domingo, 17 de agosto de 2008

Escola austríaca e o "mercado de idéias"

Uma “critica bumerangue” muito comum que neoclássicos (e não austríacos em geral) fazem a economia austríaca é a seguinte: se mercados são tão bons, tão maravilhosos, encontram a solução mais eficiente possível, porque então a economia austríaca “não vence” a disputa com as escolas concorrentes no mercado das idéias e se torna “mainstream”?

Apesar de parecer atraente e “imbatível”, ela tem problemas. O mercado “encontrar a melhor solução” não significa nenhum juízo de valor sobre o fim pretendido (a melhor solução para fazer o que, qual o objetivo?). Qual o fim pretendido no “mercado de idéias”? Encontrar a verdade, a teoria correta? Qual a justificativa para assumir que isso (a busca da teoria correta) seja correto? Eu estou insinuando que os pesquisadores, acadêmicos são mentirosos profissionais, charlatões? Não, só estou dizendo que pesquisadores e acadêmicos agem de acordo com incentivos como qualquer outro ser humano.

O tal “mercado de idéias”, pelo menos no último século (e no atual também) é amplamente financiado pelo governo. Isso gera obviamente recursos mais abundantes para pesquisas sobre temas que possuem uma forte distorção de incentivos. O que um governo deseja fazer é determinado em um processo político, ou, como alguns economistas chamam, “mercado político”. Mas mercados políticos são altamente distorcivos. Já escrevi vários textos aqui no blog explicando o porquê. Quase nunca quem age (escolhe) arca com os custos e recebe os benefícios da sua ação (escolha). Essencialmente o mercado político tenderá a produzir sempre políticas “de privilégios”, aquelas onde os benefícios são concentrados e os custos dispersos. Ora, quanto mais forte a influência do governo no financiamento de idéias, mais incentivos se terá para a produção de soluções sobre como criar essas políticas, ou mesmo (em termos da ciência da ética), como justificar, legitimar essas políticas. Independente delas serem realmente “boas socialmente”, a demanda que chega para o mercado de idéias é a demanda geradas pelos incentivos distorcidos do mercado político, a demanda dos “rent seekers”

No fundo, o mercado de idéias não busca uma teoria “correta”, assim como em qualquer mercado, o que será produzido é o que os demandantes (consumidores) desejam. Isso não significa que o que os consumidores desejam é “certo” ou “errado”, “melhor” ou “pior”. Em termos de teoria econômica (seja austríaca ou neoclássica), não há juízo de valor sobre objetivos, os fins pretendidos. Quem faz isso é a ética. O “mainstream” não é mainstream porque está certo, defende a teoria correta. É o mainstream porque atende melhor os consumidores daquele mercado, que basicamente no quesito ciência econômica demandam políticas econômicas, políticas econômicas que sempre serão o resultado de um “mercado” completamente distorcido (em termos de incentivos).

Isso ajuda a explicar porque países como o Brasil, onde o governo praticamente domina todo o financiamento de pesquisas em ciências sociais, produz tantos “teóricos estatólatras” nas universidades. Obviamente existem outros fatores, como uma “mentalidade” anterior que basicamente gerou toda essa estrutura. Uma maneira mais direta e dura de dizer tudo isso seria o seguinte: uma vez um conhecimento me perguntou algo bem parecido com a critica bumerangue citada no começo do texto, mas era sobre economia monetária. Ele me disse: se a teoria monetária austríaca é tão correta, porque não é feita nenhuma política monetária ao redor do mundo baseada nela? Eu respondi: porque o primeiro passo seria o banqueiro central fechar o BACEN e demitir todo mundo (incluindo ele mesmo). Governos dificilmente financiam pesquisas que digam: pare de ser governo, “se mate”, “a melhor política é não fazer nada”. Muito pelo contrário, os incentivos serão no sentido oposto. O keynesianismo é um exemplo claro disso. Nada foi mais abençoado para rent-seekers e governantes do mundo afora (incluindo o dos EUA) do que uma justificativa para intensificar políticas que já vinham sendo feitas de maneira mais tímida. Na América Latina, os Prebischs da vida, que defendiam vastas políticas protecionistas, são outro exemplo óbvio.

