terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Que tal um julgamento para o "comandante"?

E Fidel, pelo menos oficialmente, foi-se.... e bem tarde. Não vou aqui repetir as milhares de mazelas que o governo desastroso desse tirano causou à população cubana, nem desmentir as lendas sobre a maravilhosa “rede de proteção social” que supostamente existe por lá (segundo dados do integro governo cubano). Essas coisas podem ser encontradas facilmente pela internet. Em termos de justiça o que escrevi no texto Sobre democracia e revoltas contra governos eleitos pode ser aplicado ao “comandante” Fidel e ao seu governo (no caso dele, não teve nem o “mérito” de chegar ao poder pelo voto).

O que eu gostaria de perguntar é: cadê os socialistas, a esquerda em geral, a grande mídia para clamar por um “juiz espanhol” como aquele que tentou levar o ditador Augusto Pinochet à justiça? Ninguém se lembrará dos paredões, mortes de opositores, em número até maior que o feito pela ditadura chilena? Porque Pinochet devia ir a julgamento e pagar pelos crimes durante seu governo e Fidel não?

O que diria um socialista se um juiz americano e mesmo espanhol quisesse levar Fidel aos tribunais pela morte de americanos ou espanhóis como foi o caso do juiz Baltasar Garzón em relação ao governo de Pinochet? Fica no ar a pergunta....

O que causa os ciclos econômicos?

[1] Um dos temas mais interessantes em economia e também mais comentados pelo público em geral, são os ciclos econômicos. O que causa esses ciclos e como evitá-los foi, e talvez ainda seja, a missão número um das chamadas “políticas econômicas” de governos do mundo todo. Mesmo olhando de um ponto de vista menos técnico ou pragmático, o tema também desperta interesse para discussões mais ideológicas e filosóficas. As criticas de que um sistema de livre mercado é inerentemente instável, não consegue gerar ”pleno emprego” ou ainda a tese de ciclos como sendo gerados pelo próprio sistema de mercado são argumentos recorrentes entre os críticos do capitalismo e da propriedade privada.

[2] Ultimamente com a turbulência econômica dos EUA, o tema voltou à tona. Reapareceram os tão festejados cavaleiros do apocalipse com a velha bandeira de que agora tudo desmorona, que a culpa é do mercado desregulado, que o capitalismo é o seu próprio veneno etc..etc.. Do outro lado, keynesianos e afins defendendo as famosas políticas “anticíclicas” como baixar juros, aumentar gastos para compensar as “forças” que estariam levando a economia para recessão. E ainda, os liberais criticando as ações do governo americano com a velha, mas correta, história de que não se cura um drogado dando mais drogas à ele.

[3] Quem gosta de economia e se aventura pelo tema sabe que existem n teorias de ciclos para todos os gostos. O espectro de teorias vai daquelas a la Marx, Keynes, Malthus e simpatizantes que enfatizam problemas de demanda agregada, superprodução, até aquelas que descartam completamente demanda agregada. Das que culpam a moeda, ou a política monetária do governo, àquelas que não dão a mínima para isso ou jogam em segundo plano.


RBC – Real Business Cycle

[4] O que eu pretendo com esse texto é explicar de forma bem resumida e simples as duas teorias de ciclos que eu considero mais aceitáveis (provavelmente uma mistura bem feita entre as duas me convenceria por completo). A primeira é a chamada teoria dos ciclos “reais” de negócio (Real Business Cycle) ou somente RBC desenvolvida principalmente por Edward Prescott, Charles Plosser, Robert King e Robert Lucas. Originalmente o termo “real” se referia à tradicional dicotomia da teoria ortodoxa entre variáveis reais e nominais. A primeira são variáveis que medem ou indicam bens mesmo, físicos como capital, trabalho, maças. A segunda são variáveis, geralmente monetárias, que servem como “rótulos”, de variáveis reais. O exemplo típico é o nível de preços. Se todos os preços da economia dobrarem, inclusive seus ganhos você não fica mais rico (não terá mais estoque de bens mesmo, que seria a variável real), a única coisa que mudou foi o “rótulo” (preço) dos bens. Mas uma laranja continua sendo trocada por uma maça, mesmo que agora ambas custem $2 e não mais $1.

