segunda-feira, 28 de abril de 2008

Mais um pouco sobre juros, investimento, inflação...

[1] Uma política monetária mais expansionista, cujo objetivo seja uma queda dos juros favorece o investimento, o que gera maior capacidade produtiva no futuro e conseqüentemente uma menor possibilidade de inflação. Não é muito difícil achar por aí esse tipo de raciocínio feito por muitos economistas e jornalistas econômicos com grande espaço na imprensa escrita. É uma explicação atraente, afinal relaciona positivamente coisas que as pessoas, em geral, consideram boas: queda de juros, inflação baixa e crescimento. É atraente, mas errada e como todo erro tem seus custos: fazendo uma política dessas, você terá mais inflação (não menos), menos crescimento e um juro mais alto do que se não tivesse feito tal política.

[2] Imagine uma curva de oferta e uma curva de demanda (ambas convencionais) por bananas. A quantidade ofertada será relacionada positivamente com os preços (quanto maior o preço da banana, mais bananas serão ofertadas). A quantidade demandada será relacionada negativamente com os preços (maior o preço, menor a procura por bananas). O preço de mercado da banana será aquele que torna a quantidade que as pessoas estão disposta a ofertar exatamente igual a quantidade que as pessoas estão querendo consumir, ou seja, é o preço que iguala oferta e demanda, que “limpa” o mercado.

[3] Tendo esse esquema em mente, o que aconteceria se o governo fixasse o preço da banana abaixo do preço de equilíbrio? Ora, a um preço mais baixo, a demanda aumentaria e a oferta diminuiria. A um preço tão baixo, não compensa produzir bananas, os ofertantes irão diminuir suas ofertas ao mercado. Mas com menos bananas ofertadas, menos bananas serão consumidas, logo uma queda do preço da banana não aumenta o consumo de bananas, não aumenta a quantidade demandada de bananas simplesmente porque a oferta (as bananas disponíveis) diminuiu. Agora, imagine uma situação completamente diferente. Uma nova tecnologia foi desenvolvida e ficou muito mais barato produzir bananas. A oferta de bananas aumentará (a curva de oferta de bananas se deslocará para a direita). Uma maior oferta de bananas, para uma dada demanda provocará um excesso de oferta que por sua vez levará a uma queda dos preços. No final temos uma queda de preços e um maior consumo de bananas. Agora, comparemos os dois casos: nos dois tivemos quedas de preço, mas em um a quantidade demandada caiu e em outro a quantidade demandada aumentou. O que provocou tal diferença? É muito simples: a diferença de incentivos sobre o ofertante. No primeiro caso, uma queda de preços exógena, provocada por uma política governamental diminui o retorno de se plantar bananas. Logo a produção cai. No segundo, um avanço técnico torna mais lucrativa a produção de bananas, o que por sua vez faz com que os produtores queiram aproveitar esses novos lucros e para isso passam a vender mais bananas.

[4] Mas o que tudo isso tem a ver com juros, investimento e inflação? Realmente, bananas não têm muito a ver, mas o raciocínio acima tem. O que determina a taxa de juros real da economia? A taxa de juros é uma espécie de preço, no caso, o preço do tempo. Como esse preço do tempo é formado? Imagine uma pessoa com R$1. Para ela, R$1 hoje é equivalente, em termos de bem estar, a receber R$1,20 daqui um ano. Para outra pessoa, R$1 hoje é equivalente a R$1,50 daqui um ano. Ora, temos então uma oportunidade de trocas mutuamente vantajosas para essas pessoas. O segundo individuo oferece ao primeiro, R$1,30 daqui um ano em troca de R$1 hoje (ou seja, pede ao primeiro um empréstimo de R$1 a 30% de juros). Para ele é um excelente negócio, afinal ele está obtendo a R$1,30 algo que para ele vale R$1,50. E o sujeito que vai emprestar? Também é um bom negócio. Ele está dando algo que vale para ele R$1,20 por R$1,30, ou seja, um lucro de R$0,10. Agora imagine a mesma situação para milhões de indivíduos. Os indivíduos com “baixa preferência temporal” (aqueles que descontam pouco o tempo, ou seja, valoram R$1 hoje a pouco mais reais futuros), serão ofertantes de bens presentes (poupança). Os indivíduos com “alta preferência temporal” (aqueles que descontam muito o tempo, ou seja, valoram R$1 hoje a muito mais reais futuros) serão demandantes de bens presentes. Repare que o carinha que emprestou o R$1 a 30% ao ano precisa se abster de consumir aquele R$1. Ele poupa hoje em troca de consumir mais no futuro (no caso R$1,30). Se ele valorasse muito o presente, não compensaria trocar R$1 de consumo hoje por R$1,30 de consumo no futuro.

