domingo, 16 de março de 2008

Seria eu um hedonista?

[1] Na discussão interblogs sobre invasões de direitos de propriedade muitas vezes surgiu a questão do que seria felicidade e de uma suposta escala de valores objetivas (uma escala que diz o que é certo ou errado objetivamente). Bem, nessas férias andei lendo Ayn Rand que, para quem não conhece, é uma filósofa “russo-americana” que desenvolveu uma “linha” de filosofia chamada objetivismo. Não vou aqui explicar o que seria tal linha por dois motivos: evitar alguma barbárie filosófica e, além disso, porque não é o objetivo deste post. Os interessados podem ler o famoso Atlas Shrugged (traduzido no Brasil como “Quem é John Gault?”), uma maravilhosa novela que explica toda a sua filosofia ou ainda os livros “não-ficção”. Dos que eu li, dois são bem úteis para conhecer o objetivismo: "Philosophy: Who need it?" e o "Introduction to Objectivist Epistemology".

[2] No entanto, o livro que mais interessa para os propósitos deste texto é o “The Virtue of Selfishness” (A Virtude do Egoísmo), já que é nesse livro que Rand busca desenvolver uma ética que seria correta, verdadeira. Quem lê este blog sabe que eu concordo com a premissa básica de tudo isso, ou seja, que existe uma ética que pode ser encontrada através da razão e é verdadeira. Para ser mais rigoroso, a expressão “pode ser encontrada através da razão” é até fraca demais para o que eu penso (e acho que para o que Ayn Rand pensava também). A razão é o único meio disponível para se descobrir, aprender qualquer coisa.

[3] A, digamos, discordância, que tenho em relação a ela e aos “objetivistas” em geral é a extensão dessa ética e isso apareceu na discussão citada no começo do texto. Acredito que seja possível demonstrar com a razão e o seu instrumento, a lógica, a correção de uma ética que diz que os direitos naturais devem ser respeitados perante qualquer outra que diga o contrário (veja o texto Sobre Éticas), mas não concordo que, dentro do conjunto de escolhas delimitado pelo direito natural, ou seja, suas propriedades, exista uma alternativa objetivamente melhor que outra (objetivamente no sentido de que uma alternativa X é, demonstrável, ser melhor para o ser humano que qualquer outra alternativa ou que ela é o certo para qualquer ser humano em relação as demais alternativas).

[4] Os objetivistas parecem crer que é possível, e, obviamente não só crer. A ética objetivista seria essa ética racional, essa ordenação verdadeira. Como disse, acho um erro e vou tentar explicar brevemente por que. Novamente, sugiro a leitura do “The Virtue of Selfishness” porque vou me basear nesse livro que seria a exposição e a derivação de tal ética. Primeiro Rand começa dizendo que existe um fim último e esse fim último é a vida. Ela diz isso pensando no seguinte: todos os demais valores só fazem sentido devido à existência da vida (e conseqüentemente da morte). A escolha fundamental para o homem é existir (viver) ou não existir (morrer). Antes, é apresentada a definição da autora para valor, que genericamente, seria aquilo que se quer obter ou manter através de uma ação, de uma escolha. A pergunta, em termos éticos, seria então: quando um valor é bom, certo ou errado, ruim? Segundo Ayn Rand só faz sentido classificar as coisas em ruins ou boas tendo como base a vida. É bom aquilo que mantém a vida e é ruim aquilo que destrói a vida. O exemplo que ela dá para embasar tal afirmação é a de uma criatura indestrutível, onipotente que seja lá o que aconteça não é afetado por absolutamente nada. De acordo com Rand, para uma criatura cuja sua vida não é afetada em nada por coisas que ela faça ou fazem a ela, não tem sentido falar em certo ou errado, bom e ruim, porque não há sentido falar em escolhas. Não há o que escolher, logo não há valores.

