segunda-feira, 28 de abril de 2008

Mais um pouco sobre juros, investimento, inflação...

[1] Uma política monetária mais expansionista, cujo objetivo seja uma queda dos juros favorece o investimento, o que gera maior capacidade produtiva no futuro e conseqüentemente uma menor possibilidade de inflação. Não é muito difícil achar por aí esse tipo de raciocínio feito por muitos economistas e jornalistas econômicos com grande espaço na imprensa escrita. É uma explicação atraente, afinal relaciona positivamente coisas que as pessoas, em geral, consideram boas: queda de juros, inflação baixa e crescimento. É atraente, mas errada e como todo erro tem seus custos: fazendo uma política dessas, você terá mais inflação (não menos), menos crescimento e um juro mais alto do que se não tivesse feito tal política.

[2] Imagine uma curva de oferta e uma curva de demanda (ambas convencionais) por bananas. A quantidade ofertada será relacionada positivamente com os preços (quanto maior o preço da banana, mais bananas serão ofertadas). A quantidade demandada será relacionada negativamente com os preços (maior o preço, menor a procura por bananas). O preço de mercado da banana será aquele que torna a quantidade que as pessoas estão disposta a ofertar exatamente igual a quantidade que as pessoas estão querendo consumir, ou seja, é o preço que iguala oferta e demanda, que “limpa” o mercado.

[3] Tendo esse esquema em mente, o que aconteceria se o governo fixasse o preço da banana abaixo do preço de equilíbrio? Ora, a um preço mais baixo, a demanda aumentaria e a oferta diminuiria. A um preço tão baixo, não compensa produzir bananas, os ofertantes irão diminuir suas ofertas ao mercado. Mas com menos bananas ofertadas, menos bananas serão consumidas, logo uma queda do preço da banana não aumenta o consumo de bananas, não aumenta a quantidade demandada de bananas simplesmente porque a oferta (as bananas disponíveis) diminuiu. Agora, imagine uma situação completamente diferente. Uma nova tecnologia foi desenvolvida e ficou muito mais barato produzir bananas. A oferta de bananas aumentará (a curva de oferta de bananas se deslocará para a direita). Uma maior oferta de bananas, para uma dada demanda provocará um excesso de oferta que por sua vez levará a uma queda dos preços. No final temos uma queda de preços e um maior consumo de bananas. Agora, comparemos os dois casos: nos dois tivemos quedas de preço, mas em um a quantidade demandada caiu e em outro a quantidade demandada aumentou. O que provocou tal diferença? É muito simples: a diferença de incentivos sobre o ofertante. No primeiro caso, uma queda de preços exógena, provocada por uma política governamental diminui o retorno de se plantar bananas. Logo a produção cai. No segundo, um avanço técnico torna mais lucrativa a produção de bananas, o que por sua vez faz com que os produtores queiram aproveitar esses novos lucros e para isso passam a vender mais bananas.

[4] Mas o que tudo isso tem a ver com juros, investimento e inflação? Realmente, bananas não têm muito a ver, mas o raciocínio acima tem. O que determina a taxa de juros real da economia? A taxa de juros é uma espécie de preço, no caso, o preço do tempo. Como esse preço do tempo é formado? Imagine uma pessoa com R$1. Para ela, R$1 hoje é equivalente, em termos de bem estar, a receber R$1,20 daqui um ano. Para outra pessoa, R$1 hoje é equivalente a R$1,50 daqui um ano. Ora, temos então uma oportunidade de trocas mutuamente vantajosas para essas pessoas. O segundo individuo oferece ao primeiro, R$1,30 daqui um ano em troca de R$1 hoje (ou seja, pede ao primeiro um empréstimo de R$1 a 30% de juros). Para ele é um excelente negócio, afinal ele está obtendo a R$1,30 algo que para ele vale R$1,50. E o sujeito que vai emprestar? Também é um bom negócio. Ele está dando algo que vale para ele R$1,20 por R$1,30, ou seja, um lucro de R$0,10. Agora imagine a mesma situação para milhões de indivíduos. Os indivíduos com “baixa preferência temporal” (aqueles que descontam pouco o tempo, ou seja, valoram R$1 hoje a pouco mais reais futuros), serão ofertantes de bens presentes (poupança). Os indivíduos com “alta preferência temporal” (aqueles que descontam muito o tempo, ou seja, valoram R$1 hoje a muito mais reais futuros) serão demandantes de bens presentes. Repare que o carinha que emprestou o R$1 a 30% ao ano precisa se abster de consumir aquele R$1. Ele poupa hoje em troca de consumir mais no futuro (no caso R$1,30). Se ele valorasse muito o presente, não compensaria trocar R$1 de consumo hoje por R$1,30 de consumo no futuro.

[5] Dito isso, como ficam as nossas curvas de oferta e demanda por poupança? Uma maior taxa de juros torna mais atrativo poupar e postergar consumo. Logo, a quantidade ofertada de poupança será positivamente relacionada com a taxa de juros. E a demanda por poupança? Quanto mais alta as taxas de juros, maior é o consumo futuro que o individuo terá que abrir mão para obter um dado adicional de consumo presente, logo o incentivo a se fazer a troca – comprar consumo presente e vender consumo futuro, diminui, ou seja, a quantidade demandada de poupança é negativamente relacionada a taxa de juros. Qual será então a taxa de juros real de mercado? Será aquela que equilibra oferta e demanda de poupança. Exatamente como no caso da banana.

[6] Onde entram as empresas e o investimento em tudo isso? Ora, empresas em geral estão na posição de um demandante de poupança. Elas compram os bens presentes dos poupadores em troca de pagar esses bens presentes mais um adicional (os juros) ao banco que, por sua vez, os repassa aos seus depositantes (o porquê bancos entram como intermediários é economicamente interessante, mas não vem ao caso). O que acontecerá se a oferta de poupança diminuir? Para uma dada demanda por poupança, haverá um excesso de demanda o que significa que os juros subirão e a quantidade de poupança e juros de equilíbrio diminuirão.

[7] Vamos agora à política monetária do governo. Quando o governo baixa juros através de emissão de moeda, ele aumenta a oferta de poupança? É claro que não. Ele só aumentou o número de papeizinhos disponíveis na economia. Mas um juros mais baixos causa que incentivo aos poupadores? O de pouparem menos, de aumentar consumo presente às custas do consumo futuro. É exatamente como o mercado de bananas. A um menor preço (juros) pela banana (poupança), os ofertantes diminuem as quantidades ofertadas. Com uma menor quantidade ofertada de poupança, como pode o investimento (quantidade de poupança demandada) aumentar? É, não pode, exatamente como no mercado de bananas. O governo imprimir papel não cria mais laranjas, tijolos, roupas, maquinas, maças, bananas, ou seja, bens que serão demandados para investimentos (bens de capital). A única coisa que teremos é um número maior de papeizinhos disputando uma poupança menor o que gerará uma desvalorização desses papeis em relação aos bens, ou seja, inflação.

