sábado, 11 de outubro de 2008

Política monetária, ciclos e RBC

[1] Antigamente, em “economia acadêmica” era chamado de “ortodoxo” ou “monetarista” aquele economista que acreditava que expansões e retrações econômicas (os ciclos) eram causadas pela política monetária. Os argumentos eram divididos praticamente em duas vertentes extremas: de um lado, uma minoria, aqueles “keynesianos radicais” que diziam que as recessões eram causadas por quedas de demanda agregada causadas principalmente ou exclusivamente por crises de confiança que transformavam o investimento em algo muito instável (o chamado espírito animal dos investidores). Para eles não adiantaria o governo usar a política monetária para combater a crise. A crise de confiança faria os agentes demandarem moeda loucamente, emissões cada vez maiores de moeda seriam “entesouradas”, a taxa de juros seria levada à zero e nada, nenhum aumento de demanda agregada seria produzido pela política monetária expansionista. Essa situação teórica ficou conhecida como “armadilha da liquidez”. A solução seria gastos diretos do governo, ou seja, política fiscal – a famosa idéia de cavar buracos e depois cobri-los. Em resumo, para os keynesianos radicais a política monetária era um péssimo instrumento de estabilidade, o que importava era a política fiscal.

[2] No outro extremo tínhamos os chamados “monetaristas radicais”, outra minoria. Os monetaristas defendiam que toda a culpa das recessões e expansões eram variações da quantidade de moeda associadas a alguma rigidez nominal. Irving Fisher, economista americano do começo do século XX e uma espécie de “inspirador” dos monetaristas costumava dizer que os ciclos eram na verdade “a dança do dólar”. Para os monetaristas, a politica fiscal era completamente (ou quase completamente) ineficaz porque ela simplesmente alterava componentes da demanda agregada, não aumentava absolutamente nada. Se o governo gastava muito, ele tirava o dinheiro de algum lugar – o exemplo mais famoso era o “efeito deslocamento” que déficits causavam. Se o governo gastava demais, as taxas de juros subiam e diminuía o investimento privado, ou seja, os gastos deslocavam o investimento (só trocava o componente da demanda agregada que era maior ou menor, mas não o nível absoluto). Em resumo, para os monetaristas o que importava para a estabilidade era a quantidade de dinheiro, consequentemente a política monetária e não o orçamento do governo ou a política fiscal.

[3] Entre esses dois extremos, estava 99% dos economistas do chamado “mainstream” – economistas que acreditavam que as duas políticas importavam e podiam ser usadas para a estabilização da economia. Quando essa posição foi se tornando cada vez mais consolidada, a discussão que ganhou mais força (embora já existisse no debate keynesianos x monetaristas) foi sobre a forma de execução dessas políticas: através de regras ou fazendo “ajuste fino”, discricionariamente. Monetaristas tendiam para a primeira posição, enquanto os keynesianos geralmente apoiavam a segunda forma.

[4] Mas o mundinho dos economistas mudou bastante. O “monetarismo” que representava “tudo de ruim” para os keynesianos, acabou dando origem ao que ironicamente é chamado hoje de “novo-keynesianismo” (ou neokeynesianismo, dependendo do autor). E a “evolução” da Escola de Chicago, o templo do monetarismo, gerou algo chamado “RBC” (Real Business Cycle), que simplesmente repudia completamente toda essa ênfase dada à política monetária.

[5] Deixe-me explicar um pouco sobre essas mudanças: o monetarismo sempre foi superior ao keynesianismo, principalmente o mais radical, em termos de lógica e de compatibilidade com a teoria microeconômica tradicional, embora os próprios monetaristas não soubessem muito bem como integrar as duas coisas (micro e macro). Foi principalmente na década de 70 com a chamada “revolução das expectativas racionais” capitaneada por nomes como Robert Lucas (Nobel de 95), Thomas Sargent, Neil Wallace (todos filiados teóricos da Escola de Chicago) que a macro baseada estritamente em agregados, sem microfundamentos, desmoronou de vez. Mas toda essa microfundamentação, com explicito pesar dos seus empreendedores acabou gerando uma espécie de “anti-monetarismo”. As dificuldades de gerar ciclos econômicos em modelos com expectativas racionais, microfundamentos e preços flexíveis levaram os chamados “novos clássicos” a praticamente darem adeus a tese dos monetaristas de que ciclos são como “a dança do dólar”. A proposição que ciclos são frutos de políticas monetárias ganhou status de “mito” nas palavras do talvez mais importante teórico dessa linha atualmente, Edward Prescott (Nobel de 2004).

