terça-feira, 3 de junho de 2008

A discussão sobre inflação da VEJA

A Veja desta semana traz como chamada de capa a alta da inflação. Um detalhe interessante da reportagem é a opinião de nove “renomados” economistas de várias matizes teóricas (de Luiz Gongaza Belluzo a Edward Prescott). Quem quiser pode conferir a reportagem completa aqui.

Das opiniões dadas algumas coisas me chamaram a atenção:
1) A maioria dos que arriscaram uma causa para inflação apontaram para um excesso de demanda, mas apontaram para a causa errada de excesso de demanda (exceção feita ao Edward Prescott, o único a mencionar explicitamente que o problema é a impressora). Aumentos de gastos do governo não aumentam a demanda agregada se não ocorrer aumento da oferta de moeda. Se o governo consome mais, “investe” mais, ele não tira os bens da terra do nunca. Ele tira dos agentes privados que por sua vez consumirão menos e investirão menos (principalmente esse último). Se ele emite moeda, no fundo a coisa funciona da mesma maneira (ele retira os bens que o setor privado estaria investindo, consumindo..), mas a retirada é feita justamente via aumento de preços. Já escrevi um texto sobre isso. Quem se interessar pode conferir aqui.

2) A opinião do Alexandre Schwartsman contém um alerta muito importante para uma velha desculpa. A idéia de que inflação não é culpa do governo, é uma “infelicidade do destino” provocada por alguém de fora, alguém que nós brasileiros podemos xingar a vontade sem atrapalhar político local nenhum.

3) Por último, um problema derivado do erro apontado em (1). Aliás, um problemão. Alguns economistas dão a entender que, por exemplo, se eu corto gastos do governo e contenho o crescimento da demanda agregada (ou até diminuo a demanda agregada), então eu posso ligar a impressora e compensar a queda. No fundo, segundo esses economistas, para segurar a demanda agregada e controlar a inflação existiria uma escolha entre cortar gastos do governo (política fiscal) e política monetária. Alguns, mais saidinhos (e inflacionistas) ainda vêem vantagem no primeiro (política fiscal), porque ela faria uma pressão baixista na taxa de juros e isso estimularia o crescimento (eu corto gasto do governo e ligo a impressora, as duas coisas teriam tendência a baixar a taxa de juros e motivar o crescimento).

Os erros são tantos que num texto breve como este não valeria a pena entrar em detalhes. Mas rapidamente: novamente, primeiro, gastos do governo não afetam inflação e nem demanda agregada (diretamente eu digo). Já falei sobre isso no blog, quem quiser pode conferir aqui. Segundo, não é a política que o governo usa (se controlando moeda diretamente, ou taxa de juros) que determina a taxa de juros. É a preferência temporal dos agentes (ou, sem muito “crime teórico” na minha opinião, a produtividade marginal do capital). Tanto faz como o governo controle a inflação, a taxa de juros será a mesma (obviamente ele só tem uma forma de controlar a inflação – controlar a oferta de moeda, mas pode fazer isso diretamente ou via juros). Terceiro: taxa de juros alta é conseqüência, não causa de nada. Um país jamais vai crescer porque o governo faz alguma “maracutaia” e baixou a taxa de juros. Assim como baixar o preço da banana não significa maior consumo de bananas, baixar taxa de juros não significa mais crescimento porque faltará o “combustível” para tudo isso: poupança. Entender isso acho que evita dar ouvidos a 9 em cada 10 projetos mirabolantes de desenvolvimento. Quem se interessar, pode ler este texto que trata exatamente dessa questão. O resultado de uma política “combinada” (política fiscal conservadora e política monetária expansionista) é só mais inflação e provavelmente nada de crescimento maior (digo provavelmente, porque o governo cortar gastos tem lá suas vantagens – supondo que a política fiscal conservadora seja feita dessa forma, mas por outro lado a inflação e todos os problemas que ela gera para o crescimento podem compensar esses ganhos).

Nenhum comentário: