sábado, 9 de fevereiro de 2008

Déficits e, novamente, consumo gerando crescimento

Não se fala em outra coisa no noticiário econômico, o assunto da vez é o pacote de incentivo a economia do governo Bush. Por trás da medida, a idéia errada de que o consumo é que faz a economia crescer. Já escrevi no blog um longo texto sobre esse erro que pode ser conferido aqui. O que basicamente queria dizer de novo com este post é o seguinte:

Basicamente não há nada de errado com cortar impostos (o que, oficialmente, nem é o caso, é uma devolução sobre impostos pagos). O problema é o cortar impostos e não cortar gastos. O que se fez no fundo não foi cortar nada. Déficit hoje precisa ser pago e será pago com mais impostos no futuro. Déficits basicamente são impostos futuros. Se a idéia era aumentar o consumo, dependendo de como as gerações presentes se importam com a geração futura, pode não acontecer absolutamente nada. As pessoas poupam o novo dinheiro para pagar as taxas futuras. Claro que aumentar o consumo também não geraria absolutamente nada (a não ser pavimentar o caminho para menos crescimento no futuro)

Se a geração presente se importa com a futura, mas não como se importa consigo mesma, o programa também tem seus problemas. Pode ser bastante tentador gastar hoje para outra pessoa, que eu gosto, mas nem tanto, pagar no futuro. O resultado disso é a destruição do capital acumulado e o empobrecimento futuro. Os americanos não seriam o que são hoje se seus avós e bisavós tivessem tido tal comportamento. Muito pelo contrário, o pensamento que ergueu a maior potencia do globo foi completamente diferente, pautado em governo mínimo, “controlado” e livre mercado.

Para terminar, sobre a idéia de que “consumo move a economia”. Como já disse, tenho um texto aqui no blog sobre esse erro. Só gostaria de complementar o seguinte. A frase pode ser correta, obviamente não no sentido que geralmente é usada. O ser humano age, escolhe porque quer satisfazer algum fim, maximizar seu bem estar (ou como os economistas dizem, maximizar sua utilidade). Portanto, consumo sempre é o objetivo de todo ser humano. Consumir não é nada mais nada menos do que satisfazer algum desejo, algum objetivo, o fim desejado. Usufruir de algo que aumenta o seu bem estar (o que em economia é chamado de bem). Um ser humano, que espera viver por um certo tempo, gostaria de maximizar sua utilidade considerando esse tempo esperado, o que basicamente significa consumir o maior número de bens possível (em um sentido bem amplo) durante sua vida.

Para fazer isso, ele distribui ao longo do tempo, através da poupança, os recursos que obtém. Poupar é transferir consumo do presente para o futuro. Observem que sob a definição acima, toda alocação de recursos é uma espécie de consumo. É para maximizar a utilidade do sujeito. É correto dizer, sob o ponto de vista acima, que o consumo move a economia, porque aqui consumo não é nada mais nada menos do que sinônimo para “obter bens na maior quantidade possível”, “obter utilidade” , “maximizar utilidade”. Agora, esse consumo teórico, amplo que move toda ação humana não tem nada a ver com o que as contas nacionais chamam de “consumo” e que é o agregado que os economistas, principalmente keynesianos, adoram citar como o causador do aquecimento ou esfriamento da economia.

O consumo das contas nacionais é a soma de determinados bens comprados em determinados locais por determinados agentes. Se alguém compra uma casa, por exemplo, isso não é consumo. É considerado investimento. Obviamente, em termos teóricos é claro que alguém investe porque quer consumir, mas no caso, no futuro. Seria então consumo futuro, mas não entra como “consumo” nas contas nacionais. O mesmo vale para uma indústria que compra uma máquina. O dono da indústria compra a máquina porque quer aumentar o “consumo futuro”. Aquilo que chegaria o mais próximo do conceito teórico exposto acima seria o próprio PIB que é a renda que o “país alocará” entre consumo presente (consumo no sentido tradicional) e consumo futuro (poupança, investimento) visando a maximização de utilidade, ou se preferirem, motivado pelo desejo de mais bens, mais bem estar, mais consumo ao longo do tempo. O consumo das contas nacionais é irrelevante como causa de recessão ou não e muito mais irrelevante como “motor da economia”. Basicamente é sobre esse consumo que eu trato no texto anterior linkado: o “consumo” no sentido mais convencional, o que corresponde melhor ao que as contas nacionais chamam de consumo.

7 comentários:

Fernando A. filho disse...

"D�ficit hoje precisa ser pago e ser� pago com mais impostos no futuro."

Concordo com a afirma�o de que de nada adianta cortar impostos sem cortar os gastos.

"Se a id�ia era aumentar o consumo, dependendo de como as gera�es presentes se importam com a gera�o futura, pode n�o acontecer absolutamente nada. As pessoas poupam o novo dinheiro para pagar as taxas futuras."

Sinceramente acredita mesmo nisso? N�o creio que as pessoas sejam suficientemente ilustradas para pensar: " o governo corta impostos e gasta muito, ao inv�s de gastar o 'dinheiro extra' vou poup�-lo"

Aumentar o consumo pode significar um incremento na economia - deixemos de lado a discuss�o oferta determina a demanda ou nao -no curto prazo, pensando como um contador, verei os estoques reduzidos pelo aumento das vendas, mais vendas, maior receita, maior o lucro e maior a arrecada�o de impostos. � claro que acompanhado deste fenomeno ocorrer� a eleva�o dos pre�os.

Acredito nas possibilidades que o neoliberalismo sustenta, no entanto, nao entendo como essa teoria funciona na calmaria, porem na tribula�o a interven�o estatal � utilizada.

