domingo, 26 de outubro de 2008

Não ao PT

Com muito pesar, na base do “menos pior”, este blog apóia (e torce para) o Kassab ser reeleito hoje em Sampa. Por dois motivos básicos:

1) É uma forma de evitar que o PT consiga a prefeitura de SP e fique mais forte do que, infelizmente, já é.

2) Eu acredito que se algum dia o Brasil tiver um governo liberal (ou que se aproxime disso), o partido mais “cotado” para ser a fonte desse governo é o DEM e, por isso, apóio um fortalecimento dessa legenda. As esquerdas sempre demonizaram o PFL acusando-o de “coronelismo”, “corrupção” etc.. Quando o assunto é evitar o PT e os partidos mais à esquerda, isso não me interessa muito. Se for verdade, o PT fez pior. Fez “coronelismo” através do bolsa-esmola (sim, “esmola” mesmo, ninguém tem direito aos bens dos outros) e foi fartamente corrupto. Empatou então? Não, as políticas fiscais do PT, a transformação do estado, das estatais em um braço do partido, a influência de economistas como Guido Mantega e Márcio Pochmann e a ideologia que o PT e a trupe da esquerda representam são muito piores que a suposta corrupção e coronelismo do PFL/DEM. Custam ao país muito mais. Fazem um mal muito maior.

Pelo mesmo motivo, evitar o PT, sou Gabeira no Rio. Até com um pouco menos do sentimento “não tem outro, vai esse mesmo”. Primeiro porque o Gabeira defende coisas como liberação da maconha e união civil gay, propostas que eu, como liberal, apóio (são “direitos” de quem deseja fazer essas coisas). Segundo porque, pelo menos aparentemente, Gabeira não fica se gabando (trocadilho horrível, eu sei), do seu passado de esquerdista – fã da ditadura cubana, como fazem os “petistas do alto escalão”. Não há absolutamente nada de errado em lutar contra tiranias (tanto intelectualmente quanto, com o devido “cuidado em relação à inocentes”, com armas). O problema é lutar contra uma ditadura para implementar outra pior (aos moldes cubanos), em nome de uma ideologia assassina como certas figurinhas carimbadas da política nacional e do PT fizeram. Não se elevar à categoria de “herói” ou mesmo de “credor” da sociedade por isso já é uma grande qualidade nos tempos atuais.

Voltando ao Kassab, achei o seu governo horrível, principalmente devido à lei cidade limpa, algo que para mim seria a pior política esperada do PT!!! Minha opinião sobre a lei está aqui. Além disso, Kassab podia ter desregulamentado setores como transporte público, que é um caos em SP, justamente porque, assim como no caso de bananas, leite, balas de morango, aeroportos, estradas etc.. alocar ônibus e linhas sem preços e mercados só gera ineficiência. Ele também poderia ter sido mais radical no seu projeto para “cracolândia” (demolição e privatização), que acredito é o caminho correto para área. Nesse tópico ele vence diretamente a Marta, que além de não querer demolir a cracolândia, insiste na besteira de preservar “patrimônio histórico” (que patrimônio histórico são aqueles prédios da cracolândia?), além de querer transformar o centro velho em uma COHAB gigante (alguém conhece uma COHAB “revitalizada”? Rica, próspera, bonita?).

Em Porto Alegre, sou José Fogaça. Embora ele seja do PMDB (o vice do Kassab também é), partido pelo qual eu não tenho nem a mais remota simpatia, a concorrente (Maria do Rosário) é do PT, que no Rio Grande do Sul mantém firme aquele “socialismo de estudante da década de 60”. O mesmo ocorre em Salvador, espero que João Henrique Carneiro (PMDB) derrote o candidato petista Walter Pinheiro. Já em BH, a coisa está tão feia que nem eu, que sou um dos mais ardorosos defensores do “vote no que é minimamente menos pior”, sei quem apoiar. O PSDB se aliou ao PT e lançou um candidato do PSB! E do outro lado está o PMDB. Sem muita convicção, prefiro o do PMDB (Quintão). Aliás, essa confusão é um pouco resultado do jeito mineiro de fazer política. Todo mundo faz acordo com todo mundo, todas as portas ficam abertas, todo mundo é aliado. Por exemplo, uma derrota do PT/PSDB, enfraqueceria o PT (muito bom) e o Aécio que provavelmente irá, justamente para o PMDB ser candidato em 2010, o que significa que na verdade, Aécio não sairia tão enfraquecido assim (talvez até o contrário). Além disso, a derrota do PSDB/PT daria uma força perigosa ao já forte PMDB para 2010.

Por falar em 2010, será mais uma eleição onde tomarei um “engov” e provavelmente votarei no Serra, o tucano de alta plumagem que eu mais repudio, principalmente por seu viés fortemente inflacionista e intervencionista na economia. No entanto, do outro lado devem estar PT/PMDB ou ambos com candidatura própria (o que seria uma boa, assim os dois se destroem). Espero que, pelo menos, no cenário estadual (em SP) a coisa seja mais favorável, com Alckmin saindo para governador (Alckmin que, dentro dos atuais “caciques”, é o meu candidato preferido para qualquer posto no executivo) e Guilherme Afif Domingos (DEM) saindo para senador, tirando o Mercadante (PT) de uma das vagas de São Paulo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Caso Eloá: A polícia deveria ter atirado no seqüestrador?

