sexta-feira, 24 de abril de 2009

Vantagens comparativas ou por quê em casa de ferreiro o espeto é de pau…

[1] Vantagens comparativas é um dos conceitos mais importantes e também um dos menos compreendidos em economia. Boa parte das criticas ao livre mercado têm como erro base esse conceito (ou conceitos bem próximos dele). Os exemplos são muitos, mas os mais comuns são: não devemos derrubar nossas barreiras protecionistas porque os chineses trabalham por salários baixíssimos e isso quebrará nossa industria ou ainda o “custo Brasil” não permite concorrermos no mercado internacional, logo temos que ter alguma barreira para proteger a industria nacional – só para citar dois.

[2] Alguns erros são mais interessantes, por exemplo, ninguém nunca ouviu na escola ou em alguma aula de história na faculdade que a escravidão permitiu o surgimento do capitalismo porque deixava o custo do trabalho bem abaixo do que em um sistema de salários e isso permitiu lucros exorbitantes e acumulo de capital? Também é uma “teoria” cujo erro é a não consideração da idéia de custo de oportunidade (principalmente) e de vantagens comparativas.

[3] A maneira mais simples de se perceber o que é e a importância das vantagens comparativas é olhando para uma situação que ocorre praticamente por todos os lados: porque um médico, que entende como ninguém de instrumento médicos, contrata alguém para limpá-los? Porque uma advogada, que conhece a sua casa de cabo à rabo, contrata outra pessoa no lugar dela mesmo limpar? Em suma, porque você contrata alguém para fazer algo que você mesmo faria melhor? É desperdício? Ineficiência? Não, são simplesmente os “custos de oportunidade” entrando em ação. Porque a advogada vai limpar a casa (e ela limparia melhor que a empregada que ela contratou), se ela pode advogar e ganhar muito mais? E o médico a mesma coisa – porque ele iria perder tempo limpando seus próprios instrumentos se ele pode estar fazendo outra consulta ou cirurgia? Veja que embora tanto o médico quanto a advogada sejam melhores que seus contratados na própria tarefa do contratado, eles são “2, 3, 10 vezes melhores” que os contratados em fazer as tarefas de médico e advogada.

[4] Imagine então o médico, ele pode limpar os instrumentos ou fazer uma consulta. Se limpar os instrumentos, o custo é a consulta perdida. Se ele fizer a consulta, o custo é a não limpeza do instrumento. Como ele consegue muito mais dinheiro fazendo a consulta (digamos, R$200 a hora), limpar os instrumentos tem um custo enorme (R$200 a hora). Ora, ele não consegue encontrar ninguém no mercado que aceite menos que R$200 a hora para limpar instrumentos (nem tão bem quanto ele)? É claro que encontra. E o “limpador”? Em que posição está? Ele poderia ser médico também, mas não tem conhecimento para tal, não tem credibilidade etc.. De forma que ele, se muito, ganharia uns R$1 por hora como médico. Mas ele pode ganhar, digamos, R$20,00 a hora limpando instrumentos. O custo de limpar instrumentos para ele é de R$1 a hora, foi o que ele perdeu quando não quis ser médico. O de ser médico é R$20,00 a hora, que foi o que ele perderia se não limpasse instrumento.

