sábado, 15 de novembro de 2008

Déficits fiscais estimulam a economia no curto prazo?

[1] Voltou à tona a velha discussão sobre se política fiscal, na verdade, déficits fiscais, estimulam a economia no curto prazo. Essa foi no passado a proposição central do keynesianismo que dominou a política econômica das décadas de 50 a 70 e a economia acadêmica da década de 40 a 60. Citarei aqui os dois argumentos que considero mais comuns, o primeiro, puramente keynesiano e que está em qualquer jornal ou revista e o segundo baseado na economia neoclássica e um pouco mais “acadêmico”. Antes mesmo de citá-los, minha posição é de que não, déficits fiscais não estimulam a economia no curto prazo.

[2] O argumento keynesiano, mais comum, é fruto de um festival de erros sobre o significado de conceitos econômicos como poupança, bens e escassez. Segundo esse argumento, se as pessoas não consomem, as fabricas não produzirão, logo demitirão funcionários e o não consumo será ainda pior, o que gerará novas demissões e assim sucessivamente. Em termos de teoria econômica, uma queda do consumo derruba a demanda agregada, que por sua vez impacta no investimento (dependente dessa demanda agregada), o que gera mais queda gerando um circulo vicioso. Só há uma salvação. O governo “contrabalancear” a queda dos gastos privados através dos seus gastos. O governo gastar o que os consumidores se negam a gastar manteria a demanda agregada e assim evitaria recessões (gastos do governo seriam anticíclicos).

[3] O erro básico de tudo isso é enxergar poupança como um “buraco negro” de bens e não entender o papel do tempo e da estrutura de capital em uma economia de mercado. Menor consumo dificilmente significará menos investimento porque as pessoas não compram bens hoje. O que ocorre com os bens produzidos por essas mesmas pessoas e não consumidos? Eles não desaparecem, não deixam de ser valiosos. Quando as pessoas deixam de consumir e isso reflete como uma queda nos preços dos bens de consumo, ao mesmo tempo aumenta-se o lucro relativo de setores afastados desses setores “finais”, que atendem diretamente ao consumidor. Essa alteração de lucratividade relativa pode ser vista explicitamente quando a “taxa de juros” cai, devido a uma maior poupança (basta ver o que acontece com o valor presente de investimentos de maturidade mais longa comparado ao valor presente de investimentos com maturidade mais curta) ou de forma mais “escondida”, através da diminuição dos fluxos de pagamento ao longo de tal investimento (em um investimento curto, alterações nesses pagamentos geram um grande impacto no seu rendimento, em investimentos longos, boa parte dos impactos são tão descontados ao longo do tempo, estão tão distantes no tempo, que o rendimento do investimento longo cai menos que o investimento curto).

[4] O importante de tudo isso é o seguinte: uma queda do consumo gera uma baixa relativa no retorno de investimentos “curtos”, que demandam pouco tempo para maturar, que estão muito próximos do setor de bens de consumo e geram uma alta relativa no retorno de investimentos com longo período de maturação, distantes do setor de bens de consumo. Essa “complicada” rede de sinais através de preços e retornos relativos é a forma de transmissão em um sistema de alocações descentralizadas do seguinte fato: os consumidores não querem consumir muito hoje. Eles preferem que os bens disponíveis hoje sejam investidos, sejam transformados em uma quantidade maior de bens no futuro. Poupança, economicamente jamais significa “não consumo”, poupança significa uma troca entre consumo presente (hoje) e consumo futuro. As taxas de juros explicitas ou implícitas (a razão entre os preços dos bens presentes (de consumo) e dos bens futuros (bens de capital)) são os sinais de mercado sobre a propensão dos agentes em fazer essa realocação de consumo ao longo do tempo. Se as pessoas poupam mais, a taxa de juros cairá seja através da taxa de juros comum que todos nós vemos, seja através de uma queda relativamente maior dos preços de bens de consumo em relação a bens de capital. Essas quedas incentivam uma realocação de fatores e bens de capital de setores próximos dos bens de consumo, para setores distantes dos bens de consumo. Assim, um trabalhador que antes produzia suco de laranja irá para uma nova empresa que produzirá chapas de aço para fabricação de peças que virarão tratores e colheitadeiras no futuro, tratores e colheitadeiras que por sua vez se “transformarão” em uma infinidade de alimentos (bens de consumo) em um futuro mais distante ainda.