Foi-me perguntado o que eu achava sobre o comportamento da policia no caso do seqüestro da menina Eloá ocorrido em Santo André. Se eu não achava que um atirador da elite da policia devia atirar no seqüestrador quando ele apareceu na janela. Bem, primeiro eu não acompanhei o caso, não sei o quanto o sujeito deu as caras na janela, nem o tempo dessa exposição e nem como estava o campo de visão de qualquer suposto atirador. Segundo, eu não tenho a mínima noção do que é uma “boa” e uma “má” oportunidade para atirar (deve ser considerado o seguinte: se a policia atira e erra, no mínimo o bandido vai ficar mais enfurecido, o que pode gerar um final trágico – o que, infelizmente ocorreu mesmo sem o tiro).

Posto isso, não sei se a policia, de fato, deveria ter atirado, o que eu posso responder é que a policia tinha o “direito” de atirar. E que faz parte de uma boa policia, atiradores de elite capazes de terem altíssima precisão em situações de extrema pressão. Falando rapidamente do “direito de atirar”. A policia, obviamente, está sendo considerada no argumento como um agente contratado para proteger indivíduos que tenham ou estão tendo seus direitos violados. O seqüestrador é um agressor, um invasor. Além de estar ameaçando (diretamente, “crivelmente”) a vítima, também a está mantendo como refém. A vítima, nessa situação, tem o direito de se defender ou de “chamar” alguém para defendê-la, ou seja, usar a força contra o agressor para manter os seus direitos. E qual o nível de força que a vítima, ou o seu protetor, podem empregar na sua defesa? Aquele estritamente necessário para parar a agressão, o que implica, na situação prática em que se encontravam os envolvidos, atirar (inclusive para matar o seqüestrador).

Obviamente isso só vale enquanto a agressão está em andamento, enquanto ela está acontecendo. Não caberia à policia, digamos, atirar no seqüestrador já dominado, com as vítimas já libertadas etc.. Além dissó é importante dizer que o direito à atirar, na verdade, não é um direito da policia (como eu afirmei para simplificar a questão), é sim um direito da vítima, do agredido; o direito de se defender (ela escolheu se defender delegando a um terceiro, pedindo a um terceiro supostamente capaz de fazer isso por ela). Como disse no começo do texto, não sou capaz de responder se cabia ou não, na prática, atirar. Aparentemente o caso do ônibus 174, que caminha para mais um filme de “coitadismo pró-bandido”, era mais propício para isso (dado que o ônibus era cheio de grandes vidros e o bandido ficava mais exposto). Mas acredito que, caso as condições técnicas permitissem, sim a policia “teria direito” a atirar, inclusive para matar o seqüestrador.

PS: Sobre “coitadismo pró-bandido” sugiro os meus textos Capitão Nascimento e a inversão de valores (principalmente) e De novo: Hoppe e a relação meio - indivíduo.

domingo, 19 de outubro de 2008

Quebradeiras e prejuízos são sinais de “fracasso” dos mercados?

[1] As pessoas têm uma confusa idéia sobre o significado da famosa frase “os mercados funcionam”. A atual turbulência na economia serviu para mostrar isso. Para o público em geral (e aqui na verdade estão incluídos economistas, jornalistas econômicos, sociólogos etc..), o mercado funcionar significa algo como “lucros estratosféricas para todos” ou “nada vai quebrar”. Nada mais errado (um erro, imagino eu, muitas vezes originado do prazer quase orgásmico em escrever coisas como “a morte do neoliberalismo”, “o fracasso dos mercados” nos jornais). Se alguém utiliza recursos escassos para alocá-los na produção de algo menos urgentemente desejado pelos consumidores, se existe uma alternativa que gera um bem mais “desejado” pelos consumidores, o mercado funcionar significa exatamente que essa alocação deve ser parada, deve ser interrompida, ou seja, o agente que está fazendo isso deve receber o sinal de preços (prejuízo) e parar (se ele não parar, irá quebrar).

[2] É de uma dificuldade aparentemente incrível entender o ponto acima. Por exemplo, na atual crise. As casas de hipoteca usaram poupanças para financiar a compra (e conseqüentemente a construção) de muitos imóveis. Isso gerou um imenso prejuízo que levou muitas instituições que apostaram nessa alocação a quebrar. Primeiro, o que significou o prejuízo? Economicamente o preço de um fator de produção é dado pela sua “produtividade marginal” (o quanto um pouquinho desse fator adiciona à produção). Se uma determinada alocação do fator não gera um produto marginal maior do que o produto marginal que determina seu preço, isso só significa que existe um outro lugar onde esse fator é mais “produtivo”, adiciona mais à produção, ou seja, que existe outro bem mais desejado pelos consumidores que podia estar sendo produzido com esse fator. O mercado “funcionar” significa apenas que ele deve “sinalizar” através dos preços esse erro de alocação, significa que os preços indicarão prejuízo.

[3] Mas lucros e prejuízos não são “arbitrários”. Muitas pessoas acham que basta “falsificar” os preços e o prejuízo não existirá. O que não existirá é apenas o saudável sinal de que a alocação é errada, o que não existirá é o pagamento desse prejuízo sendo feito por quem o gerou, mas nunca a eliminação da perda de valor. Essa perda de valor só tem uma única origem e causa – o uso de fatores escassos para produzir algo pouco valorado. A “perda de valor” que os preços refletirão indicando prejuízo já ocorreu e não tem mais “volta”, ocorreu quando uma alocação errada foi feita: algo que podia ser usado para produzir um bem valioso, está sendo usado, ou foi gasto, produzindo algo sem valor (ou menos valorado). Percebam o seguinte: o quanto mais cedo for identificado o erro, mais cedo pode ser feita uma realocação evitando assim uma perda maior ainda de bens valiosos (que não estão sendo produzidos dada a alocação errada).

