sábado, 27 de setembro de 2008

Artigo muito bom

Um trecho do artigo “O Saber dos Economistas “Austríacos”” do Prof. Ubiratan Iorio (Doutor em Economia pelo EPGE), na minha opinião, o melhor artigo sobre a atual crise americana. Diferentemente da velha mentalidade anti-mercado reinante no Brasil que clama pelo governo “salvador” por todos os lados, Iorio coloca os pingos nos “is”.

“ A causa principal, a meu ver, do esquecimento a que foi relegada a Escola Austríaca foram suas recomendações para eliminar o que ficou conhecido como a Grande Depressão dos anos 30: os governos deveriam abster-se de intervir na economia, deixando funcionar o sistema de preços livremente e o mercado reavaliar os valores dos recursos! Sim, isto significaria falências de bancos e de muitas empresas, mas falências fazem parte do jogo, a não ser que os contribuintes sejam convocados compulsoriamente a sustá-las, como o governo americano, mais uma vez, pretende fazer neste momento. É o processo, inevitável, de ajustamento, em que os maus investimentos feitos no passado, baseados em expansão monetária travestida de pseudo-poupança, precisam ser eliminados. Mas isto é impopular hoje, como era impopular nos anos 30, o que levou Roosevelt a adotar as recomendações intervencionistas de Keynes, muito mais palatáveis sob o ponto de vista político.

Assim, firmou-se a idéia de que os governos deveriam controlar a demanda “agregada”, com base no “princípio da demanda efetiva” de Keynes e as corretas teses austríacas lançadas na gaveta do esquecimento, algo que nem a concessão, em 1974, do Nobel de Economia a Hayek conseguiu mudar. Desde os anos 30, praticamente todos os economistas são “keynesianos”, mesmo os monetaristas e os novos clássicos, que prezam a economia de mercado e nada têm de socialistas... Uma lástima, de conseqüências desastrosas não apenas para a academia, mas para a humanidade!

A história da crise de hoje não difere, em sua essência, daquela da Grande Depressão e foi plantada pelas políticas do Fed de manter as taxas de juros artificialmente baixas. Ora, juros baixos tornam viáveis projetos de longo prazo, cujos valores presentes são mais beneficiados do que os dos projetos de curto prazo. A construção civil, claramente, está no primeiro grupo. Assim, foi um negócio não natural, estimulado pelo governo americano. Mas, além dessa tentativa de aceleração forçada da prosperidade, as autoridades americanas imbuíram-se da idéia errada de que, se qualquer pessoa desejasse um empréstimo para comprar uma casa, o governo teria a obrigação de concedê-lo, mesmo que indiretamente, idéia que operacionalizou criando a Freddie Mac e a Fannie Mae, empresas com status jurídico cinzento, já que eram geridas privadamente e tinham capital aberto, mas sempre foram protegidas pelo Estado, com o intuito de subsidiar os empréstimos. E o mercado – que, nessas horas, não falha – antecipou corretamente que tais empresas seriam socorridas pelo Estado em caso de dificuldades. Com medidas desse tipo – taxas de juros abaixo da inflação corrente e subsídios camuflados a hipotecas – qualquer economista conhecedor da tradição “austríaca” poderia detectar, há anos, que surgiriam graves problemas futuros.

E o futuro chegou! Em meados de 2006, as empresas de construção civil sentiram os efeitos da alta da taxa de juros ocorrida e também prevista pela teoria, decorrente do cabo-de-guerra ou disputa pelo crédito, como previram, por exemplo, entre inúmeros outros, os seguintes artigos, todos encontrados em http://www.mises.org/ : Who Made the Fannie and Freddie Threat?, de Frank Shostak, de 5 de março de 2004; Freddie Mac: A Mercantilist Enterprise, de Paul Cleveland, de 14 de março de 2005; Fannie Mae: Another New Deal Monstrosity, de Karen De Coster, de 2 de julho de 2007 e How Fannie and Freddie Made Me a Grump Economist, de Christopher Westley, de 21 de julho de 2008.”

O artigo completo está aqui. Quem se interessar, também pode ler o meu artigo sobre o assunto: Governos são bons remédios contra o risco sistêmico?ou ainda uma breve explicação sobre teoria dos ciclos (incluindo a austríaca comentada pelo Prof. Iorio no artigo)

domingo, 21 de setembro de 2008

Novamente sobre mentiras e princípios

[1] O Igor do blog “Tratados Ordinários” escreveu o texto Princípios – Conseqüências e Racionalidade sobre a questão moral/ética levantada pelo Thomas aqui e respondida por mim aqui. Não pretendo responder todos os pontos que discordo, vou me ater em basicamente dois. O Primeiro é o exemplo do Igor sobre a mãe que mente sobre a causa da morte do pai para que a filha depressiva não se mate. O exemplo completo, nas palavras do próprio Igor, é o seguinte:

“um pai extremamente conservador, descobre, sem a ciência de sua filha, de que esta está gravida e sofre um infarto, falecendo; ocorre que a filha possui sérios problemas de depressão e um histórico grande de tentativas de suicídio - saber que seu pai morreu de 'desgosto' por sua culpa seria um potencialíssimo motivo para, enfm, dar cabo de sua vida; sabendo disso, ao ser inquirida pela filha sobre a causa da morte de seu pai, a mãe informa que sofreu um AVC enquanto dormia. Ora, a filha, quando perguntou, não tinha em sua mente nenhuma análise equivocada da realidade, tampouco sua mãe reestabeleceu algum tipo de ordem ou verdade com sua resposta. Em comum com a situação apresentada pelo blogueiro, somente o fato de que uma negou um dado da realidade intencionalmente e a outra agiu de maneira diferente por esta informação.”

