segunda-feira, 28 de julho de 2008

Lucas Mendes sobre Hoppe

Lucas Mendes, responsável pelo excelente blog “Austríaco”, postou um texto (confira aqui) onde ele critica o que chamou de teoria da pobreza de Hans-Hermann Hoppe. Sugiro a leitura do próprio texto, mas resumidamente o conteúdo da critica é o seguinte: segundo Hoppe, indivíduos que são ricos, em geral, são indivíduos com baixa preferência temporal, ou seja, descontam pouco o tempo. Mais explicitamente, esses indivíduos (com baixa preferência temporal) poupam mais, consequentemente acumulam mais capital, aumentam sua produtividade e obtém rendimento mais elevados (que serão poupados e transformados em cada vez mais bens). Indivíduos com baixa preferência temporal, consumirão boa parte da sua renda, não acumularão capital e serão ou continuarão pobres. Em resumo: mantida as demais habilidades constantes, baixa preferência temporal “causa” riqueza e alta preferência temporal “causa” pobreza.

O que o Lucas levanta é o que popularmente ficou conhecido no Brasil como “dilema de Tostines” - ou da bolacha (vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais). É rico porque tem baixa preferência temporal ou tem baixa preferência temporal porque é rico? Teoricamente é o problema de determinar o que é causa e o que é efeito. O raciocínio invertido (em relação ao do Hoppe) até faz algum sentido: ricos ganham ou tem o suficiente para atender necessidades básicas (ou nem tão básicas assim), logo são propensos a poupar mais que os pobres que às vezes não tem nem o suficiente para comer. Além disso, pode-se levantar outros fatores relacionados ao meio em que a pessoa vive (como o próprio Lucas faz).

Eu já escrevi um texto que comentava sobre a relação individuo – meio. Quem se interessar pode lê-lo aqui. O “pano de fundo” era outro – a questão da violência, o ato de cometer um crime, mas se aplica totalmente à questão levantada pelo Lucas. Mais especificamente sobre a teoria do Hoppe, não há erro na relação de causalidade entre baixa preferência temporal e riqueza. Seja lá o porquê um individuo tenha alta ou baixa preferência temporal, a conseqüência disso será a mesma. Mantendo as demais “características” constantes, o individuo com baixa preferência tenderá a ser mais rico que o de alta. Além disso, dizer que um pobre que ganha pouco não poupa porque tem que satisfazer suas “necessidades básicas” ou não tem cultura, valores adequados (que incentivem a poupança) é só uma maneira confusa de dizer que não poupa porque tem alta preferência temporal. Se comprar determinado bem hoje, agora é tão valorado pelo agente a ponto de você chamar de “necessidades básicas” em detrimento da poupança, o que você está dizendo é que ele tem uma “altíssima preferência temporal”. O mesmo para a “cultura” (ele dá um valor maior ao consumo presente do que ao consumo futuro porque a sua cultura "defende" isso).

Do ponto de vista estrito da teoria econômica, pouco importa de onde vem a preferência de um individuo por lasanha em relação a peixe, sorvete de creme em relação ao de morango ou consumo presente em relação a consumo futuro. A relação causal apontada por Hoppe é correta (baixa preferência temporal favorece o enriquecimento e alta preferência temporal “joga contra”). Não há erro na teoria (também não há erro em dizer que riqueza pode "levar à preferência temporal mais baixa"). No entanto, moralmente, a inversão, como foi defendida, é um erro bastante grave. Eu poderia falar mais dessa “moralidade” por trás da inversão colocada pelo Lucas, mas acho que o texto que deixei linkado retrata um pouco o que penso. Essa inversão, "a soberania do meio sobre o indivíduo", nega a razão, nega o ser humano, a sua consciência. Em suma, nega a mente humana. Seres humanos não escolhem, não possuem aquilo que antigamente era chamado de “livre arbítrio”. Eles simplesmente reagem ao meio, são produtos do meio. Eles não raciocinam, não analisam, não avaliam o que “recebem do meio”, simplesmente reagem sem consciência, sem uma escolha deliberada e racional. É isso que está por trás do pensamento daqueles que dizem que “virou bandido porque não teve escolha, vivia no meio da violência” (que é do fala o texto linkado), e é exatamente isso que está por trás da inversão levantada pelo Lucas. Poupar ou não deixa de ser uma escolha deliberada, racional. Passa a ser uma “reação ao meio”, uma imposição do meio que não “deixa escolha”.

Um comentário:

Lucas Mendes disse...

Boa noite Richard!

Grato pela réplica. Procurei dar uma resposta à ela no meu blog. Neste link

http://austriaco.blogspot.com/2008/07/resposta-ao-richard-reporto-me-rplica.html

Abraço
Lucas