[8] E a valorização das pessoas em relação a bens presentes e bens futuros (a valoração em relação ao tempo), mudou? Não há muitas razões para supor que sim (embora possa acontecer algo que falarei depois), logo a taxa de juros real volta ao que sempre foi, aquela que equilibra demanda e oferta de poupança, mas com alguns detalhes adicionais. Numa economia de mercado moderna, empréstimos são feitos com moeda. Se a moeda se desvaloriza (inflação) ou valoriza (deflação) ao longo do tempo deste empréstimo, é necessário, para se obter a taxa de retorno adequada incluir um “prêmio” nos juros em caso de desvalorização ou um “prêmio negativo” em caso de valorização. O que teremos então é uma taxa de juros formada por dois componentes: o componente antigo devido à taxa de juros real que permanece constante (ela é determinada pelas preferências temporais dos agentes como já explicamos), e um novo componente: um prêmio para compensar a inflação do período.

[9] Se a inflação se tornar algo corriqueiro, recursos reais serão deslocados de outros setores para tentar minimizar o seu custo. Isso provoca uma perda de eficiência do setor financeiro da economia (que distribui as poupanças entre os vários investimentos), além de tornar a poupança algo mais arriscado. Logo, há uma queda real da oferta de poupança e um aumento da taxa de juros real, exatamente tudo oposto ao que a política expansionista pretendia. Obviamente com menos poupança, teremos menos investimentos, somando isso as incertezas geradas nos demais preços relativos da economia, a conseqüência é um menor crescimento e uma ineficiência maior na alocação de recursos. E, obviamente, com inflação.

[10] Para terminar, uma última coisa: é importante entender que “preço alto” (no caso juros altos), não é um problema em si, não é a causa de absolutamente nenhum dos nossos problemas. Preços são apenas indicadores de escassez extremamente úteis a qualquer sociedade. Preços em alta mostram que aquele bem em questão está em falta, que é recomendado aumentar a produção (e será exatamente isso que ocorrerá graças aos gananciosos e especuladores empresários). Impedir que os preços subam ou permaneçam altos não corrige absolutamente nada, só piora a situação: não deixa que a correção seja feita e prolonga o problema. Diminuir as taxas de juros “na força” (ou no jeitinho, ligando a impressora) não resolve o problema da taxa ser alta. Só piora como este texto procurou mostrar. Taxas de juros no Brasil são altas principalmente por incertezas e falta de confiança quanto à política monetária e fiscal (no caso da taxa básica). Já as taxas “para o público em geral” e o tal spread bancário são altos devido à excessiva tributação (inclusive em forma de reserva compulsória), regulação excessiva do setor bancário e incertezas institucionais (judiciário ineficiente no “enforçamento” de contratos). A forma de baixar juros é corrigindo essas coisas, e não ligando a impressora, que só trará o efeito oposto.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Inflação e gastos do governo

[1] Ontem o BC aumentou a taxa de juros e não demorou muito para aparecerem trocentas teses sobre o que estava causando o aumento da inflação que motivou a ação do banco. Teses que geralmente apontam alguma causa externa, que não depende do governo e que, quase sempre levam a conclusão de que aumentar juros não teria efeito algum sobre a inflação e só atrapalharia o crescimento. Nessa “leva” o mais criativo foi o presidente da FIESP que chegou a dizer que o BC era o irlandês que atacou o maratonista brasileiro nas olimpíadas de Atenas, quebrando o seu bom ritmo e levando-o a perder a prova.

[2] O Brasil certamente é um dos campeões de teorias exóticas sobre inflação. Dos xeiques árabes, banqueiros centrais americanos, aos pobres chuchus da vida; todo mundo, que não tem muito a ver com o assunto, já foi colocado como grande vilão da inflação. Até aquela velha mania “marxista” de ficar arrumando contradições insolúveis no capitalismo já apareceu, algo do tipo: crescimento gera inflação, é impossível crescer sem ter inflação. Se você não quer inflação, não terá crescimento.

[3] No entanto, dessa vez, uma das causas apontadas para a inflação me chamou a atenção “positivamente” e é sobre ela que gostaria de comentar. Vem sendo muito divulgado que os excessivos gastos do governo estão aquecendo a demanda agregada e isso está gerando a pressão inflacionaria que levou o BC a aumentar os juros. A solução, segundo esses analistas seria cortar gastos (e não a ação realizada pelo BC).

[4] Eu considero esse diagnóstico um erro (pelo menos na explicação do por que gastos do governo gerariam inflação), um “erro do bem”, mas que como todo erro, pode virar um erro “normal” e gerar conseqüências bem ruins. Como o bom velhinho de Chicago (Milton Friedman) já nos ensinava na segunda metade do século passado, inflação é, em qualquer momento, em qualquer lugar sempre um fenômeno monetário. É uma frase de efeito para dizer que a causa verdadeira é o excesso de oferta de moeda. O mecanismo é basicamente o seguinte: os agentes desejam manter um determinado saldo monetário real, um montante de poder de compra em suas carteiras. Se o emissor da moeda coloca moeda adicional no mercado, por exemplo, compra títulos em troca de moeda por uma taxa que obviamente ambas as partes concordam, o agente que recebeu a nova moeda não deseja adicionar essa nova moeda nos seus saldos monetários (se ele desejasse o problema acabava aqui, era só um ofertante saciando uma demanda através do aumento da quantidade). Ele já está no “ótimo”. O que nosso receptor de moeda fará então? Passará essa moeda adiante, ou seja, ofertará moeda em troca de outros bens. Mas imagine que todos estão no ótimo em relação aos seus saldos monetários reais. Todos que receberem a nova moeda quererão trocá-la por bens. O que ocorrerá é que todos ofertarão moeda em troca de bens e isso levará a um aumento do preço dos bens em termos de moeda, ou seja, inflação.

[5] A inflação é o mecanismo que torna uma dada quantidade nominal de moeda (número de papeizinhos) compatível com um dado montante de saldos reais que as pessoas desejam manter. Se as pessoas desejam manter o mesmo montante de saldos reais e você tem mais papeis disponíveis, o que acontecerá é que cada papel terá um poder de compra, um “valor real” menor (o poder de compra será distribuído entre a quantidade maior de papeizinhos). Isso é a inflação. Ela é gerada quando o mercado monetário, ou seja, a demanda e oferta de moeda (saldos monetários) estão em desequilíbrio. Como em todo mercado, se você tem um excesso de oferta, o preço do bem cai, no nosso caso, o preço da moeda, aquela quantidade de bens que você precisa dar para obter moeda cai, o que significa dizer que o poder de compra da moeda diminuiu, ou seja, temos aquilo que é geralmente denominado de inflação. Se ocorre o contrário, um excesso de demanda por moeda, então o preço da moeda sobe, ela passa a comprar mais bens. É o que conhecemos como deflação. A única coisa que realmente importa, que causa inflação é um excesso de oferta de moeda, um desequilíbrio entre oferta (maior) e demanda (menor) de moeda.

