sábado, 6 de setembro de 2008

Mercado de trabalho e "cercamentos"

[1] Porque, "hoje", o trabalho é como uma mercadoria (como os marxistas adoram dizer) e antes não (ou pelo menos não como é hoje)? Existem trocentas explicações, geralmente anti-capitalistas, sobre como e porque temos, atualmente, um amplo mercado de trabalho. A mais comum é a de que pobres camponeses foram expulsos de suas terras por alguns “nobres malvados” mancomunados com a “nova burguesia” que precisava de vasta mão de obra barata nas cidades – assim enxotaram os pobrezinhos do campo onde viviam maravilhosamente bem, nas suas pequenas e rentáveis propriedades, para as cidades sujas e poluídas pelas chaminés da nova indústria, sem um tostão no bolso e obrigados a vender sua “força de trabalho” para sobreviverem. Em qualquer livro de história de ensino médio, com alguma variação, sempre há essa explicação no capitulo sobre “revolução industrial” ou “surgimento do capitalismo”.

[2]A explicação não faz absolutamente nenhum sentido econômico, mas ninguém é muito interessado em teoria econômica ou algo mais racional. O que importa é criticar o capitalismo, mostrar o quão cruel e injusta foi sua “origem” e derivar baboseira para serem aplicadas atualmente, como leis trabalhistas para compensar o trabalhador pela exploração e programas estatais de distribuição de renda, afinal, o rico é rico porque foi “beneficiado” por um sistema injusto na sua origem e etc..etc..etc..
[3] O primeiro ponto é, porque alguém, dono de uma pequena propriedade rural sai do seu “pedacinho de terra” e vai para a cidade para ser “empregado” da indústria? A razão econômica é obvia: porque o segundo paga mais. O que não é óbvio é porque o segundo passou a pagar mais em certa época. Trabalho é um fator de produção, algo que gera bens no futuro. O dono da pequena propriedade teria basicamente duas opções: usar seu trabalho na sua propriedade ou ofertar trabalho para um terceiro. Se o uso de seu trabalho gera o mesmo produto no futuro em ambas as alocações, é de se esperar que ele fique na sua pequena propriedade mesmo. Mas o que aconteceria se alguns indivíduos começassem a acumular capital?

[4] Capital aumenta a produtividade do trabalho. Ele serve para novos investimentos em máquinas, ferramentas, enfim, a construção de vários bens intermediários que possibilitam a produção de uma quantidade muito maior de bens de consumo. Um mesmo trabalhador receberá salários completamente distintos se viver em uma comunidade com muito capital per capita investido ou em outra com pouco capital. É fácil ver por que: imagine um pescador que tenha um barco com sonar e outro com no máximo uma varinha e um anzol. Quem produzirá mais em 1 hora de trabalho? Mesmo aqueles que não são afetados diretamente pelo novo capital recebem maiores salários. No primeiro caso, dos pescadores com barcos com sonar, o salário de pescador subirá, logo outros trabalhadores quererão ser pescadores e não sobrará muita gente para ser barbeiro, por exemplo. Assim o salário do barbeiro também terá que subir para garantir um número adequado deste profissional.

[5] Voltando ao pequeno proprietário, imagine que há um crescente acumulo de capital, o que faz a produtividade do trabalho subir inicialmente em alguns setores (os setores que iniciam essa expansão). O pequeno proprietário poderia alocar o seu trabalho em um desses setores com novos capitais, que geram uma produtividade marginal do trabalho maior e assim receber um salário bem maior do que continuar usando sua própria terra sem capital. Eis aí o motivo porque houve um verdadeiro mar de migrantes para as cidades nas tais “revoluções industriais”. O acumulo de capital fez explodir a produtividade do trabalho na nova indústria, principalmente a indústria que visava atender as massas com coisas básicas como roupas, sapatos, além das indústrias que produziam bens de capital para essas indústrias – como ferrovias que transportavam vastas quantidades de matérias primas.

[6] Só quando há um crescente acumulo de capitais, o mercado de trabalho começa a se desenvolver. Antes, não faz muita diferença trabalhar em uma pequena propriedade sua ou para os outros – não há diferenças de produtividade significativas. Não há locais tão mais produtivos para alocar seu trabalho. O mesmo ocorreria se o mercado de crédito fosse “perfeito” no sentido que os economistas usam. O pequeno proprietário no lugar de ir trabalhar em uma indústria para aumentar sua produtividade, poderia emprestar capital de quem tem e criar sua própria indústria – conseguir para si uma situação onde seu trabalho ficasse tão produtivo quanto em outro local. Obviamente estamos desconsiderando questões como “ganhos de escala”, ganhos de localização e outros fatores. O importante é que, tanto numa situação quanto na outra, não há diferenças significativas de produtividade que justifiquem a criação de um amplo mercado de trabalho no sentido “tradicional” – obviamente na segunda situação, com muito capital e mercado de crédito “perfeito”, teríamos mini-proprietários com maior produtividade.