[5] Antes de prosseguir é importante entender que, como as pessoas estão poupando mais, as taxas de “lucro nominal” de equilíbrio de todos os setores (que no fundo são apenas taxas de juros derivadas do “tempo tomado” na produção) cairão, no entanto logo após essa mudança de preços geradas pela poupança, mesmo com taxas de juros nominais menores, existirão setores (os setores distantes dos bens de consumo) com lucro “econômico”, i.e, com lucros relativamente maiores que os de outros setores (próximos dos bens de consumo) que terão lucros econômicos negativos. Uma alocação jamais depende do nível de retorno absoluto, e sim dos retornos relativos (qual das alocações disponíveis é melhor ou menos pior).

[6] Obviamente toda a explicação mais detalhada acima pode ser simplificada em um modelo “bem abstrato”. Agentes econômicos maximizam utilidade e os bens são escassos, ou seja, um pouquinho mais de bens, por menor que seja, gera uma utilidade maior (isso em economia é chamado de monotonicidade forte ou estrita de preferências). Um agente enfrenta a seguinte restrição. Tudo que ele produz com seu trabalho e capital (a sua renda daquele período) pode ser consumido ou transformado em mais capital para uma produção maior no próximo período. Se existe governo, parte da produção pode ir para o governo. Em suma, todas as alocações da produção do agente (que simplesmente se dividem entre o consumo, investimento e a parte de um terceiro, no caso, do governo), precisam ser iguais ou menores que sua produção (pois a produção é a fonte dessas alocações). Mas se o agente maximiza utilidade (e a utilidade depende do consumo de bens hoje e no futuro, ao longo do tempo da vida do agente), qualquer ótimo, qualquer escolha que se preze precisa esgotar a restrição, ou seja, precisa valer a igualdade entre produção e consumo, investimento e gastos do governo. Se o agente privado diminui o seu consumo e o governo não aumenta os seus gastos, necessariamente o investimento terá que subir para manter a igualdade válida. Não existe possibilidade alguma de produção ficar sem “demanda”, sem uma alocação seja em consumo ou em investimento porque se isso ocorresse significaria que o agente não está maximizando (o que é uma contradição) ou que os bens não são escassos, que o agente atinge o “nirvana” antes de usar todos os bens (o que também é uma contradição com a própria idéia de escolha e economia).

[7] Assim, em um modelo bem mecânico e simples, quedas de consumo serão necessariamente, sempre compensadas por aumentos de investimento (o porquê com queda de consumo o investimento aumenta, ou você pode pensar em toda aquela explicação complexa dada anteriormente, que apesar da complexidade, é bem mais realista já que estamos falando em uma economia de mercado, ou pode pensar de forma mais abstrata que as alocações são dois lados da mesma moeda – o agente diminuiu seu consumo exatamente para consumir mais no futuro, ou seja, investir os bens não consumidos, já que são bens escassos, ele sempre dará um “uso”, uma “alocação” a eles – não existe “buraco negro” de bens, vazamento no sistema).

[8] Percebendo que os bens são escassos, nenhum bem é “desperdiçado” ou deixado a deriva, sem uso, sem alocações é quase uma obviedade que gastos do governo não alteraram a demanda agregada (o montante das alocações feitas). Se o governo gastar mais, ele precisa financiar esse gasto. O governo não produz nada, ele terá que tirar dos nossos vários agentes que produziram bens e enfrentam a restrição produção = consumo + investimento + gastos do governo. Mas se ele tira produção dos agentes, ele (governo) diminuirá exatamente no mesmo montante o consumo ou investimento (ou um misto dos dois) dos agentes privados. Ocorre apenas uma “troca” entre os componentes da demanda agregada (sobe G, cai C e I no mesmo montante que sobe G), não uma mudança no patamar da demanda agregada. Gastos do governo jamais alteram o tamanho da demanda agregada pois os bens são escassos. Não existem bens “parados”, “sem uso”, fora do sistema que o governo ao gastar traz de volta, inclui no sistema econômico como alguns keynesianos dão a entender. Todos os bens são escassos, todos estão em alguma forma de uso, com alguma destinação. Se você quer aumentar a alocação em X, terá que diminuir em Y.