[6] Onde entra os gastos do governo em tudo isso? Bem, o governo não consome nem gasta o que não existe. Ele precisa retirar os bens que gasta de algum lugar. Basicamente existe uma única maneira de governos fazerem isso: tributando. Ele pode tributar abertamente no presente (elevar impostos). Ele pode anunciar que tributará futuramente (obviamente ele nunca anuncia isso, ele simplesmente vai ao mercado financeiro e empresta recursos, que serão pagos no futuro exatamente com tributação). Ou ele ainda pode tributar no presente, mas “escondido”, emitindo moeda adicional que gerará inflação no futuro (aí aparece um monte de economista culpando a lua pela inflação e livra a cara dessa tão benevolente instituição). Emitir moeda excessivamente e gerar inflação é no fundo uma espécie de tributação sobre os saldos monetários, você perde poder de compra e o governo, com a moeda adicional em mãos, ganha poder de compra. É uma “transferência” de bens do demandante de saldos reais para o emissor da moeda.

[7] Durante toda a década de 80, época da hiperinflação, era da última forma que o governo se financiava. Emissão violenta de moeda. Na década de 90 a história mudou. A inflação, além de penalizar os demandantes de moeda, gera um péssimo imposto, principalmente quando as taxas de inflação vão às alturas. Há distorções brutais de preços relativos, dada a imprevisibilidade contida nas grandes taxas, além de se fomentar todo um setor (deslocar recursos reais) para evitar seus custos. Por essas e outras, na década de 90, apesar do desgosto de alguns inflacionistas, a inflação passou a ser meio que “intolerada”. Para pará-la foi feito o que sempre deve ser feito: a impressora foi desligada (obviamente tem mais uns detalhes relevantes que comentarei depois). Mas, por outro lado, os gastos do governo não diminuíram, eles aumentaram (em parte graças à constituição de 1988 que colocou o governo como ofertante de quase tudo). Sem a impressora, só sobrou emprestar (tributar no futuro) ou tributar abertamente no presente. E é isso que ocorreu por todo o governo FHC e governo Lula. Um misto de aumento de tributação com aumento do endividamento (embora em termos relativos ao PIB essas coisas tenham se mantido “mais ou menos” estáveis de um tempo para cá).

[8] Qual a relação entre gastos do governo e inflação então? Basicamente ela se dá de duas formas: a primeira e óbvia, gastos do governo são um bom motivo para se emitir moeda. É uma maneira de se tributar “escondida”, rápida (não precisa passar pela câmara, senado etc..) e até “popular” já que emissões de moeda podem gerar alguma expansão de curto prazo, queda das taxas de juros num primeiro momento etc.. A outra relação ocorre na demanda por moeda e é um pouco mais “teórica” (ou abstrata). Se o governo começa a gastar demais a possibilidade dele se financiar com empréstimos vai ficando cada vez menor (as taxas de juros vão se elevando, e as contas do governo explodirão, até o total corte dos empréstimos). Aumentar impostos também tem seus limites, limites refletidos na popularidade do governo. Resta então qual saída? Emitir moeda. Mas se as pessoas esperam que o governo vá emitir moeda (produzir inflação), não faz sentido manter nos seus bolsos o “alvo” dessa tributação, dessa inflação. Se hoje, com R$1 eu compro 1 maça, mas “amanhã” comprarei 0,8 maças, então compensa comprar a maça hoje. Em termos mais gerais, se as pessoas esperam inflação (tributação via moeda), então elas demandarão menos moeda. Mas se a oferta de moeda (a quantidade de papeizinhos disponíveis) não mudou, essa menor e nova demanda terá que se compatibilizar com a antiga oferta. Temos um excesso de oferta de moeda porque a demanda caiu. O resultado de tudo isso será inflação (o mecanismo que equilibra oferta e demanda de moeda). Resumindo: excessivos gastos do governo, por gerarem expectativas de aumento da taxa de inflação e isso diminuir a demanda por moeda, causam inflação hoje.

[9] Por que então, nos programas de estabilização é recomendado que o governo corte gastos? Não é por que os gastos do governo em si (sem mexer com a oferta de moeda) aumentem a demanda agregada. Gastos do governo não fazem isso. O que o governo gasta ele tira de algum lugar. São os mesmos bens que estavam sendo consumidos ou investidos pelos agentes privados. O que o governo faz é só diminuir essas duas coisas (consumo e investimento, provavelmente mais esse segundo) na mesma proporção que aumenta o que ele gasta, afinal, foi exatamente daí que ele tirou os recursos que agora estão sob seu controle. Não existe mágica da “multiplicação dos bens”. Os gastos do governo só importam para inflação quando são causa de emissão de moeda e geram expectativas de inflação. Qualquer gasto que não causar isso, não fará absolutamente nada para a inflação porque não mexe com oferta e demanda de moeda. A recomendação para cortar gastos vem disso: com menos gastos eles podem ser financiados via impostos “normais” e via impostos futuros (empréstimos), acabando a “necessidade” de se emitir moeda. Além disso, menores gastos diminuem a possibilidade do governo ter que vir a emitir moeda no futuro (inflação futura), diminuindo assim a expectativa de inflação.

[10] Como essas recomendações foram seguidas pelo Brasil no plano real? Na verdade não foram. O que ocorreu foi um imenso empréstimo em dólares do FMI concedido ao Brasil. Com essas reservas em dólares achou-se uma solução paliativa, de curto prazo e politicamente menos complicada. O Brasil “atrelou” o real ao dólar com o cofre cheio de dólares. O que isso significa em termos de expectativas de inflação e emissão de moeda? O FED americano é menos inflacionista que o brasileiro, ou seja, gera menos excessos de oferta de moeda e conseqüentemente o dólar tem um poder de compra relativamente mais estável. Para o governo brasileiro conseguir manter a taxa fixada, é preciso limitar as emissões de real na mesma “proporção” que as emissões de dólar, ou seja, a inflação brasileira fica atrelada à inflação americana (bem mais baixa) se o governo cumprir o prometido. E como ele “garante” que vai cumprir? Exibindo os zilhões em reservas de dólar. Obviamente nada disso adianta se o verdadeiro ajuste fiscal não é feito. A coisa estourou em 98/99 e o governo se viu obrigado a fazer pelo menos uma parte do ajuste aumentando impostos abertamente. No entanto toda essa manobra serviu para acabar com a inflação (óbvio que após estourar o governo teve que dar uma bela enxugada na oferta de moeda – os juros foram para cima dos 40% justamente para não jogar fora tudo o que tinha sido feito).

