais no sentido econômico, é mais provável que quedas de juros favoreçam possuidores de títulos públicos (eles aumentarão de valor). Se as expectativas forem racionais, devido à inflação que políticas monetárias expansionistas geram, os títulos terão seu valor diminuído (o que significa que o inverso – políticas monetárias mais rígidas - “mantém” o seu valor no longo prazo) De qualquer forma, mesmo nesse caso, o raciocínio é bem diferente do convencional que diz que investidores de títulos públicos “lucram” com altas de taxas de juros.

3 comentários:

Guilherme de Moraes Attuy disse...

Richard,

Concordo que há um certo misticismo envolvendo a questão dos lucros bancários... em especial agora (em tempos de crise) em que bancos (dos EUA, no caso) auferem lucros elevados apesar de estarem oscilantes.

Bancos têm uma função (como você bem disse: "intermediação financeira") primordial que é permitir que investimentos sejam financiados, elevando, dessa forma, o PIB potencial (ou, para os céticos, o "crescimento de longo prazo") do país.

Porém, olhando para o contexto que vive os EUA, parece que a função de intermediação não está, somente, na mão de instituições bancárias... não seria isso um possível indício de que há um certo descontrole dos responsáveis pela intermediação a ponto da população passar a olhar para tais "financistas" com maus olhos (em especial quando crises acontecem)?

Quanto ao ponto, levantado por você, no que se refere a possível corrosão do valor em carteira de títulos públicos, acho que uma visão mais abrangente teria sido contemplada por Bacha (REP,v.14, n.1-53,jan-mar,1994). Mas lá ele sustenta a idéia, para o caso do Brasil, de que a inflação seria usada como instrumento para corroer as despesas da União, visto que elas seriam fixas, enquanto que o lado da receita estaria "pós-fixada". Enfim, vale a leitura...

Abraço

Daniel disse...

Existem alguns trabalhos legais tb que mostram que, graças a problemas de informação assimétrica e moral hazard, uma elevação do juros faz cair o lucro dos bancos, pois os bons devedores fugiram das dívidas e estaram mais propensos a aceitar projetos mais arriscados. Será q era do Samuelson ? Não consigo lembrar agora...

Richard disse...

Não conheço os trabalhos, mas tá mais com "cara" de ser do Stiglitz....