domingo, 20 de julho de 2008

Exportação de Inflação e outras desculpas

[1] A mais nova e “espetacular” moda entre economistas para explicar a inflação em várias partes do mundo é uma suposta “exportação” da inflação americana. Isso, como sempre, cai como uma luva nos outros países. A inflação local deixa de ser problema do governo local, passa a ser culpa de alguém “de fora” e governos locais não podem fazer nada contra tal “ameaça”. É o paraíso: o governo fatura os louros dos efeitos de curto prazo benéficos que uma inflação pode ter e não arca com nenhum dos custos da “ressaca”.

[2] Mas e o mérito da explicação? Ela é verdadeira? A resposta é não. Inflação não é nada mais nada menos do que uma deterioração, uma destruição do poder de compra de uma dada moeda. Em outras palavras, uma mesma quantidade de moeda compra menos bens (é necessário dar mais moeda parta obter uma dada cesta de bens). Uma inflação do dólar (ou americana) significa que quem está perdendo esse poder de compra é o dólar. Para comprar uma camisa, antes você dava US$10,00, agora são necessários US$11,00. E o que acontece com o preço dos bens em termos de outras moedas? A resposta é nada. O preço de um bem em relação a dólares depende dos agentes dispostos a trocar bens por dólares. O preço do bem em relação a reais, depende dos agentes dispostos a trocar bens por reais. Se o primeiro preço (bens/dólar) sobe, não há absolutamente nada automático que faça o preço do bem em reais subir.

[3] Uma maneira de perceber isso é olhar para as taxas de câmbio, que nada mais são do que razões de troca entre moedas. Se uma moeda tem um poder de compra baixo, é de se esperar que quando alguém queira comprar essa moeda com uma outra com poder de compra forte, a razão de troca deve ser “muitas de poder de compra fraco” por poucas de poder de compra forte, senão o negócio não compensaria. Imagine o seguinte: sem custo de transporte algum, uma camisa igual aqui e nos EUA custa respectivamente, R$20,00 e US$10,00. Qual a taxa de câmbio que arbitra o mercado, ou seja, torna indiferente para qualquer agente comprar a camisa em dólar ou em real? A resposta é R$2,00 por dólar. Um brasileiro que ganha em real, pode comprar a camisa por R$20,00 ou pegar os R$20,00 comprar dólares na taxa acima e obter US$10,00 que é o preço da camisa em dólar. Tanto faz para ele comprar a camisa em real ou em dólar. E o mesmo para o americano, que pode pegar os seus dólares, comprar R$20,00 (que custam US$10,00) e assim obter a camisa.

[4] Mas o que ocorreria se a camisa em termos de dólares fosse para US$15,00 (uma inflação em dólar) e a taxa de câmbio fosse mantida em R$2/US$1. Ora, nós teríamos um “desequilíbrio” ou oportunidades de lucro. Um americano poderia pegar seus US$10,00, comprar R$20,00 e comprar a camisa em reais, pagando no fim só US$10,00 e não os US$15,00. Uma conclusão apressada pode ser a de que então a inflação americana terá que ser exportada porque o preço da camisa em reais subirá (mais gente aparecerá para comprá-la) e reequilibrará o sistema. Mas na verdade é outro preço que se ajustará, a taxa de câmbio. Não faz sentido algum você trocar uma moeda que agora compra menos por uma taxa que correspondia ao seu antigo poder de compra maior. Quem tem real, por que venderá esse real a US$0,5 se esse preço equivale a um poder de compra menor, que não o motivava a oferta real algum (ou a ofertar menos reais)? Qual será a taxa de câmbio equivalente a de antes da inflação? Será aquela que torna indiferente a compra em dólar ou em reais (caso contrário a demanda pela moeda vantajosa crescerá e seu preço subirá). E qual taxa é essa? Com a camisa custando US$15,00, a taxa será de aproximadamente R$1,33 por dólar, uma apreciação de 50% do real frente ao dólar (que é exatamente igual a inflação do dólar, a perda de poder de compra do dólar). Veja que sob um cambio de R$1,33, o preço em real permanecerá o mesmo. Um americano terá que gastar exatamente US$15,00 para comprar a camisa de mesmos R$20,00 no Brasil (1,33 vezes 15,00).