[2] Pergunto, como a filha não tem nenhuma analise equivocada da realidade? Primeiro, ela se mata supostamente porque teria causado a morte do pai. Ora, anunciar que está grávida significa matar alguém? Podemos levá-la a um tribunal por cometer um crime, assassinar seu pai? Ou seja, a filha é responsável pela morte do pai? Absolutamente não, se fosse seria uma assassina e, portanto passível de condenação. O seu suicídio tem como base uma explicação completamente equivocada para a morte do pai. Segundo, a filha quer se matar porque ficou grávida e supostamente teria causado a morte do pai (não causou), além disso, ela seria depressiva. Só não vê erro na análise (da realidade) da menina que deseja dar cabo a sua vida alguém que acha que diante dos problemas impostos pela realidade, pelo fato da menina ser o que é, a solução é se matar. Explicando melhor, é uma evasão completa da sua própria natureza como ser humano. O suicídio é a fuga máxima de qualquer realidade, é dar cabo da própria vida, da própria natureza para não ter que se “enquadrar” no que você, de fato, é. A menina não se suporta, não suporta as conseqüências de seus próprios atos, não suporta os seus fracassos frutos de decisões erradas, é a revolta absoluta contra a realidade, contra o que ela é. O suicídio é a fuga absoluta dessa realidade e não a tentativa de analisá-la, de corretamente avaliá-la e resolver os problemas que estão postos.

[3] Tanto esse exemplo da filha, quanto o exemplo do nazista e o outro do próprio Igor, de dizer ao fisco que ganha R$5.000,00 no lugar dos reais R$50.000,00, levam a resultados bons quando se “mente” porque possuem o mesmo problema: a fuga do contexto, da realidade em que estão inseridos. Se as situações e ações envolvidas nos exemplos não são baseadas no que é verdadeiro, numa análise racional da realidade, obviamente negar uma mentira ou um erro (essa analise errada em que os exemplos são baseados), direta ou indiretamente, gerará boas conseqüências porque se está restabelecendo a verdade (negando uma negação da realidade)

[4] O segundo ponto é a relação entre conseqüências e princípios ou uma ética supostamente “apriorista”, racionalista. As coisas não são desconexas como tanto o Thomas quanto o Igor dão a entender. Primeiro, uma ética é derivada do que o homem é, da sua natureza. O que é certo ou errado depende da sua natureza (das suas características como entidade x e não y). De maneira nenhuma ela “foge da realidade”, muito pelo contrário, é a realidade sua única fonte, novamente, o que o homem e o mundo em que vive são. Ora, uma ética que tem como base a realidade não será inapropriada para o homem viver nessa realidade, dado que não só leva em conta a natureza do primeiro, como também do segundo. Já dizia Francis Bacon “A natureza para ser comandada, precisa ser obedecida”.

[5] Deixe-me então ser mais especifico e passar ao ponto de critica que o Igor levanta. No fundo a ética que gera toda essa polemica entre os liberais é o “absolutismo do direito de propriedade” – direitos de propriedade são inalienáveis e jamais sua violação é correta, certa, justa. Quem lê este blog acompanhou em um passado recente a polemica com vários outros blogs sobre se “A podia invadir a proprietário de D – D que não tinha nada a ver com a situação, para evitar que B matasse C”. Na época, os defensores de uma suposta “ética de momento” disseram que sim, A podia invadir, pois embora o direito de propriedade fosse “ótimo” para a sociedade, em algumas situações especificas, ele não seria adequado (como, por exemplo, na situação acima). O Igor reproduz o mesmo argumento no seu texto como um exemplo do por que adotar um princípio, regras a priori não geraria “boas soluções”.

[6] No fundo, o pessoal que argumenta isso não percebe que a escolha nunca é entre “um principio geral” e “princípios não gerais”. Todo principio é geral, senão não seria um princípio. E “não ter princípios”, na verdade é tão somente acolher o princípio do “tudo vale”. Como o próprio Igor diz, princípios não conseguem guiar inteiramente as ações de um ser humano, eles são abstratos, gerais. Não são moldados para uma situação específica, particular. São moldados para uma gama infinita de ações, para a vida em geral e por isso mesmo não tomam partido das especificidades de cada ação. Do ponto de vista de uma ética guiada por tais “princípios abstratos” não há violação alguma se você complementar esse principio com outro mais especifico que o ajude a tomar decisões. Por exemplo, peguemos a “ética libertarian” em discussão. O principio geral é o direito de propriedade. Ela diz que é errado, injusto invadir, agredir, enfim, iniciar o uso da força contra a propriedade de outro. Mas nada é dito para uma infinidade de coisas. O que fazer com suas propriedades dentro do vasto conjunto de escolha disponível? A ética libertarian se cala sobre isso, mas seja lá o principio mais específico (restrito ao princípio geral de não agressão) que você escolha, ele será “válido”. Só será inválido aquele que violar o princípio geral, logo, apesar de não determinar especificamente o que fazer, fica delimitado o que não se pode fazer (até por isso, muitas vezes a “liberdade liberal” é chamada de negativa).

[7] Tal característica seria um “defeito”, algo indesejado da ética libertarian? A resposta é não. Veja, por exemplo, os dois trechos abaixo:

“Não cumpre também assumir como válida a argumentação de que, se podemos revogar tal mandamento ético em favor de uma proposição moral, logo, poderemos revogar todos os mandamentos éticos em favor de mandamentos morais. É necessário observar que à mente humana não é possível trabalhar exclusivamente com proposições objetivas: as variáveis que compõem as "fórmulas" que guiam suas ações são indispensáveis.”

“ É de bom tom assumir que minha posição se assemelha ao do Thomas, embora eu acredite que uma ética exclusivamente conseqüencialista é extremamente perigosa, fixando um marco muito impreciso entre o que é absoluto e o que é relativo. Vejo, além disso, um subjetivismo tremendo em que seja uma conseqüência benéfica e uma conseqüência maléfica numa ação, trazendo variações históricas e conjunturais à ética.”

[8] O primeiro trecho se refere à questão do direito de propriedade envolvendo a vida de alguém (por exemplo, o invadir o jardim de um terceiro para salvar B de C). Todo liberal que não aceita como verdadeira a ética dos direitos de propriedade, procura fazer a ressalva desse trecho – que não é porque vale para a vida, valeria para qualquer outra coisa, ou seja, não há um princípio ou há o principio da vida acima de tudo. Não vou comentar sobre a segunda interpretação porque é uma interpretação completamente equivocada a de que colocar a vida como “valor maior” ou “fim último” implica em violar direitos de propriedade ou que o exemplo da invasão é um retrato de tal posição quanto à vida. Já escrevi muito sobre isso no blog.

[9] Tratando então da primeira interpretação (não há principio), na verdade há um claro principio e não é “a vida é um valor último”, mas sim “a ação que eu considero boa é a ação que deve ser perseguida”. É só por isso que os defensores dessa ética de momento dizem que não há “princípios absolutos”, porque na verdade eles se dão a “liberdade” de decidir o que é melhor, obviamente segundo eles, em cada situação (por isso obviamente eles resolvem todas as chamadas “soluções estranhas”). Mas tudo isso, na verdade, constitui o principio geral e absoluto acima “o que eu acho bom deve ser feito”. Tal princípio é quase explicitado quando se diz: “as variáveis que compõem as “fórmulas” que guiam suas ações [do homem] são indispensáveis”. Obviamente uma ética que julgue ser verdadeira, correta não pode ser baseada em “variáveis subjetivas” porque senão não se poderia afirmar que ela é verdadeira (ficaríamos naquela velha história: é verdade para você, mas não para mim). É preciso um critério objetivo e esse critério é a razão e a sua aplicação, a lógica.

[10] Os defensores de uma ética de momento então teriam que provar objetivamente coisas como: porque a sua escala de valores e não a de qualquer outro deve ser seguida? Qual a escala de valores objetivos que ranqueia os diferentes fins e ações? Como você chegou a essa escala? Porque ela é a correta? O próprio Igor reconhece a dificuldade de tudo isso ao dizer que vê um subjetivismo tremendo na determinação do que seja uma conseqüência benéfica ou maléfica. Determinar especificamente e objetivamente o que deve ser feito necessitaria, pelo menos, de uma resposta para essas questões. No entanto, a falha fundamental das éticas consequencialistas no sentido usado pelo Igor e o Thomas está basicamente em não se basear no que o homem é, ou seja, na sua natureza, na realidade. No fim do seu texto, há um pequeno trecho que releva esse erro básico. O Igor escreve:

“Reduzir o comportamento humano a leis fundamentais e mandamentos objetivos é contrário à própria tendência humana de resolver problemas, criar soluções, inovar; antagonicamente, atender a um arcabouço ético sem princípios, sem direção, em compasso com o momento não promove violência menor, destituindo do homem sua capacidade lógica. “

[11] Ora, mas a “tendência humana” de resolver problemas criar soluções, inovar só ocorre justamente porque se tem o respeito a certos princípios básicos, a saber, os direitos naturais – cada homem como dono de si mesmo e das coisas que produziu e se “apropriou”. Porque algumas sociedades humanas falharam miseravelmente? Porque antes das “revoluções liberais” (principalmente no pensamento), o mundo vivia um ciclo malthusiano populacional? Porque o Igor e o Thomas podem defender o que eles defenderam? Porque existe um principio objetivo, geral que respeita o tipo de entidade que eles são. Como o homem chega a descobrir esse princípio essa ética? Como descobre se é correto ou errado? Justamente através da sua capacidade lógica, da sua capacidade de raciocinar. Não há nada mais humano do que o principio absoluto, geral do reconhecimento da sua existência como uma determinada entidade, com uma determinada natureza que deve ser respeitada para que você sobreviva como ser humano e faça tudo isso que está no trecho citado do Igor (inove, produza, construa, crie soluções etc..). Só através do uso da força, da violação dessa natureza, ou seja, justamente através da violação desse principio absoluto é possível impedir que o homem faça essas coisas (ou como o Igor coloca: destituí-lo de sua capacidade lógica).

[12] Para encerrar, vamos voltar à questão das escalas de valores e preferências. Todo liberal consequencialista acharia horrível se os direitos de propriedade passassem a ser violados constantemente. Eles defendem que para “algum caso especifico” pode ser violado, mas só conseguem, no máximo, dizer isso, pois não possuem qualquer explicação racional para tal comportamento. Se alguém perguntar: ora, porque não posso violar mais? Eles ficaram repetindo no máximo: porque aquilo era uma vida e isso não é, porque isso traz conseqüências boas e aquilo não, mas se calarão diante de perguntas como: pq a vida daquele sujeito que eu nunca vi na frente se sobrepõe ao meu direito de propriedade sobre a grama ou qualquer outro bem que valoro? Só porque você quer? E se para mim “boas conseqüências” não é o mesmo que para você? E se eu sou um ultra-libertarian que não admite qualquer agressão adicional? No fim, o que delimita ou não a invasão é a escala de preferências do ser humano que se colocou na posição de um deus e decide sobre isso.