[11] Enfim, gastos do governo, por si só, não aquecem a demanda agregada e não afetam a inflação. Só demanda e oferta de moeda afetam a inflação. Se os gastos do governo afetarem essas coisas, então, por mudarem demanda e oferta de moeda, é que a inflação será afetada. A idéia de cortar gastos é excelente principalmente para crescimento de longo prazo (por isso disse que era um erro bom) – obviamente o efeito será tão maior, quanto mais forte for o corte. Acredito que seja até interessante para controlar a inflação (no sentido de mexer com as expectativas de inflação como foi explicado no texto), mas obviamente não dispensa o controle rígido da oferta de moeda que a política monetária deve fazer (através de metas de inflação como é hoje). Não significa que se o governo cortar gastos, o BC pode colocar a impressa no turbo. Se o governo emite moeda, além do efeito óbvio na oferta de moeda, as pessoas incorporarão isso na sua expectativa de inflação, que subirá. O efeito “baixista” nas expectativas provocadas pelo corte de gasto não existirá, afinal, o governo corta gastos exatamente para emitir mais moeda (produzir inflação). Só quando se acha que gastos do governo afetam diretamente a demanda agregada é que esse raciocínio de compensação nas políticas faria algum sentido. E aí está o problema do erro inicial (sobre os efeitos dos gastos do governo na demanda), que pode torná-lo “do mal”. Uma relação causal errada gera diagnósticos errados e conseqüentemente políticas erradas. Dei esse exemplo da compensação das políticas (fiscal apertada e monetária frouxa), mas existem outros exemplos, como as famosas políticas contra-cíclicas keynesianas: se gastos do governo fomentam a demanda agregada, então em época de recessão, o governo gastar pode parecer uma boa idéia, já que pode compensar uma suposta queda de demanda agregada.

[12] No fundo, o fracasso brasileiro em lidar com a inflação tem muito a ver com um erro fundamental do tipo acima: não ter aprendido a velha lição do mestre de Chicago (e também de tantos outros economistas) sobre suas causas.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Censura

Se Google não colaborar, CPI pode fechar o Orkut, diz senador

Pornografia infantil se chama Orkut, afirma procurador

Justiça do Rio Grande do Sul proíbe jogo Bully em todo Brasil

Decisão judicial ameaça bloquear acesso ao Wordpress no Brasil


Por que alguém não proíbe certos juízes, procuradores e senadores de irem trabalhar? O "dano" seria menor se eles recebessem para ficarem em casa assistindo Sessão da Tarde, Vale a pena ver de novo.


Aliás, por que será que todo governo adora "regular" a internet? Um pote de sorvete de pistache para quem adivinhar...

terça-feira, 8 de abril de 2008

Um falso problema

[1] Hoje estava eu jogando fora e arrumando umas coisas aqui em casa quando me deparei com vários textos de economia brasileira (na graduação de economia, Economia Brasileira era uma das disciplinas obrigatórias). Dei uma passadela de olho em vários destes textos e é incrível como, além de chatos, possuem uma verdadeira tara por um dos maiores “falsos problemas” da economia, a questão do balanço de pagamento (ou, às vezes, chamada de “questão externa” nos textos).

[2] Balanço de pagamentos, como todo “demonstrativo contábil” sempre tem créditos iguais a débitos. No fim, ele sempre se “equilibra”, zera. É feito para ser assim. O problema são as explicações econômicas por trás de tudo isso. Economicamente, por trás do BP está a demanda e oferta de moeda estrangeira. Itens que entram positivamente (como crédito no BP) são fontes de oferta de moeda estrangeira, por exemplo, exportações e entradas de capitais (quando um estrangeiro quer “trazer capital” para o Brasil, ele oferta moeda estrangeira, geralmente dólar e deseja títulos em troca). A mesma lógica serve, por exemplo, para exportações (um estrangeiro quer um carro e oferta dólar pelo carro). Já Itens que entram negativamente (débito no BP), como importações, saída de capitais, são fontes de demanda de moeda estrangeira. E obviamente, por trás das ofertas e demandas por moeda estrangeira estão agentes econômicos que desejam por alguma razão comprar e vender moedas estrangeiras.

[3] Em um mercado livre de moeda estrangeira (vamos supor o dólar como sendo a moeda estrangeira), o preço (R$/US$) é determinado pela oferta e demanda de dólares. Se a demanda de dólares excede a oferta, o preço de um dólar (a taxa de câmbio – R$/US$) sobe de forma a equilibrar oferta e demanda. A taxa de câmbio subir significa que o real é depreciado, 1R$ compra menos dólares. Se o contrário ocorre, um excedente de oferta de dólares, então o preço do dólar, a taxa de câmbio (R$/US$) cai, ou seja, o real se aprecia (R$1 compra mais dólares). Qual a relação disso com o balanço de pagamentos? Simples, todas as entradas do balanço de pagamento estão relacionadas à oferta e demanda de moeda estrangeira, na verdade, todo o gasto de um residente no Brasil no exterior significa uma correspondente demanda de moeda estrangeira (dólar) e todos os recebimentos oriundos do exterior de um residente do Brasil significa uma correspondente oferta de moeda estrangeira (dólar). Como o BP não é nada mais nada menos do que a contabilização desses gastos com o exterior, e conseqüentemente dos recebidos (já que o que é gasto precisa ter uma origem, entrar como crédito na exposição contábil), então dizer que a taxa de câmbio equilibra o mercado de moeda estrangeira, significar dizer que também “equilibra” o BP, afinal, o gasto no exterior – débito no BP (demanda de dólar) é igual ao recebimento do exterior – crédito no BP (oferta de dólar).

[4] Equilibrar o BP precisa ser entendido com um certo cuidado, por isso as aspas. Como disse, por construção, o BP se equilibra, é uma demonstração contábil. Todo dólar usado para gastos no exterior (débito) precisam ter uma fonte, uma origem (crédito). O “equilibrar” no fundo é um termo tirado de uma controvérsia especifica, geralmente chamada de “problema do balanço de pagamento” ou “escassez de divisas” (no caso a divisa é a moeda estrangeira, o dólar). É essa a questão que aparece em uma irritante maioria dos textos sobre economia brasileira: uma lamúria sem fim sobre “déficits crônicos do balanço de pagamentos” ou escassez de divisas. Mas como assim déficit de uma coisa que sempre é zerada? Vejamos o que pode acontecer quando o nosso “amigo” governo entra na história.

[5] Imagine que os brasileiros, por alguma razão, como preços convidativos de Miami, resolvam aumentar sua demanda por dólares (um deslocamento para a direita da curva de demanda). Em um mercado livre de dólares, isso provocará um aumento da taxa de câmbio de forma a equilibrar essa nova demanda com a oferta de dólares. Mas o que acontece se, por exemplo, o governo fixa o câmbio, ou seja, diz a todos o seguinte: quem quiser comprar dólares só pode comprar comigo a uma determinada taxa fixada? Quem aparecer com X R$ leva Y US$. Como a demanda saltou, a essa taxa fixa teremos um excesso de demanda por dólares que, ou o governo sacia aumentando a oferta de dólares ou libera o câmbio e deixa a taxa subir, o que gerará o restabelecimento da igualdade entre oferta e demanda. Mas o governo brasileiro não emite dólares para aumentar sua oferta, ele precisa comprar esses dólares no mercado, precisa manter uma reserva de dólares que o permita acabar com os excessos de demanda, caso contrário, a taxa fixada irá pelos ares.