[5] Apesar de ser um exemplo bem simples, ele mostra bem o que deve acontecer com o dólar, ou qualquer outra moeda que tem uma queda no seu “preço” (poder de compra) frente a outras moedas que não sofre o mesmo efeito. Não existe contaminação alguma “automática” se o cambio é flexível, é determinado pelo mercado de moedas. Obviamente se o governo brasileiro fixasse o cambio em R$2 para US$1, a solução seria o aumento do nível de preços interno (o aumentos dos preços em reais mesmo), o que é perfeitamente “normal”. É justamente por isso que alguns países com histórico de inflação alta acaba atrelando sua moeda à de um país com histórico de inflação mais baixo, porque a inflação local será igual a inflação da moeda escolhida como âncora. O importante de tudo isso é perceber que o que acontece com a inflação local depende única e exclusivamente da política monetária local. Se um governo local não emitir moeda adicional e não controlar o câmbio, a inflação da moeda estrangeira se transformará apenas em apreciação da moeda local em relação a essa moeda inflacionada. A inflação só será exportada se: 1) o governo local atrelar a moeda local a moeda estrangeira inflacionada ou 2) emitir moeda local por algum motivo (geralmente para aproveitar que a culpa pela inflação será de alguém bem distante).

[6] No meu exemplo, usei “camisa” como sendo o bem comercializado. Mas poderia ser qualquer bem “ultra relevante” como petróleo, aço, ferro, “comida” etc.. O mais “correto” (ou menos errado, pelo menos para os propósitos que quero explicar aqui), seria usar um bem teórico chamado “cesta” ou “produto” que simbolizaria um conjunto de todos os bens possíveis de serem comprados, uma espécie de cesta de bens e o preço como sendo uma espécie de preço médio desses bens dentro da cesta. Toda essa confusão é causada pelo uso do termo “inflação”. A maioria dos economistas modernos usa inflação como sendo um aumento generalizado dos preços. E esse aumento generalizado dos preços seria medido por algum índice de inflação construído com base nessa cesta média, teórica que eu citei. Mas inflação já significou “aumento da oferta de moeda”, ou seja, a conseqüência desse aumento da oferta de moeda seria aquilo que é chamado de inflação atualmente. Nem toda queda ou aumento de preço é inflação. Os preços relativos sobem/descem constantemente (na verdade eles sempre sobem e descem ao mesmo tempo, depende do ponto de vista – se uma antes uma maça era trocada por uma laranja e agora uma maça é trocada por duas laranjas, o preço da maça em termos de laranja subiu, mas o preço da laranja em termos de maças caiu). Isso não é inflação, é uma mudança “comum” de preços de mercado. É o guia do sistema de mercado, a razão da sua eficiência. Inflação (em termos modernos) é a queda do preço da moeda, que é “traduzido” como um aumento generalizado de preços dos bens em termos de moeda (você precisa dar mais moeda, assim como precisou dar mais laranjas, para obter uma infinidade de bens – ou maças no exemplo usado). Ao contrário das mudanças de preço relativo, a inflação é um “mal”. Gera ineficiência e custos bastante relevantes. Ao destruir o meio de troca, compromete a capacidade de troca dos agentes e consequentemente diminui a produtividade de toda economia.

[7] Esclarecido um pouco a confusão de termos e conceitos, peguemos um dos vilões preferidos para inflação: o petróleo (mas o que vai ser dito serve também para a suposta inflação gerada pelo aumento dos preços dos alimentos). A idéia é basicamente a seguinte: o petróleo fica mais caro, o que encarece o custo de produção de praticamente todos os bens e os preços são repassados para os demais bens gerando inflação. Isso é divulgado amplamente pelos jornalistas econômicos, e como quase tudo que é divulgado por eles, está errado. Um aumento do preço do petróleo gerará inflação apenas se a política monetária do governo for “propicia” para o surgimento dessa inflação. Deixe-me explicar: Primeiro, pensando em um mundo sem moeda, onde há apenas escambo. Os ofertantes de petróleo “limitam” a sua oferta de forma a aumentar o seu preço. O que significa esse aumento de preço? Que os demandantes de petróleo terão que ofertar mais bens para obter petróleo, ou seja, que o preço de todos esses outros bens diminuiu (o que já torna a idéia de inflação um completo non-sense, afinal, não existe moeda aqui). Mas seguindo em frente: como o petróleo é um fator de produção, menos petróleo (uma escassez maior de petróleo) significará uma produção menor. Esse é o famoso “deslocamento para esquerda da curva de oferta agregada” que teria gerado a “estaginflação” da década de 80. O problema é que em termos reais, não se consome, se investe o que não se produziu. Logo, a “demanda agregada” também cairá exatamente e instantaneamente na mesma proporção da oferta agregada. Se, mesmo sem moeda, inventássemos um preço que representasse o nível de preços, esse preço não se moveria.

