sexta-feira, 4 de abril de 2008

Um pouco sobre moeda, sistemas monetários, banco central...

[1] O governo americano anunciou semana passada, uma reformulação no FED. A reforma basicamente consiste em dar mais poderes à instituição. Agora ele poderá vasculhar os balanços de mais empresas do setor financeiro. Outra proposta, que não sei se foi aprovada, consistia na garantia, pelo governo americano, do pagamento de todas as hipotecas até um determinado valor (algo parecido já existe em relação aos depósitos bancários – o governo americano garante o pagamento de todos os depósitos bancários até um valor X).

[2] Essas intervenções são o exemplo típico do que Hayek chamou de “caminho da servidão” – intervenções que levam a outras intervenções (embora a idéia original seja mais sutil que isso). A primeira intervenção é o próprio monopólio de emissão de moeda que o governo “se dá”. Esse monopólio, junto com o monopólio sobre a polícia e sobre as leis formam a “santíssima trindade” dos governos. É inimaginável para a imensa maioria das pessoas pensar que não há necessidade alguma de ser assim e só é assim por motivos nada “nobres” (embora sempre exista alguém dizendo que tem que ser assim, porque assim é melhor etc..etc..).

[3] A razão das pessoas enxergarem tais coisas como “necessárias”, “imprescindíveis” não é uma fatalidade da natureza. Considerando o governo “legitimo” e necessário, se considera taxações, ou seja, “roubos” como sendo legítimos e necessários. Essa é, por excelência, a fonte de recursos do governo. O poder de roubar, de explorar é legitimado e é dado ao governante. O complemento de tudo isso é o controle da moeda. Com o controle da moeda o governo pode tributar, controlar praticamente toda a economia, ser uma espécie de “deus” gerando “poder de compra” do nada, acabando com seus próprios débitos e de seus “amigos” sem que ninguém, ou muito poucos, percebam o que está acontecendo. Resumindo a história: a legitimidade do governo o dá a legitimidade para explorar, para “roubar” e o controle da moeda o permite explorar e roubar mesmo quando a legitimidade anterior fica enfraquecida, quando ele “abusa” dos métodos tradicionais de taxação. Essa é a razão do porque chovem defesas, a grande maioria financiada pelo próprio governo através dos seus gastos com institutos de pesquisa, universidades, publicidades em meios de comunicação, sobre a necessidade de monopólios da moeda, da justiça, da policia.

[4] Sobre a questão da justiça / segurança, tratei em outro texto, o "Leis, Tribunais e polícia sem governo: bem vindos ao anarco-capitalismo". Hoje gostaria de me ater à moeda. Moeda é um bem, ela presta um serviço, a saber, o de servir como meio de troca. Graças à moeda, um professor de inglês que queira comer uma pizza não precisa encontrar um pizzaiolo que queira ter aulas de inglês. Basta ele encontrar qualquer um que queira aulas de inglês, seja ele pizzaiolo, marceneiro, gerente de banco e tenha moeda. Com essa moeda ele procura um pizzaiolo que a aceitará de bom grado, justamente porque tal moeda permite ao pizzaiolo comprar um carro sem precisar encontrar um vendedor de carros que queira comer pizza. A moeda elimina o que os economistas chamam de “dupla coincidência do escambo”, aumentando enormemente o leque de opções e trocas possíveis. O seu “serviço produtivo” básico é esse, o de facilitar as trocas (embora possam existir outros usos decorrentes desse serviço básico, como servir de “amortecedores” de choques na renda, equilibrar temporalmente receitas e pagamentos, servir como reserva de valor, unidade de conta etc..).

[5] Como todo bem, existirá uma demanda por esse bem e conseqüentemente, dado que alguém está disposto a pagar, também existirão pessoas dispostas a saciar essa demanda com uma oferta correspondente. Mas como “produzir” moeda? Já foram usadas como moeda coisas como sal, boi, pedra, cigarros, fumo além dos tradicionais ouro e prata. Ninguém acharia estranho falar em produzir sal, produzir boi ou mesmo ouro e prata (no caso, produzir seria extrair das minas e deixá-los em um formato “interessante” para uso). Foi exatamente dessa maneira que surgiu a moeda. Um determinado bem, com algumas características desejáveis como facilidade de transporte, durabilidade, estabilidade da sua relação de troca (preço), além de desejabilidade para uma infinidade de usos é um forte candidato à moeda e se tornará moeda quando cada vez mais pessoas perceberem que comprar esse bem como um intermediário facilita as suas trocas. Se o marceneiro que quer um pouco de batata, no lugar de trocar seus móveis diretamente por batatas, conseguir essa batata mais facilmente trocando suas cadeiras e moveis por sal e depois sal por batata, o sal será demandado por ele, agora por um motivo adicional: o de facilitar as suas trocas. Essa percepção juntamente com o resultado obtido (facilidade nas trocas) dá origem a demanda “monetária” por sal e causa a “transformação” do sal em moeda quando mais e mais pessoas percebem a mesma coisa e generalizarem tal prática.