[6] O que então é o “déficit” no balanço de pagamentos? É exatamente quando a demanda por dólares é maior que a oferta e o governo precisa “queimar reservas” para acabar com esse excesso de demanda. No BP existirá um item chamado “variação das reservas” ou algo do tipo, que no final zerará a conta. Lembre-se, o BP é um retrato de gastos/recebimentos que já ocorreram. Se, através das transações de mercado, os gastos em dólares foram maiores que os recebimentos, então esses dólares usados nos gastos precisaram sair de algum lugar. Eles saíram exatamente das reservas do governo (que é um item do BP). Numa situação de total livre mercado de moeda estrangeira, onde o governo não interfira em nada, as transações de mercado se equilibrarão (zerarão sozinhas) exatamente porque a taxa de câmbio (o preço desse mercado) equilibra oferta e demanda de dólares. É nesse sentido que a taxa de câmbio “equilibra” o BP ou que o BP tem “déficit”, superávit etc.. (se considera todo o resto, menos as variações de reserva do governo).

[7] Percebe-se de tudo isso que não existe absolutamente problema algum de BP inerente a um sistema de livre mercado, seja ele em um país desenvolvido ou subdesenvolvido (nem tocamos nessas coisas). O problema, na verdade, é de um agente específico, o governo, que se meteu a controlar preços e não tem dólares suficientes para fazê-lo. Todo o chororô desses textos de economia brasileira, desenvolvendo mirabolantes teses sobre o efeito negativo de déficits no balanço de pagamentos brasileiro, a catástrofe mor dos pobres países subdesenvolvidas com as suas trágicas restrições e faltas de divisas estrangeiras não passa de puro erro, de “máscara” para um problema criado exatamente pelos governos. Na verdade, sem intervenção do governo, o problema não existiria.

[8] Obviamente tentar resolver um problema que não existe ou que a causa é detectada de forma errada é o caminho para o desastre. No caso do terrível “déficit no BP” não foi diferente. O que o governo começou a fazer? Ora, temos falta de divisas externas (dólares), então vamos restringir os gastos com divisas externas. Vamos elevar tarifas de importação, vamos centralizar todas as operações em dólares junto ao governo (acreditem, isso aconteceu!) e pior, um órgão do governo decidirá a “importância” de tal gasto em moeda estrangeira e assim decidirá se libera ou não (acreditem, isso também aconteceu!). Eu não sei como os autores dessas maravilhosas idéias podem ser chamados de economistas e ainda serem tratados como “mestres” por boa parte dos “estudiosos da área”. Mas enfim, o resultado é um belo “nada”, um fracasso e como sempre com uma piora na situação econômica como cereja do bolo.

[9] Se você não pode comprar coisas lá fora, para que você quererá vender lá fora e assim obter dólares? Você come dólares? Dorme em dólares? Dirige dólares? Dólares que não podem ser trocados por bens são como papel higiênico (imagino que um pouco mais desconfortáveis). O resultado da "maravilhosa" restrição das importações foi uma óbvia queda das exportações e conseqüentemente da oferta de dólares no país. Mas se só fosse isso, “ainda passava”. A queda das importações e a subseqüente queda das exportações significam simplesmente que o país está comercializando menos com o resto do mundo. O que aconteceria se você fosse proibido de comercializar com o açougueiro, o vendedor de computadores, de roupas, de carros, de shampoo etc..? Seu padrão de vida cairia, afinal, você gasta seu tempo, trabalho e demais recursos para produzir algo que você “faz bem” para depois trocar esse algo pela carne do açougueiro, o computador do vendedor de computadores, a roupa, o carro, o shampoo, coisas que você não faz a mínima idéia de como fazer. Ora, foi exatamente o que ocorreu em “escala nacional”, com o grande auge público sendo ilustrado por um presidente dizendo que fabricávamos carroças no lugar de carros e outro candidato dizendo que precisávamos de um “choque de capitalismo” (na verdade ainda precisamos, o tal “choque” da década de 90 não serviu nem para arrepiar pêlo do braço).

[10] Enfim, problema de balanço de pagamentos só existe para governos que insistem em regular o câmbio. É um problema do governo, criado pelo governo. Para a economia (os agentes privados) é excelente que surja um “problema no BP”. É o primeiro racha, o primeiro sinal de fratura em uma política que só distorce preços relativos, não permite uma alocação ótima de recursos e como sempre, custa uma fortuna, afinal, de onde saem os recursos que o governo usa para comprar os dólares e formar suas reservas? Certamente não é de outro gasto que ele corta para executar a nova política. Aliás, esse é outro ponto que mereceria um post explicando: a atual comoção nacional em torno das “estonteantes” reservas acumuladas durante o governo Lula. Por enquanto, paro por aqui.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Um pouco sobre moeda, sistemas monetários, banco central...

[1] O governo americano anunciou semana passada, uma reformulação no FED. A reforma basicamente consiste em dar mais poderes à instituição. Agora ele poderá vasculhar os balanços de mais empresas do setor financeiro. Outra proposta, que não sei se foi aprovada, consistia na garantia, pelo governo americano, do pagamento de todas as hipotecas até um determinado valor (algo parecido já existe em relação aos depósitos bancários – o governo americano garante o pagamento de todos os depósitos bancários até um valor X).

[2] Essas intervenções são o exemplo típico do que Hayek chamou de “caminho da servidão” – intervenções que levam a outras intervenções (embora a idéia original seja mais sutil que isso). A primeira intervenção é o próprio monopólio de emissão de moeda que o governo “se dá”. Esse monopólio, junto com o monopólio sobre a polícia e sobre as leis formam a “santíssima trindade” dos governos. É inimaginável para a imensa maioria das pessoas pensar que não há necessidade alguma de ser assim e só é assim por motivos nada “nobres” (embora sempre exista alguém dizendo que tem que ser assim, porque assim é melhor etc..etc..).

[3] A razão das pessoas enxergarem tais coisas como “necessárias”, “imprescindíveis” não é uma fatalidade da natureza. Considerando o governo “legitimo” e necessário, se considera taxações, ou seja, “roubos” como sendo legítimos e necessários. Essa é, por excelência, a fonte de recursos do governo. O poder de roubar, de explorar é legitimado e é dado ao governante. O complemento de tudo isso é o controle da moeda. Com o controle da moeda o governo pode tributar, controlar praticamente toda a economia, ser uma espécie de “deus” gerando “poder de compra” do nada, acabando com seus próprios débitos e de seus “amigos” sem que ninguém, ou muito poucos, percebam o que está acontecendo. Resumindo a história: a legitimidade do governo o dá a legitimidade para explorar, para “roubar” e o controle da moeda o permite explorar e roubar mesmo quando a legitimidade anterior fica enfraquecida, quando ele “abusa” dos métodos tradicionais de taxação. Essa é a razão do porque chovem defesas, a grande maioria financiada pelo próprio governo através dos seus gastos com institutos de pesquisa, universidades, publicidades em meios de comunicação, sobre a necessidade de monopólios da moeda, da justiça, da policia.

