segunda-feira, 27 de abril de 2009

Devaneios sobre risco e incerteza

[1] Muitos economistas heterodoxos (principalmente os chamados “pós-keynesianos”) questionam a idéia de risco em economia e no seu lugar invocam a idéia de “incerteza” ou, para alguns, “incerteza genuína” (enquanto o risco seria uma “falsa incerteza”).

[2] Antes de prosseguir, é bom esclarecer a diferença entre esses conceitos. Dentro do debate que geralmente é colocado, basicamente se falaria em risco quando o resultado de uma escolha não é certo, mas é determinado por uma distribuição de probabilidades conhecida pelo agente (que também, obviamente conhece todos os resultados possíveis). Essa abordagem é associada a “teoria neoclássica”. Já Incerteza é apresentada como uma situação onde o agente não conhece a distribuição de probabilidades associada aos possíveis resultados. Em uma versão mais radical, nem os possíveis resultados são conhecidos. Senão me engano essa diferenciação foi originalmente cunhada por Frank Knight, famoso economista do século XX e permanece sendo usada atualmente, principalmente por economistas que querem se “desfiliar” da tradição neoclássica.

[3] Eu não tenho uma opinião muito “convencional” sobre essa diferenciação. Acho ela completamente sem sentido para a economia. Explicando melhor, primeiro, deixando de lado um pouco a questão sobre a “correção” da distribuição de probabilidade que os agentes têm e focando justamente no agente tendo uma distribuição de probabilidade, não faz sentido algum falar em escolhas sob resultados incertos se o agente não faz uma possível “avaliação” do resultado esperado dessa escolha e falar em resultado esperado passa por associar probabilidades de ocorrência a possíveis resultados. Obviamente assim como todo agente maximizador na realidade não faz derivadas e iguala a zero, todo jogador de bilhar não calcula as trajetórias de suas tacadas com equações diferenciais, agentes sob escolha com resultado incerto não calculam complicadas esperanças de distribuições de probabilidades malucas e geram suas escalas de preferência, mas não deixam de associar probabilidades a resultados.

[4] E a incerteza nisso tudo? Bem, não existe uma situação onde o agente não associe uma “distribuição de probabilidade” aos resultados possíveis. Se isso ocorresse, ele não determinaria nenhum “resultado esperado” e não escalonaria suas alternativas (teria uma alternativa relevante, percebida por ele, mas sem escalonar), não “gerando” preferências e assim não escolhendo, agindo. Um agente, para escolher, precisa escalonar todas as alternativas relevantes para uma dada escolha (isso às vezes é chamado de “completude” das preferências). Em essência, em uma teoria da escolha só há duas alternativas: 1) ou a alternativa não é percebida e, portanto é irrelevante para a escolha ou 2) ela é percebida e de alguma forma é associada uma probabilidade a ela que gera um “resultado esperado”.

[5] Bem, o leitor pode dizer que na verdade no máximo eu descartei um dos conceitos de incerteza, aquele que diz que “nem os resultados possíveis são conhecidos”. Vejam que eu não disse que essa incerteza não existe. Eu só disse que, para a economia, resultados possíveis não percebidos são irrelevantes. Um agente escolhe com base nas suas preferências que são fruto, dentre outras coisas das suas percepções. Se algo não é nem “sonhado” por um agente, não será alvo de sua consciência e, portanto de qualquer escolha que ele venha a fazer. Obviamente o agente pode descobrir que aquele resultado era possível, que sua distribuição de probabilidades estava errada. Mas a partir desse momento o conceito volta a ser o de “risco” – ele (agente) percebe um resultado possível e associa uma probabilidade de ocorrência para o evento. Como, em geral, escolhas erradas custam, as pessoas reservam uma probabilidade a “resultados desconhecidos” (elas sabem que não são oniscientes e colocam isso na conta), o que novamente nos leva ao conceito de risco. A incerteza mais radical não acrescenta nada à teoria da escolha.

[6] E a incerteza “média”, aquela sobre não saber uma distribuição de probabilidade? Aqui a coisa é um pouco mais complicada. Como eu disse, não existe a possibilidade de um agente não associar uma probabilidade a um resultado possível percebido. A questão muito mais complicada é, ele associa a probabilidade correta? Ou, em um sentido mais “filosófico” existe probabilidade correta para ser associada? Eu disse que esse conceito de incerteza média não foi excluído porque estou supondo que ele trata da associação de uma distribuição correta e não qualquer distribuição subjetiva (o que sempre ocorrerá). É importante ressaltar que, em tese, só com a distribuição de probabilidade subjetiva já “modelaríamos” o agente escolhendo da forma tradicional neoclássica (ele maximizando uma função de utilidade esperada de acordo com as suas probabilidades subjetivas). Mesmo o conceito de incerteza relacionado a uma distribuição de probabilidade objetiva, não adicionaria muita coisa aos modelos padrão neoclássicos.