[6] Foi assim que ocorreu, principalmente com o ouro que, além do uso tradicional para confecção de jóias, se tornou moeda, era demandado porque facilitava trocas. O preço do ouro passou a ser determinado por uma demanda que vinha de “duas fontes”, da demanda para usos tradicionais e da demanda “monetária”, aquela que tinha como objetivo usar o ouro como moeda. Esse preço determinava o incentivo dos mineiros em ofertar ouro, assim como com qualquer outro bem. A “primeira intervenção” do governo em toda essa história apareceu na “certificação” das moedas de ouro. O valor de uma determinada quantidade de ouro era determinado por seu peso. O valor de uma moeda de ouro, da mesma forma. A função da “casa da moeda” estatal foi inicialmente padronizar e certificar o peso das diferentes moedas. Quando “sabotadores” começaram a raspar as moedas para diminuir a sua quantidade de ouro sem que ninguém percebesse e assim continuassem a pagar um valor correspondente ao peso anterior, o governo passou a fazer as “ranhuras” na borda das moedas, de forma que ficasse fácil identificar moedas raspadas de moedas não raspadas (além de evitar a pratica “inocente” de jogar moedas em um saco, chacoalhá-las e assim obter um pouco de ouro em pó).

[7] Como funcionava a certificação e a padronização das moedas? Basicamente um mineiro (que tivesse extraído o ouro) ou um banqueiro que tivesse comprado a “moeda/ouro bruta” levava esse certo peso de ouro para uma casa da moeda que cobrava uma taxa, a famosa “senhoriagem” para padronizar essas quantidades de ouro em moedinhas. O sistema passou a “evoluir” da seguinte forma: transportar moedas de ouro, além de arriscado era incomodo, afinal, elas pesavam bastante considerando a quantidade. Qual foi a solução? Deixar o ouro guardado em um lugar bem seguro e emitir papeizinhos que correspondessem exatamente a um determinado peso de ouro. Surgia o “papel-moeda”, que basicamente era certificados de ouro. O famoso dólar americano (que veio muito depois), no seu inicio representava exatamente um peso em ouro (não me lembro o peso agora). O próximo passo rumo à estatização da moeda foi mexer no “deixar o ouro guardado”.

[8] Como os certificados passaram a ser demandados como se fossem ouro e ficavam “rodando” no mercado um tempão até serem resgatados, isso quando de fato eram, e quando eram resgatados, obviamente não eram resgatados todos de uma vez, os bancos perceberam que podiam aumentar a emissão de papeizinhos sem lastro real em ouro, mas mesmo assim prometendo trocar tais papeizinhos por ouro. Surgia o famoso (e ainda presente) sistema de reservas fracionadas. O nome vem do fato do banco na verdade não ter todo o ouro necessário (uma reserva em ouro) para resgatar todo o seu papel-moeda emitido, apenas uma “fração” dessas emissões. O sistema bancário, principalmente nas cidades comerciais do norte da Itália, na Holanda e posteriormente na Inglaterra funcionou por um período dessa forma: bancos obtinham determinada quantidade de ouro, através dos depósitos de seus clientes principalmente (que ganhavam os certificados, o papel moeda para ser usado no mercado). Esse ouro possibilitava uma nova emissão de certificados (notas bancarias) que rendiam juros aos bancos através de empréstimos para novos clientes. Quanto maior a confiança de uma casa bancaria, menores eram as taxas de juros que suas notas precisavam pagar para captar ouro, menores eram as taxas prometidas para atrair depositantes (em um caso limite, o depositante só depositaria por uma questão de comodidade para se livrar do ouro).