[4] Do que já foi dito, podemos perceber um dos erros que mais ocorrem em análises econômicas. Veja, por exemplo, o pacote americano que visa “dar um preço” a títulos hipotecários podres que compõe a carteira de vários bancos. Dar um preço a esses títulos não eliminará o erro e a perda que eles representam, muito pelo contrário, reforçaram políticas de alocações erradas por parte dos agentes. Mas não é só isso, com o pacote o governo tira através da tributação, recursos alocados corretamente, de maneira eficiente e os joga em uma alocação que continua sendo errada. Se ele não “distorcesse” os preços fazendo isso, o prejuízo ficaria a mostra e ninguém insistiria em tentar terminar a produção de algo que não deveria ser produzido. Os agentes rapidamente parariam os investimentos nesse setor (imobiliário) e aproveitariam o que fosse possível para a produção dos outros bens mais valorados pelos consumidores.

[5] O mesmo tipo de erro é visto quando um país derruba barreiras protecionistas. Indústrias que só existiam porque o governo as protegiam com as barreiras quebrarão e é justamente isso que deve acontecer se o “mercado funciona”. Mas e os empregos perdidos? É o típico caso de fatores de produção sendo totalmente desperdiçados. Os mesmos trabalhadores que produzem bens que os consumidores não querem, poderiam estar produzindo bens mais valiosos, desejados, que seriam exportados para a compra de um similar importado bem melhor e barato do que o que a indústria protegida produzia com ele. Esses “empregos” serem eliminados é uma das melhores conseqüências sociais que os mercados produzem: eles permitem que uma sociedade aproveite seus escassos fatores de produção de forma a gerar o maior produto possível e conseqüentemente o maior bem estar possível.

[6] Um último exemplo do mesmo erro ocorre quando o cambio fica muito volátil e chovem pedidos para que o governo regule seu valor, tenha reservas para não deixar os preços “dançarem” porque isso geraria danos à economia, geraria incerteza etc.. Como já explicado, os preços são sinais, não são a causa do problema, não originam as perdas de valor derivadas de alocações erradas. Não são os preços voláteis que geram incerteza, é a incerteza que torna os preços voláteis. Os agentes não conseguem fazer uma expectativa adequada, consensual sobre o futuro e por isso a cada pequena nova informação os preços explodem para um lado ou para o outro. Em uma situação como essa, onde não há possibilidade de se fazer uma expectativa minimamente aceitável sobre o futuro, o que deve ser feito com os fatores da economia? Alocações que geram muito risco, alocações que dependam fundamentalmente de expectativas ou alocações menos sujeitas à risco e incertezas futuras?

[7] Os preços voláteis e imprevisíveis de um determinado ativo, no fundo, constituem o sinal “de pare” para investimentos cujos rendimentos dependem muito dos valores futuros desses ativos com “futuro nebuloso”. O governo através das políticas de controle de preços, como diminuir a volatilidade do câmbio, não faz a incerteza diminuir, ele apenas acaba com o sinal que indica essa incerteza e com isso “incentiva” os agentes econômicos a tomarem mais risco do que o adequado (a crise americana é um exemplo disso). Muitas vezes, talvez na maioria das vezes, a volatilidade do câmbio é um sinal de uma política econômica inadequada do próprio governo, como emissões de moeda em excesso, déficits fiscais e controle (ou insinuações de controle) de capitais estrangeiros.

[8] Para quem desejar ver outro exemplo (esse bem grave) de confusão sobre a função dos preços e o funcionamento dos mercados, sugiro a leitura do meu texto “Mais um pouco sobre juros, investimento, inflação...” . O texto fala da relação entre juros (um “preço”) e crescimento/investimento, expõe o mesmo tipo de erro citado aqui: não entender preços como sinais e sim como causa do problema – no caso dos juros, achar que juros baixos geram mais investimentos, mais crescimento quando no fundo eles só sinalizam que as pessoas estão poupando pouco (tem uma “alta preferencia temporal”). baixá-los não gerará mais poupança, nem investimentos. Só gerará desperdícios, erros de alocações, alocações que foram feitas “como se” as pessoas quisessem um padrão intertemporal de consumo que só é sustentado por uma maior poupança que não existe.

sábado, 11 de outubro de 2008

Política monetária, ciclos e RBC

[1] Antigamente, em “economia acadêmica” era chamado de “ortodoxo” ou “monetarista” aquele economista que acreditava que expansões e retrações econômicas (os ciclos) eram causadas pela política monetária. Os argumentos eram divididos praticamente em duas vertentes extremas: de um lado, uma minoria, aqueles “keynesianos radicais” que diziam que as recessões eram causadas por quedas de demanda agregada causadas principalmente ou exclusivamente por crises de confiança que transformavam o investimento em algo muito instável (o chamado espírito animal dos investidores). Para eles não adiantaria o governo usar a política monetária para combater a crise. A crise de confiança faria os agentes demandarem moeda loucamente, emissões cada vez maiores de moeda seriam “entesouradas”, a taxa de juros seria levada à zero e nada, nenhum aumento de demanda agregada seria produzido pela política monetária expansionista. Essa situação teórica ficou conhecida como “armadilha da liquidez”. A solução seria gastos diretos do governo, ou seja, política fiscal – a famosa idéia de cavar buracos e depois cobri-los. Em resumo, para os keynesianos radicais a política monetária era um péssimo instrumento de estabilidade, o que importava era a política fiscal.

[2] No outro extremo tínhamos os chamados “monetaristas radicais”, outra minoria. Os monetaristas defendiam que toda a culpa das recessões e expansões eram variações da quantidade de moeda associadas a alguma rigidez nominal. Irving Fisher, economista americano do começo do século XX e uma espécie de “inspirador” dos monetaristas costumava dizer que os ciclos eram na verdade “a dança do dólar”. Para os monetaristas, a politica fiscal era completamente (ou quase completamente) ineficaz porque ela simplesmente alterava componentes da demanda agregada, não aumentava absolutamente nada. Se o governo gastava muito, ele tirava o dinheiro de algum lugar – o exemplo mais famoso era o “efeito deslocamento” que déficits causavam. Se o governo gastava demais, as taxas de juros subiam e diminuía o investimento privado, ou seja, os gastos deslocavam o investimento (só trocava o componente da demanda agregada que era maior ou menor, mas não o nível absoluto). Em resumo, para os monetaristas o que importava para a estabilidade era a quantidade de dinheiro, consequentemente a política monetária e não o orçamento do governo ou a política fiscal.

[3] Entre esses dois extremos, estava 99% dos economistas do chamado “mainstream” – economistas que acreditavam que as duas políticas importavam e podiam ser usadas para a estabilização da economia. Quando essa posição foi se tornando cada vez mais consolidada, a discussão que ganhou mais força (embora já existisse no debate keynesianos x monetaristas) foi sobre a forma de execução dessas políticas: através de regras ou fazendo “ajuste fino”, discricionariamente. Monetaristas tendiam para a primeira posição, enquanto os keynesianos geralmente apoiavam a segunda forma.

[4] Mas o mundinho dos economistas mudou bastante. O “monetarismo” que representava “tudo de ruim” para os keynesianos, acabou dando origem ao que ironicamente é chamado hoje de “novo-keynesianismo” (ou neokeynesianismo, dependendo do autor). E a “evolução” da Escola de Chicago, o templo do monetarismo, gerou algo chamado “RBC” (Real Business Cycle), que simplesmente repudia completamente toda essa ênfase dada à política monetária.

[5] Deixe-me explicar um pouco sobre essas mudanças: o monetarismo sempre foi superior ao keynesianismo, principalmente o mais radical, em termos de lógica e de compatibilidade com a teoria microeconômica tradicional, embora os próprios monetaristas não soubessem muito bem como integrar as duas coisas (micro e macro). Foi principalmente na década de 70 com a chamada “revolução das expectativas racionais” capitaneada por nomes como Robert Lucas (Nobel de 95), Thomas Sargent, Neil Wallace (todos filiados teóricos da Escola de Chicago) que a macro baseada estritamente em agregados, sem microfundamentos, desmoronou de vez. Mas toda essa microfundamentação, com explicito pesar dos seus empreendedores acabou gerando uma espécie de “anti-monetarismo”. As dificuldades de gerar ciclos econômicos em modelos com expectativas racionais, microfundamentos e preços flexíveis levaram os chamados “novos clássicos” a praticamente darem adeus a tese dos monetaristas de que ciclos são como “a dança do dólar”. A proposição que ciclos são frutos de políticas monetárias ganhou status de “mito” nas palavras do talvez mais importante teórico dessa linha atualmente, Edward Prescott (Nobel de 2004).

[6] Por outro lado, um grupo de economistas aceitou o desafio imposto pela nova macroeconomia (microfundamentada) – eles sabiam que os efeitos reais de política monetária dos modelos monetaristas e mesmo keynesianos “não radicais”, só ocorriam por existir alguma fricção nos preços (geralmente essa fricção era justificada pelas famosas “expectativas adaptativas”, que caíram por terra com a idéia de expectativas racionais). A missão colocada por esses economistas era então tentar com base em expectativas racionais e com microfundamentos tentar justificar a hipótese de “preços rígidos” e assim gerar modelos “aceitáveis”, do ponto de vista da nova metodologia, que gerassem ciclos suficientemente “grandes” através de choques monetários. Basicamente esse é o programa de pesquisa dos chamados “novos keynesianos” (em um sentido mais geral, é a microfundamentação dos preços rígidos para uso em diversos modelos econômicos, não só no caso de ciclos, embora essa aplicação seja a “jóia da coroa”). A experiência, no entanto, não foi muito bem sucedida – as justificativas para preço rígido são risíveis (como a dos custos de menu, “loterias” que não existem, ou “misteriosos contratos de trabalho que não podem ser quebrados”) – embora a teoria neoclássica não se preocupe com o realismo das hipóteses diretamente, não se deriva rigidez de preço “naturalmente” de modelos enxutos, sem “elementos” claramente ad-hoc – o que significa uma desvantagem metodológica sobre modelos mais simples que conseguem explicar as mesmas coisas por outros “rumos”.

[7] No fim, o quadro atual se tornou o seguinte: os chamados “ultra-ortodoxos” ou “xiitas” (como a turma costuma chamar) não acreditam que política monetária (e nem a fiscal) sistemática gera ciclo algum. Por outro lado, os não tão “ortodoxos” acreditam que sim, que a política monetária tem um papel importante na geração e estabilização de ciclos. Apesar dos “novos-clássicos” serem os herdeiros dos monetaristas e de gente como Milton Friedman, são os novos-keynesianos que acabaram por defender em linhas gerais os resultados teóricos sobre estabilização econômica do bom velhinho de Chicago (embora nenhum deles defenda controle direto da moeda como Friedman, no entanto, acredito que atualmente isso seja bastante irrelevante).

[8] Mas voltando aos “RBCs”, porque a política monetária ou fiscal sistemática não gera ciclos? Basicamente porque os agentes incorporam o componente sistemático dessas políticas nos seus planos. Nos modelos anteriores, o que tornava essas políticas efetivas era a capacidade dos agentes serem “enganados”. Por exemplo, se o governo baixasse os juros (emitisse moeda), a economia expandiria porque os agentes agiam de acordo com suas expectativas baseadas nos períodos anteriores (onde não tinha acontecido expansão alguma). Logo, um trabalhador fixava seu salário em R$500,00 esperando em termos reais obter, por exemplo, R$500 (expectativa de inflação zero, no exemplo, expectativa baseada no histórico passado da inflação). Mas a inflação efetiva do período não será zero, consequentemente o salário real cairá o que levará firmas maximizadoras de lucro a produzir mais. A idéia de expectativas racionais questionou tal comportamento dos ofertantes de trabalho. Porque se existe um componente sistemático na política monetária, os agentes não incorporam esse componente e reajustam os salários para compensar a inflação e manter o salário real? Se os agentes maximizam utilidade, porque eles não usam toda a informação relevante, disponível a um custo irrisório para formar suas expectativas e não apenas informações passadas? Se o agente sabe que sempre “erra por 4”, porque não incorpora o erro de 4 a sua expectativa? A idéia de expectativa racional, somados aos desenvolvimentos subseqüentes rumo à microfundamentação acabou levando aos seguintes “resultados” em termos de ciclos e políticas econômicas:

1) Políticas sistemáticas, seja monetária ou fiscal, não geram efeitos reais de curto prazo. Esse resultado ficou conhecido como “teorema da ineficácia das políticas”.

2) O governo não tem como estabilizar a economia quanto ocorrer um choque de demanda, pois choques esperados são antecipados pelos agentes não gerando efeito real e choques não esperados, são não esperados tanto para o governo quanto para os agentes privados.

3) Os ciclos não são causados, mesmo por choques de demanda imprevisíveis, pois os preços são flexíveis (esse ponto é onde se trava o principal debate com os “novo-keynesianos”, já que para estes, choques imprevisíveis não são incorporados em expectativas, logo se o preço for rígido haverá mudanças de preços relativos).

4) Ciclos são causados por choques reais que alteram a produtividade os fatores. Além disso, dado tais choques, os agentes “otimizam”, ou seja, fazem a melhor escolha possível dados os choques, logo qualquer tentativa do governo em alterar a alocação de mercado representa uma diminuição do bem estar e uma política “sub-ótima”.


[9] Os quatro pontos mostram um pouco o quão “não intervencionista” é a RBC (obviamente na sua versão mais radical, dado que existem muitas relativizações das quatro posições entre proponentes importantes da “escola”). Alguns podem dizer que ela, no entanto, “omite” a responsabilidade do governo sobre várias bobagens que ele comete. Por exemplo, fazer gigantescos déficits não tem “efeito real” algum? Obviamente que tem. Déficits gigantes podem significar desincentivo à poupança, distorções de alocação de recursos (dado que são impostos futuros), enfim, uma variedade de distorções que retardam o crescimento ao longo do tempo e geram menor bem estar. Inflação também é um imposto sobre saldos monetários e consequentemente gera situações ineficientes (um saldo monetário menor do que o ótimo). O que a RBC defende é que tais políticas são inócuas para qualquer programa de estabilização (redução de ciclos) que o governo pretenda criar.

[10] O que poderíamos tirar dessa teoria sobre a atual crise americana? Primeiramente, que não foi política monetária sistemática alguma que gerou o problema (por exemplo, política monetária sistematicamente expansionista). Pela RBC (versão mais radical), uma política dessas seria antecipada pelos agentes e não geraria um boom econômico. Segundo, que a política monetária e fiscal expansionista não vai ter efeito algum (o governo cansou de dar sinais e de avisar que emitiria moeda ou gastaria mais se algum banco quebrasse). O primeiro ponto exibe talvez o que seja considerado o calcanhar de Aquiles da RBC – a origem dos ciclos. Os “xiitas” dessa escola defendem que apenas choques reais de produtividade geram ciclos, o que deixa até mesmo economistas considerados “ortodoxos” perplexos e desconfiados sobre o significado de “choques reais de produtividade”. Seria algo como: “esquecemos, do nada, como se faz rodas?”. Alguns novos-keynesianos faziam a seguinte piadinha sobre tais choques: “para eles, a grande depressão de 29 foi um longo e agudo surto de preguiça”, dado que na RBC, os trabalhadores optam (como decorrência da maximização de utilidade) por trocar trabalho por lazer, dada a queda de produtividade do trabalho (decorrente do choque).

[11] No entanto é importante considerar o seguinte: por enquanto, não há nenhum indicador muito consistente de recessão (e muito menos de um grande ciclo). Empresas ineficientes precisam e devem quebrar, nem por isso teremos um ciclo, muito pelo contrário. Será um ganho “desalocar”, o que sobrou de recursos, de um setor que gerava perdas. Pelo menos até agora os defensores de tal escola não precisam sair por aí procurando algum choque real para explicar um ciclo. Outro ponto importante: na RBC, se por algum motivo, os agentes alteram preferências quanto à poupança e consumo, a economia deve desacelerar, crescer menos, no entanto isso não é um “ciclo”. Agentes que foram menos hábeis em antecipar essa mudança quebrarão e será eficiente que quebrem. Uma última tentativa de explicar com a versão mais radical da RBC um possível “ciclo”, seria argumentar a favor de um choque de produtividade no setor financeiro da economia que acabou distorcendo a alocação de capital fazendo a produtividade cair. Eu, pelo menos por enquanto, não acho que isso seja completamente compatível com uma versão “hard” da RBC. De onde veio tal choque? Uma explicação seria da política “pró-risco” e de juros baixos do governo, mas isso era sistemático. Não houve um “choque” nessas políticas. Elas eram assim, erradas constantemente o que levaria a um retardamento do crescimento ao longo do tempo (quanto a magnitude do efeito seria necessária uma medição do crescimento “hipotético” do PIB sem essa política e uma comparação com o crescimento efetivo). No entanto é um ponto a ser desenvolvido e bastante interessante.