[5] Tudo isso para dizer que, segundo o objetivismo, o padrão de avaliação do que é certo ou errado é a vida humana. A ética seria o instrumento, o guia para a sobrevivência do homem, a maneira de se atingir esse suposto fim último. A coisa obviamente não é tão simples assim. Os objetivistas não consideram que “vida” aqui seja algo meramente biológico, físico e é ai que a coisa começa a embolar e ficar confusa. Ayn Rand diz no livro que o propósito da vida é a felicidade (a felicidade de quem age, por isso o “egoísmo” do título). Como foi dito no começo, o objetivo da autora é desenvolver uma ética objetiva, então obviamente ela não pode, como eu defendo, defender que “é bom aquilo que cada um acha bom” (dentro do conjunto de escolhas delimitado pelo direito natural). Segundo Rand, essa resposta é uma fuga da questão, um círculo. Então eis que surge a misteriosa afirmação, que eu realmente não consegui entender (talvez algum objetivista que esteja lendo possa explicar), de que a “felicidade” é o propósito da ética, mas não o seu padrão. Um pouco antes felicidade é definida como “the sucessful state of life”.

[6] Bem, porque coloquei porcamente resumida a base da ética randiana? Porque acho que o conceito felicidade é visto erradamente pelos objetivistas e pela maior parte dos que defendem uma escala de valores objetiva, mas que a idéia geral, de derivar uma ética racional baseada na idéia de vida como um valor último é interessante e um bom ponto de partida. Como já foi dito, concordo com a parte que diz que o propósito da vida é a busca da felicidade. Isso na verdade não seria nem o propósito da vida, é simplesmente como as pessoas agem, com ética ou sem ética. Ninguém faz algo esperando piorar (do seu próprio ponto de vista), embora o resultado de tal ação possa não ser o desejado. Agora, o que é, concretamente, a felicidade? Primeiro, não existe uma entidade, uma coisa externa chamada felicidade a ser descoberta (e é ai que mora o erro). No mundo existem concretos que formam a base dos nossos conceitos mais primários como cadeira, mesa, pedra. São concretos facilmente perceptíveis e, por isso, são o material dos primeiros conceitos que aprendemos. Conforme evoluímos, desenvolvemos métodos mais sofisticados de mensuração, observação, descobrimos que existem outros concretos como átomos, por exemplo.

[7] E a felicidade? A felicidade é uma sensação. Só existe como atributo de uma outra entidade chamada ser humano. Não existe uma felicidade “fora” do ser humano. Assim como não existe uma consciência “per se”, não existe uma felicidade “per se”. O que nós chamamos genericamente de felicidade no fundo é um conjunto de atributos particular a cada ser humano. Se existem seis bilhões de seres humanos, então existem seis bilhões de conjuntos de sensações diferentes chamados “felicidade” ou geradores de felicidade. Um ser humano nunca escolhe o que lhe dá bem estar ou não e nem a intensidade desse bem estar sentido por ele. Não faz parte da sua vontade, da sua consciência. Ele obviamente escolhe se segue ou não um caminho para satisfazer aquele desejo, depende da sua expectativa de benefícios e custos. O custo que isso implica (deixar de seguir um caminho que lhe daria bem estar) também não é determinado pela sua vontade, primeiro porque não passa de uma “utilidade” perdida (e como já foi dito, não faz parte da sua vontade o montante de prazer que ele recebe por isso) e segundo que, obviamente se fosse assim, ele reduziria para zero tal custo e no limite não teríamos escolha alguma, escassez alguma. É essa reação interna que temos ao experimentar, consumir algo que é alvo de descoberta, que é única e que, para cada um significa “felicidade”.