[9] A explicação neoclássica que eu colocarei agora já tem mais sentido econômico, embora seja bastante improvável. O modelo é a famosa escolha entre “lazer e trabalho” que gera a curva de oferta de trabalho da teoria convencional. Um agente tem uma determinada dotação de tempo que ele precisa alocar entre lazer e trabalho. Lazer é por si só um bem e um bem normal (aumentos de renda geram aumentos da demanda por lazer, conseqüentemente menor oferta de trabalho). Já o trabalho é um mal. O agente só trabalha porque recebe bens em troca (o salário) e pode consumir esses bens (que como o próprio nome diz, são bens, aumentam a utilidade do agente). A possível justificativa para gastos do governo estimular a economia é derivada da análise do chamado efeito renda na oferta de trabalho. O governo gastar mais ou ter déficits hoje implica em maiores impostos presentes ou futuros (bens não caem do céu, é preciso tirá-los de algum lugar ou produzi-los, e o governo não faz o último). Maiores impostos significam, para o agente, menos renda. Menos renda significa uma demanda menor por bens normais como lazer e conseqüentemente uma oferta maior de trabalho. Mais trabalho, mantido tudo o mais constante, produz mais “pib”, logo um déficit de governo gerou um maior produto.

[10] A explicação é um pouco bizarra (falarei disso mais adiante), mas em termos de rigor teórico é muito superior a “keynesiana clássica”. Veja que não se fala em aumento de demanda agregada algum, nem rigidez de preço (essas coisas precisam ser combinadas para gerar o resultado de que aumentos de demanda agregada impactam no produto). A explicação apela para um aumento da oferta agregada (no nosso modelinho anterior onde o agente alocava a sua produção, é como se ele tivesse mais produto para ser alocado, ele usou mais trabalho e a mesma quantidade de capital produzindo mais produto). Um detalhe importantíssimo de tudo isso é que o agente está pior em relação a situação onde o governo não gastava e o produto era menor. A razão é muito simples. O próprio agente não achou que era mais vantajoso em termos de bem estar trabalhar mais e conseqüentemente consumir mais de outros bens e menos de lazer. Obviamente será pior ainda se ele trabalha mais para aumentar um pouco o seu consumo da situação anterior e financiar o consumo de um terceiro. Seja lá para onde vá o adicional de bens que ele obtém trabalhando, ele preferia a “cesta” anterior com uma proporção maior de lazer. Logo, mesmo que os déficits gerassem realmente mais produto, é uma política “socialmente ineficiente”. Sob essa política existe uma melhora de Pareto.

[11] Mas e quanto à bizarrice? É bem estranha uma situação onde você ganha menos e trabalha mais, embora seja perfeitamente imaginável. A solução do problema está em olhar o outro efeito, o chamado efeito substituição. Para a imensa maioria das pessoas, maiores impostos incidem diretamente sobre o quanto elas produziram (ganharam em salários), ou seja, o pagamento é alterado por suas decisões justamente de oferta de trabalho. Cada “unidade de trabalho” rende menos ao ofertante. Isso significa que o preço do lazer (que é justamente o salário perdido por não se trabalhar), diminui. Essa diminuição do preço faria o agente demandar mais lazer (a trabalhar menos). Logo, o aumento dos gastos do governo gera dois efeitos: um efeito ligado a variação de preços, controlada a renda, que é negativo (diminuição de preço aumenta a demanda), chamado efeito substituição. E outro efeito, sobre a renda, chamado efeito renda, que é positivo (quedas de preço afetam a renda de um ofertante liquido desse bem e levam à queda de demanda). Se o primeiro efeito for maior que o segundo nós teremos uma curva de oferta de trabalho “clássica”, ou seja, positivamente inclinada e aumentos de gastos do governo levarão a quedas de produto (via menor oferta de trabalho). Se o segundo for maior teremos uma curva de oferta de trabalho “negativamente inclinada” e gastos do governo aumentarão o produto.

[12] Empiricamente curvas de oferta negativamente inclinada são observadas quando os salários são muito altos (você trabalharia quanto tempo se ganhasse R$100.000,00 por mês?). Obviamente mesmo nestes casos isso não é uma regra. É bem pouco provável que para “salários de mortais” (os salários médios de uma economia), exista algo como uma curva de oferta de trabalho negativamente inclinada.