[6] Por outro lado, um grupo de economistas aceitou o desafio imposto pela nova macroeconomia (microfundamentada) – eles sabiam que os efeitos reais de política monetária dos modelos monetaristas e mesmo keynesianos “não radicais”, só ocorriam por existir alguma fricção nos preços (geralmente essa fricção era justificada pelas famosas “expectativas adaptativas”, que caíram por terra com a idéia de expectativas racionais). A missão colocada por esses economistas era então tentar com base em expectativas racionais e com microfundamentos tentar justificar a hipótese de “preços rígidos” e assim gerar modelos “aceitáveis”, do ponto de vista da nova metodologia, que gerassem ciclos suficientemente “grandes” através de choques monetários. Basicamente esse é o programa de pesquisa dos chamados “novos keynesianos” (em um sentido mais geral, é a microfundamentação dos preços rígidos para uso em diversos modelos econômicos, não só no caso de ciclos, embora essa aplicação seja a “jóia da coroa”). A experiência, no entanto, não foi muito bem sucedida – as justificativas para preço rígido são risíveis (como a dos custos de menu, “loterias” que não existem, ou “misteriosos contratos de trabalho que não podem ser quebrados”) – embora a teoria neoclássica não se preocupe com o realismo das hipóteses diretamente, não se deriva rigidez de preço “naturalmente” de modelos enxutos, sem “elementos” claramente ad-hoc – o que significa uma desvantagem metodológica sobre modelos mais simples que conseguem explicar as mesmas coisas por outros “rumos”.

[7] No fim, o quadro atual se tornou o seguinte: os chamados “ultra-ortodoxos” ou “xiitas” (como a turma costuma chamar) não acreditam que política monetária (e nem a fiscal) sistemática gera ciclo algum. Por outro lado, os não tão “ortodoxos” acreditam que sim, que a política monetária tem um papel importante na geração e estabilização de ciclos. Apesar dos “novos-clássicos” serem os herdeiros dos monetaristas e de gente como Milton Friedman, são os novos-keynesianos que acabaram por defender em linhas gerais os resultados teóricos sobre estabilização econômica do bom velhinho de Chicago (embora nenhum deles defenda controle direto da moeda como Friedman, no entanto, acredito que atualmente isso seja bastante irrelevante).

[8] Mas voltando aos “RBCs”, porque a política monetária ou fiscal sistemática não gera ciclos? Basicamente porque os agentes incorporam o componente sistemático dessas políticas nos seus planos. Nos modelos anteriores, o que tornava essas políticas efetivas era a capacidade dos agentes serem “enganados”. Por exemplo, se o governo baixasse os juros (emitisse moeda), a economia expandiria porque os agentes agiam de acordo com suas expectativas baseadas nos períodos anteriores (onde não tinha acontecido expansão alguma). Logo, um trabalhador fixava seu salário em R$500,00 esperando em termos reais obter, por exemplo, R$500 (expectativa de inflação zero, no exemplo, expectativa baseada no histórico passado da inflação). Mas a inflação efetiva do período não será zero, consequentemente o salário real cairá o que levará firmas maximizadoras de lucro a produzir mais. A idéia de expectativas racionais questionou tal comportamento dos ofertantes de trabalho. Porque se existe um componente sistemático na política monetária, os agentes não incorporam esse componente e reajustam os salários para compensar a inflação e manter o salário real? Se os agentes maximizam utilidade, porque eles não usam toda a informação relevante, disponível a um custo irrisório para formar suas expectativas e não apenas informações passadas? Se o agente sabe que sempre “erra por 4”, porque não incorpora o erro de 4 a sua expectativa? A idéia de expectativa racional, somados aos desenvolvimentos subseqüentes rumo à microfundamentação acabou levando aos seguintes “resultados” em termos de ciclos e políticas econômicas:

1) Políticas sistemáticas, seja monetária ou fiscal, não geram efeitos reais de curto prazo. Esse resultado ficou conhecido como “teorema da ineficácia das políticas”.

2) O governo não tem como estabilizar a economia quanto ocorrer um choque de demanda, pois choques esperados são antecipados pelos agentes não gerando efeito real e choques não esperados, são não esperados tanto para o governo quanto para os agentes privados.

3) Os ciclos não são causados, mesmo por choques de demanda imprevisíveis, pois os preços são flexíveis (esse ponto é onde se trava o principal debate com os “novo-keynesianos”, já que para estes, choques imprevisíveis não são incorporados em expectativas, logo se o preço for rígido haverá mudanças de preços relativos).

4) Ciclos são causados por choques reais que alteram a produtividade os fatores. Além disso, dado tais choques, os agentes “otimizam”, ou seja, fazem a melhor escolha possível dados os choques, logo qualquer tentativa do governo em alterar a alocação de mercado representa uma diminuição do bem estar e uma política “sub-ótima”.


[9] Os quatro pontos mostram um pouco o quão “não intervencionista” é a RBC (obviamente na sua versão mais radical, dado que existem muitas relativizações das quatro posições entre proponentes importantes da “escola”). Alguns podem dizer que ela, no entanto, “omite” a responsabilidade do governo sobre várias bobagens que ele comete. Por exemplo, fazer gigantescos déficits não tem “efeito real” algum? Obviamente que tem. Déficits gigantes podem significar desincentivo à poupança, distorções de alocação de recursos (dado que são impostos futuros), enfim, uma variedade de distorções que retardam o crescimento ao longo do tempo e geram menor bem estar. Inflação também é um imposto sobre saldos monetários e consequentemente gera situações ineficientes (um saldo monetário menor do que o ótimo). O que a RBC defende é que tais políticas são inócuas para qualquer programa de estabilização (redução de ciclos) que o governo pretenda criar.

[10] O que poderíamos tirar dessa teoria sobre a atual crise americana? Primeiramente, que não foi política monetária sistemática alguma que gerou o problema (por exemplo, política monetária sistematicamente expansionista). Pela RBC (versão mais radical), uma política dessas seria antecipada pelos agentes e não geraria um boom econômico. Segundo, que a política monetária e fiscal expansionista não vai ter efeito algum (o governo cansou de dar sinais e de avisar que emitiria moeda ou gastaria mais se algum banco quebrasse). O primeiro ponto exibe talvez o que seja considerado o calcanhar de Aquiles da RBC – a origem dos ciclos. Os “xiitas” dessa escola defendem que apenas choques reais de produtividade geram ciclos, o que deixa até mesmo economistas considerados “ortodoxos” perplexos e desconfiados sobre o significado de “choques reais de produtividade”. Seria algo como: “esquecemos, do nada, como se faz rodas?”. Alguns novos-keynesianos faziam a seguinte piadinha sobre tais choques: “para eles, a grande depressão de 29 foi um longo e agudo surto de preguiça”, dado que na RBC, os trabalhadores optam (como decorrência da maximização de utilidade) por trocar trabalho por lazer, dada a queda de produtividade do trabalho (decorrente do choque).

[11] No entanto é importante considerar o seguinte: por enquanto, não há nenhum indicador muito consistente de recessão (e muito menos de um grande ciclo). Empresas ineficientes precisam e devem quebrar, nem por isso teremos um ciclo, muito pelo contrário. Será um ganho “desalocar”, o que sobrou de recursos, de um setor que gerava perdas. Pelo menos até agora os defensores de tal escola não precisam sair por aí procurando algum choque real para explicar um ciclo. Outro ponto importante: na RBC, se por algum motivo, os agentes alteram preferências quanto à poupança e consumo, a economia deve desacelerar, crescer menos, no entanto isso não é um “ciclo”. Agentes que foram menos hábeis em antecipar essa mudança quebrarão e será eficiente que quebrem. Uma última tentativa de explicar com a versão mais radical da RBC um possível “ciclo”, seria argumentar a favor de um choque de produtividade no setor financeiro da economia que acabou distorcendo a alocação de capital fazendo a produtividade cair. Eu, pelo menos por enquanto, não acho que isso seja completamente compatível com uma versão “hard” da RBC. De onde veio tal choque? Uma explicação seria da política “pró-risco” e de juros baixos do governo, mas isso era sistemático. Não houve um “choque” nessas políticas. Elas eram assim, erradas constantemente o que levaria a um retardamento do crescimento ao longo do tempo (quanto a magnitude do efeito seria necessária uma medição do crescimento “hipotético” do PIB sem essa política e uma comparação com o crescimento efetivo). No entanto é um ponto a ser desenvolvido e bastante interessante.