[7] Mas voltando à pergunta, o agente associa a probabilidade correta e existe probabilidade correta a ser associada? Começando de trás para frente (a primeira pergunta só faz sentido se a resposta da segunda for sim) e a minha resposta é sim, existe. Associar uma distribuição de probabilidade correta significaria que ele (agente) consegue prever com certa correção e acurácia o que suas escolhas, de fato, resultarão. Se não fosse possível fazer isso, a vida humana seria impossível. Uma determinada ação, quando feita racionalmente, ou seja, levando em conta os dados da realidade e a identidade das entidades envolvidas, precisa na maioria das vezes gerar um resultado especifico coerente com o resultado esperado. Senão fosse assim nenhum planejamento e conseqüentemente nossa forma de vida seria completamente inviável. Na verdade, se fosse possível a nós termos todo esse conhecimento (da identidade das entidades envolvidas), não existiria resultado incerto ou distribuição de probabilidade alguma – o resultado seria somente um, aquele ditado por essa identidade. Como não somos oniscientes, vivemos em um mundo de escassez, não há como sabermos “tudo”, todas as minúcias envolvidas em um grupo enorme de relações entre entidades, o que gera um grau de “incerteza”, um “leque” de resultados possíveis.

[8] Essa falta de conhecimento gera a necessidade da distribuição de probabilidade correta e ela existirá porque se toda minúcia que não se combina ou não está da mesma forma em todas as realizações de um dado evento fossem tão relevantes a ponto de tornar nossas previsões completamente falhas, nós não estaríamos aqui agora. Uma distribuição de probabilidades correta para propósitos humanos não necessita que todo evento ocorra rigorosamente como em um experimento estatístico perfeito (o que aliás, para fins práticos não existe). Alguém pode dizer que se não é assim, não temos uma distribuição de probabilidades afinal o evento gerador dos resultados não é o mesmo. Mas isso é irrelevante para os propósitos da economia e da escolha. Uma chuva pode nunca ser exatamente igual à outra, mas dentro de um “range”, ela gera os mesmos resultados e conseqüências. Para eu sair de casa levando um guarda-chuva (fazendo uma probabilidade se vai chover ou não), não preciso que toda chuva seja exatamente a mesma. Dentro de um belo intervalo de forças de chuva, levar um guarda-chuva é utilíssimo.

[9] A questão da distribuição de probabilidade correta então se resume a uma distribuição de probabilidade capaz de gerar previsões para uma gama de situações “objetivamente” relevantes: não importa se a chuva é de XXml ou XX+2,456ml. Importa se é “fraca” ou “muito fraca” ou “muito forte”. Em outra gama de situações relevantes nem se é fraca ou forte, mas se simplesmente vai chover ou não. Que as pessoas, de fato, “descobrem” a distribuição de probabilidade correta não é muita novidade para ninguém, obviamente elas não descobririam algo que não existe. Praticamente todas as atividades humanas necessitam de alguma distribuição de probabilidade (estávamos falando de chuvas, atividades básicas como a agricultura, a pecuária são exemplos de necessidade de encontrar uma “distribuição de probabilidades” correta).

[10] As pessoas descobrirão obviamente conforme os incentivos que recebem para isso. Em um mundo onde a realidade, de fato, fosse aquilo que gostaríamos que ela fosse não haveria necessidade alguma de descobrir “distribuições de probabilidade” corretas. Qualquer coisa aconteceria conforme nossa vontade. Mas o mundo não é assim, várias coisas são “dadas”, independem da nossa vontade. Dado que nosso sucesso depende dessas coisas dadas, temos fortes incentivos à buscar distribuições corretas, o que torna a idéia de incerteza “média” referente à não saber uma distribuição de probabilidade correta também inútil. Mais inútil ainda porque o agente não sabe que é a distribuição errada, ele só saberá quando começar a perceber que “erra consistentemente” (o famoso viés de um estimador). Mas quando ele perceber o viés, o erro será corrigido o que nos traz novamente para a idéia de risco (e também para a questão das expectativas racionais).

[11] Antes de terminar, quando eu falo que “uma distribuição de probabilidade correta existe”, obviamente eu não quero dizer que existe uma entidade “distribuição de probabilidade correta” vagando por aí. As coisas são o que são. A é A. Não existe incerteza ou risco quanto à isso. Na relação entre entidades a causa é sempre determinada por suas naturezas. Distribuições de probabilidade são ferramentas mentais que usamos para suprir parte da nossa ignorância sobre essas naturezas e conseqüentemente o resultado de uma relação entre essas entidades. Mas assim como existe um conceito correto (e conceitos são entidades mentais, não entidades físicas) para designar uma mesa, uma cadeira ou algo abstrato como liberdade, justiça, existe uma distribuição de probabilidade correta para designar o resultado esperado de um evento (aliás, um detalhe: acertar o resultado esperado não significa acertar o resultado particular sempre). É essa distribuição de probabilidade que os agentes econômicos terão incentivos para encontrar (supondo obviamente que eles arquem com os custos de suas escolhas erradas).

[12] Como eu disse no começo, esta minha posição não é lá muito comum. A maioria dos neoclássicos acham que a idéia de incerteza tem alguma relevância, mas não usam por impossibilidades matemáticas ou outros problemas técnicos. Talvez só os neoclássicos mais ortodoxos concordem comigo (não usam e não vêem nenhum valor nisso). Do outro lado, praticamente todos os pós-keynesianos e alguns austríacos modernos diriam que é a idéia de risco que não faz o menor sentido, não tem a menor relevância no mundo real, posição que, como deu para perceber no texto, eu rejeito.

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