[9] Um sistema como esse, de liberdade bancaria, onde cada banco emite suas próprias notas lastreadas (totalmente ou mesmo parcialmente) em ouro não permite nem aos bancos e muito menos ao governo fazer aquilo que foi dito no começo do texto: controlar completamente a economia escolhendo, de uma hora para outra, do nada, beneficiar um amigo, seja dando “poder de compra” instantaneamente a ele, seja eliminando completamente suas dividas através da inflação e manipulação das taxas de juros. Se um banco, emite notas demais (acima da demanda), a nota volta para o banco para ser resgatada e as reservas em ouro baixam e podem baixar perigosamente a ponto do banco não conseguir honrar seus pagamentos e perder a confiança do público. A “solução” para escapar desse limitador foi concentrar todas as reservas em ouro numa espécie de banco central (ou algum órgão do governo) e acabar com todas as notas bancarias substituindo-as por uma única nota oficial, emitida, adivinhem por quem: pelos governos. Surgia assim o malfadado “monopólio estatal da moeda”.

[10] Obviamente, com um único emissor de notas, a possibilidade de se expandir a oferta de moeda é maior (não há outras notas para serem demandadas), mas ainda bastante limitada dado que os agentes poderiam resgatá-las em ouro. De qualquer forma, o governo já não só aumentava imensamente seu poder já que agora ele, de fato, controlava todo o estoque de moeda da economia e conseqüentemente o setor bancário, como também poderia, ainda em escala limitada, escolher vencedores e perdedores emitindo moeda adicional e manipulando as taxas de juros. O próximo passo (que chegou até lentamente e isso tem uma explicação econômica) foi acabar com o padrão-ouro. E isso aconteceu, de fato, embora não oficialmente, na primeira guerra mundial, onde o governo queria gastar muito, mas não tinha como aumentar os impostos (guerras realmente são uma benção para governos, não é necessário nem disfarçar a real intenção). A solução então foi “tributar escondido”, ou seja, rodar a “impressora” para arcar com os gastos de guerra, mas sem a população perceber direito que era ela quem estava pagando a conta. Mas para fazer isso num padrão-ouro, o governo precisaria de mais ouro para poder resgatar as novas notas. Ora, que nada! Basta acabar com a obrigação legal de trocar notas por reservas em ouro.

[11] Após a primeira guerra, ocorreram algumas pressões para retornar ao padrão-ouro. Mas obviamente, junto com essas pressões apareceram pressões muito maiores, financiadas pelo próprio governo, para se acabar com de vez com o padrão-ouro na Inglaterra. É nesse cenário que surge o mais famoso dos inflacionistas, John Maynard Keynes e a sua defesa do fim do padrão-ouro e da emissão de moeda como um meio de tirar a Inglaterra da recessão e acabar com o desemprego (nessa época ele ainda não tinha escrito Teoria Geral e as recomendações baseadas em políticas fiscais no lugar de políticas monetárias). A Inglaterra ainda tentaria voltar ao padrão-ouro na década de 20, mas a tentativa, executada de forma errada (a paridade moeda – ouro foi restabelecida no mesmo valor de antes da guerra), acabou provocando recessão e desemprego. A deflação necessária para restabelecer o “equilíbrio” encontrou os sindicatos pela frente e as suas mordomias legais contra diminuição de salário nominal, o que gerou um grande desemprego e uma conseqüente impopularidade da medida (aliás, essa rigidez provocada pelo governo nos preços é a única que causa problemas para o sistema econômico – ainda pretendo escrever um pequeno texto para esclarecer isso).

[12] Com o fim do padrão-ouro se chega ao atual sistema monetário (embora tenhamos dito algumas variações que não alteram muito a natureza do sistema, como Bretton Woods). No atual sistema se você for resgatar uma nota de R$5 no banco, vai ganhar tão somente cinco notas de R$1 e nada mais. Ou seja, o atual dinheiro não é lastreado legalmente em nenhum outro bem. Isso significa que, por exemplo, governos não possuem nenhum limitador para emissão de dinheiro e conseqüente manipulação dos juros. Para os bancos privados, o equivalente ao “ouro” que constituía suas reservas antigamente, agora é a moeda emitida pelo governo. As notas bancarias foram, de certa forma, substituídas pelos chamados depósitos a vista acessíveis por cheques e mais recentemente por cartões de débito. Percebe-se que o governo, com a emissão da moeda sem lastro e com o monopólio do uso dessa moeda em um dado território, praticamente controla todo o setor financeiro da economia. Todos os demais ativos, sejam eles meros substitutos de moeda, títulos e afins, são ofertados com base na disposição do governo em emitir ou não moeda (ou base monetária, moeda de alta potência como são chamadas também).