[13] Mas seres humanos não são anjos celestiais que ganham um poder infindável de controlar os demais e depois entregam esse poder seguindo exatamente a regra que o nosso teórico consequencialista gostaria. Esses teóricos são exatamente iguais aquelas pessoas que você encontra na rua e quando são perguntadas sobre os bandidos, a violência, respondem: tem é que cair de pau, matar mesmo, atirar antes de perguntar. Elas não param para pensar que ninguém vem com um selo escrito “bandido” na testa e nem o policial com um outro escrito “robocop” ou “senhor justiça”, elas nunca param para pensar que o poder que é dado ao governo caso fosse feito o que elas querem, as transformariam em reféns de coisas muito piores. Outro exemplo clássico é o famoso: você captura um terrorista que instalou uma bomba nuclear que matará toda a humanidade. Tortura não é “legal”, mas e nesse caso? Ora, na realidade nós nunca sabemos que o capturado é de fato o terrorista que instalou a bomba (esse é um dos motivos, senão o principal, para considerar a tortura completamente ilegítima). De situações completamente irreais, onde homens ganham capacidades como onisciência, os teóricos consequencialistas tiram os seus “paradoxos éticos”. Então, temos que escolher, como se fossemos onipotentes, entre violar alguma coisa para obter algo bom, mas só nesse caso especifico e pronto, nada mais. É bom lembrar nessas horas do velho Milton Friedman que dizia que nada era mais permanente do que programas e políticas estatais. Uma vez criadas, não é simplesmente chegar e dizer: “acabou, vamos para casa”. Os socialistas que o digam: a tal “ditadura do proletariado”, o governo “forte” como transição para o paraíso comunista se transformou em algo permanente e cada vez pior. Quebrar um princípio argumentando ser apenas “momentâneo”, por um bem “maior” naquela situação (coisa que nem conseguimos definir direito), só consegue gerar uma coisa: a construção de outro principio – o de que tudo vale. E as conseqüências desse princípio são objetivamente trágicas.

domingo, 14 de setembro de 2008

Governos são bons remédios contra o risco sistêmico?

[1] Na semana que passou a noticia de que o governo americano estatizou as duas maiores empresas de hipotecas (Freddie Mac e Fannie Mae), que, diga-se de passagem, já foram estatais, ouriçou intervencionistas e anti-liberais do mundo inteiro. Choveram artigos sobre a “morte do neoliberalismo”, a necessidade de intervenção do estado na economia, que mercados não se “auto-regulam” e por aí vai. Mesmo muitos economistas liberais se não se entusiasmaram com a noticia, também não a condenaram. A maior parte dessa não condenação tem como base o famoso argumento do “risco sistêmico”, i.e, um risco gerado por "efeito dómino", que atinge todo um setor.

[2] O tal risco sistêmico vem sendo, durante todo o século XX, um dos pilares teóricos para a intervenção do governo no mercado bancário. Basicamente o argumento mais convencional é relacionado ao chamado “sistema de reserva fracionada”. Se um banco “quebra”, ou não consegue suprir uma determinada demanda por saques, as pessoas podem achar que outros bancos também não terão a capacidade de suprir suas demandas e que elas não conseguirão sacar seu dinheiro. Essa expectativa leva a uma correria aos bancos, que, dado o sistema de reserva fracionada, obviamente não terão mesmo o dinheiro para todos sacarem. A quebra de um banco gera desconfiança e acaba expondo todo o setor. Um argumento parecido pode ser usado para débitos. Se um grande cliente dá um default, os demais participantes do mercado sabem que a agência que sofreu o default pode, ela mesmo, dar um default em seguida e assim sucessivamente. No fim ninguém recebe pelos empréstimos e o sistema de crédito acaba ruindo.

[3] Observe que, no caso das corridas bancárias, o que gera o problema é o fato do sistema ser baseado em reservas que não cobrem toda a quantidade de “dinheiro” emitida. O problema inexistiria em um sistema com 100% de reserva. Em um sistema como esse, as pessoas correriam receber nos bancos e eles teriam as reservas suficientes (100%). O mesmo não ocorre no nosso sistema, é da sua natureza, é intrínseco a ele esse tipo de risco, por isso o nome “risco sistêmico”. É bom entender o seguinte: o banco não ter moeda suficiente para pagar seus clientes não significa que o banco quebrou – não significa que seus ativos são insuficientes para honrar seus compromissos. Significa apenas que ele não tem um ativo especifico, chamado moeda, que é o ativo devido e desejado pelo sacador. Em tese, ele poderia pagar uma parte dos demandantes com as reservas que tem e logo em seguida comprar desses demandantes o dinheiro que pagou (por exemplo, vendendo outros ativos no mercado, como títulos públicos) e pagar, com essa captação, aqueles que faltam receber. O Banco repetiria esse procedimento até cobrir todos os demandantes, ou seja, a mesma quantidade de dinheiro serviria para pagar montantes maiores do que essa quantidade de dinheiro (que é a situação em um sistema de reserva fracionada)

[4] O problema é que nem sempre é possível transformar ativos menos líquidos em moedas, e muito menos quando não se está preparado para isso. Além disso, a troca de moeda por títulos no mercado leva a um enxugamento na quantidade de moeda, o que por sua vez gerará deflação e conseqüentemente os ativos do banco podem não ser suficientes para comprar e recomprar a quantidade de moeda necessária. Aquilo que, inicialmente não era um problema, os ativos eram suficientes para arcar com os compromissos do banco, passa a ser dado que um desses compromissos está aumentando de preço (no caso, moeda). Temos então, de um lado, um risco inerente ao sistema de reserva fracionada e do outro lado a sua vantagem: ora, se alguém larga pedaços de papel (ou antigamente barras de ouro) num cofre de banco e não volta para resgatar tão cedo, para que deixar essas coisas enterradas, sem uso algum? Embora não faça muito sentido no caso do papel moeda, no caso do ouro, por exemplo, uma quantidade menor de ouro (necessária no sistema de reserva fracionada) pode prestar os mesmos serviços monetários que uma quantidade muito maior (reservas 100%). Com o ouro excedente pode-se produzir vários outros bens. Tal possibilidade seria o que os economistas chamam de “melhoria de Pareto” – alguém melhora sem piorar ninguém (você continua tendo o mesmo serviço monetário e ainda tem mais de outros bens que usam ouro).