� errado dizer que o agregado consumo - das contas nacionais- � utilizado pela corrente keynesiana como o elemento principal. Keynes prop�e que a DEMANDA � o determinante do estado da economia. Sendo que DEMANDA � o consumo (das familias) e investimento (das empresas).

Aprendi que na famosa equa�o de renda Y = C + I + G + (X - M)
C que � o consumo � referente a demanda das fam�lias, que sao compostas de bens duraveis e nao duraveis - bens de consumo. E I que � o investimento � a demanda das empresas, compostas da forma�ao bruta de capital fixo e da varia�o de estoque - bens intermedi�rios e de capital.

Investimento � a aplica�o de algum tipo de recurso com a expectativa de receber algum retorno futuro superior ao aplicado compensando inclusive o custo de oportunidade
Portanto, ao meu entender comprar uma casa � contabilizado sim, como consumo. Fam�lias N�O INVESTEM...

N�o sou contra a sua tese, mas os argumentos precisam ser mais trabalhados.

Richard disse...

Obrigado pelo comentário. Sobre o conteúdo propriamente dito, alguns ptos:

- Em relação a questão das gerações/consumo, se você se importa com a geração futura, é algo “racional” a se fazer, não? Modelos e explicações econômicas que partem de pressupostos como “erros”, “irracionalidade”, não são mto interessantes na minha opinião.

- Sobre aumento de gastos funcionar como aumento de demanda, você como vendedor pode ver mais gente indo até a sua loja etc.. enquanto isso, aquele sujeito que recebia os bens anteriormente terá menos p/ gastar, consumir, investir etc.. O governo “gastar” não aumenta a quantidade de bens na economia, só transfere. Gastos do governo, seja no longo ou curto prazo, não geram absolutamente nada na demanda agregada (pelo menos por efeito direito). Alterações na quantidade de moeda sim (o que não é o caso). A questão é exatamente aquela que você pede para deixar de lado: a demanda agregada não importa.

- Sobre o que diz Keynes ou os keynesianos, bem, existem trocentas versões diferentes sobre o que Keynes quis dizer e várias correntes de keynesianos. Cada um da a interpretação que acha melhor de tão mal escrito que é o livro. Você está certo em dizer que é a DEMANDA e não o consumo que importa (afinal, o consumo pode cair, se I aumentar mais do que a queda, a demanda sobe e tudo bem). No entanto, isso não muda muita coisa para o que o texto quer criticar. A política proposta visa aumentar C. Quem acha que aumentando C “algo melhora” são keynesianos. Além disso, muitos keynesianos diriam que só por “milagre” o investimento vai subir com o consumo caindo, o que nos leva de novo ao consumo como o héroi.

- Casas novas não entram como consumo no PIB, entram como investimento.

Fernando A. filho disse...

ok
eh verdade que a irracionalidade nao eh um modelo interessante de ser estudado, acontece que optei por viver no planeta terra, onde la as pessoas nao sao racionais, nao vejo vantagem por outro lado, estudar discutir usando pressupostos virtuais... mas cada um na sua...

sobre a questao de gastar mais sou totalmente a seu favor, so mencionei o modo como outras pessoas enxergam tudo isso, e acho que infelismente a politica sobrepoe a logica economica.

sobre da demanda, nao eh uma questao interpretativa, eh fato. Existe o principio da demanda efetiva, contraria a lei de Say - da qual nao estou me posicionando a favor, apenas mencionei.

se tivesse escrito isso no post nao faria ressalvas...

em relação às casas, deve levar em consideração que o PIB é um registro CONTABIL, eh correto que neste registro aparece como investimento, mas nao se pode usar tal argumento com explicação de um economista.

nao me leve a mal, leio SEMPRE seus posts, e se nao fossem bons nao comentaria.

parabens

Richard disse...

"mas nao se pode usar tal argumento com explicação de um economista."

Ora, de onde os economistas tiram os valores para os agregados dos seus modelos? Séries de consumo, investimento (o próprio PIB como proxy para a renda). Sobre quais valores eles se referem quando dizem que o consumo caiu, subiu?

Fernando A. filho disse...

acho que nao me entendeu.

aqui quis dizer que na contabilidade social algumas coisas sao definidas como tal,apenas para satisfazer regras contabeis.

na verdade isso foi apenas uma coisa que mencionei, nao era uma critica.

comprar casa nao eh investimento, nao eh...porem entra no calculo de investimento. pq? ja ouvi tres ou quatro respostas diferentes...

mas estou colocando como analise de estritamente economista, mas eh claro que economiistas usam tais valores em suas teses...

mas enfatizo que isso nao eh de longe importante, nem achei digno essa replica.

do mais...

Fernando Bastos Nina Ribeiro disse...

De 2008 a 2011 são quatro anos incompletos.
Quero saber: que tipo de comentário o senhor faria hoje, após a relativa distribuição de renda promovida pelo governo?
Creio que o senhor acha insustentável e até mesmo suicida, todavia tenho uma proposta: o aumento do PIB investido em educação, que atualmente estão em torno de 3,9% a 4,3%, pois os investimentos em ciência e tecnologia poderia vir de outras partes que não as governantes, não obstante as participações governamentais, na implementação do intelecto, têm sido melhor que até a própria previsão a respeito de como as coisas seriam...

Fernando Bastos Nina Ribeiro disse...

Existe um bom visionário que possa avaliar o que se passou nesses quatro anos incompletos?
Alguém aí crê na supremacia da inteligência humana consciente de seu potencial produtivo e consumista?
O que consumir? Ao consumir não posso investir no meu intelecto, como faço ao tentar entender a economia filosoficamente através das palavras do Richard neste blog?