sábado, 30 de agosto de 2008

Princípios, mentiras e contexto

OBS: Se você ainda não assistiu Batman: The Dark Knight e não deseja saber nada sobre o final do filme, não leia o texto.

[1] Vejam este texto. É uma das criticas mais comuns às éticas “principiológicas” e não consequencialistas. A idéia de que princípios não devem ser absolutos, eles devem ser maleáveis, de acordo com o momento. No texto, o exemplo dado é o do “mentir é errado”. Quem assistiu o último filme do Batman, no final do filme vê uma aplicação dessa ética “de momento”, quando Gordon e o próprio Batman concordam em fazer do último o mais novo vilão de Gothan para santificar Harvey Dent, o “justiceiro branco” da cidade.

[2] Eu não concordo com a visão de que “princípios não são absolutos”. Se um princípio é verdadeiro para o homem, está de acordo com a sua natureza, a sua maneira de sobrevivência, então sempre onde tivermos homens envolvidos, ele também será verdadeiro. Estou entendendo um principio ser absoluto dessa forma: ele é verdadeiro em todas as situações envolvendo seres humanos. Mas como assim, todas as situações? Não somos oniscientes para sabermos de todas as situações. Todas as situações aqui simplesmente quer dizer: dentro do maior estoque de conhecimento disponível para o homem, seja sobre sua própria natureza, o seu modo de sobrevivência e sobre o mundo em geral.

[3] Antes de entrar em exemplos particulares, outro ponto importante é o seguinte: éticas sempre são “principiológicas”. Uma ética que diz “o que é certo é aquilo que traz boas conseqüências” está tomando isso como um princípio, como um “norte”. Mesmo aquele que diz “não existe princípios certos e errados”, está simplesmente dizendo: pode fazer qualquer coisa, nada é errado e certo, qualquer merda que for feita é idêntica a qualquer “virtude” ou ato justo. Mas isso é igualmente um principio, um norte, uma base para ações. Não existe ação humana que seja que não possa ser “racionalizada” ou enquadrada dentro de um princípio. Por fim, éticas baseadas em princípios certos trarão boas conseqüências. O que significa “certo” nesse contexto? Significa aquilo que condiz com o que o homem é, com a sua natureza e conseqüentemente lhe dá a possibilidade de viver, viver como homem e buscar a sua felicidade (que é tudo que “boas conseqüências” pode significar). Uma ética que diz que homens são escravos, não gerará boas conseqüências, acabará condenando todos à miséria, a um “baixo nível” de bem estar e felicidade (até porque a escravidão só terá realmente efeito quando alguém desejar “sair”, buscar seus fins de outra forma).

[4] Como tudo que foi dito acima se aplica em exemplos práticas? Vamos pegar o exemplo do Thomas “mentir é errado”. Porque é dito que mentir é errado para os filhos? A verdade é sempre boa, ou como alguém diz no filme do Batman “ás vezes, a verdade não é boa o bastante”? Verdade é um atributo de uma colocação, de um pensamento, de uma proposição sobre algo. Se essa proposição ou pensamento corresponde ao que esse algo é, então ela é verdadeira. E mentira? É sustentar uma proposição que você sabe que é falsa, mas a defende como sendo verdadeira. Alguém pode afirmar que mentir é somente defender uma proposição falsa, mas o ato de errar em si é diferente do ato de mentir (embora esta diferença não afete muito o meu argumento). Dito isso, porque uma ética racional não pode afirmar que “mentir é certo”? Porque uma ética racional tem o comprometimento com o que é, com a realidade e como o homem é, enquanto a mentira é ignorar conscientemente o que a realidade é, forjar algo que não existe, viver com base em algo que não existe, uma revolta inútil e infantil contra o que é, o que existe. Mentiras jamais trarão boas conseqüências se você levar em consideração todo o estoque de conhecimento disponível para o homem, ou seja, se você for racional, se você levar o contexto geral em consideração. É importante entender isso porque é a base de toda confusão da maioria dos exemplos sobre “olha como uma mentira traz boas conseqüências”.