[5] Para o nosso dinheiro (papel-moeda), o argumento não é tão óbvio, mas segue a mesma lógica: primeiro, ele libera todo ouro e substitui por algo bem mais barato, papel. Embora, olhando só por esse lado pareça óbvia a superioridade do papel-moeda sobre o ouro, a coisa não é tão simples assim. Justamente por ser mais barato, é mais fácil produzir dinheiro de papel do que lastreado em ouro, o que pode (e de fato aconteceu) gerar inflações altíssimas. O segundo ponto é parecido com o argumento anterior sobre a reserva fracionada em ouro: se alguém está demandando aquele pedacinho de papel inutilizado, aceita pagar por ele, quem piora se o banco emprestá-lo? O depositante, “dono” original do papelzinho, continua tendo o mesmo serviço monetário (será?). Por outro lado, outro demandante de dinheiro recebe o bem que desejava. É muito dito que essa operação gera inflação (no sentido convencional) porque aumenta a quantidade de moeda na economia – o que “alteraria” o serviço monetário. Tudo isso é verdade, mas só se a demanda por moeda continuar estável. E mesmo assim, as deflações e inflações por parte dos bancos serão geradas apenas como ajuste das reservas ao chamado “ótimo”, ou seja, aquela reserva que maximiza o lucro do banco. Dado que a reserva ótima é função principalmente de taxas de juros e quantidade de papel-moeda, ambos “controlados” atualmente pelo governo e sua política monetária, grandes movimentos de inflação ou deflação serão resultados exclusivos da política monetária do governo.

[6] Alguém pode perguntar, mas porque a reserva ótima não é zero? Exatamente pelos motivos explicados anteriormente. As pessoas depositam seu dinheiro nos bancos esperando poder sacá-lo a hora que bem entender, sem qualquer problema ou demora. Como todos não sacam ao mesmo tempo, basta o banco ajustar a quantidade de dinheiro que manterá no cofre para suprir esse fluxo de saques. Se a reserva estiver abaixo desse necessário, as pessoas terão dificuldades em sacar e provavelmente não depositarão mais em tal banco ou exigiram juros cada vez maiores para fazê-lo, o que significará perda de confiança e de lucros ao longo do tempo, no limite até a quebra do banco, dado a perda de confiança. Se a reserva estiver acima, o banco poderia emprestar o adicional e aumentar seus lucros. Isso significa que existiria uma reserva voluntária ótima por parte dos bancos, tal reserva seria suficiente para evitar que determinados eventos desencadeassem uma quebradeira geral. Mesmo que alguns bancos falhem, o próprio mercado no inicio se prepararia com um colchão de reservas maiores ou até mesmo um estoque de títulos líquidos para fazer as recompras de moedas necessárias. Após um tempo, os bancos que falhassem seriam classificados pelo próprio mercado como “de baixa confiança”, enquanto os que mantiveram sempre suas demandas em dia receberiam uma classificação de confiança. O problema do risco sistêmico seria bastante reduzido e só se tornaria relevante diante de alguma catástrofe. E mesmo no caso das catástrofes, se elas fossem suficientemente altas e custosas, nada impediria do mercado adotar níveis de reservas bastante altos (no limite, o 100%).

[7] Mas como o governo vem estragando tudo isso ao longo do tempo? Com a invenção de um suposto “emprestador de última instância” chamado banco central. Imagine que um banco privado deixe suas reservas baixarem a níveis extremamente baixos. A punição a esse banco será dada pelo mercado: quando clientes dos depositantes retornarem ao banco para sacar os cheques que seus depositantes passaram ou os próprios depositantes voltarem para sacar seus fundos, o banco não terá moeda suficiente e será obrigado a fechar as portas. Isso gerará desconfiança e a desconfiança será cada vez maior conforme o evento se repita. No limite, o banco quebrará (antes perderá clientes, terá que pagar juros maiores etc..). Mas o governo, alegando risco sistêmico, pode emprestar as reservas necessárias ao banco através do BC. Aí está a causa da maior parte dos males do nosso atual sistema monetário.

[8] Imagine, por um instante que o BC cumpra realmente o seu papel original defendido por muitos pós-keynesianos e keynesianos em geral: ele sempre será o emprestador de ultima instância, sempre dará “liquidez” ao mercado. Ora, se um banco aumentar muito a quantidade de moeda da economia, levar as suas reservas a nível baixíssimos, o BC irá e cobrirá a falta de reservas. O limitador imposto pelo mercado desaparece. O banco pode emprestar e aumentar a quantidade de moeda à vontade. O resultado será inflação e uma alocação de crédito absurdamente ineficiente, com pouquíssimas considerações sobre risco, por exemplo. Ora, se os bancos não tomam cuidado ao emprestar porque o governo cobre a falta de reservas, obviamente as pessoas também não se preocuparão em escolher entre bancos saudáveis e não saudáveis. Em qualquer lugar o governo garante o pagamento. Qual o resultado óbvio? O que nós vimos na crise do subprime americano e no começo da década passada aqui no Brasil.

