sábado, 2 de agosto de 2008

De novo: Hoppe e a relação meio - indivíduo.

Lucas Mendes do blog Austríaco respondeu (link aqui) à minha replica ao seu texto, “O que há de errado com a teoria da pobreza de Hoppe?”, dizendo que ele concorda com a relação causal da teoria (que, preferência temporal causa pobreza), mas que não concorda com a minha tese de que ao inverter a ordem causal das coisas, há uma negação da razão e da mente humana. Ele também diz que não defende a “soberania do meio sobre o indivíduo”, mas sim um “meio termo”, onde o meio e a consciência do individuo importam. Como na minha réplica, sugiro a leitura da resposta do Lucas inteira (linkada acima) - é uma agradável leitura.

Bem, deixe-me explicar melhor essa parte da relação meio-indivíduo, pois a discussão acabou caindo em um tradicional “boneco de palha” do “individualismo metodológico” – a idéia de que o individuo é uma bolha, está isolado de tudo, em um vácuo – não percebe o meio em que está inserido, não sofre “influência” de nada. O que direi aqui, acredito, seja a interpretação correta de Hoppe e da maioria dos austríacos mais ligados à Ludwig Von Mises (obviamente isso pode ser bastante contestado) – além, claro, de ser a minha visão do problema. Quando eu digo que um indivíduo é pobre porque ele poupa pouco, ou seja, que a causa fundamental e inicial da sua pobreza (seja a manutenção ou o empobrecimento) é uma dada escolha, a de poupar menos (e que essa escolha obviamente é decorrência da baixa preferência temporal), não se está dizendo que o individuo não recebe “material”, ou como o Lucas coloca, incentivos, do meio. Significa apenas que, dado o material externo apreendido, recebido pelos seus sentidos, material esse que foi analisado, integrado, entendido e julgado pela sua mente através dessa faculdade chamada “razão”, o individuo será soberano, totalmente “livre”, só restrito pela sua própria consciência, pelo julgamento de valor que realizou com o auxilio de tal “material”, para escolher o seu curso de ação.

Explicando de uma forma mais clara: o individuo recebe material do mundo externo, do meio em que vive. Ele agir ou não de uma determinada forma não é resultado do material que recebe, é sim resultado de uma “racionalização”, de um processo de vontade, do uso da consciência, enfim, de escolha. Uma escolha humana nunca “tem que ser”. Ela é o que é porque o agente em questão quis que fosse assim. Entre o mundo externo e a ação que um homem executa, está o filtro da sua consciência, da sua vontade. O meio externo só “causa” preferência temporal alta se o indivíduo assim o escolher, ou seja, se o próprio indivíduo disser: não, eu sou pobre e prefiro comer um pouco mais hoje a poupar. O resultado de pobreza material que isso gerará não tem outra causa a não ser a escolha do indivíduo. O meio não determina nada se entre ele e a escolha, existe o livre arbítrio, a consciência do ser humano. Foi por isso que eu disse ao Lucas que ele negava a consciência, a razão humana. O meio só leva inevitavelmente a alguma escolha humana, (que possa ser descrita em termos específicos – como poupar mais ou menos), senão existe um agente consciência, racional, que valora, que analisa e decide sobre como será seu comportamento. Se não existisse tal agente, o próprio uso da palavra “escolha” seria um non-sense, afinal, não foi escolha, era “determinado”, “dado” que seria assim – “tinha que ser”.

Tudo que foi dito acima não deve ser confundido com uma negação da praxeologia (que busca descobrir justamente leis apoditicamente verdadeiras e universalmente validas das ações humanas). A praxeologia lida com categorias e conceitos gerais da ação humana. Não lida com seu conteúdo especifico, justamente porque o seu conteúdo específico é gerado por um processo consciente, deliberado do agente – esse conteúdo especifico, decidido conscientemente pelo agente, que serve como base para a escolha é chamado de “preferências” ou “ordenação”. Não existem preferências separadas, soltas da consciência individual, acima de um processo consciente de ordenação e da sua correspondente conseqüência: uma ação.

Concluindo, dizer que a pobreza material é causada pela alta preferência temporal dos agentes, no fundo, significa dizer que ela é fruto de uma deliberada e consciente escolha (como é toda escolha, toda ação humana). Não significa afirmar que o individuo está solto num vácuo ou numa grande bolha de plástico e não tem contato, não recebe material e incentivos do meio em que vive. Significa apenas que, como ele reage a esses incentivos, a ação especifica que ele toma, é uma questão de escolha, de livre arbítrio, de consciência. Em última analise o que causa qualquer escolha humana é a consciência do individuo, como ele valorou, analisou, julgou todo o material que “recebeu” do mundo externo. Dois agentes podem receber exatamente o mesmo incentivo externo, mas suas ações podem ser completamente diferentes (o próprio Hayek dizia isso quando estava explicando o que significava “subjetivismo econômico”). O que causa essas ações não é o incentivo externo, é o processo mental, interno, a consciência de cada agente. Dizer que o meio causa alguma ação é negar esse processo mental, é negar a mente humana, a sua consciência. Logo a pobreza jamais “causa” preferência temporal alta (baixa poupança). O indivíduo escolhe (ação consciente, de vontade) poupar pouco e é essa escolha que gerará uma conseqüência dada e certa: o empobrecimento (obviamente, “mantidas” as demais variáveis constantes).

2 comentários:

Mauricio Boniati disse...

Excelente o debate de vocês.

Mas concordo com o Lucas. A preferência temporal não pode ser considerada causa absoluta e autônoma da pobreza. Os escravos, por exemplo, tinham preferência temporal total, pois tinham que comer AGORA o pão que recebiam. Mas não é razoável dizer que eles eram pobres POR CAUSA da preferência temporal. A causa era, no caso, a coerção de outros indivíduos.

Mauricio Boniati disse...

Por exemplo, vamos supor que x causa y que causa z.

A praxeologia nos diz que y causa z, INDEPENDENTEMENTE de existir um x que cause y. Não interessa se este x (ou qualquer coisa antes de x) exista ou não.

Mas Hoppe afirma corretamente que y causa z, mas ele afirma precipitadamente que NÃO HÁ um x que causa y.