[5] Peguemos um dos exemplos preferidos do Thomas: um nazista “bate” a sua porta, depois de revistar a casa e não achar nada, faz a derradeira tentativa e pergunta para você se tem algum judeu escondido na casa. Você, um seguidor da ética “mentir é errado”, diz ao nazista: olha, eu sei que você vai matar todos eles e isso é condenável mas eu não posso mentir, sim, eu escondi cinco judeus no porão de casa. Mentir aqui teria conseqüências muito melhores na opinião de todo mundo (inclusive na minha). Mas isso significa que o principio “mentir é errado” está errado? Quem no fundo está mentindo?

[6] Toda ação do nazista é baseada em erro (ou mentira, se o sujeito não acredita nos “ideais nazistas”). Se você revelasse onde o judeu estava, a ação correspondente a isso seria errada, pois seria baseado em um erro (ou mentira). O que você faz ao mentir neste caso é restabelecer parcialmente (pelo menos naquele momento) um pouco da verdade. A mentira só trouxe boas conseqüências devido a isso, se evita que um ser humano seja tratado como o que ele não é, um inseto, uma praga (essa é a verdade restabelecida – um ser humano não é um inseto ou uma praga). Você, levando em conta todo o contexto envolvido, tratou um ser humano como um ser humano, não negou a realidade, sabendo que um ser humano é um ser humano você não agiu como se ele fosse um inseto, uma praga a ser exterminada, você não mentiu, agiu de acordo com a realidade.

[7] A maior parte das contradições encontradas na aplicação de princípios ocorre devido à fuga do contexto geral, do contexto maior em que a aplicação está inserida. Quem, no exemplo do nazista, negou a realidade e baseou todas as suas ações nessa negação? O nazista (se foi um erro ou uma mentira, dentro das definições que eu coloquei, depende da ciência do nazista sobre o erro). Se você corroborasse com a ação do nazista, sabendo que tudo aquilo estava errado (e você sabia), estaria mentindo. Você não fez isso. Você agiu com a verdade ao seu lado, com o “apoio da razão”, da realidade. E porque “mentir” sobre a existência de judeus no porão é eticamente menor do que mentir sobre o que um ser humano é? Como já foi respondido, a procura dos judeus no porão é só uma parte de um erro (leve o contexto em consideração). Se você colabora com o erro, ou seja, nega a realidade ciente disso e faz proposições com base nessa negação ciente da realidade, você está mentindo. É só essa “fuga do contexto” que torna supostas mentiras como trazendo conseqüências boas. No inicio do argumento, se apaga o erro inicial dos nazistas e a caçada dos judeus como sendo uma parte deste erro. A proposição “tem algum judeu aqui?” se torna tão neutra e inocente como “pássaros tem pêlo?”. Depois, no final, quando se avalia as conseqüências, o contexto geral é trazido de volta.

[8] Para perceber a importância de todo o contexto da aplicação do principio, pegue o mesmo exemplo, invertido. Depois da guerra, os figurões nazistas fugiram para várias partes do mundo e começou uma busca por esses nazistas para levá-los a julgamento. Você, um simpatizante nazista, esconde um na sua casa e ocorre quase a mesma coisa do exemplo anterior: alguém da policia secreta de Israel bate a sua porta e pergunta se você já viu tal senhor pela redondeza. E você diz não. Pelo menos a maioria concordaria que a melhor conseqüência viria com um “sim, ele está aqui”. Porque a mudança? Ora, porque os nazistas são criminosos e como criminosos devem pagar. Você colaborar com o não pagamento pelo crime, deixar ele solto, é um erro (se você não está ciente do erro) ou uma mentira (se está ciente e mesmo assim colabora). Você não colaborar é a verdade, é você não negar o que existe, o que é, não negar que a natureza humana implica que X não pode exterminar milhões por serem judeus. Logo, neste caso, a verdade estaria em dizer "ele está aqui" e assim fazê-lo pagar por seus crimes.

