quinta-feira, 17 de abril de 2008

Inflação e gastos do governo

[1] Ontem o BC aumentou a taxa de juros e não demorou muito para aparecerem trocentas teses sobre o que estava causando o aumento da inflação que motivou a ação do banco. Teses que geralmente apontam alguma causa externa, que não depende do governo e que, quase sempre levam a conclusão de que aumentar juros não teria efeito algum sobre a inflação e só atrapalharia o crescimento. Nessa “leva” o mais criativo foi o presidente da FIESP que chegou a dizer que o BC era o irlandês que atacou o maratonista brasileiro nas olimpíadas de Atenas, quebrando o seu bom ritmo e levando-o a perder a prova.

[2] O Brasil certamente é um dos campeões de teorias exóticas sobre inflação. Dos xeiques árabes, banqueiros centrais americanos, aos pobres chuchus da vida; todo mundo, que não tem muito a ver com o assunto, já foi colocado como grande vilão da inflação. Até aquela velha mania “marxista” de ficar arrumando contradições insolúveis no capitalismo já apareceu, algo do tipo: crescimento gera inflação, é impossível crescer sem ter inflação. Se você não quer inflação, não terá crescimento.

[3] No entanto, dessa vez, uma das causas apontadas para a inflação me chamou a atenção “positivamente” e é sobre ela que gostaria de comentar. Vem sendo muito divulgado que os excessivos gastos do governo estão aquecendo a demanda agregada e isso está gerando a pressão inflacionaria que levou o BC a aumentar os juros. A solução, segundo esses analistas seria cortar gastos (e não a ação realizada pelo BC).

[4] Eu considero esse diagnóstico um erro (pelo menos na explicação do por que gastos do governo gerariam inflação), um “erro do bem”, mas que como todo erro, pode virar um erro “normal” e gerar conseqüências bem ruins. Como o bom velhinho de Chicago (Milton Friedman) já nos ensinava na segunda metade do século passado, inflação é, em qualquer momento, em qualquer lugar sempre um fenômeno monetário. É uma frase de efeito para dizer que a causa verdadeira é o excesso de oferta de moeda. O mecanismo é basicamente o seguinte: os agentes desejam manter um determinado saldo monetário real, um montante de poder de compra em suas carteiras. Se o emissor da moeda coloca moeda adicional no mercado, por exemplo, compra títulos em troca de moeda por uma taxa que obviamente ambas as partes concordam, o agente que recebeu a nova moeda não deseja adicionar essa nova moeda nos seus saldos monetários (se ele desejasse o problema acabava aqui, era só um ofertante saciando uma demanda através do aumento da quantidade). Ele já está no “ótimo”. O que nosso receptor de moeda fará então? Passará essa moeda adiante, ou seja, ofertará moeda em troca de outros bens. Mas imagine que todos estão no ótimo em relação aos seus saldos monetários reais. Todos que receberem a nova moeda quererão trocá-la por bens. O que ocorrerá é que todos ofertarão moeda em troca de bens e isso levará a um aumento do preço dos bens em termos de moeda, ou seja, inflação.

[5] A inflação é o mecanismo que torna uma dada quantidade nominal de moeda (número de papeizinhos) compatível com um dado montante de saldos reais que as pessoas desejam manter. Se as pessoas desejam manter o mesmo montante de saldos reais e você tem mais papeis disponíveis, o que acontecerá é que cada papel terá um poder de compra, um “valor real” menor (o poder de compra será distribuído entre a quantidade maior de papeizinhos). Isso é a inflação. Ela é gerada quando o mercado monetário, ou seja, a demanda e oferta de moeda (saldos monetários) estão em desequilíbrio. Como em todo mercado, se você tem um excesso de oferta, o preço do bem cai, no nosso caso, o preço da moeda, aquela quantidade de bens que você precisa dar para obter moeda cai, o que significa dizer que o poder de compra da moeda diminuiu, ou seja, temos aquilo que é geralmente denominado de inflação. Se ocorre o contrário, um excesso de demanda por moeda, então o preço da moeda sobe, ela passa a comprar mais bens. É o que conhecemos como deflação. A única coisa que realmente importa, que causa inflação é um excesso de oferta de moeda, um desequilíbrio entre oferta (maior) e demanda (menor) de moeda.

[6] Onde entra os gastos do governo em tudo isso? Bem, o governo não consome nem gasta o que não existe. Ele precisa retirar os bens que gasta de algum lugar. Basicamente existe uma única maneira de governos fazerem isso: tributando. Ele pode tributar abertamente no presente (elevar impostos). Ele pode anunciar que tributará futuramente (obviamente ele nunca anuncia isso, ele simplesmente vai ao mercado financeiro e empresta recursos, que serão pagos no futuro exatamente com tributação). Ou ele ainda pode tributar no presente, mas “escondido”, emitindo moeda adicional que gerará inflação no futuro (aí aparece um monte de economista culpando a lua pela inflação e livra a cara dessa tão benevolente instituição). Emitir moeda excessivamente e gerar inflação é no fundo uma espécie de tributação sobre os saldos monetários, você perde poder de compra e o governo, com a moeda adicional em mãos, ganha poder de compra. É uma “transferência” de bens do demandante de saldos reais para o emissor da moeda.