[12] Talvez a grande lição da RBC mais radical seja salientar nossa ignorância sobre ciclos e mesmo sobre a dificuldade em se definir o que é um ciclo. Sobre esse último ponto, econometricamente costuma-se, através de filtros como o de Hodrick-Prescott, separar a tendência de uma série dos seus componentes “cíclicos”. Normalmente é assim que se tratam ciclos na pratica. Em termos de teoria econômica, atualmente, existem mais controvérsias. Antigamente era comum definir “ciclos” como trajetórias em torno do chamado “produto natural”, pois se tinha a noção de ciclos como desequilíbrios que seriam revertidos para uma trajetória de equilíbrio (o produto natural). A microfundamentação da RBC acabou com isso, tornando a divisão teórica entre ciclos e “não ciclos” inexistente. Seja uma trajetória “lisa” do PIB, seja uma trajetória toda “ondulada”, “cíclica”, as duas são resultados única e exclusivamente de agentes otimizando, maximizando utilidade, ou seja, sempre decisões ótimas. As pessoas têm uma infinidade de motivos para resolverem trabalhar ou poupar menos em um período e mais em outro. Todas essas microdecisões combinadas “resultarão” no PIB. Em termos econômicos não há diferença nenhuma entre um conjunto de microdecisões que num intervalo de tempo resulta em algo parecido com um “ciclo” e em outro algo mais “liso”. Na prática a RBC, com os seus choques, conseguiu tornar a série “lisa” de produto, investimento, capital gerado pelo modelo neoclássico de crescimento, toda “serrilhadinha”, ou seja, ela incorporou tudo (ciclos e crescimento) em um único arcabouço teórico. Para quem gosta de economia teórica e daqueles modelos completamente fechados, com agentes racionais, otimizando, a RBC é um prato cheio. Talvez, em um futuro doutorado, eu passe a estudar modelos com choques no mercado financeiro. Seria uma forma tentar restabelecer a política monetária como uma importante fonte de choques, algo que me “convence” bastante e consequentemente ciclos, sem a necessidade de hipóteses ad-hoc ou “malabarismos teóricos” sobre rigidez de preços e coisas do tipo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Um texto não terminado sobre Law & Economics

OBS: Como o próprio título diz, este é um texto não terminado. A idéia era algo bem mais longo e que efetivamente cumprisse os objetivos colocados (falar do liberalismo em termos de law & economics). Pela falta de tempo misturada com a preguiça deste q vos fala, o fim fica para algum lugar em um futuro distante. 

[1] Um dos campos da economia que mais me chamaram a atenção nos últimos tempos foi a chamada “Law&Economics” (algo geralmente traduzido no Brasil como Análise Econômica do Direito). Basicamente L&E é tão somente uma aplicação da economia convencional (a teoria neoclássica) ao direito. Eu chamaria simplesmente de “Economia do Direito”, assim como chamam a aplicação da teoria da escolha à saúde como “Economia da Saúde”, à moeda de “Economia Monetária”, à política de “Economia Política”, mas talvez o nome fosse demais para a peculiar arrogância dos estudiosos do direito.

[2] Para mim o mais interessante em L&E é a obtenção de respostas “puramente econômicas” para questões do tipo: por que matar deve ser crime? Por que roubar é ruim? Questões que normalmente, temos mais respostas, digamos, morais, éticas do que econômicas. Alguém pode dizer que adoraria que as pessoas recebessem um mínimo necessário para sobreviverem, mas que, com base em teoria econômica, o salário mínimo não funciona para isso. Ou ainda que o salário mínimo é ruim porque gera “ineficiências” etc.. Agora, dificilmente alguém diz que o roubo não pode ser permitido porque é uma externalidade e externalidades geram ineficiências e economicamente isso significa algo como “é ruim”. Com esse texto pretendo falar um pouco de L&E e comentar os problemas ou soluções que ela traz para o liberalismo, principalmente a sua versão mais jusnaturalista (já que existem autores radicalmente liberais que partem mais de L&E na sua defesa da liberdade, do que em conceitos como “justiça”).

[3] Como qualquer ramo da economia, a “hipótese básica” é de agentes auto-interessados que maximizam seu bem estar (composto dos bens que o agente consumirá), ou dito em outras palavras, é um agente racional que procura maximizar “lucro” (maior diferença entre benefícios e custos possível). Aqui já há uma diferença gritante entre L&E e outras teorias sobre direito e crimes. Um agente qualquer é um criminoso pelo mesmo motivo que o leitor é um estudante ou economista ou advogado ou padre ou vendedor de cachorro quente – ele consegue nesse “setor da economia” mais do que em qualquer outro setor (ou pelo menos espera que seja assim). Criminosos não são malvados, “imorais”, vitimas da sociedade ou múmias empurradas pelo sistema para a vida de crime. Eles são racionais. São criminosos porque escolheram ser e escolheram ser porque tal escolha traz o maior retorno possível dentre todas as escolhas dentro do seu conjunto de escolhas (analise de custo-benefício).