Por fim, e países com menos influência do governo nas pesquisas? Bem, como já foi dito, isso tenderia a diminuir a distorção das demandas do “mercado de idéias” e poderia gerar uma possibilidade maior de ser demandado algo como “a teoria correta para o bem-estar social”. No entanto, se o governo, mesmo não financiando pesquisas, produz uma situação onde vários privilégios podem ser obtidos, ou seja, ele participa “ativamente” da economia, tem um vasto orçamento, grandes poderes etc.., isso gera incentivos para agentes privados financiarem lobbies e começarem o “rent-seeking”. Se teorias/políticas econômicas ajudam nesse sentido (e elas ajudam), então será demandado no mercado de idéias essas teorias, essas pesquisas que facilitam a obtenção dos lobbies relevantes. E, assim como quando o governo intervia diretamente no financiamento das pesquisas, essa demanda também não terá nada a ver com algo como “buscar a verdade, como as coisas funcionam ou são”. Eticamente, da mesma forma, serão demandadas teorias e pesquisas que legitimem essas políticas.

4 comentários:

Ricardo Bernhard disse...

Richard, parabéns pelo blog, que é excelente!

Agora, se vc me permite, tenho uma perguntinha off-topic. Sei que vc é jusnaturalista (dá pra perceber um pouco... ;-), mas não custa perguntar: vc conhece algum pensador que concilie liberalismo clássico e positivismo? Sou ambos e só encontro positivistas que são socialistas e libertários que são jusnaturalistas. Se souber, agradeço.

Forte abraço.

Richard disse...

Oi Ricardo, obrigado pela visita

Sobre a sua pergunta, bem, dependendo da extensão q vc dá ao termo "positivismo", existem vários liberais positivistas (principalmente economistas). Digo isso porque as pessoas usam o termo positivismo p/ uma infinidade de coisas diferentes.... mas se "positivismo" aqui é algo como: a experiência é o que conta, nada é "absoluto", tudo depende dos dados etc.. A Escola de Chicago é um bom exemplo de "reduto de liberais".... um liberal bem radical "positivista" (estilo chicago) é o David Friedman, tem o Bryan Caplan tbm (esses 2 são anarco-capitalistas). Liberais menos radicais vc tem Gary Becker, o próprio Milton Friedman, Robert Barro - todos economistas neoclássicos de Chicago em geral. Juristas como o Richard Posner, Richard Epstein tbm...

Dê uma olhada no livro desse último: SKEPTICISM AND FREEDOM: A MODERN CASE FOR CLASSICAL LIBERALISM .... talvez vc goste. É uma defesa liberal baseada em questões empiricas, em dados, pragmática... nada jusnaturalista.

Richard disse...

Ricardo,

Vc é da área de direito? Acho q vc quis dizer "positivista" como os juristas costumam usar... bem, não muda mto a indicação... esses autores jamais defendem o liberalismo ou livre mercado com base na "natureza humana".... defendem como um conjunto de regras, "criadas" ou "escolhidas" pela sociedade pq funcionam (e tbm explicam pq as vezes ela não é a escolhida, mesmo funcionando)

Ricardo Bernhard disse...

Muito obrigado pela resposta, Richard.

De fato, eu disse positivismo no sentido jurídico, o qual não deixa ter as mesmas matrizes filosóficas dos demais positivismos.

Sim, esses autores que vc citou são positivistas, pois não fundamentam o liberalismo na natureza do homem, são empiricistas, etc. Mas percebe? Eles são indiretamente positivistas (no sentido jurídico). Eles não perdem tempo discutindo se são "justos", se são "legais" os princípios libertários, se é possível examinar a justiça desses princípios a priori, porque tomam como pressuposto a legitimidade da sociedade de estabelecer suas normas jurídicas através dos órgãos instituídos. Eu gostaria de ver um autor que se debruçasse sobre essa questão anterior, sobre esse pressuposto, defendendo o positivismo jurídico de peito aberto, claramente, questionando cada crítica jusnaturalista, e que conciliasse sua posição jusfilosófica com o libertarianismo.

Ex: direitos de propriedade são direitos naturais? Esses autores passam ao largo desta discussão. Tomam como dado que a sociedade legitimamente estabelece suas normas referentes a direitos de propriedades, e em seguida examinam quais delas seriam mais eficientes do ponto de vista do bem estar da população, defendendo as normas liberais. Nada de filosofia jurídica.

E vem daí a dificuldade de encontrar um autor assim: economistas não tem a pretensão de fazer filosofia jurídica; jusfilósofos não entendem nada de economia, de modo que TODO positivista é um grande estatista.

Vou continuar minha busca. :-)

Obrigado de novo.

Um abraço.