[5] Dito isso, como ficam as nossas curvas de oferta e demanda por poupança? Uma maior taxa de juros torna mais atrativo poupar e postergar consumo. Logo, a quantidade ofertada de poupança será positivamente relacionada com a taxa de juros. E a demanda por poupança? Quanto mais alta as taxas de juros, maior é o consumo futuro que o individuo terá que abrir mão para obter um dado adicional de consumo presente, logo o incentivo a se fazer a troca – comprar consumo presente e vender consumo futuro, diminui, ou seja, a quantidade demandada de poupança é negativamente relacionada a taxa de juros. Qual será então a taxa de juros real de mercado? Será aquela que equilibra oferta e demanda de poupança. Exatamente como no caso da banana.

[6] Onde entram as empresas e o investimento em tudo isso? Ora, empresas em geral estão na posição de um demandante de poupança. Elas compram os bens presentes dos poupadores em troca de pagar esses bens presentes mais um adicional (os juros) ao banco que, por sua vez, os repassa aos seus depositantes (o porquê bancos entram como intermediários é economicamente interessante, mas não vem ao caso). O que acontecerá se a oferta de poupança diminuir? Para uma dada demanda por poupança, haverá um excesso de demanda o que significa que os juros subirão e a quantidade de poupança e juros de equilíbrio diminuirão.

[7] Vamos agora à política monetária do governo. Quando o governo baixa juros através de emissão de moeda, ele aumenta a oferta de poupança? É claro que não. Ele só aumentou o número de papeizinhos disponíveis na economia. Mas um juros mais baixos causa que incentivo aos poupadores? O de pouparem menos, de aumentar consumo presente às custas do consumo futuro. É exatamente como o mercado de bananas. A um menor preço (juros) pela banana (poupança), os ofertantes diminuem as quantidades ofertadas. Com uma menor quantidade ofertada de poupança, como pode o investimento (quantidade de poupança demandada) aumentar? É, não pode, exatamente como no mercado de bananas. O governo imprimir papel não cria mais laranjas, tijolos, roupas, maquinas, maças, bananas, ou seja, bens que serão demandados para investimentos (bens de capital). A única coisa que teremos é um número maior de papeizinhos disputando uma poupança menor o que gerará uma desvalorização desses papeis em relação aos bens, ou seja, inflação.

[8] E a valorização das pessoas em relação a bens presentes e bens futuros (a valoração em relação ao tempo), mudou? Não há muitas razões para supor que sim (embora possa acontecer algo que falarei depois), logo a taxa de juros real volta ao que sempre foi, aquela que equilibra demanda e oferta de poupança, mas com alguns detalhes adicionais. Numa economia de mercado moderna, empréstimos são feitos com moeda. Se a moeda se desvaloriza (inflação) ou valoriza (deflação) ao longo do tempo deste empréstimo, é necessário, para se obter a taxa de retorno adequada incluir um “prêmio” nos juros em caso de desvalorização ou um “prêmio negativo” em caso de valorização. O que teremos então é uma taxa de juros formada por dois componentes: o componente antigo devido à taxa de juros real que permanece constante (ela é determinada pelas preferências temporais dos agentes como já explicamos), e um novo componente: um prêmio para compensar a inflação do período.