[4] Para um criminoso, qual o beneficio do crime? Basicamente o bem roubado (não vamos complicar a coisa com serial-killers e assassinos por paixão, embora nesse caso seja óbvio que o beneficio é o próprio ato de matar). E o custo? Além do óbvio custo de oportunidade (o ladrão poderia estar em casa assistindo TV ou ainda “trabalhando” em outro setor), normalmente existe o custo esperado de ser punido. Esse custo basicamente é composto da pena pelo crime, vezes a probabilidade de ser preso e condenado, enfim, a probabilidade de ter que arcar com a pena. Obviamente existem outros custos, por exemplo, o ladrão pode ser morto porque a vitima reagiu, na fuga da policia ou ainda ele pode matar a vitima e no lugar de um simples roubo, ter que arcar com o custo de um assassinato. Em suma, o agente cometerá o crime se a diferença entre os benefícios e o custo (o lucro) for maior que o lucro que pode ser obtido em qualquer outro setor.

[5] Lendo tudo isso, alguém pode argumentar o seguinte: interessante, mas se é realmente assim que funciona, então para acabar com os crimes bastaria matar todo e qualquer criminoso. É um custo altíssimo para todos os crimes e ninguém cometeria crimes, no entanto é absurdo matar um ladrão por roubar galinhas ou pão em um supermercado. Um pensamento como esse não leva em conta o seguinte: primeiro, nunca a probabilidade de ser pego é um. Segundo, se a pena mais alta é reservada a um crime pequeno, basicamente o que se está fazendo é não punindo crimes mais graves. Se eu roubar uma bala ou matar alguém gera a mesma punição, uma vez roubada a bala e dado que alguém viu ou tem probabilidade razoável de ter visto, existirá um incentivo enorme para que eu faça uma verdadeira chacina na lojinha de balas, afinal, o custo máximo que eu vou arcar com esses crimes adicionais é o mesmo, ou seja, crimes adicionais (no exemplo dado) tem custo zero. Um terceiro ponto é a própria implementação de um sistema de punições tão severo. Quanto custa um sistema como esse? Quanto você pagaria para manter sua vida? Um sistema que impõe um custo tão alto como tirar a vida de alguém, obviamente precisa ser bastante rigoroso nos julgamentos que faz para qualquer crime, do mais banal ao mais grave. A máquina necessária para todo esse processo, em muito superaria qualquer beneficio.

[6] A questão acima mostra um ponto importante em economia: não existe almoço grátis. Tudo terá um custo. O “padrão normativo” da economia, em geral, como o do agente, é maximizar a diferença entre benefícios e custos (embora no caso do agente, não seja um padrão normativo e sim uma descrição positiva). Uma situação onde temos o maior “lucro” (ou o melhor custo-benefício), é chamada de “eficiente”, caso contrário (existe uma mudança que gera um custo menor que o beneficio) temos uma situação ineficiente. Essa não é a definição mais tradicional de eficiência, mas para uma infinidade de casos é quase idêntica a mais comum (paretiana). Como já foi dito, na parte que mais nos interessa, a L&E tentará encontrar as leis, normas, punições que sejam “ótimas” ou eficientes, i.e, que maximizem o lucro da sociedade (contanto todos os benefícios e custos).

[7] Vamos ver um exemplo bem simples, mas que é bastante relevante: a questão do roubo. Além do tradicional argumento do incentivo à produção (se quem produz não recebe os benefícios por ter produzido, não produzirá mais), porque permitir o roubo seria “ineficiente” como definido acima? Primeiro, peguemos uma transferência de bens voluntaria, uma transação de mercado envolvendo um sorvete. Quando você se dirige ao sorveteiro e se dispõe a trocar R$2 por um sorvete, você só faz isso porque o sorvete o valora por R$2 ou mais. Caso contrário você estará melhor não fazendo a transferência. E o mesmo vale para o sorveteiro: ele só aceita R$2 pelo sorvete porque o valora por R$2 ou menos. Suponhamos que você valore o sorvete por R$3 e o sorveteiro por R$1. A transação por R$2 gera um ganho de R$1 para você e R$1 para o sorveteiro, ou seja, foram produzidos R$2 – que é exatamente a diferença de valoração das partes. Qual a diferença disso, para a transferência “forçada” do sorvete para mim?

[8] O sorveteiro valora ele em R$1 e eu valoro ele em R$3, teríamos um ganho social de R$2 (só que nesse caso, todo o ganho iria para mim). O problema é que é, assim como no caso acima (com mercados de sorvete), o “mercado de ladrões” tenderá a um equilíbrio trágico. Primeiro, imagine que roubar o sorvete custe R$1 – eu tenho um lucro de R$2 (R$3 – R$1) e o sorveteiro tem um prejuízo de R$1, totalizando uma produção de R$1 (abaixo da produção da troca voluntária). A razão para isso é que a mera transferência do bem (o ato de transferir) tem um custo, de R$1, o que não ocorria no caso de transações voluntárias (você pagava R$2 para o sorveteiro e isso era um custo para você, mas na verdade, os R$2 eram apenas a parte do “valor do bem” que você transfere para o sorveteiro, ou seja, era a própria transferência e não um custo adicional. Esses custos adicionais geralmente recebem o nome de “custos de transação”. Eles não se referem ao preço envolvido na transação, que por si só é a transferência, mas sim à coisas adicionais, como por exemplo, dificuldades para se encontrar um sorveteiro, dificuldades para se saber de quem é o carrinho de sorvete e de saber o preço do sorvete ou ainda, todos os sabores de sorvete tem o papel da mesma cor etc..