[4] Sobre a questão da justiça / segurança, tratei em outro texto, o "Leis, Tribunais e polícia sem governo: bem vindos ao anarco-capitalismo". Hoje gostaria de me ater à moeda. Moeda é um bem, ela presta um serviço, a saber, o de servir como meio de troca. Graças à moeda, um professor de inglês que queira comer uma pizza não precisa encontrar um pizzaiolo que queira ter aulas de inglês. Basta ele encontrar qualquer um que queira aulas de inglês, seja ele pizzaiolo, marceneiro, gerente de banco e tenha moeda. Com essa moeda ele procura um pizzaiolo que a aceitará de bom grado, justamente porque tal moeda permite ao pizzaiolo comprar um carro sem precisar encontrar um vendedor de carros que queira comer pizza. A moeda elimina o que os economistas chamam de “dupla coincidência do escambo”, aumentando enormemente o leque de opções e trocas possíveis. O seu “serviço produtivo” básico é esse, o de facilitar as trocas (embora possam existir outros usos decorrentes desse serviço básico, como servir de “amortecedores” de choques na renda, equilibrar temporalmente receitas e pagamentos, servir como reserva de valor, unidade de conta etc..).

[5] Como todo bem, existirá uma demanda por esse bem e conseqüentemente, dado que alguém está disposto a pagar, também existirão pessoas dispostas a saciar essa demanda com uma oferta correspondente. Mas como “produzir” moeda? Já foram usadas como moeda coisas como sal, boi, pedra, cigarros, fumo além dos tradicionais ouro e prata. Ninguém acharia estranho falar em produzir sal, produzir boi ou mesmo ouro e prata (no caso, produzir seria extrair das minas e deixá-los em um formato “interessante” para uso). Foi exatamente dessa maneira que surgiu a moeda. Um determinado bem, com algumas características desejáveis como facilidade de transporte, durabilidade, estabilidade da sua relação de troca (preço), além de desejabilidade para uma infinidade de usos é um forte candidato à moeda e se tornará moeda quando cada vez mais pessoas perceberem que comprar esse bem como um intermediário facilita as suas trocas. Se o marceneiro que quer um pouco de batata, no lugar de trocar seus móveis diretamente por batatas, conseguir essa batata mais facilmente trocando suas cadeiras e moveis por sal e depois sal por batata, o sal será demandado por ele, agora por um motivo adicional: o de facilitar as suas trocas. Essa percepção juntamente com o resultado obtido (facilidade nas trocas) dá origem a demanda “monetária” por sal e causa a “transformação” do sal em moeda quando mais e mais pessoas percebem a mesma coisa e generalizarem tal prática.

[6] Foi assim que ocorreu, principalmente com o ouro que, além do uso tradicional para confecção de jóias, se tornou moeda, era demandado porque facilitava trocas. O preço do ouro passou a ser determinado por uma demanda que vinha de “duas fontes”, da demanda para usos tradicionais e da demanda “monetária”, aquela que tinha como objetivo usar o ouro como moeda. Esse preço determinava o incentivo dos mineiros em ofertar ouro, assim como com qualquer outro bem. A “primeira intervenção” do governo em toda essa história apareceu na “certificação” das moedas de ouro. O valor de uma determinada quantidade de ouro era determinado por seu peso. O valor de uma moeda de ouro, da mesma forma. A função da “casa da moeda” estatal foi inicialmente padronizar e certificar o peso das diferentes moedas. Quando “sabotadores” começaram a raspar as moedas para diminuir a sua quantidade de ouro sem que ninguém percebesse e assim continuassem a pagar um valor correspondente ao peso anterior, o governo passou a fazer as “ranhuras” na borda das moedas, de forma que ficasse fácil identificar moedas raspadas de moedas não raspadas (além de evitar a pratica “inocente” de jogar moedas em um saco, chacoalhá-las e assim obter um pouco de ouro em pó).

[7] Como funcionava a certificação e a padronização das moedas? Basicamente um mineiro (que tivesse extraído o ouro) ou um banqueiro que tivesse comprado a “moeda/ouro bruta” levava esse certo peso de ouro para uma casa da moeda que cobrava uma taxa, a famosa “senhoriagem” para padronizar essas quantidades de ouro em moedinhas. O sistema passou a “evoluir” da seguinte forma: transportar moedas de ouro, além de arriscado era incomodo, afinal, elas pesavam bastante considerando a quantidade. Qual foi a solução? Deixar o ouro guardado em um lugar bem seguro e emitir papeizinhos que correspondessem exatamente a um determinado peso de ouro. Surgia o “papel-moeda”, que basicamente era certificados de ouro. O famoso dólar americano (que veio muito depois), no seu inicio representava exatamente um peso em ouro (não me lembro o peso agora). O próximo passo rumo à estatização da moeda foi mexer no “deixar o ouro guardado”.

[8] Como os certificados passaram a ser demandados como se fossem ouro e ficavam “rodando” no mercado um tempão até serem resgatados, isso quando de fato eram, e quando eram resgatados, obviamente não eram resgatados todos de uma vez, os bancos perceberam que podiam aumentar a emissão de papeizinhos sem lastro real em ouro, mas mesmo assim prometendo trocar tais papeizinhos por ouro. Surgia o famoso (e ainda presente) sistema de reservas fracionadas. O nome vem do fato do banco na verdade não ter todo o ouro necessário (uma reserva em ouro) para resgatar todo o seu papel-moeda emitido, apenas uma “fração” dessas emissões. O sistema bancário, principalmente nas cidades comerciais do norte da Itália, na Holanda e posteriormente na Inglaterra funcionou por um período dessa forma: bancos obtinham determinada quantidade de ouro, através dos depósitos de seus clientes principalmente (que ganhavam os certificados, o papel moeda para ser usado no mercado). Esse ouro possibilitava uma nova emissão de certificados (notas bancarias) que rendiam juros aos bancos através de empréstimos para novos clientes. Quanto maior a confiança de uma casa bancaria, menores eram as taxas de juros que suas notas precisavam pagar para captar ouro, menores eram as taxas prometidas para atrair depositantes (em um caso limite, o depositante só depositaria por uma questão de comodidade para se livrar do ouro).

[9] Um sistema como esse, de liberdade bancaria, onde cada banco emite suas próprias notas lastreadas (totalmente ou mesmo parcialmente) em ouro não permite nem aos bancos e muito menos ao governo fazer aquilo que foi dito no começo do texto: controlar completamente a economia escolhendo, de uma hora para outra, do nada, beneficiar um amigo, seja dando “poder de compra” instantaneamente a ele, seja eliminando completamente suas dividas através da inflação e manipulação das taxas de juros. Se um banco, emite notas demais (acima da demanda), a nota volta para o banco para ser resgatada e as reservas em ouro baixam e podem baixar perigosamente a ponto do banco não conseguir honrar seus pagamentos e perder a confiança do público. A “solução” para escapar desse limitador foi concentrar todas as reservas em ouro numa espécie de banco central (ou algum órgão do governo) e acabar com todas as notas bancarias substituindo-as por uma única nota oficial, emitida, adivinhem por quem: pelos governos. Surgia assim o malfadado “monopólio estatal da moeda”.