[9] Se a inflação se tornar algo corriqueiro, recursos reais serão deslocados de outros setores para tentar minimizar o seu custo. Isso provoca uma perda de eficiência do setor financeiro da economia (que distribui as poupanças entre os vários investimentos), além de tornar a poupança algo mais arriscado. Logo, há uma queda real da oferta de poupança e um aumento da taxa de juros real, exatamente tudo oposto ao que a política expansionista pretendia. Obviamente com menos poupança, teremos menos investimentos, somando isso as incertezas geradas nos demais preços relativos da economia, a conseqüência é um menor crescimento e uma ineficiência maior na alocação de recursos. E, obviamente, com inflação.

[10] Para terminar, uma última coisa: é importante entender que “preço alto” (no caso juros altos), não é um problema em si, não é a causa de absolutamente nenhum dos nossos problemas. Preços são apenas indicadores de escassez extremamente úteis a qualquer sociedade. Preços em alta mostram que aquele bem em questão está em falta, que é recomendado aumentar a produção (e será exatamente isso que ocorrerá graças aos gananciosos e especuladores empresários). Impedir que os preços subam ou permaneçam altos não corrige absolutamente nada, só piora a situação: não deixa que a correção seja feita e prolonga o problema. Diminuir as taxas de juros “na força” (ou no jeitinho, ligando a impressora) não resolve o problema da taxa ser alta. Só piora como este texto procurou mostrar. Taxas de juros no Brasil são altas principalmente por incertezas e falta de confiança quanto à política monetária e fiscal (no caso da taxa básica). Já as taxas “para o público em geral” e o tal spread bancário são altos devido à excessiva tributação (inclusive em forma de reserva compulsória), regulação excessiva do setor bancário e incertezas institucionais (judiciário ineficiente no “enforçamento” de contratos). A forma de baixar juros é corrigindo essas coisas, e não ligando a impressora, que só trará o efeito oposto.

4 comentários:

Djalma Rocha disse...

Richard,o que você acharia do governo permitir que qualquer pessoa física ou jurídica emprestasse dinheiro a juros ?
Na sua opinião, por quê o Estado não permite este ato ?
E quais as conseqüecias caso todos pudessem emprestar dinheiro a juros ?

Richard disse...

Djalma,
escrevi o texto linkado abaixo onde falo um pouco sobre a sua primeira pergunta:

http://depositode.blogspot.com/2007/11/mercado-de-crdito-e-igualdade-de.html

Vejo com muito bons olhos a desregulamentação desse mercado, tanto por óbvias questões de justiça, quanto por razões econômicas. Geraria recursos adicionais p/ muita gente boa, potencialmente produtiva que não tem como mostrar aos bancos que não são mal pagadores e assim não conseguem realizar os investimentos para tornar essa “produtividade potencial” em produtividade de fato. Enfim, a liberação desse mercado geraria uma alocação de recursos mais eficiente (estimularia a concorrência, diminuiria os juros)

Sobre os motivos do governo proibir isso, não sei ao certo. Pode-se especular desde uma certa mentalidade anti-capitalista, anti-juros (a constituição até pouco tempo limitava os juros), até um certo lobby dos banqueiros para que seja assim, afinal, é uma espécie de reserva de mercado e por fim, o desejo do governo em obter informações sobre transações financeiras (é mais fácil controlar isso com poucos emprestadores e um mercado menor)

Djalma Rocha disse...

Obrigado, Richard .

Breno disse...

Richard,

Porque você não leva em consideração a diferença entre popupança publica e privada.

Quando o governo abaixo o juros ele reduz a popupança publica e aumenta a privada.

Isso significa mais investimentos feitos pela iniciativa privada, mas tambem maior risco de calote.

Reduzir juros estimulam a economia pois a investimentos privados são mais eficientes, mas tambem mais arriscados.

Vocẽ pode perder sua poupança toda na bolsa se escolher a empresa errada para emprestar.

O estado geralmente dá menos calote que as empresas. Por isso são uma opção de poupança mais segura, uma vez que o estado abaixo o juros, o risco beneficio deixa de ser interessante.

E a poupança vai para aplicações mais arrojadas que podem ser mais eficientes estimulando a economia. (Ou formar uma bolha vide Nasdaq em 2000)