3 comentários:

Ricardo Bernhard disse...

Richard, sua argumentação defendendo uma ética principiológica no exemplo do nazista que bate à porta é boa, mas tem um problema. Independentemente de trazer ao contexto a torpeza nazista, é um fato que o "anfitrião" negou um dado objetivo: negou que houvesse judeus em sua casa. E voltamos ao ponto do Thomas, segundo o qual mentir pode ser a decisão correta, em situações específicas.

Acredito que haja uma solução principiológica melhor para este problema. "Mentir é errado" é sem dúvida um princípio importante para nossa sociedade, mas não é o único nem o mais importante, conforme se percebe com uma rápida leitura do código penal de qualquer país ocidental. Princípio mais relevante para a sociedade é o que proíbe alguém de coagir outrem, sob a ameaça do uso da força, a responder a uma pergunta ou a realizar determinado ato. Ou seja, o anfitrião feriu o princípio "mentir é errado", mas apenas como defesa contra a coação que sofreu anteriormente do nazista, que feriu o princípio mais relevante "não constranja ninguém à prática de qualquer ato".

Não deixa de ser uma solução parecida com a sua, mas pelo menos não nega o fato evidente de que o anfitrião negou um dado objetivo (i.e., mentiu). Não considero viável uma ética principiológica que não aplique a situações práticas alguma forma de ponderação de princípios desigualmente relevantes para a sociedade.

Um abraço.

Richard disse...

Ricardo, obrigado pelo comentário. Mas não concordo com o seu ponto.

Primeiro, o dono da casa não negou um “fato objetivo”. Ele negou ao nazista que existiam judeus lá, mas o que o nazista chamam entende por “judeu”... e que não é o que é um judeu. Um nazista nega a realidade, entende, age como se os judeus fossem uma entidade que eles não são, os tratam como “pragas”, lixo, seres inferiores etc.. Vc ao responder que não havia judeus está dizendo: não, não há pragas, seres inferiores aqui.... Vc reestabelece o fato objetivo, a verdade que os nazistas deixavam de lado.

Segundo, sobre o “mentiu porque se defendeu de uma agressão, coação”, é verdade que no mundo real se alguém falasse p/ um nazista que esconde judeus, morreria junto com os judeus que estavam escondidos, mas não é esse o ponto do “paradoxo”.... nós estamos assumindo que o nazista, após a confissão de ajuda aos judeus, só iria lá fuzilar os judeus. O cara que escondeu não sofreria qualquer represália. Mas mesmo no caso em que ele sofreria represália, você colocar o axioma da não agressão em pauta é da mesma forma um “reestabelecimento do que é certo”, da verdade contra a negação da verdade que o nazista comete. Por exemplo, você dizer que para um ladrão que não tem dinheiro quando você ta cheio da grana, seria uma daquelas “mentiras que trazem conseqüências boas”, digamos assim. Mas é uma mentira, de fato? Só fora do contexto relevante. Dentro do contexto todo, o ladrão está te agredindo, tratando você como um escravo, algo que nenhum ser humano é (seres humanos são donos de si mesmos) e vc está tentandom, por “vias tortas”, restabelecer a verdade dizendo “eu não sou seu escravo, o dinheiro não é seu, vc não deve me assaltar”.

Terceiro e último ponto, o principio de não mentir não leva ao principio do comprometimento com a verdade, com a realidade e esse por sua vez não leva ao comprometimento com a razão? Não é com a razão que eu descubro o que é certo ou errado? Colocar o certo e o errado no mesmo patamar, negar que o certo é o certo não implica negar a razão? Acho que sim. O axioma da não agressão não é o certo baseado justamente na razão, na argumentação?

Igor disse...

Meus comentários sobre o assunto: http://tratadosordinarios.blogspot.com/2008/09/princpios-conseqncias-e-racionalidade.html