[7] Hoje temos uma explosão de “profissionais liberais” que no fundo são “mini-proprietários”, e, por outro lado, uma diminuição daquele emprego clássico de “chão de fábrica”. Uma das causas para essa nova configuração, dentre outras coisas, é o avanço das técnicas do mercado de crédito para separar bons e maus pagadores gerando uma maior eficiência e abrangência dos empréstimos, o que torna as “produtividades marginais” iguais no quesito ser empregado ou dono. Mas, reforçando, o mercado de crédito é uma das causas, em alguns casos devido a problemas “tecnológicos”, economicamente é melhor um monte de gente reunida em uma única sala ou local, do que vários autônomos, mini-proprietários, às vezes totalmente distantes se comunicando por telefone, internet etc.. De qualquer forma, essa diferenciação também foi fruto da acumulação de capital que permitiu a produção de uma vasta diversidade de bens jamais sonhada.

[8] Por fim, reparem no seguinte: o mercado de trabalho se desenvolveu devido ao acumulo de capital que permitiu uma diferenciação de produtividade entre trabalhar como “proprietário” e trabalhar como “empregado”. Mas e o acumulo de capital? De onde veio? Basicamente do oposto do que afirma a explicação citada no começo do texto. A acumulação de capital veio do crescente respeito aos direitos de propriedade, principalmente na Inglaterra. Acumular capital tem como pré-condição a poupança. Ninguém poupa sem antes ter uma expectativa consistente de que não será extorquido, não será roubado e de que coisas como “política monetária” não farão sua poupança sumir. Direitos de propriedade respeitados e estáveis, essa é a causa fundamental da poupança e do desenvolvimento. Jamais, em um local sem o menor respeito aos direitos de propriedade, poderia ter surgido o que surgiu na Inglaterra – um acumulo de capital fantástico que financiou o desenvolvimento de toda Europa e dos EUA.

[9] Mas e as leis de cercamentos da Inglaterra, por exemplo? Em toda época sempre existiram leis que ou foram contra o capitalismo ou aparentaram ser contrárias. A lei do cercamento é uma das que aparentaram ser contrárias. Ao contrário do que é dito por socialistas, ela não expulsou camponeses do campo, ela simplesmente reconheceu direitos de propriedade permitindo ao dono “cercar” propriedades (já li não lembro aonde, talvez seja em uma coletânea do Hayek sobre o tema “revolução industrial”, que em torno de 15 a 20% das terras foram afetadas por essas medidas). Esse é o porquê os socialistas odeiam tanto tal lei. Ela é um reconhecimento formal e legal de certos direitos de propriedade, é o afastamento do poder dos invasores e do governo sobre aquela propriedade. Com essa definição legal, ela também resolveu outro problema: a famosa “tragédia dos comuns” que gerava uma “superexploração” de um dado recurso, diminuindo a produtividade e gerando uma situação ineficiente, contrária a um maior crescimento e bem estar.

[10] Mas imaginemos que não foi nada disso. Que a lei foi uma brutal violação de direitos de propriedade. O fato é que tivemos um boom econômico na Inglaterra, o florescimento de mercados, enfim, o que ficou conhecido como “capitalismo”. Qual conclusão tiraríamos respaldados pela teoria econômica? Ora, a não ser que você queira parecer um daqueles que afirmam coisas como “protecionismo” favorece o desenvolvimento econômico porque todo país desenvolvido teve um pouco de protecionismo (confunde correlação com causalidade), a conclusão deve ser: por ser uma lei que jogou contra o desenvolvimento (já que instabilidades e confiscos em direitos de propriedade geram menos acumulação de capital, menos produtividade e retardam o desenvolvimento) ou eu estou errado sobre a lei, ela não foi uma violação de propriedades, ou ela simplesmente foi insignificante em termos de importância (passou bem longe de ser algo como o “pontapé” do capitalismo ou do mercado de trabalho). Uma lei que vai logicamente contra X, jamais pode ser considerada a causa para o florescimento de X. Mas os socialistas não costumam se preocupar muito com a lógica ou não de algo.

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