[9] Bancos emprestarão para quem não deveria receber os empréstimos, financiarão quem não receberia financiamento se o próprio banco arcasse com todos os custos da operação. A intervenção do governo como “emprestador de última instância”, transforma os bancos em instituições frágeis, com créditos frágeis, passivos acima do ótimo, reservas abaixo do ótimo e traz a tona o risco sistêmico – o de um banco frágil quebrar e contaminar todos os demais bancos que são igualmente ou um pouco menos frágeis. Um “BC pós-keynesiano” – fornecedor de “liquidez” ao mercado, emprestador de ultima instância, geraria no mercado bancário e financeiro exatamente aquilo que eles acusam de ser gerado em um livre mercado: uma quantidade de moeda fora do controle, inflação, instabilidade financeira e risco sistêmico elevado.

[10] Se o governo se propõe a regular o sistema monetário a melhor política é aquela que visa única e exclusivamente a taxa de inflação. Seja lá o que aconteça com bancos ou qualquer instituição, seja lá o que aconteça com variáveis reais como produto ou emprego, a única preocupação do governo será a inflação (quantidade de moeda na economia). Parece ser uma política dura e insensível, mas não é. A posição firme do BC serve para ganhar confiança e assim fazer bancos e instituições financeiras agirem como senão existisse a possibilidade do governo vir a ajudá-los em caso de políticas excessivamente arriscadas e expansionistas. Existem alguns exemplos mais clássicos do problema que estou colocando, chamado em economia de “risco moral”. Dois famosos são o dos seguros e o de negociações com terroristas. Se você tem um carro e não tem seguro, você toma total cuidado com o carro. Mas imagine que você faça um seguro 100%. Provavelmente você não tomaria tanto cuidado com seu carro, justamente porque você está arcando com “nada” ou quase nada dos custos da sua ação. É por isso que as seguradoras ou não seguram 100% (seguram 40%, 50%) ou seguram exigindo uma infinidade de coisas e a preços exorbitantes.

[11] O exemplo dos terroristas é mais adequado ao nosso tema: porque governos do mundo inteiro dizem enfaticamente que não negociam com terroristas? Ora, porque se eles aceitassem negociar choveriam terroristas, por exemplo, seqüestrando aviões e exigindo negociar com o governo em questão um monte de coisas. O BC e o governo deveriam fazer o mesmo no mercado financeiro: não vamos ajudar ninguém, se fizerem besteira, arcarão com os custos. Bem, mas voltando aos terroristas, imagine que um deles mesmo com a posição forte do governo resolva arriscar e seqüestre um avião. Bem, o governo era “duro” porque não queria que isso ocorresse. Mas dada a falha da política, deve o governo negociar? Só se ele quiser uma enxurrada de seqüestros de aviões. Ora, se ele aceita negociar a mensagem que passará será: “eu só lato, mas não mordo”. Essa história de que eu não negocio com terroristas? Tudo bobagem, como pré-requisito é só você seqüestrar um avião, ou ameaçar colocar bombas em algum lugar etc..

[12] Voltando ao sistema financeiro, se uma Freddie Mac ou Fannie Maeda da vida não acredita na promessa do BC de que não vai ajudar (promessa que nem ocorreu, mas enfim..) e mesmo assim fazem uma bobagem gigantesca, deve o governo ajudar dado que a bobagem já foi feita? A resposta é a mesma: só se ele quiser ver uma enxurrada de bobagens. E parece que ele quer. A história do século XX, principalmente nos EUA é um “vai e vem” de regulações e liberalizações que ilustram bem a questão do risco moral: o governo libera a economia no famoso “mais ou menos”. As empresas não acreditam que se fizerem grandes bobagens não serão salvas pelo governo e elas não acreditam porque sempre quando fazem (ou na maioria das vezes), são salvas totalmente ou em partes. Então, aproveitando-se da liberação elas fazem. Aí o governo salva, gasta uma fortuna e regula tudo de novo com os mesmos avisos “ta vendo, o mercado livre é instável”. Os anos se passam, a regulação vai cobrando seu custo que se torna insuportável e novamente é feita uma “liberalização meia boca”... Passa o tempo e de novo, o governo salva empresas que sabem que serão salvas, regula de novo o mercado e... Isso não é masoquismo (apesar de parecer). Os incentivos acabam gerando essa situação, pelo menos até o custo da brincadeira para os rent-seekers não se tornar alto demais. A política ideal seria exatamente deixar quebrar, para quebrar o vício, mostrar que acabou: o governo não ajudará empresas, bancos e outras instituições financeiras. Se elas querem se arriscar, arcarão com os custos da aventura e se não querem quebrar, terão que se ajustar ao mercado.