[8] Se uma ética, que se diz pautada na realidade, na natureza das entidades diz que o propósito da vida é buscar a felicidade, tal ética ou se abstém de dizer o que é certo ou errado em termos de felicidade, ou tenta achar a entidade ou atributo correto chamado felicidade. Ocorre que não existe tal atributo genericamente. O que existe são bilhões de “felicidades”, individuais, aliás, é por isso que não se faz comparação interpessoal de utilidade. Não existe uma unidade comum entre atributos completamente diferentes. A sensação do João não é a sensação do José. O que traz felicidade para o João, não é o que traz para o José. Uma cadeira é uma cadeira (a famosa lei da identidade), mas a sensação de se sentar após um dia inteiro de pé para o João não é o mesmo atributo que a sensação de se sentar após um dia inteiro de pé para o José, assim como João e José não são a mesma coisa.

[9] Voltemos para a definição de felicidade que Ayn Rand usa: um bem sucedido “estado de vida” ou “sucesso em viver”. O que é sucesso ou bem sucedido? Obviamente não é manter a vida biologicamente (aliás, se fosse, toda a explicação da vida como fim último seria uma piada). Seria encontrar A felicidade? Aqui temos um problema. Se “A felicidade” é uma felicidade objetivamente dada, então é uma busca inútil e irracional (segundo a própria definição da Rand), afinal, como encontrar o que não existe – é uma contradição. Como descobrir atributos, características, de uma entidade (a felicidade) que não existe? Bem sucedido ou “sucesso em viver” só faz sentido se considerarmos que os termos se referem ao atributo “felicidade” da forma correta, como ele, de fato, existe, ou seja, individualizado, de cada ser humano. Uma ética racional é aquela que diz que o homem deve buscar a sua felicidade (a própria razão dirá também que o conjunto de escolha em que ele faz isso, é dado pelas suas propriedades). Mas felicidade aqui entendida como o que, de fato, ela é. Um atributo individual, não uma entidade com existência “concreta”, fora da particularidade de cada ser humano.

[10] Deixe-me usar alguns exemplos para mostrar o que quero dizer. Primeiro, um exemplo óbvio, o serial killer que tem prazer em matar alguém. Uma ética que defendesse que ele pode fazer isso porque lhe traz felicidade seria uma ética errada porque para fazer isso precisa valer que alguns possuem propriedade (controle) sobre os outros. Mas isso só seria possível se existissem duas entidades com naturezas diferentes, uma que é auto-proprietária (que se controla através do seu arbítrio, da sua vontade) e outra que não é propriedade de ninguém (que não tem arbítrio, consciência, não se controla), o que não é o caso. Por isso, às vezes, a própria Ayn Rand chama o seu egoísmo de “egoísmo racional”, no sentido dele compreender a natureza das coisas, de se usar a capacidade cognitiva, conceitual do ser humano para determinar o guia de ação. Veja então, que a própria razão consegue delimitar o conjunto de escolha e dizer que escolhas fora desse conjunto são erradas (não correspondem à realidade). Nós temos uma ordenação objetiva aqui.

[11] Segundo caso, qual opção é objetivamente superior? Constituir família ou ser um homossexual devasso? Obviamente, em termos subjetivos (como eu defendo) é muito fácil a resposta. Depende do sujeito. Se considerado todos os custos e benefícios relevantes, o sujeito preferir o segundo ao primeiro, então, para uma moral racional, o segundo é moralmente superior. Se for o contrário (primeiro preferido ao segundo), o primeiro é moralmente superior. A razão é simples: a felicidade de um é a primeira opção e a do outro é a segunda. Essas são as felicidades que existem. Não uma entidade “a parte” chamada felicidade, fora dos homens. Se ambos as escolhas estão dentro do direito natural, não há como selecioná-las de forma “geral” com base na razão e na realidade. Obviamente, não preciso dizer que todos os objetivistas que já li (inclusive Ayn Rand) ou conversei, responderam que é a primeira a moralmente superior e que a segunda é uma forma sub-humana, irracional de se viver (não só o homossexual devasso, mas o homossexual “convencional”, os hippies, índios etc..).