[10] Obviamente, com um único emissor de notas, a possibilidade de se expandir a oferta de moeda é maior (não há outras notas para serem demandadas), mas ainda bastante limitada dado que os agentes poderiam resgatá-las em ouro. De qualquer forma, o governo já não só aumentava imensamente seu poder já que agora ele, de fato, controlava todo o estoque de moeda da economia e conseqüentemente o setor bancário, como também poderia, ainda em escala limitada, escolher vencedores e perdedores emitindo moeda adicional e manipulando as taxas de juros. O próximo passo (que chegou até lentamente e isso tem uma explicação econômica) foi acabar com o padrão-ouro. E isso aconteceu, de fato, embora não oficialmente, na primeira guerra mundial, onde o governo queria gastar muito, mas não tinha como aumentar os impostos (guerras realmente são uma benção para governos, não é necessário nem disfarçar a real intenção). A solução então foi “tributar escondido”, ou seja, rodar a “impressora” para arcar com os gastos de guerra, mas sem a população perceber direito que era ela quem estava pagando a conta. Mas para fazer isso num padrão-ouro, o governo precisaria de mais ouro para poder resgatar as novas notas. Ora, que nada! Basta acabar com a obrigação legal de trocar notas por reservas em ouro.

[11] Após a primeira guerra, ocorreram algumas pressões para retornar ao padrão-ouro. Mas obviamente, junto com essas pressões apareceram pressões muito maiores, financiadas pelo próprio governo, para se acabar com de vez com o padrão-ouro na Inglaterra. É nesse cenário que surge o mais famoso dos inflacionistas, John Maynard Keynes e a sua defesa do fim do padrão-ouro e da emissão de moeda como um meio de tirar a Inglaterra da recessão e acabar com o desemprego (nessa época ele ainda não tinha escrito Teoria Geral e as recomendações baseadas em políticas fiscais no lugar de políticas monetárias). A Inglaterra ainda tentaria voltar ao padrão-ouro na década de 20, mas a tentativa, executada de forma errada (a paridade moeda – ouro foi restabelecida no mesmo valor de antes da guerra), acabou provocando recessão e desemprego. A deflação necessária para restabelecer o “equilíbrio” encontrou os sindicatos pela frente e as suas mordomias legais contra diminuição de salário nominal, o que gerou um grande desemprego e uma conseqüente impopularidade da medida (aliás, essa rigidez provocada pelo governo nos preços é a única que causa problemas para o sistema econômico – ainda pretendo escrever um pequeno texto para esclarecer isso).

[12] Com o fim do padrão-ouro se chega ao atual sistema monetário (embora tenhamos dito algumas variações que não alteram muito a natureza do sistema, como Bretton Woods). No atual sistema se você for resgatar uma nota de R$5 no banco, vai ganhar tão somente cinco notas de R$1 e nada mais. Ou seja, o atual dinheiro não é lastreado legalmente em nenhum outro bem. Isso significa que, por exemplo, governos não possuem nenhum limitador para emissão de dinheiro e conseqüente manipulação dos juros. Para os bancos privados, o equivalente ao “ouro” que constituía suas reservas antigamente, agora é a moeda emitida pelo governo. As notas bancarias foram, de certa forma, substituídas pelos chamados depósitos a vista acessíveis por cheques e mais recentemente por cartões de débito. Percebe-se que o governo, com a emissão da moeda sem lastro e com o monopólio do uso dessa moeda em um dado território, praticamente controla todo o setor financeiro da economia. Todos os demais ativos, sejam eles meros substitutos de moeda, títulos e afins, são ofertados com base na disposição do governo em emitir ou não moeda (ou base monetária, moeda de alta potência como são chamadas também).

[13] Mas e o FED? O FED americano foi criado em 1913 exatamente com a finalidade de ser uma espécie de agência reguladora para o setor bancário. Na época, os EUA ainda mantinham o padrão-ouro. Não demorou muito para que o banco central cumprisse o seu “destino” e passasse a manipular taxas de juros para baixo, expandir o crédito (através de emissões de notas sem lastro). O resultado de tudo isso pôde ser visto no crash de 29. Os investimentos feitos com base em taxas de juros artificialmente baixas foram revelados como sendo errados e precisavam ser “destruídos” ou realocados, o que levou a quebra da bolsa. A junção dessa situação, com teorias econômicas erradas sobre demanda agregada (que já eram férteis na época), levaram o governo a uma sistemática fixação dos preços como salários (a idéia era que baixos salários diminuiriam a demanda agregada e conseqüentemente aumentariam a crise). Com os preços, principalmente salários, travados pelo governo, não foi possível que oferta e demanda se equilibrassem levando àquelas enormes filas de desempregados que os filmes sobre a época adoram mostrar. Ou seja, o grande feito do FED, logo nos seus primeiros anos foi provocar a maior crise que se tem noticias.

[14] Obviamente não foi só isso. O FED também levou a inflação americana para a casa dos dois dígitos na década de 60, 70. Antes do sistema de papel-moeda sem lastro e seus banco centrais, as maiores inflações conhecidas eram de no máximo de um digito (uma das maiores teria ocorrido no fim do Império Romano quando o imperador, necessitando de recursos ordenava que se diminuíssem a quantidade de metal precioso da moeda). Já, após o papel-moeda tivemos as maravilhosas hiperinflações da Hungria, da Alemanha que além de contribuírem para levar Hitler ao poder no segundo caso, estimularam a venda de carrinhos de mão, afinal, para comprar um mero pãozinho era necessário levar uma montanha de notas. Na Inglaterra a inflação também ultrapassou os dois dígitos. Nós, latino-americanos também tivemos nossa apresentação às grandes inflações durante a década de 80 (sem contar que durante todo século XX é difícil achar um período em que ela tenha ficado dentro do digito único).

[15] Aliás, o Brasil durante toda a era do padrão-ouro já dava mostras da sua “vocação inflacionista”. A maior discussão entre os economistas da época era se devíamos ou não adotar o padrão-ouro. Obviamente, aqueles que não eram inflacionistas, defendiam um governo limitado, livre-comércio, gastos controlados eram favoráveis ao padrão-ouro. Do outro lado, os “vovôs” do desenvolvimentismo tupiniquim, que queriam emitir moeda a rodo para “estimular” a economia, que o governo gastasse, eram contrários. O auge da irracionalidade monetária se deu com Rui Barbosa que além de não aceitar o padrão-ouro, permitiu que qualquer estado emitisse a mesma moeda sem nenhum controle (ele não entendeu o que é free banking).