[13] A intervenção americana só representa mais crises futuras, crises cada vez maiores. É uma intervenção que não diminui risco sistêmico algum e tragicamente cumpre o destino de toda intervenção: traz resultados contrários ao que pretendia. Só torna o tal risco cada vez maior, devido à fragilidade que as instituições financeiras vão “ganhando” com políticas subótimas, políticas que, no fundo, são subsidiadas pelo governo, são avalizadas por ele. Além disso cria outro risco, o risco moral. O dono do carro passa a deixá-lo em pleno Jardim Ângela a noite, com a porta e o vidro abertos. O ministro da defesa afirma que negocia com qualquer terrorista que seqüestrar um avião ou explodir alguma coisa e as empresas de hipoteca financiam US$400.000,00 para alguém que não ganha nem US$4.000,00 por mês e já está endividado em uns US$100.000,00.

sábado, 6 de setembro de 2008

Mercado de trabalho e "cercamentos"

[1] Porque, "hoje", o trabalho é como uma mercadoria (como os marxistas adoram dizer) e antes não (ou pelo menos não como é hoje)? Existem trocentas explicações, geralmente anti-capitalistas, sobre como e porque temos, atualmente, um amplo mercado de trabalho. A mais comum é a de que pobres camponeses foram expulsos de suas terras por alguns “nobres malvados” mancomunados com a “nova burguesia” que precisava de vasta mão de obra barata nas cidades – assim enxotaram os pobrezinhos do campo onde viviam maravilhosamente bem, nas suas pequenas e rentáveis propriedades, para as cidades sujas e poluídas pelas chaminés da nova indústria, sem um tostão no bolso e obrigados a vender sua “força de trabalho” para sobreviverem. Em qualquer livro de história de ensino médio, com alguma variação, sempre há essa explicação no capitulo sobre “revolução industrial” ou “surgimento do capitalismo”.

[2]A explicação não faz absolutamente nenhum sentido econômico, mas ninguém é muito interessado em teoria econômica ou algo mais racional. O que importa é criticar o capitalismo, mostrar o quão cruel e injusta foi sua “origem” e derivar baboseira para serem aplicadas atualmente, como leis trabalhistas para compensar o trabalhador pela exploração e programas estatais de distribuição de renda, afinal, o rico é rico porque foi “beneficiado” por um sistema injusto na sua origem e etc..etc..etc..
[3] O primeiro ponto é, porque alguém, dono de uma pequena propriedade rural sai do seu “pedacinho de terra” e vai para a cidade para ser “empregado” da indústria? A razão econômica é obvia: porque o segundo paga mais. O que não é óbvio é porque o segundo passou a pagar mais em certa época. Trabalho é um fator de produção, algo que gera bens no futuro. O dono da pequena propriedade teria basicamente duas opções: usar seu trabalho na sua propriedade ou ofertar trabalho para um terceiro. Se o uso de seu trabalho gera o mesmo produto no futuro em ambas as alocações, é de se esperar que ele fique na sua pequena propriedade mesmo. Mas o que aconteceria se alguns indivíduos começassem a acumular capital?

[4] Capital aumenta a produtividade do trabalho. Ele serve para novos investimentos em máquinas, ferramentas, enfim, a construção de vários bens intermediários que possibilitam a produção de uma quantidade muito maior de bens de consumo. Um mesmo trabalhador receberá salários completamente distintos se viver em uma comunidade com muito capital per capita investido ou em outra com pouco capital. É fácil ver por que: imagine um pescador que tenha um barco com sonar e outro com no máximo uma varinha e um anzol. Quem produzirá mais em 1 hora de trabalho? Mesmo aqueles que não são afetados diretamente pelo novo capital recebem maiores salários. No primeiro caso, dos pescadores com barcos com sonar, o salário de pescador subirá, logo outros trabalhadores quererão ser pescadores e não sobrará muita gente para ser barbeiro, por exemplo. Assim o salário do barbeiro também terá que subir para garantir um número adequado deste profissional.

[5] Voltando ao pequeno proprietário, imagine que há um crescente acumulo de capital, o que faz a produtividade do trabalho subir inicialmente em alguns setores (os setores que iniciam essa expansão). O pequeno proprietário poderia alocar o seu trabalho em um desses setores com novos capitais, que geram uma produtividade marginal do trabalho maior e assim receber um salário bem maior do que continuar usando sua própria terra sem capital. Eis aí o motivo porque houve um verdadeiro mar de migrantes para as cidades nas tais “revoluções industriais”. O acumulo de capital fez explodir a produtividade do trabalho na nova indústria, principalmente a indústria que visava atender as massas com coisas básicas como roupas, sapatos, além das indústrias que produziam bens de capital para essas indústrias – como ferrovias que transportavam vastas quantidades de matérias primas.

[6] Só quando há um crescente acumulo de capitais, o mercado de trabalho começa a se desenvolver. Antes, não faz muita diferença trabalhar em uma pequena propriedade sua ou para os outros – não há diferenças de produtividade significativas. Não há locais tão mais produtivos para alocar seu trabalho. O mesmo ocorreria se o mercado de crédito fosse “perfeito” no sentido que os economistas usam. O pequeno proprietário no lugar de ir trabalhar em uma indústria para aumentar sua produtividade, poderia emprestar capital de quem tem e criar sua própria indústria – conseguir para si uma situação onde seu trabalho ficasse tão produtivo quanto em outro local. Obviamente estamos desconsiderando questões como “ganhos de escala”, ganhos de localização e outros fatores. O importante é que, tanto numa situação quanto na outra, não há diferenças significativas de produtividade que justifiquem a criação de um amplo mercado de trabalho no sentido “tradicional” – obviamente na segunda situação, com muito capital e mercado de crédito “perfeito”, teríamos mini-proprietários com maior produtividade.

[7] Hoje temos uma explosão de “profissionais liberais” que no fundo são “mini-proprietários”, e, por outro lado, uma diminuição daquele emprego clássico de “chão de fábrica”. Uma das causas para essa nova configuração, dentre outras coisas, é o avanço das técnicas do mercado de crédito para separar bons e maus pagadores gerando uma maior eficiência e abrangência dos empréstimos, o que torna as “produtividades marginais” iguais no quesito ser empregado ou dono. Mas, reforçando, o mercado de crédito é uma das causas, em alguns casos devido a problemas “tecnológicos”, economicamente é melhor um monte de gente reunida em uma única sala ou local, do que vários autônomos, mini-proprietários, às vezes totalmente distantes se comunicando por telefone, internet etc.. De qualquer forma, essa diferenciação também foi fruto da acumulação de capital que permitiu a produção de uma vasta diversidade de bens jamais sonhada.