[12] Talvez a grande lição da RBC mais radical seja salientar nossa ignorância sobre ciclos e mesmo sobre a dificuldade em se definir o que é um ciclo. Sobre esse último ponto, econometricamente costuma-se, através de filtros como o de Hodrick-Prescott, separar a tendência de uma série dos seus componentes “cíclicos”. Normalmente é assim que se tratam ciclos na pratica. Em termos de teoria econômica, atualmente, existem mais controvérsias. Antigamente era comum definir “ciclos” como trajetórias em torno do chamado “produto natural”, pois se tinha a noção de ciclos como desequilíbrios que seriam revertidos para uma trajetória de equilíbrio (o produto natural). A microfundamentação da RBC acabou com isso, tornando a divisão teórica entre ciclos e “não ciclos” inexistente. Seja uma trajetória “lisa” do PIB, seja uma trajetória toda “ondulada”, “cíclica”, as duas são resultados única e exclusivamente de agentes otimizando, maximizando utilidade, ou seja, sempre decisões ótimas. As pessoas têm uma infinidade de motivos para resolverem trabalhar ou poupar menos em um período e mais em outro. Todas essas microdecisões combinadas “resultarão” no PIB. Em termos econômicos não há diferença nenhuma entre um conjunto de microdecisões que num intervalo de tempo resulta em algo parecido com um “ciclo” e em outro algo mais “liso”. Na prática a RBC, com os seus choques, conseguiu tornar a série “lisa” de produto, investimento, capital gerado pelo modelo neoclássico de crescimento, toda “serrilhadinha”, ou seja, ela incorporou tudo (ciclos e crescimento) em um único arcabouço teórico. Para quem gosta de economia teórica e daqueles modelos completamente fechados, com agentes racionais, otimizando, a RBC é um prato cheio. Talvez, em um futuro doutorado, eu passe a estudar modelos com choques no mercado financeiro. Seria uma forma tentar restabelecer a política monetária como uma importante fonte de choques, algo que me “convence” bastante e consequentemente ciclos, sem a necessidade de hipóteses ad-hoc ou “malabarismos teóricos” sobre rigidez de preços e coisas do tipo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Diante de tudo isto, porque a taxa de juros no Brasil não é reduzida, como tem acontecido em todo o mundo?

Daniel disse...

richard uma duvida:
"Alguns novos-keynesianos faziam a seguinte piadinha sobre tais choques: “para eles, a grande depressão de 29 foi um longo e agudo surto de preguiça”, dado que na RBC, os trabalhadores optam (como decorrência da maximização de utilidade) por trocar trabalho por lazer, dada a queda de produtividade do trabalho (decorrente do choque)."
na verdade quem esta maximizando a utilidade é a firma, e nao o trabalhador, certo ? è a demanda por trabalho que diminui, e nao a oferta
e outra coisa, vc acha que da para incorporar de alguma maneira a TAC à RBC ?

Richard disse...

Daniel,

Na verdade, as duas coisas acontecem: as firmas diminuem sua demanda porque o trabalho passa a ter uma menor produtividade marginal (na verdade seria um deslocamento da curva de demanda para baixo) e isso é um comportamento otimizador – maximiza seu lucro dada as restrições. E os trabalhadores diminuem sua oferta (trocam trabalho por lazer), porque ganharão menos (o preço do lazer diminui e, nesses modelos, o efeito substituição prevalece sobre o efeito renda) e isso também é uma ação otimizadora, no sentido que maximiza a utilidade dado os preços de mercado – no caso aí, é uma variação dentro da mesma curva pois é uma resposta a preço – como qualquer relação de demanda x oferta (os dois lados reagem aos preços).

Ocorre que nos modelos mais convencionais, você só tem um agente que “manda em tudo” (ele é o próprio trabalhador e dono da firma) - o tal agente representativo, logo, ele opta por trabalhar menos (é o robinson crusoé que sofreu um choque na produtividade). O ponto é que nesses modelos não há “desemprego involuntário” – tudo sempre está em equilíbrio, os “ciclos” são reações ótimas aos choques etc..

Sobre a outra pergunta, bem, uma vez eu vi um modelinho que foi a coisa mais próxima entre as duas teorias que eu tive contato: no modelo existia um setor bancário que fornecia capital para as firmas (era um intermediário). Os choques aconteciam no setor bancário (no caso eram “surpresas” de política monetária), o que afetava indiretamente a produtividade marginal do capital e esses choques no capital faziam o papel “clássico” dos choques no trabalho mencionados no texto. Mais que isso, não sei se é possível. A TAC tem problemas com a hipótese de expectativas racionais, por exemplo. Muitos austríacos enxergam os ciclos como um desequilíbrio, um processo de descoordenação (a recessão seria o ajuste para o equilíbrio), enquanto a RBC não. Enfim, são todas questões em aberto.