[5] Sendo mais preciso (e correto), quanto custa, economicamente, 1 hora de médico do limpador? Custa R$20 / R$1, ou seja 20. E 1 hora de limpador? Custa R$1 / R$20, ou seja, 0,05. E o médico? A hora de limpador dele custa R$200 / R$40 = 5 e a hora de médico R$40 / R$200 = 0,2. Explicando melhor, o limpador, fazendo 1h de serviço de médico gasta 20h de limpeza de instrumentos (produção como limpador em 1h / produção como médico em 1h) já limpando instrumentos gasta 0,05h de serviços médicos. E o médico? R$40,00 a hora é quanto ele ganharia limpando instrumentos (como eu disse anteriormente, ele limpa muito bem os instrumentos). 1h do médico limpando instrumentos, equivalem a 5h de serviços médicos, enquanto sendo médico, 1 hora de médico só equivale a 0,2 horas de limpeza de instrumentos. Resumindo a historinha. O limpador de instrumentos limpa instrumentos a um custo (de oportunidade ou econômico) de 0,05 enquanto o médico faz o mesmo a um custo de 5. Já o médico faz medicina a um custo de 0,2, enquanto o limpador faria o “mesmo” a um custo de 20. Falamos então que o médico tem vantagens comparativas na produção de medicina – ele tem o menor custo de oportunidade na produção desse bem (0,2 contra 20 do limpador), enquanto o limpador tem vantagens comparativas na produção de limpeza (0,05 contra 5 do médico).

[6] Vantagens comparativas significa que, embora você possa ser menos produtivo em todas as atividades (esse era o caso do limpador versus o médico, ele ganhava menos em qualquer uma das duas atividades), em termos relativos (comparando custos de oportunidade, o quanto custa para cada agente “trocar” de atividade), você tem uma vantagem, você faz determinada atividade a um custo menor. A empregada da advogada ao limpar a casa o faz por um custo muito menor que a advogada, afinal, ela não ganharia nada sendo advogada. Já a advogada teria que deixar de prestar serviços de advocacia, o que implicaria que o “mesmo” bem (limpeza da casa) estaria sendo produzido a um custo muito maior se a advogada o produzisse. O mesmo vale para a advocacia. Quantas casas a mais deixariam de ser limpas se a empregada resolvesse ser advogada no lugar da própria. Em 1 dia de trabalho muito provavelmente ela (empregada) não faria absolutamente nada como advogada (nessa mesmo 1 dia a advogada teria feito muito mais) e a troco “de nada”, muitas casas não foram limpas (ou seja, não se limpou as casas por um “nada” de advocacia, um custo altíssimo).

[7] Apesar de ser um pouco complicado de entender por mexer com quantidades relativas e não absolutas, as vantagens comparativas desempenham papel central em toda a vida humana. Foi, em partes, graças à percepção indireta dos ganhos que ela podia trazer que temos o que hoje é denominado de “sociedades livres”. Nos nossos exemplos, tanto a empregada / limpador quanto a advogada / médico estão melhores por produzir e trocar os bens onde cada um tem vantagens comparativas. A empregada jamais teria serviços de advocacia se ela resolvesse arrumar a sua casa e ser advogada. A advogada teria menos de limpeza e de advocacia se resolvesse também ser “auto-suficiente”. E o mesmo vale para o médico. Em todos esses casos, ambos agentes possuem mais bens focando nas vantagens comparativas e trocando posteriormente os bens que não tem vantagens comparativas.

[8] Expanda isso para a sociedade moderna e a infinidade de bens de que dispomos. O próprio computador que me permite escrever e postar este texto. Eu jamais teria um computador se resolvesse ser auto-suficiente e produzir sozinho tudo que preciso. Provavelmente nem mesmo alimento e se conseguisse algo, seria muito pior do que eu gosto de comer. Os homens ganham enormemente vivendo em sociedade e experimentando diariamente os ganhos do uso das vantagens comparativas. Cada um, focando naquilo que possui vantagens comparativas acaba produzindo muito mais do que se todos produzissem tudo. É o famoso aumento de produtividade trazido pela “divisão social do trabalho” – cada um faz só aquilo que tem vantagem comparativa – e posteriormente todos trocam com todos, com ganhos mútuos, sem perdedor.