[8] Por fim, reparem no seguinte: o mercado de trabalho se desenvolveu devido ao acumulo de capital que permitiu uma diferenciação de produtividade entre trabalhar como “proprietário” e trabalhar como “empregado”. Mas e o acumulo de capital? De onde veio? Basicamente do oposto do que afirma a explicação citada no começo do texto. A acumulação de capital veio do crescente respeito aos direitos de propriedade, principalmente na Inglaterra. Acumular capital tem como pré-condição a poupança. Ninguém poupa sem antes ter uma expectativa consistente de que não será extorquido, não será roubado e de que coisas como “política monetária” não farão sua poupança sumir. Direitos de propriedade respeitados e estáveis, essa é a causa fundamental da poupança e do desenvolvimento. Jamais, em um local sem o menor respeito aos direitos de propriedade, poderia ter surgido o que surgiu na Inglaterra – um acumulo de capital fantástico que financiou o desenvolvimento de toda Europa e dos EUA.

[9] Mas e as leis de cercamentos da Inglaterra, por exemplo? Em toda época sempre existiram leis que ou foram contra o capitalismo ou aparentaram ser contrárias. A lei do cercamento é uma das que aparentaram ser contrárias. Ao contrário do que é dito por socialistas, ela não expulsou camponeses do campo, ela simplesmente reconheceu direitos de propriedade permitindo ao dono “cercar” propriedades (já li não lembro aonde, talvez seja em uma coletânea do Hayek sobre o tema “revolução industrial”, que em torno de 15 a 20% das terras foram afetadas por essas medidas). Esse é o porquê os socialistas odeiam tanto tal lei. Ela é um reconhecimento formal e legal de certos direitos de propriedade, é o afastamento do poder dos invasores e do governo sobre aquela propriedade. Com essa definição legal, ela também resolveu outro problema: a famosa “tragédia dos comuns” que gerava uma “superexploração” de um dado recurso, diminuindo a produtividade e gerando uma situação ineficiente, contrária a um maior crescimento e bem estar.

[10] Mas imaginemos que não foi nada disso. Que a lei foi uma brutal violação de direitos de propriedade. O fato é que tivemos um boom econômico na Inglaterra, o florescimento de mercados, enfim, o que ficou conhecido como “capitalismo”. Qual conclusão tiraríamos respaldados pela teoria econômica? Ora, a não ser que você queira parecer um daqueles que afirmam coisas como “protecionismo” favorece o desenvolvimento econômico porque todo país desenvolvido teve um pouco de protecionismo (confunde correlação com causalidade), a conclusão deve ser: por ser uma lei que jogou contra o desenvolvimento (já que instabilidades e confiscos em direitos de propriedade geram menos acumulação de capital, menos produtividade e retardam o desenvolvimento) ou eu estou errado sobre a lei, ela não foi uma violação de propriedades, ou ela simplesmente foi insignificante em termos de importância (passou bem longe de ser algo como o “pontapé” do capitalismo ou do mercado de trabalho). Uma lei que vai logicamente contra X, jamais pode ser considerada a causa para o florescimento de X. Mas os socialistas não costumam se preocupar muito com a lógica ou não de algo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Sarah Palin e os "ecochatos"

Estou bem ocupado nos últimos tempos e consequentemente tenho postado pouco e quando posto são textos mais curtos. Hoje gostaria de comentar rapidamente sobre as eleições americanas, mais especificamente sobre a escolha do vice da "chapa" republicana.

Gostei da indicação de Sarah Palin para vice de McCain (o candidato que teria meu voto se eu morasse nos EUA). Gostei principalmente porque ela defende a exploração de petróleo em áreas do Alasca sob proteção ambiental. Atualmente a exploração é proibida, uma restrição injustificada que só eleva o preço do petróleo e serve para fortalecer ditaduras árabes no Oriente Médio, além de coisas como Chávez aqui na América Latina. Para completar, tal restrição dá munição para os argumentos dos “ecochatos” que defendem rios de subsídios para as tais “ fontes de energias alternativas” e controle cada vez maior do governo sobre a economia. O fim dessa restrição representaria um pouco de mercado para um setor que cada vez mais, por influência dos democratas e simpatizantes, está sob as mãos fortes do governo.

Mas, além da posição sobre o petróleo, recebi um belo “extra” da vice do McCain; o seu discurso agressivo, atacando Obama serviu para deixar horrorizada a “esquerda cor de rosa” brasileira que sonha em ser “democrata”, acha os democratas a “América Civilizada”, a última bolacha do pacote. Que os republicanos dêem mais uma surra nos democratas e deixe os nossos “politizados” indignados, sem entender lhufas, sem entender como um povo pode votar em um partido que majoritariamente apóia livre mercado, pelo menos bem mais livre do que muitos ditos liberais aqui no Brasil dizem defender, um partido que não tem medo de se auto-declarar “pró-market”, não cai no lenga-lenga politicamente correto, rejeita o socialismo e derivados com uma veemência inédita no cenário político brasileiro e ainda são favoráveis ao porte de armas. Obviamente os republicanos não são tão liberais quanto eu gostaria que eles fossem, mas em toda América (incluindo aqui América Latina), representam algo muito melhor do que todas as demais forças políticas relevantes.