[7] Durante toda a década de 80, época da hiperinflação, era da última forma que o governo se financiava. Emissão violenta de moeda. Na década de 90 a história mudou. A inflação, além de penalizar os demandantes de moeda, gera um péssimo imposto, principalmente quando as taxas de inflação vão às alturas. Há distorções brutais de preços relativos, dada a imprevisibilidade contida nas grandes taxas, além de se fomentar todo um setor (deslocar recursos reais) para evitar seus custos. Por essas e outras, na década de 90, apesar do desgosto de alguns inflacionistas, a inflação passou a ser meio que “intolerada”. Para pará-la foi feito o que sempre deve ser feito: a impressora foi desligada (obviamente tem mais uns detalhes relevantes que comentarei depois). Mas, por outro lado, os gastos do governo não diminuíram, eles aumentaram (em parte graças à constituição de 1988 que colocou o governo como ofertante de quase tudo). Sem a impressora, só sobrou emprestar (tributar no futuro) ou tributar abertamente no presente. E é isso que ocorreu por todo o governo FHC e governo Lula. Um misto de aumento de tributação com aumento do endividamento (embora em termos relativos ao PIB essas coisas tenham se mantido “mais ou menos” estáveis de um tempo para cá).

[8] Qual a relação entre gastos do governo e inflação então? Basicamente ela se dá de duas formas: a primeira e óbvia, gastos do governo são um bom motivo para se emitir moeda. É uma maneira de se tributar “escondida”, rápida (não precisa passar pela câmara, senado etc..) e até “popular” já que emissões de moeda podem gerar alguma expansão de curto prazo, queda das taxas de juros num primeiro momento etc.. A outra relação ocorre na demanda por moeda e é um pouco mais “teórica” (ou abstrata). Se o governo começa a gastar demais a possibilidade dele se financiar com empréstimos vai ficando cada vez menor (as taxas de juros vão se elevando, e as contas do governo explodirão, até o total corte dos empréstimos). Aumentar impostos também tem seus limites, limites refletidos na popularidade do governo. Resta então qual saída? Emitir moeda. Mas se as pessoas esperam que o governo vá emitir moeda (produzir inflação), não faz sentido manter nos seus bolsos o “alvo” dessa tributação, dessa inflação. Se hoje, com R$1 eu compro 1 maça, mas “amanhã” comprarei 0,8 maças, então compensa comprar a maça hoje. Em termos mais gerais, se as pessoas esperam inflação (tributação via moeda), então elas demandarão menos moeda. Mas se a oferta de moeda (a quantidade de papeizinhos disponíveis) não mudou, essa menor e nova demanda terá que se compatibilizar com a antiga oferta. Temos um excesso de oferta de moeda porque a demanda caiu. O resultado de tudo isso será inflação (o mecanismo que equilibra oferta e demanda de moeda). Resumindo: excessivos gastos do governo, por gerarem expectativas de aumento da taxa de inflação e isso diminuir a demanda por moeda, causam inflação hoje.

[9] Por que então, nos programas de estabilização é recomendado que o governo corte gastos? Não é por que os gastos do governo em si (sem mexer com a oferta de moeda) aumentem a demanda agregada. Gastos do governo não fazem isso. O que o governo gasta ele tira de algum lugar. São os mesmos bens que estavam sendo consumidos ou investidos pelos agentes privados. O que o governo faz é só diminuir essas duas coisas (consumo e investimento, provavelmente mais esse segundo) na mesma proporção que aumenta o que ele gasta, afinal, foi exatamente daí que ele tirou os recursos que agora estão sob seu controle. Não existe mágica da “multiplicação dos bens”. Os gastos do governo só importam para inflação quando são causa de emissão de moeda e geram expectativas de inflação. Qualquer gasto que não causar isso, não fará absolutamente nada para a inflação porque não mexe com oferta e demanda de moeda. A recomendação para cortar gastos vem disso: com menos gastos eles podem ser financiados via impostos “normais” e via impostos futuros (empréstimos), acabando a “necessidade” de se emitir moeda. Além disso, menores gastos diminuem a possibilidade do governo ter que vir a emitir moeda no futuro (inflação futura), diminuindo assim a expectativa de inflação.