[9] Era isso, obviamente muitas vezes de outra forma, que os economistas liberais, principalmente franceses, queriam dizer com “sociedade harmônica”. O mais “fraco”, improdutivo (em sentido absoluto) não perde nada em um livre mercado. Ele ganha! Ele ganha ao focar sua produção naquilo que tem vantagens comparativas enquanto o mais produtivo faz o mesmo. No final, o improdutivo terá mais bens do que se ele se isolasse, tentasse produzir tudo sozinho, sem usar da divisão do trabalho. E o mais “forte”, o produtivo? Também ganha ao participar do livre mercado e fazer trocas com o mais improdutivo. Graças ao improdutivo, ele, produtivo, pode se dedicar à produzir o que faz de melhor, pode levar a sua produtividade ao nível máximo. Esses bens então são trocados (gerando mercados) deixando todos com uma quantidade de bens maior do que teriam se se “isolassem”. Não há perdedores em um livre mercado, todos ganhos no arranjo de uma sociedade livre. É a tão falada harmonia social citada por esses antigos liberais.

[10] Dito isso, podemos ver os absurdos de algumas criticas ao livre mercado. O caso dos chineses que ganham pouco, por exemplo. Seria o mesmo caso do nosso limpador que ganha menos em qualquer atividade. O que importa não é o nível absoluto de salário, mas sim o custo de oportunidade “interno”, de cada agente. Se os chineses ganham menos em tudo (porque são menos produtivos em tudo), o que vai importar é se eles fazem A 4x, 5x ou 6x pior que B enquanto o outro país faz o contrário (faz B 4X pior) ou ainda em “proporções” diferentes. É bom lembrar que pelo próprio conceito de vantagens comparativas, se A tem vantagem comparativa na produção de um dado bem, então necessariamente ele tem desvantagem na produção de outro bem qualquer, logo ninguém terá vantagens comparativas “em tudo”.

[11] Essas questões ligadas à salários mais baixos ou mais altos prejudicando o livre comércio invertem completamente o sentido causal das coisas. Um país tem salários mais altos que outro porque é mais produtivo (produz mais com uma mesma quantidade de insumos). Em termos de vantagens gerais do comércio, isso não tem a menor relevância. Não é vantagem absoluta que importa, é vantagem comparativa – para lembrar disso, basta olhar o mundo em volta e ver que advogados contratam secretárias, mulheres que trabalham “fora de casa” contratam empregadas etc.. As indústrias que reclamam dos altos custos de mão de obra perante os outros países competidores só estão olhando a conseqüência de serem ineficientes e não a causa de sofrerem com isso: a sua própria ineficiência. Se o salário é alto em um dado país é porque outras indústrias, produzindo outras coisas, elevam o salário a esse patamar e elas conseguem fazer isso porque estão alocando mão de obra para produzir o “bem certo”, o bem que possuem vantagem comparativa, que é eficiente produzir. O salário não é alto por uma “fatalidade da natureza”. Ele é alto porque em algum lugar alocam essa mão de obra de forma a gerar um produto marginal condizente com esse alto salário. A indústria que reclama desse nível de salário não está conseguindo gerar esse produto marginal condizente com a alocação eficiente, ela deve fechar ou alterar suas atividades. Proteger uma industria dessas é apenas deslocar fatores de produção alocados nas atividades com vantagens comparativas, para atividades que não deveriam existir, que não têm vantagens comparativas e assim diminuem a produção de bens dessa sociedade. Proteger essas industrias é gerar ineficiência: com a mesma quantidade de fatores está se produzindo menos do que poderia ser produzido se esses fatores fossem alocados via mercado (vantagens comparativas).

[12] É um absurdo defenderem medidas protecionistas como “remédio” para recessão. A recessão é tão somente um nome para quedas, não tão agudas, de produção por um dado tempo. Medidas protecionistas só intensificam essa queda ao tornar o uso dos fatores de produção menos eficientes do que seriam sem elas. Isso para não entrar nas questões de incentivos perversos que essas medidas geram. Você, por exemplo, ficaria em melhor ou em pior situação se alguém obrigasse você a trocar bens só com gente da sua cidade? Obviamente pior. E se fosse só com as pessoas do bairro? Só com pessoas da sua família? Porque não só “com você mesmo”? Economicamente não faz o menor sentido. Mas medidas governamentais não precisam fazer sentido econômico para saírem do papel, muito pelo contrário, aparentemente o pré-requisito é não fazerem sentido.

