domingo, 19 de outubro de 2008

Quebradeiras e prejuízos são sinais de “fracasso” dos mercados?

[1] As pessoas têm uma confusa idéia sobre o significado da famosa frase “os mercados funcionam”. A atual turbulência na economia serviu para mostrar isso. Para o público em geral (e aqui na verdade estão incluídos economistas, jornalistas econômicos, sociólogos etc..), o mercado funcionar significa algo como “lucros estratosféricas para todos” ou “nada vai quebrar”. Nada mais errado (um erro, imagino eu, muitas vezes originado do prazer quase orgásmico em escrever coisas como “a morte do neoliberalismo”, “o fracasso dos mercados” nos jornais). Se alguém utiliza recursos escassos para alocá-los na produção de algo menos urgentemente desejado pelos consumidores, se existe uma alternativa que gera um bem mais “desejado” pelos consumidores, o mercado funcionar significa exatamente que essa alocação deve ser parada, deve ser interrompida, ou seja, o agente que está fazendo isso deve receber o sinal de preços (prejuízo) e parar (se ele não parar, irá quebrar).

[2] É de uma dificuldade aparentemente incrível entender o ponto acima. Por exemplo, na atual crise. As casas de hipoteca usaram poupanças para financiar a compra (e conseqüentemente a construção) de muitos imóveis. Isso gerou um imenso prejuízo que levou muitas instituições que apostaram nessa alocação a quebrar. Primeiro, o que significou o prejuízo? Economicamente o preço de um fator de produção é dado pela sua “produtividade marginal” (o quanto um pouquinho desse fator adiciona à produção). Se uma determinada alocação do fator não gera um produto marginal maior do que o produto marginal que determina seu preço, isso só significa que existe um outro lugar onde esse fator é mais “produtivo”, adiciona mais à produção, ou seja, que existe outro bem mais desejado pelos consumidores que podia estar sendo produzido com esse fator. O mercado “funcionar” significa apenas que ele deve “sinalizar” através dos preços esse erro de alocação, significa que os preços indicarão prejuízo.

[3] Mas lucros e prejuízos não são “arbitrários”. Muitas pessoas acham que basta “falsificar” os preços e o prejuízo não existirá. O que não existirá é apenas o saudável sinal de que a alocação é errada, o que não existirá é o pagamento desse prejuízo sendo feito por quem o gerou, mas nunca a eliminação da perda de valor. Essa perda de valor só tem uma única origem e causa – o uso de fatores escassos para produzir algo pouco valorado. A “perda de valor” que os preços refletirão indicando prejuízo já ocorreu e não tem mais “volta”, ocorreu quando uma alocação errada foi feita: algo que podia ser usado para produzir um bem valioso, está sendo usado, ou foi gasto, produzindo algo sem valor (ou menos valorado). Percebam o seguinte: o quanto mais cedo for identificado o erro, mais cedo pode ser feita uma realocação evitando assim uma perda maior ainda de bens valiosos (que não estão sendo produzidos dada a alocação errada).

[4] Do que já foi dito, podemos perceber um dos erros que mais ocorrem em análises econômicas. Veja, por exemplo, o pacote americano que visa “dar um preço” a títulos hipotecários podres que compõe a carteira de vários bancos. Dar um preço a esses títulos não eliminará o erro e a perda que eles representam, muito pelo contrário, reforçaram políticas de alocações erradas por parte dos agentes. Mas não é só isso, com o pacote o governo tira através da tributação, recursos alocados corretamente, de maneira eficiente e os joga em uma alocação que continua sendo errada. Se ele não “distorcesse” os preços fazendo isso, o prejuízo ficaria a mostra e ninguém insistiria em tentar terminar a produção de algo que não deveria ser produzido. Os agentes rapidamente parariam os investimentos nesse setor (imobiliário) e aproveitariam o que fosse possível para a produção dos outros bens mais valorados pelos consumidores.

[5] O mesmo tipo de erro é visto quando um país derruba barreiras protecionistas. Indústrias que só existiam porque o governo as protegiam com as barreiras quebrarão e é justamente isso que deve acontecer se o “mercado funciona”. Mas e os empregos perdidos? É o típico caso de fatores de produção sendo totalmente desperdiçados. Os mesmos trabalhadores que produzem bens que os consumidores não querem, poderiam estar produzindo bens mais valiosos, desejados, que seriam exportados para a compra de um similar importado bem melhor e barato do que o que a indústria protegida produzia com ele. Esses “empregos” serem eliminados é uma das melhores conseqüências sociais que os mercados produzem: eles permitem que uma sociedade aproveite seus escassos fatores de produção de forma a gerar o maior produto possível e conseqüentemente o maior bem estar possível.

[6] Um último exemplo do mesmo erro ocorre quando o cambio fica muito volátil e chovem pedidos para que o governo regule seu valor, tenha reservas para não deixar os preços “dançarem” porque isso geraria danos à economia, geraria incerteza etc.. Como já explicado, os preços são sinais, não são a causa do problema, não originam as perdas de valor derivadas de alocações erradas. Não são os preços voláteis que geram incerteza, é a incerteza que torna os preços voláteis. Os agentes não conseguem fazer uma expectativa adequada, consensual sobre o futuro e por isso a cada pequena nova informação os preços explodem para um lado ou para o outro. Em uma situação como essa, onde não há possibilidade de se fazer uma expectativa minimamente aceitável sobre o futuro, o que deve ser feito com os fatores da economia? Alocações que geram muito risco, alocações que dependam fundamentalmente de expectativas ou alocações menos sujeitas à risco e incertezas futuras?

[7] Os preços voláteis e imprevisíveis de um determinado ativo, no fundo, constituem o sinal “de pare” para investimentos cujos rendimentos dependem muito dos valores futuros desses ativos com “futuro nebuloso”. O governo através das políticas de controle de preços, como diminuir a volatilidade do câmbio, não faz a incerteza diminuir, ele apenas acaba com o sinal que indica essa incerteza e com isso “incentiva” os agentes econômicos a tomarem mais risco do que o adequado (a crise americana é um exemplo disso). Muitas vezes, talvez na maioria das vezes, a volatilidade do câmbio é um sinal de uma política econômica inadequada do próprio governo, como emissões de moeda em excesso, déficits fiscais e controle (ou insinuações de controle) de capitais estrangeiros.

[8] Para quem desejar ver outro exemplo (esse bem grave) de confusão sobre a função dos preços e o funcionamento dos mercados, sugiro a leitura do meu texto “Mais um pouco sobre juros, investimento, inflação...” . O texto fala da relação entre juros (um “preço”) e crescimento/investimento, expõe o mesmo tipo de erro citado aqui: não entender preços como sinais e sim como causa do problema – no caso dos juros, achar que juros baixos geram mais investimentos, mais crescimento quando no fundo eles só sinalizam que as pessoas estão poupando pouco (tem uma “alta preferencia temporal”). baixá-los não gerará mais poupança, nem investimentos. Só gerará desperdícios, erros de alocações, alocações que foram feitas “como se” as pessoas quisessem um padrão intertemporal de consumo que só é sustentado por uma maior poupança que não existe.

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