[10] Como essas recomendações foram seguidas pelo Brasil no plano real? Na verdade não foram. O que ocorreu foi um imenso empréstimo em dólares do FMI concedido ao Brasil. Com essas reservas em dólares achou-se uma solução paliativa, de curto prazo e politicamente menos complicada. O Brasil “atrelou” o real ao dólar com o cofre cheio de dólares. O que isso significa em termos de expectativas de inflação e emissão de moeda? O FED americano é menos inflacionista que o brasileiro, ou seja, gera menos excessos de oferta de moeda e conseqüentemente o dólar tem um poder de compra relativamente mais estável. Para o governo brasileiro conseguir manter a taxa fixada, é preciso limitar as emissões de real na mesma “proporção” que as emissões de dólar, ou seja, a inflação brasileira fica atrelada à inflação americana (bem mais baixa) se o governo cumprir o prometido. E como ele “garante” que vai cumprir? Exibindo os zilhões em reservas de dólar. Obviamente nada disso adianta se o verdadeiro ajuste fiscal não é feito. A coisa estourou em 98/99 e o governo se viu obrigado a fazer pelo menos uma parte do ajuste aumentando impostos abertamente. No entanto toda essa manobra serviu para acabar com a inflação (óbvio que após estourar o governo teve que dar uma bela enxugada na oferta de moeda – os juros foram para cima dos 40% justamente para não jogar fora tudo o que tinha sido feito).

[11] Enfim, gastos do governo, por si só, não aquecem a demanda agregada e não afetam a inflação. Só demanda e oferta de moeda afetam a inflação. Se os gastos do governo afetarem essas coisas, então, por mudarem demanda e oferta de moeda, é que a inflação será afetada. A idéia de cortar gastos é excelente principalmente para crescimento de longo prazo (por isso disse que era um erro bom) – obviamente o efeito será tão maior, quanto mais forte for o corte. Acredito que seja até interessante para controlar a inflação (no sentido de mexer com as expectativas de inflação como foi explicado no texto), mas obviamente não dispensa o controle rígido da oferta de moeda que a política monetária deve fazer (através de metas de inflação como é hoje). Não significa que se o governo cortar gastos, o BC pode colocar a impressa no turbo. Se o governo emite moeda, além do efeito óbvio na oferta de moeda, as pessoas incorporarão isso na sua expectativa de inflação, que subirá. O efeito “baixista” nas expectativas provocadas pelo corte de gasto não existirá, afinal, o governo corta gastos exatamente para emitir mais moeda (produzir inflação). Só quando se acha que gastos do governo afetam diretamente a demanda agregada é que esse raciocínio de compensação nas políticas faria algum sentido. E aí está o problema do erro inicial (sobre os efeitos dos gastos do governo na demanda), que pode torná-lo “do mal”. Uma relação causal errada gera diagnósticos errados e conseqüentemente políticas erradas. Dei esse exemplo da compensação das políticas (fiscal apertada e monetária frouxa), mas existem outros exemplos, como as famosas políticas contra-cíclicas keynesianas: se gastos do governo fomentam a demanda agregada, então em época de recessão, o governo gastar pode parecer uma boa idéia, já que pode compensar uma suposta queda de demanda agregada.

[12] No fundo, o fracasso brasileiro em lidar com a inflação tem muito a ver com um erro fundamental do tipo acima: não ter aprendido a velha lição do mestre de Chicago (e também de tantos outros economistas) sobre suas causas.

3 comentários:

Fernando A. filho disse...

segundo a 'fodástica' equação quantitativa da moeda temo

M.V = P.Q

sabemos que produto não eh constante, considerando um crescimento (arredondando) de 5% e uma expansao da base monetária de 20% neste ano de 2007, a inflação deveria ser de pelo menos de 15%

É complicado que ainda existam pessoas que tentam explicar inflação via moeda unicamente.

Por que a inflação deu apenas agora sinais de vida? Se exatamente nos ultimos vezes, vem reduzindo a partipação dos gastos publicos no PIB.

O Brasil foi reconhecido pelas teorias de inflação Know How que nenhum outro país possuia. Lembre se que foi tentado choques ortodoxos nos periodos inflacionários no Brasil, que foi seguido de fracassos com os planos heterodoxos, mas que so teve 'exito' com o plano real - diga se de passagem, por diversos motivos, mas um interessante a ressalatar é considerar que existem inumeras variaveis para inflação.

Acredito que sua analise sobre as variaveis que afetam a inflação é muito correta, porem não é compativel com a realidade.

Boletim de conjuntura

Richard disse...

Não adianta chorar. É a moeda a única responsável pela inflação, apesar de alguns criativos economistas brasileiros dizerem q não e ficarem botando a culpa no chuchu. Sem mais moeda, não existe forma de se ter um excesso de demanda por todos os bens (generalizado).

Ah, e tbm não adianta subir a taxa de juros em "0,5%", a inflação não parar e depois com aquele ar de "inteligência" o sabichão vir a público: tá vendo, subimos os juros como os ortodoxos queriam e ela não acabou.... os tais citados "choques ortodoxos" não passaram de coisas desse tipo.

Anônimo disse...

Acredito que a definição do Mises para inflação ilutra bem o seu artigo : "O que as pessoas hoje chamam de inflação não é inflação -isto é, o aumento na quantidade de dinheiro e de seus substitutos- , mas, sim, o aumento generalizado dos preços das commodities e dos salários(e do chuchu!), que é a consequência inevitável da inflação.(Mises, Planning for Freedom, pág.79).