sábado, 21 de março de 2009

Pitacos sobre controle de bônus, crise…

O assunto do momento são os altos bônus que a AIG pagou a alguns executivos do alto escalão da empresa. Parece que o governo americano exigiu a devolução dos bônus e que o presidente Obama quer limitar os valores dos pagamentos futuros em empresas que receberem ajuda do governo. Nos últimos meses eu realmente fiquei impressionado com a capacidade e disposição em fazer coisas erradas que os políticos e alguns economistas americanos possuem. É algo comparável ao “modelo nacional”. Daqui a pouco alguém decreta na terra do tio Sam coisas como congelamento de preços, “importação seletiva” ou múltiplas taxas de câmbio... Não me surpreenderia.

Essa questão do bônus é mais um exemplo de demagogia política tão comum no Brasil, na Argentina e similares. O governo americano não deveria ajudar empresas e bancos em dificuldade. Mas ele ajudou e ajudou com a desculpa de preservar a empresa, mantê-la “viva”. Dado que ajudou e o motivo pelo qual ajudou, limitar o bônus é um tiro no próprio pé. O que o governo está fazendo é delimitando um “salário máximo” que os executivos podem receber. Ora, se os mais competentes executivos podem receber muito mais em outro lugar ou possuem um preço de reserva maior do que o salário máximo estipulado, eles não terão incentivo para trabalharem nas empresas que justamente mais precisam dos seus serviços – empresas que estão em dificuldades e precisam ser bem geridas. Uma boa administração custa caro, e o governo americano está simplesmente dizendo que tais empresas não podem pagar por essa boa administração ou condução. Mas o dinheiro não era justamente para salvá-las?

Alguém pode dizer que bônus é uma premiação pelo trabalho que foi feito e os executivos que lá estavam fizeram um péssimo trabalho. Mesmo que isso seja verdade, para o problema colocado, o futuro não tem nada a ver com o passado. Não importa que o trabalho do passado, de quem estava lá foi péssimo. Os novos “super executivos” que chegarem não vão dar a mínima para isso. Eles querem receber bastante por um serviço que outras empresas também pagam bastante e seja lá porque o bônus está sendo limitado, isso os afastará da empresa. Da empresa que precisa urgentemente de seus serviços. Estipular preço máximo ou mínimo nunca foi uma boa coisa, não seria dessa vez que daria certo.

Por fim, não é verdade que os altos executivos dessas empresas fizeram um péssimo trabalho e aqui está o ponto mais mal compreendido de toda a crise. Se alguém lhe oferece o seguinte jogo: você pode apostar o quanto quiser, se perder não arca com a perda (ou arca com uma pequena parte), mas se ganhar você recebe tudo que ganhou; qual seria a estratégia ótima? Ora, ser o mais agressivo possível, tomar risco de forma bastante excessiva, bem além do que você tomaria se tivesse que arcar com todas as perdas. Bem, foi esse o jogo que o governo americano propôs ao servir como garantidor de hipotecas e de títulos lastreados nessas hipótecas desde a época da “privatização” das duas grandes casas hipotecárias (Fannie Mae e Fraddie Mac), foi esse o jogo proposto quando os bancos centrais do mundo se colocaram como emprestadores de última instância, foi esse o jogo proposto quando o governo americano sinalizou com socorro aos bancos em dificuldade e, de fato, quando precisaram, foram socorridos e está sendo esse o jogo proposto pelo governo por um longo tempo no futuro dada as ajudas distribuídas (a fundo perdido) para uma variedade de grandes empresas.

Os executivos que conduziram as suas empresas dessa forma não erraram. Eles agiram de acordo com os incentivos que estavam à disposição e alguns fizeram um excelente trabalho fazendo milhões, bilhões com papeis podres, papéis muitas vezes “lastreados” por hipotecas completamente infundadas, motivadas por programas governamentais como o CRA, que estimulava financiamento de residências a população mais pobre que não tinha a mínima condição de arcar com os pagamentos. Você, eu, qualquer um teria feito o mesmo (talvez não com tanta habilidade e competência).

Hoje é mais ou menos consenso que o setor financeiro, principalmente bancos de investimentos e similares devem ser mais regulados. Na verdade, o setor financeiro é um dos mais regulados do mundo, senão for o mais (o governo impõe uma vasta gama de regras e regulamentos que devem ser cumpridos para abertura de novos bancos, entrada em bolsas, além de controlar a oferta de moeda e influir na taxa de juros). Não é de regulação que o setor precisa, é de livre mercado. O que o governo fez foi dar um enorme subsídio ao risco durante a década de 80 e 90 (principalmente com o governo Clinton através da expansão do CRA e de programas de financiamento as famílias de baixa renda). Agora é necessário que prevaleça uma das máximas de um mercado desregulado: arque com os custos e receba os benefícios das suas ações. Toda a eficiência dos mercados reside neste “princípio” básico. Não é necessária nenhuma regulação para que ele seja cumprido, somente o básico direito de propriedade já garante o seu funcionamento (claro, considerando que o direito de propriedade não é uma “regulação”).

Obviamente não é um jogo melhor “roubar a bola” e estatizar bancos e outras empresas. Governos não possuem incentivos para administrarem qualquer coisa melhor que o setor privado. A vasta ineficiência de empresas estatais pelo mundo é um indicativo disso. Milton Friedman usou uma “paródia” interessante para ilustrar a situação: ele dizia que quando você fosse comprar um presente para você mesmo com o seu dinheiro, você se importaria com a qualidade do presente e com o seu preço (você procuraria a combinação ótima entre benefícios e custos). Se você fosse comprar um presente para você com o dinheiro de outro, você se importaria com a qualidade, mas não tanto com o preço (não é você que está pagando, o dinheiro é de outro). Se você fosse comprar um presente para outro com o seu dinheiro, você se importaria com o preço (afinal, você está pagando), mas nem tanto com a qualidade. E por fim, se você fosse comprar um presente para outro, com o dinheiro de outro, você não se importaria nem com o preço e nem com a qualidade. Políticos e o governo estão nesse último caso – gastam o dinheiro dos outros, com os outros. Os intervencionistas costumam chamar os economistas defensores do livre mercado de “fanáticos”, “talibãs” do mercado, “religiosos” etc.. mas não há demonstração maior de fé (e de irracionalidade) do que a crença de que alguém gastando o dinheiro dos outros, com os outros, o faça melhor do que você gastando com você o seu próprio dinheiro.

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