[13] Obviamente toda essa contrargumentação do efeito substituição pode não funcionar dependendo da forma como os agentes serão tributados. Por exemplo, um imposto lump-sum não dependeria de quanto você trabalhou, mas é uma “renda exógena negativa”, o que fará você demandar menos lazer e trabalhar mais. Isso não significará que sua curva de oferta de trabalho está “negativamente inclinada”, só significará que ela foi deslocada para frente (direita). Seja lá o quanto você trabalhe, o retorno marginal do seu trabalho será exatamente igual ao de mercado (o imposto não aumenta com mais produto, o que não afeta o preço do lazer, não gerando o efeito de “não trabalhar”). É bom lembrar que mesmo essa política seria pior em termos de bem estar (o agente podia ter escolhido trabalhar mais antes, mas não escolheu).

2 comentários:

D.V disse...

ola richard
parabens pelos seus textos bem formulados...
pode me tirar umas duvidas ?
a)vc sabe me dizer se o modelo de crescimento de solow vai de encontro com a teoria austriaca de capital ?
pelo pouco que entendi as duas falam que é o investimento acima da depreciação que determina o crescimento do produto certo ?
se as pessoas decidirem consumir menos e poupar mais, então, pelo menos no médio/longo prazo, o crescimento do produto vai ser maior ??
e b) o proprio modelo de crescimento de solow, ao afimar que é a poupança que determina o produto por trabalhador no longo prazo, por ser ser bastante aceito(ganhou nobel e esta em muitos livros-texto, etc...), não deveria ter ajudado a negar essa falácia do milagre dos deficts fiscais dos governos?
atenciosamente

Richard disse...

Obrigado pelos elogios
Sobre suas perguntas

a) Depende com o que você quer dizer com “vai de encontro”. O modelo de Solow trata capital como um bem homogêneo, uma “gosma” que se você aumenta então o produto aumentará. Para os austríacos, não existe uma “gosma”, um K homogêneo. Os bens de capital são heterogêneos, cada um se encaixa em uma parte da estrutura de produção e você não consegue ficar realocando eles a torto e a direita (isso envolve custos de ajustamento e muitas vezes pode não ser possível). Quem coordena essa alocação certinha é o sistema de preços. Logo, pode ser possível para os austríacos um aumento brutal do investimento gerar menos produto no futuro (exatamente porque você alocou as “peças do quebra-cabeça” chamado estrutura de produção, de forma errada). Isso aconteceu, por exemplo, em países como URSS e Brasil, que acharam que bastava aumentar a poupança e consequentemente o estoque de capital e a coisa ia estourar. “Estourou” no começo, depois tudo se revelou um enorme desperdício, alocações brutais tiveram que ser feitas.

b)Essa idéia de que a poupança é a fonte (o começo) de tudo é a parte que acho que “vai de encontro” com a teoria austríaca (embora depois seja tudo diferente, veja o item a). Curiosamente o Solow era um desses keynesianos que achavam que gasto do governo estimulava a economia no curto prazo justamente devido a aumento da demanda agregada. Nessa época a ciência econômica do mainstream era muito dividida em dois mundos: um o do curto prazo e o do longo prazo. Os modelos não se conversavam e os modelos de curto prazo eram bem pouco microfundamentados (eram os tais IS-LM da vida). Agora, em tese, você poderia ter, nesse modelo, o governo gastando mais e estimulando a economia supondo rigidez de preços (de salário nominal) devido a uma maior demanda de trabalho (e consequente maior oferta, já que a oferta seria positivamente inclinada em relação a salários nominais), o que é meio “heróico” demais. Somente na década de 70, 80 com os modelos de ciclos reais é que o curto e o longo prazo foram integrados e vc passou a ter um modelo redondinho e microfundamentado. Atualmente os “neokeynesianos” acadêmicos tbm trabalham com esse modelo e usam rigidez para gerar resultados como “política monetária e fiscal estimulam a economia no curto prazo”. O ponto chave deles é tentar microfundamentar essa rigidez (pq seria rígido, pq o trabalhador, por exemplo, seria "enganado"?), coisa, que entendo, eles falham completamente.

Abs
Richard