[13] Mas e o FED? O FED americano foi criado em 1913 exatamente com a finalidade de ser uma espécie de agência reguladora para o setor bancário. Na época, os EUA ainda mantinham o padrão-ouro. Não demorou muito para que o banco central cumprisse o seu “destino” e passasse a manipular taxas de juros para baixo, expandir o crédito (através de emissões de notas sem lastro). O resultado de tudo isso pôde ser visto no crash de 29. Os investimentos feitos com base em taxas de juros artificialmente baixas foram revelados como sendo errados e precisavam ser “destruídos” ou realocados, o que levou a quebra da bolsa. A junção dessa situação, com teorias econômicas erradas sobre demanda agregada (que já eram férteis na época), levaram o governo a uma sistemática fixação dos preços como salários (a idéia era que baixos salários diminuiriam a demanda agregada e conseqüentemente aumentariam a crise). Com os preços, principalmente salários, travados pelo governo, não foi possível que oferta e demanda se equilibrassem levando àquelas enormes filas de desempregados que os filmes sobre a época adoram mostrar. Ou seja, o grande feito do FED, logo nos seus primeiros anos foi provocar a maior crise que se tem noticias.

[14] Obviamente não foi só isso. O FED também levou a inflação americana para a casa dos dois dígitos na década de 60, 70. Antes do sistema de papel-moeda sem lastro e seus banco centrais, as maiores inflações conhecidas eram de no máximo de um digito (uma das maiores teria ocorrido no fim do Império Romano quando o imperador, necessitando de recursos ordenava que se diminuíssem a quantidade de metal precioso da moeda). Já, após o papel-moeda tivemos as maravilhosas hiperinflações da Hungria, da Alemanha que além de contribuírem para levar Hitler ao poder no segundo caso, estimularam a venda de carrinhos de mão, afinal, para comprar um mero pãozinho era necessário levar uma montanha de notas. Na Inglaterra a inflação também ultrapassou os dois dígitos. Nós, latino-americanos também tivemos nossa apresentação às grandes inflações durante a década de 80 (sem contar que durante todo século XX é difícil achar um período em que ela tenha ficado dentro do digito único).

[15] Aliás, o Brasil durante toda a era do padrão-ouro já dava mostras da sua “vocação inflacionista”. A maior discussão entre os economistas da época era se devíamos ou não adotar o padrão-ouro. Obviamente, aqueles que não eram inflacionistas, defendiam um governo limitado, livre-comércio, gastos controlados eram favoráveis ao padrão-ouro. Do outro lado, os “vovôs” do desenvolvimentismo tupiniquim, que queriam emitir moeda a rodo para “estimular” a economia, que o governo gastasse, eram contrários. O auge da irracionalidade monetária se deu com Rui Barbosa que além de não aceitar o padrão-ouro, permitiu que qualquer estado emitisse a mesma moeda sem nenhum controle (ele não entendeu o que é free banking).

[16] Voltando ao FED e aos dias atuais, em termos de histórico de intervenções, o monopólio estatal da moeda é a primeira intervenção do governo na economia nesse setor (moeda). O FED é o próximo passo, a próxima intervenção originada da primeira intervenção. Não há necessidade alguma de um FED, não há necessidade alguma de um monopólio estatal da moeda na economia. Uma vez criado o FED, é “normal” que ele “obedeça” os incentivos que são dados a ele, ou seja, emitir moeda, tentar estimular a economia com políticas expansionistas, manipular taxas de juros. Agora, é mais “natural” ainda que tudo isso dê errado e gere crises. A economia explica. E mesmo o FED sabendo que essas coisas geram crises, não são os “policy makers” que pagam a conta. A conta é dissolvida entre a grande “massa” chamada de “contribuintes” (que nome patético!). Já o beneficio é concentrado pelos círculos próximos ao governo e policy makers, como por exemplo, políticos que se elegem antes da crise estourar, banqueiros que se “salvam” etc..

[17] Mas o pior de tudo é que eis que surge o governo e o próprio FED como “salvadores” da crise. Quantas vezes se lê em jornais que o mercado falhou e o governo foi socorrê-lo. Não foi o “mercado que falhou”, foi o governo com suas intervenções que falhou novamente. As reclamações de instabilidade dos sistemas monetários e financeiros não é uma reclamação contra o mercado. Isso que temos não é mercado. É governo, governo sufocando o mercado através do seu banco central. Quem controla a oferta de moeda, quem torna as taxas de juros artificialmente baixas, quem injeta dinheiro na economia incentivando alocações erradas de recursos, quem salva bancos que erram, incentivando assim que mais bancos errem se chama governo. A maior ameaça à estabilidade se chama FED (ou simplesmente bancos centrais em outros países).

[18] Como uma tragédia sem fim, temos mais uma vez uma intervenção do governo para corrigir fracassos de intervenções anteriores, fracassos que obviamente não são reconhecidos como sendo fracassos do governo e de sua política de regulação do setor financeiro. São “fracassos do mercado”. E que mercado? Aquele que tem como base um bem que o governo diz que só ele produz e na quantidade que quiser? Aquele que o governo controla o preço básico, a taxa de juros?

[19] Até o presente momento as discussões na grande mídia têm sido na direção de fortalecer o FED, ou seja, de agravar o problema (mesmo os debatedores achando que estão acabando com ele). É natural que seja assim. As pessoas atualmente não imaginam um mundo sem bancos centrais, um mundo sem governos controlando a moeda. Além disso, emissoras de TV e grandes jornais tem uma relação bastante promiscua com governos. O impressionante são os ditos “esclarecidos”, “intelectuais” defenderem mais FED, mais intervenção. Supondo que eles saibam do que estão falando, é um ódio a liberdade quase doentio. Nem precisava questionar a existência dos FEDs mundo afora, acho que seria até pedir muito. Bastava falar claramente em coisas como “risco moral” (se eu faço coisas erradas e não arco com o custo, para que farei coisas certas?), algo extremamente importante em se tratando de sistema bancário.

[20] Antes de encerrar, só alguns pequenos comentários adicionais:

1) – No texto digo que existe uma explicação econômica para a demora em se acabar com o padrão-ouro. A explicação foi dada pelo economista Ludwig Von Mises e o seu chamado “teorema da regressão”. A idéia resumida é que uma moeda é demandada porque tem um poder de compra prévio. Mas isso envolveria um “circulo teórico” (a demanda e oferta de moeda determinam seu poder de compra que por sua vez já precisa existir para que surja alguma demanda por moeda). A solução encontrada por Mises foi “regredir” (por isso o nome), até o momento onde a demanda pelo bem que será moeda é toda devido a um uso alternativo, ou seja, já existe um valor prévio dado pela demanda “tradicional” desse bem. E o que isso tem a ver com o padrão-ouro? O novo papel-moeda consegue o “poder de compra prévio” e assim é aceito como moeda somente porque está atrelado a um bem que já tem esse “status” de moeda, que tem um poder de compra estabelecido. Levará muito tempo até que o próprio papel-moeda adquira essa confiança dos demandantes e passe a ser demandado exclusivamente porque ele (e não ouro ou qualquer outro bem atrelado) será generalizadamente aceito pelos demais e assim cumpra sua função de moeda.

2) – Apesar de parecer, eu não defendo o padrão-ouro. Defendo um sistema de total liberdade bancaria. Cada banco poderia, de acordo com suas expectativas sobre lucratividade e conquista de confiança dos consumidores, ofertar o tipo de moeda que quisesse (com 100% de reserva e lastreada em bens, reserva fracionada e lastreada em bens, não lastreada etc..). Provavelmente no começo é provável que o que prevaleça seja realmente uma espécie de padrão-ouro e assim, conforme a confiança no emissor (banco) venha o lastreamento já desaparecendo. Basicamente as vantagens e desvantagens dos sistemas “extremos” para o consumidor são as seguintes: no caso de reserva 100%, o banco não tem margem de manobra alguma para inflacionar a moeda, mas justamente por ter que manter 100% em reservas, ele também não pode “fazer juros” com elas e assim pagar juros ao consumidor (depositante do banco), muito pelo contrário, provavelmente cobrará tarifas para manter o ouro guardado. Já o caso sem lastro (o mundo atual), o banco tem uma margem maior para inflacionar, no entanto pode pagar juros para o depositante exatamente porque consegue movimentar boa parte dos depósitos dos clientes (deixa apenas uma porcentagem como reserva). Alguns autores jusnaturalistas, como Murray Rothbard, advogam um sistema de 100% de reserva. O argumento basicamente é “ético”. Para esses autores, o sistema de reserva fracionado é uma fraude (são emitidos certificados de ouro que na verdade não possuem o ouro por trás, o ouro que estaria sendo certificado). Eu considero essa posição um erro, isso não seria fraude. Neste tema (mercado de moedas e sistema bancário) fico com Hayek, David Friedman, George Selgin e Mises.

3) – Dado que BCs existem e isso dificilmente irá mudar dentro de um curto espaço de tempo, acredito que a melhor política seja aquela que se atenha somente e tão somente ao controle da inflação. Nada de tentar “aquecer” a economia, diminuir o desemprego, evitar recessão etc..etc.. São exatamente essas políticas que além de não conseguirem o resultado desejado, agravam o problema que tentaram resolver e, como “brinde”, geram inflação. Nesse aspecto, o Brasil aparentemente (da até medo de falar), evoluiu de maneira espetacular. Quando vejo Argentina, Venezuela, Bolívia controlando preços e exportações para conter a inflação, penso: somos nós na década de 80.

4) – Uma política em direção a um mercado livre de moedas e que não seria assim tão “exótica” é a quebra parcial do monopólio da moeda que os governos possuem. Por exemplo, o Brasil passaria a permitir que qualquer brasileiro, se desejasse, usasse nas suas operações diárias, na sua conta bancaria, outras moedas estatais como dólar, euro, yen, libra. Seria uma amarra muito melhor aos ímpetos inflacionistas dos políticos do que a tal “independência” dos BCs, tão em moda hoje em dia e, de fato, uma solução “menos ruim” do que a de deixar o BC totalmente na mão dos políticos.

6 comentários:

frost disse...

Hoppe admite que é possível que a reserva fracionária não seja fraude:

"In order to overcome these objections to the claim that fractional reserve banking accords with the principle of freedom of contract, White and Selgin then, as their last line of defense, withdraw to the position that banks may attach an "option clause" to their notes, informing depositors that the bank may at any time suspend or defer redemption, and letting borrowers know that their loans may be instantly recalled. While such a practice would indeed dispose of the charge of fraud, it is subject to another fundamental criticism, for such notes would no longer be money but a peculiar form of lottery tickets." (How is Fiat Money Possible, pp. 71 - 23 no pdf)

Richard disse...

owww, sumido!!!!

valeu pela informação... tirei o Hoppe da história

frost disse...

O Hoppe parece ainda achar que a reserva fracionária, da forma que existe, é fraude, embora ache que seja possível que não seja, caso exista um contrato do tipo mencionado.

***

Pois é, tava meio sumido, mas agora arranjei um pc por aqui.

Anônimo disse...

Richard
A utilização de diversas moedas emitidas por diferentes bancos não poderia dificultar o comercio e, seus ganhos ?

Anônimo disse...

.....alias....
Parabens pelo excelente trabalho...

Richard disse...

Anônimo,
Obrigado pelos comentários e elogios

Sobre sua pergunta, bem, a existência de mais de 100 moedas estatais atrapalha o comércio na sua opinião? As cidades de fronteira, q geralmente convivem com 2, 3, 4 moedas são "atrapalhas" por causa disso?

Se, por algum motivo, muitas moedas gerarem ineficiencias, o próprio mercado começará a "eliminar" esse excesso de moeda (as pessoas vão começar a aceitar menos moedas, vão desejar manter saldos monetários em algumas poucas moedas). No fim, o q se terá é o mercado (demandas e ofertas dos agentes) determinando o número ótimo de moedas, assim como ocorre com outros setores da economia (qto ao número ótimo de empresas, tipos de produto etc..)

Se vc imaginar q sob um free-banking o incentivo a se emitir moedas de maior qualidade é maior, então podemos até dizer q um sistema de free-banking melhora a eficiência das trocas, ao permitir q os agentes não só façam previsões de longo prazo mais corretas sobre os preços, como tbm permite q os agentes carreguem moeda (saldos monetários reais) nos seus respectivos ótimos, sem serem tributados, como ocorre no caso da moeda estatal inflacionada.