[13] Por fim, e sobre a escravidão, trabalho escravo? A questão aqui é não perceber o conceito de custo de oportunidade. Começando por um escravo e supondo que a produtividade de um trabalhador livre e de um escravo sejam a mesma (o que não é verdade por uma série de questões), a diferença é que no caso do escravo o “patrão” paga, de uma vez só, o valor presente equivalente a toda a produtividade marginal durante a vida do escravo, enquanto no caso do trabalhador assalariado ele paga em parcelas futuras. Economicamente (tirando questões referentes à risco etc..) não há diferença alguma. O custo de oportunidade continua intacto nos dois casos: se o escravo for fazer X e não Y, o custo de oportunidade é o Y perdido e você, dono, arca com partes desse Y. No caso do trabalhador assalariado, a coisa se passa da mesma maneira (com a diferença de que a parte do custo derivada do trabalho é arcada toda pelo trabalhador). A diferença econômica fundamental entre escravidão e trabalho livre está na questão de incentivos do próprio trabalhador e de uma “falha de mercado” que não permite alocações eficientes, a saber, não “existe” mercado se você não é dono de si mesmo, ou dito de outra forma, os custos de transação são proibitivos se você não pode agir como um agente de mercado independente. É por essa razão que a economia não usa o teorema do Coase e diz: tanto faz alocar a propriedade do João para ele ou para José – quem der mais valor acabará ficando com ela no final. Isso é verdade se existem mercados sem custos de transação relevantes, senão, a distribuição inicial de direitos de propriedade pode influir na alocação final que não será necessariamente a “eficiente”.

[14] Outra diferença está no ganho, digamos, visível, que um determinado agente tem, mas ao contrário do que pensam os defensores da tese de que a escravidão gerou o capitalismo, não é o dono do escravo – é o “produtor” de escravos, ou seja, o caçador de escravos. Isso, aliás, é um dos motivos do porque mesmo sendo tão ineficiente a escravidão permaneceu por tanto tempo. Quando o livre mercado começou a prevalecer, a ineficiência da escravidão ficou evidente. Aquelas colônias chamadas de “exploração”, que usavam escravos, sofreram com o novo mundo, elas não eram competitivas o suficiente para derrotar, por exemplo, o sudeste asiático (sem escravidão) ou mesmo outras colônias de “povoamento” na produção de uma infinidade de bens. A escravidão, como pratica econômica, foi diminuindo fortemente dentro dessas colônias e só demorou para cair “formalmente” porque os caçadores de escravo comandavam boa parte de procedimentos, logísticas etc.. envolvendo a relação entre metrópoles e colônias e conseqüentemente tinham poder suficiente para produzir lobbies com o monarca de plantão. Quanto aos donos de escravos, era natural que eles não quisessem que formalmente a escravidão acabasse – os escravos eram “ativos”. Eles ficariam mais pobres da noite para o dia, afinal, a propriedade “corpo, capacidade de trabalho etc..” passaria a ser, formalmente, do próprio escravo e eles teriam que “repagar” se quisessem usufruir dela (já tinham pago no começo, ao comprar o escravo do caçador).

[15] Vejam que essa discussão dá uma idéia do porque tantos liberais se confundiram completamente na época e colocaram o tema da abolição como uma luta entre “liberdade versus propriedade”. Na verdade, os escravos nunca foram propriedades de seus “senhores”, mesmo que a lei formal dissesse isso. Um homem sempre é dono de si mesmo, pela sua própria natureza como ser humano. As confusões e distorções de conceitos liberais, a negação do direito natural em favor de um “direito positivo”, como pode ser visto, começaram bem cedo no Brasil.

Um comentário:

Anônimo disse...

interessante e muito bem explicado esse texto