[8] Pela explicação acima já se vê que preço de bem (não moeda) nenhum, por mais importante que seja, gera inflação. Uma maior escassez de um bem importante pode sim representar pobreza, menor bem estar etc... mas nunca inflação. E com moeda, como a coisa fica? Com uma produção menor, a quantidade de moeda demandada pelos agentes tende a diminuir (afinal, geralmente a demanda por moeda é uma proporção da renda, da produção. Se essa proporção ótima se mantém, então a quantidade de moeda demandada deve diminuir). Mas, supondo que a oferta de moeda (que é determinada pela política monetária do governo) fique constante, uma menor quantidade de moeda demandada significará uma queda do preço da moeda, que é justamente inflação. As pessoas não quererão guardar tantas notas nas suas carteiras, não desejarão manter saldos em conta corrente. Elas procurarão trocar essa moeda por outros bens, por outros investimentos o que gerará uma pressão nos preços dos bens em geral.

[9] Inflação só é possível se há um excesso de oferta de moeda. Nenhum fator “real” que não altere demanda e oferta de moeda provocará inflação. E obviamente, inflação da moeda X, significa um excesso de oferta da moeda X. Excessos de oferta da moeda Y, Z, W (que obviamente não afetem o mercado da moeda X), não provocarão inflação dessa última. É uma lição simples que nos é constantemente ensinada por grandes economistas e, infelizmente, também pelo choque de realidade provocado pela insistência em se ignorar os ensinamentos dos primeiros. Ignorância com a pior das intenções: manter o controle do governo sobre a economia. Transformar o governo em um deus que “cria riqueza do nada”, que faz sumir com a impressora as dividas dos “amigos” e a sua própria. E quando as pessoas chegam perto de descobrir as reais causas do desastre desses “milagres”, a culpa é jogada em algum inimigo externo com a complacência de uma guarda pretoriana de intelectuais e jornalistas confirmando e abençoando tudo.

[10] Por fim, aproveitando o embalo, gostaria de comentar a nova moda entre os “desenvolvimentistas e afins” brasileiros. Depois de viverem defendendo que o governo gaste, ops, “invista” à rodo, agora eles defendem superávits primários maiores – e aparecem posando de “os responsáveis” (não sei por que não defendem superávit nominal zero logo – é melhor não dar a idéia. Para essa gente ajuste fiscal significa cobrar mais impostos). Mas como dizem os mais velhos, quando o milagre é demais até o santo desconfia. Primeiro, por trás dessa proposta está a idéia totalmente errada de que gastos do governo afetam aquilo que é chamado de demanda agregada. Como inflação seria a demanda agregada “muito alta”, acima da oferta agregada, diminuir os gastos do governo, derrubaria a demanda agregada e consequentemente o preço que equilibra as duas curvas. Expliquei esse erro no texto Inflação e Gastos do Governo. Outro problema da proposta (não dela em si, mas do que a motivou) é a insanidade de achar que taxa de juros baixa implica em mais crescimento. Segundo esses economistas, o governo pode até usar a política monetária para combater a inflação, mas isso leva a uma alta dos juros e emperra o crescimento. É melhor o governo combater os preços através do “lado fiscal”. O que temos de novo (novo erro) é uma confusão total entre causa e feito quanto a questão “juros e crescimento”. Expliquei isso no texto “Mais um pouco sobre juros, investimentos e inflação...”. O resultado de uma política “coordenada” – lado fiscal restritivo e monetário expansionista – é só mais inflação e menos crescimento ao longo do tempo. Os nossos “desenvolvimentistas”, continuam tão desenvolvimentistas quanto antes...

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