[9] Os custos de transação terão um papel importante na definição de direitos de propriedade. Veja, por exemplo, o exemplo acima do sorvete. A solução eficiente é o sorvete ir parar na minha mão, que o valoro a R$3. Enquanto ele estiver na mão de alguém que o valora por menos, sempre existe a possibilidade de uma melhoria, de um aumento de valor. No exemplo, o sorvete era do sorveteiro e eu o comprava por R$3, gerando a solução eficiente (eu produzia uma melhora de R$2). E se, inicialmente, o sorvete fosse meu? Ele já estaria alocado no valor máximo (R$3,00). Nenhuma melhoria seria possível. Quando não há custo de transação (a transferência não “custa nada”), independentemente das definições de direito de propriedade (quem é ou não dono do bem, quem tem inicialmente os direitos sobre ele), a solução será sempre eficiente (a solução, aqui, significa a alocação final). Agora, voltemos ao caso anterior. Imagine que, por algum motivo, exista um custo de R$1,5 para transferir o sorvete do sorveteiro para mim. Eu teria que pagar R$2 (o preço do sorvete), mais R$0,50 pelo custo de transação e o sorveteiro pagaria R$1. Ele não ganharia nada (receberia R$2 e perderia R$2). E eu ganharia R$0.5, totalizando um ganho social de R$0.5 – menor até que o caso do roubo.

[10] No meu exemplo, a transação ainda sairia e o sorvete acabaria nas mãos de quem o valora mais, às custas de R$1.5 “perdidos”, que não vão para ninguém, é um custo social. Seria mais eficiente definir direto que o sorvete fosse meu, sem a necessidade de transferência alguma, dado que só isso consome R$1.5. O “excedente social” no caso da definição dos direitos de propriedade para o sorveteiro é menor do que na situação onde eu sou intitulado proprietário, o que mostra que na presença de custos de transação, a definição inicial dos direitos de propriedade pode importar bastante. Dependendo da definição, eu posso obter a mesma solução (alocação final) a um custo muito menor (ou seja, comparando agora os custos de se chegar a uma situação de eficiência, na presença de custos de transação, faz diferença as definições de propriedade). O exemplo obviamente poderia ser mais radical ainda e supor um custo de transação de R$3,50, o que inviabilizaria a própria transferência caso o sorvete fosse considerado propriedade do sorveteiro, o que geraria uma alocação final ineficiente de R$1 – a valoração do sorveteiro, enquanto se o sorvete fosse meu, o valor seria R$3 (maior).

[11] Voltando ao roubo, é próximo do equilíbrio (ou no próprio equilíbrio) que as duas soluções (trocas voluntárias e roubo) mostram toda a diferença em termos de eficiência. O mercado de roubos é igual a qualquer outro mercado em termos de equilíbrio. O lucro (econômico) precisa tender a zero, caso contrário mais “ofertantes” entrarão. Isso significa que os ladrões marginais fazem roubos cujo beneficio para eles é idêntico ao custo arcado por eles. Em termos do nosso exemplo do sorvete, os ladrões valoram o sorvete a R$3, mas no lugar do roubo custar R$1, ele está custando R$3. Por que o custo do roubo tenderia a subir? Ora, se você está andando na Praça da Sé provavelmente esconderá seu dinheiro com mais cuidado do que se estiver passeando no Shopping Cidade Jardim. No primeiro caso, provavelmente levará pouco dinheiro e o colocará naquele bolso bem apertado. Já no segundo, dificilmente você se preocupará com esses detalhes. Se os dois lugares fossem “abertos”, com o mesmo nível de segurança, seria muito mais fácil (menos custoso) roubar alguém no Cidade Jardim. Essa diferença de comportamento é gerada justamente pela probabilidade de ser roubado e também tem efeitos econômicos perversos. Mas voltando ao exemplo do sorvete, o ladrão não lucra nada, e o sorveteiro perde exatamente o valor, para ele, do bem roubado (no caso R$1). E na transação voluntária? Se todos os lados estão em equilíbrio, o sorvete terá o preço de R$2 e ambos valorarão uma unidade de sorvete a R$2, o que significa um lucro social zero (no caso do equilíbrio geral, o prejuízo social do roubo seria R$2, já que o sorveteiro também estaria valorando o sorvete a R$2). Veja que, no limite, uma transação voluntária rende socialmente nada, e um roubo gera um prejuízo equivalente ao preço do que foi roubado, afinal, o custo do roubo está muito próximo da valoração do ladrão que está próxima do preço de mercado. Roubos, portanto, economicamente são como os roubados o vêem, ou seja, como uma perda no valor do que foi roubado e não como uma mera transferência “fora de mercado”.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Abaixo-assinado de economistas americanos contra o pacote

Vejam aqui o abaixo-assinado de economistas americanos contra o pacote do governo para "salvar a economia". Constam nomes de peso como Robert Lucas, James Heckman (ambos prêmio nobel) e John Cochrane....

É engraçado (na verdade "depressivo") comparar esse abaixo-assinado com os de "intelectuais brasileiros" ou mesmo só de economistas tupiniquins.... dois me vem à mente agora: um pela estatização do MASP e outro de economistas contra a politica monetária "conservadora" do BACEN. Quanta diferença!!!! É rir para não chorar.