[16] Voltando ao FED e aos dias atuais, em termos de histórico de intervenções, o monopólio estatal da moeda é a primeira intervenção do governo na economia nesse setor (moeda). O FED é o próximo passo, a próxima intervenção originada da primeira intervenção. Não há necessidade alguma de um FED, não há necessidade alguma de um monopólio estatal da moeda na economia. Uma vez criado o FED, é “normal” que ele “obedeça” os incentivos que são dados a ele, ou seja, emitir moeda, tentar estimular a economia com políticas expansionistas, manipular taxas de juros. Agora, é mais “natural” ainda que tudo isso dê errado e gere crises. A economia explica. E mesmo o FED sabendo que essas coisas geram crises, não são os “policy makers” que pagam a conta. A conta é dissolvida entre a grande “massa” chamada de “contribuintes” (que nome patético!). Já o beneficio é concentrado pelos círculos próximos ao governo e policy makers, como por exemplo, políticos que se elegem antes da crise estourar, banqueiros que se “salvam” etc..

[17] Mas o pior de tudo é que eis que surge o governo e o próprio FED como “salvadores” da crise. Quantas vezes se lê em jornais que o mercado falhou e o governo foi socorrê-lo. Não foi o “mercado que falhou”, foi o governo com suas intervenções que falhou novamente. As reclamações de instabilidade dos sistemas monetários e financeiros não é uma reclamação contra o mercado. Isso que temos não é mercado. É governo, governo sufocando o mercado através do seu banco central. Quem controla a oferta de moeda, quem torna as taxas de juros artificialmente baixas, quem injeta dinheiro na economia incentivando alocações erradas de recursos, quem salva bancos que erram, incentivando assim que mais bancos errem se chama governo. A maior ameaça à estabilidade se chama FED (ou simplesmente bancos centrais em outros países).

[18] Como uma tragédia sem fim, temos mais uma vez uma intervenção do governo para corrigir fracassos de intervenções anteriores, fracassos que obviamente não são reconhecidos como sendo fracassos do governo e de sua política de regulação do setor financeiro. São “fracassos do mercado”. E que mercado? Aquele que tem como base um bem que o governo diz que só ele produz e na quantidade que quiser? Aquele que o governo controla o preço básico, a taxa de juros?

[19] Até o presente momento as discussões na grande mídia têm sido na direção de fortalecer o FED, ou seja, de agravar o problema (mesmo os debatedores achando que estão acabando com ele). É natural que seja assim. As pessoas atualmente não imaginam um mundo sem bancos centrais, um mundo sem governos controlando a moeda. Além disso, emissoras de TV e grandes jornais tem uma relação bastante promiscua com governos. O impressionante são os ditos “esclarecidos”, “intelectuais” defenderem mais FED, mais intervenção. Supondo que eles saibam do que estão falando, é um ódio a liberdade quase doentio. Nem precisava questionar a existência dos FEDs mundo afora, acho que seria até pedir muito. Bastava falar claramente em coisas como “risco moral” (se eu faço coisas erradas e não arco com o custo, para que farei coisas certas?), algo extremamente importante em se tratando de sistema bancário.

[20] Antes de encerrar, só alguns pequenos comentários adicionais:

1) – No texto digo que existe uma explicação econômica para a demora em se acabar com o padrão-ouro. A explicação foi dada pelo economista Ludwig Von Mises e o seu chamado “teorema da regressão”. A idéia resumida é que uma moeda é demandada porque tem um poder de compra prévio. Mas isso envolveria um “circulo teórico” (a demanda e oferta de moeda determinam seu poder de compra que por sua vez já precisa existir para que surja alguma demanda por moeda). A solução encontrada por Mises foi “regredir” (por isso o nome), até o momento onde a demanda pelo bem que será moeda é toda devido a um uso alternativo, ou seja, já existe um valor prévio dado pela demanda “tradicional” desse bem. E o que isso tem a ver com o padrão-ouro? O novo papel-moeda consegue o “poder de compra prévio” e assim é aceito como moeda somente porque está atrelado a um bem que já tem esse “status” de moeda, que tem um poder de compra estabelecido. Levará muito tempo até que o próprio papel-moeda adquira essa confiança dos demandantes e passe a ser demandado exclusivamente porque ele (e não ouro ou qualquer outro bem atrelado) será generalizadamente aceito pelos demais e assim cumpra sua função de moeda.

2) – Apesar de parecer, eu não defendo o padrão-ouro. Defendo um sistema de total liberdade bancaria. Cada banco poderia, de acordo com suas expectativas sobre lucratividade e conquista de confiança dos consumidores, ofertar o tipo de moeda que quisesse (com 100% de reserva e lastreada em bens, reserva fracionada e lastreada em bens, não lastreada etc..). Provavelmente no começo é provável que o que prevaleça seja realmente uma espécie de padrão-ouro e assim, conforme a confiança no emissor (banco) venha o lastreamento já desaparecendo. Basicamente as vantagens e desvantagens dos sistemas “extremos” para o consumidor são as seguintes: no caso de reserva 100%, o banco não tem margem de manobra alguma para inflacionar a moeda, mas justamente por ter que manter 100% em reservas, ele também não pode “fazer juros” com elas e assim pagar juros ao consumidor (depositante do banco), muito pelo contrário, provavelmente cobrará tarifas para manter o ouro guardado. Já o caso sem lastro (o mundo atual), o banco tem uma margem maior para inflacionar, no entanto pode pagar juros para o depositante exatamente porque consegue movimentar boa parte dos depósitos dos clientes (deixa apenas uma porcentagem como reserva). Alguns autores jusnaturalistas, como Murray Rothbard, advogam um sistema de 100% de reserva. O argumento basicamente é “ético”. Para esses autores, o sistema de reserva fracionado é uma fraude (são emitidos certificados de ouro que na verdade não possuem o ouro por trás, o ouro que estaria sendo certificado). Eu considero essa posição um erro, isso não seria fraude. Neste tema (mercado de moedas e sistema bancário) fico com Hayek, David Friedman, George Selgin e Mises.

3) – Dado que BCs existem e isso dificilmente irá mudar dentro de um curto espaço de tempo, acredito que a melhor política seja aquela que se atenha somente e tão somente ao controle da inflação. Nada de tentar “aquecer” a economia, diminuir o desemprego, evitar recessão etc..etc.. São exatamente essas políticas que além de não conseguirem o resultado desejado, agravam o problema que tentaram resolver e, como “brinde”, geram inflação. Nesse aspecto, o Brasil aparentemente (da até medo de falar), evoluiu de maneira espetacular. Quando vejo Argentina, Venezuela, Bolívia controlando preços e exportações para conter a inflação, penso: somos nós na década de 80.

4) – Uma política em direção a um mercado livre de moedas e que não seria assim tão “exótica” é a quebra parcial do monopólio da moeda que os governos possuem. Por exemplo, o Brasil passaria a permitir que qualquer brasileiro, se desejasse, usasse nas suas operações diárias, na sua conta bancaria, outras moedas estatais como dólar, euro, yen, libra. Seria uma amarra muito melhor aos ímpetos inflacionistas dos políticos do que a tal “independência” dos BCs, tão em moda hoje em dia e, de fato, uma solução “menos ruim” do que a de deixar o BC totalmente na mão dos políticos.