[12] Resumindo a história, considero um erro tentar definir “felicidade” como algo objetivo, valido para todos os seres humanos. Não existe tal entidade, não existe tal atributo em comum. Justamente por isso, não existe uma escala de valores superior moralmente à outra quando as duas estão dentro do conjunto de escolhas dado pela razão (direito natural). Logo, praticar castidade ou não, ser caridoso ou egoísta (nos sentidos tradicionais), rico ou pobre não são escalonáveis de forma objetiva. Claro que muitas pessoas têm uma admiração maior pelo rico do que pelo pobre ou, em menor grau, mas ainda maior, pelo caridoso ao egoísta, mas isso não significa que quem pensa ou quer ser diferente está “errado”. Porque estaria errado moralmente? Não corresponde algum aspecto da realidade? Não corresponde ao que as coisas realmente são? A resposta é sim, corresponde à realidade e as coisas como elas são. Riqueza monetária é uma escolha. Como toda escolha tem um custo e um benefício. O beneficio é óbvio. O custo é o muito trabalho necessário para se obtê-la. Se para alguns o custo é maior que o beneficio, qual o problema? Aliás, para a maioria é assim. Obviamente, para outra maioria, a pobreza extrema (no senso comum) também é completamente reprovável.

[13] Ayn Rand “acerta” ao dizer que o propósito da ética e da vida é a busca da felicidade. Na verdade, é algo inescapável para o ser humano. Acho que poucos discordariam disso. O grande problema é a definição do que é “felicidade”. Aí os objetivistas, randianos ou não, erram, procuram algo como uma “consciência autônoma”, uma entidade chamada felicidade, única, andando por aí, enquanto na verdade ela só existe como aquele conjunto de sensações agradáveis, de prazer, particular a cada ser humano.

[14] Bem, é isso. E ai, seria eu um hedonista? Ou só confuso...

3 comentários:

Luiz do Ó disse...

Eu tinha feito um comentário bem grande mas perdi.

Vc se pergunta se é hedonista por defender que a felicidade é um ocnjunto de sensações (e, por isso, algo particular a cada indivíduo) e não uma entidade em si? Tipo, eu não acho que vc seja hedonista, mas não por esse motivo.

Hedonistas, do que eu conheço, defendem que o que determina a moralidade de uma ação é o prazer e dor que ela traz. Ainda que Epicuro e outros deem uma complicada no quadro geral, criando escalas de prazeres mais "morais" que outros, no final das contas o único juiz da moralidade de uma ação é o prazer que esta traz. O hedonismo é o vovô do utilitarismo.

Sua posição, pelo que entendi, é a seguinte: indivíduos agem em busca com a felicidade (a felicidade deles, que é única). Mas o que determina a moralidade da ação é um ética racional exterior ao indivíduo (no sentido de que não depende da percepção e da obediência dele). Indivíduos buscam ser felizes, mas o certo e errado eles descobrem não olhando para a felicidade que conseguiram com suas escolhas, mas para a razão.

Enfim.

Ah, e eu também vejo isso como um problema em Rand. Ela parece querer escolher até o tipo de música e livros vc deve gostar.

Luiz do Ó disse...

Aristóteles tem uma solução para essa coisa da busca pela felicidade e a ética racional que eu acho parecida com a de Rand, mas sutilmente melhor.

O argumento dele é mais ou menos assim (do que eu conheço, filosofia não é a minha praia): a característica determinante dos seres humanos é a razão.

Então, a vida virtuosa(e feliz), é aquele que se vive de acordo com a razão. A verdadeira felicidade é viver racionalmente. Essa é vida que "bate" com a natureza do homem.

Não vou dizer porque acho que esse posição seja melhor que a de Rand (embora seja semelhante, "existe uma felicidade melhor que é a de viver racionalmente").

Richard disse...

Bem, vc disse q a solução é sutilmente diferente.... eu diria q "bota sutil" nisso (não consegui perceber muita diferença pela forma como vc colocou)


Obrigado pelos comentários Luiz... é sempre bom recebe-lo aqui