[5] O real, do nome, enfatiza que a causa dos ciclos vem de fatores reais e não de variáveis monetários ou nominais, embora atualmente sejam chamados de RBC, também, modelos que utilizem choques em variáveis usualmente chamadas de nominais. Os modelos de RBC começaram a surgir intensamente no final da década de 70 e década de 80 como uma continuação do famoso modelo das ilhas de Lucas (Robert Lucas, economista de Chicago). O nome “ilhas” para o modelo vem do fato de que é feita a hipótese de que os agentes atuavam em mercados distintos e sabiam o que acontecia com o preço do mercado em que atuavam, mas não sabiam o que ocorria com os preços dos demais mercados. Disso vem a metáfora da ilha: é como se cada um tivesse numa ilha (um mercadinho próprio) e soubesse o que ocorre na sua ilha, mas não sabe o que ocorre nas demais ilhas.

[6] Esse modelo do Lucas conquistou o “coração” de muitos economistas que trabalhavam com ciclos pela sua elegância matemática e principalmente por conseguir gerar ciclos sem recorrer a destruição de hipóteses convencionais da teoria da escolha ortodoxa. Basicamente os pilares da teoria da escolha são a otimização (agentes auto-interessados e racionais que buscam maximizar seu bem estar) e a idéia de equilíbrio, ou seja, os preços são flexíveis e igualam oferta e demanda para todos os mercados da economia. As teorias mais aceitas até então não conseguiam explicar ciclos sem quebrar uma dessas hipóteses (ou quebrar uma que levava a quebra de outras). O exemplo típico era a idéia de rigidez de preço. Geralmente algum preço, mais comumente salários, era rígido e isso evitava o equilíbrio de mercado (market clearing) – no caso de salário, o mercado de trabalho e o conseqüente desemprego.

[7] Uma outra hipótese muito feita e mais sofisticada que levava a rigidez de preço era a idéia de expectativas adaptativas. Os agentes supunham o nível de preços do período relevante como sendo igual ou uma “porcentagem” do que foi o nível de preços no passado. Com base nessas expectativas eles fixavam o preço do período relevante, tornando-o rígido e incapaz de reagir às mudanças de mercado de forma a equilibrar oferta e demanda. O problema de tudo isso é que: 1) preço, talvez a principal variável econômica, se torna exógeno em um modelo econômico, o que é um tanto absurdo. 2) fere o principio da racionalidade e otimização (se essa regra claramente gera resultados “ruins” ou ainda, desvios dessa previsão são corriqueiros, porque os agentes não refazem a regra ou ainda porque não mudam os preços quando percebem a necessidade?). 3) Viola a idéia de equilíbrio. Ciclos são fundamentalmente fenômenos de desequilíbrios causados por algum preço travado que evita a equalização de oferta e demanda.

[8] No modelo das ilhas de Lucas era obtido ciclos sem necessidade de violar nenhum dos princípios tradicionais da teoria. O problema do modelo era, além da sua “fraqueza empírica” a hipótese de que os agentes não conheciam os demais mercados e o nível geral de preços. Na “era da informação” é algo bem estranho mesmo. Além disso, a própria hipótese é fraca no quesito racionalidade: se saber sobre os outros mercados é tão importante, porque agentes maximizadores não vão atrás dessas informações que estão disponíveis a custos baixíssimos?

[9] Dada a elegante solução de Lucas e os problemas dessa solução é que se parte para o formato mais convencional da teoria dos ciclos reais. Primeiro é mudado o foco causador dos ciclos. No modelo original de Lucas, o causador era a política monetária. Ela alterava os preços e os agentes tinham dificuldades em reconhecer se aquele aumento de preços que eles viam em suas respectivas ilhas era uma mudança de preços relativos (o que estimularia ele a produzir mais) ou se será somente uma alteração do nível de preços (o que não o estimularia a mudar a produção). Basicamente os ciclos serão gerados devido a essa incapacidade em distinguir os dois tipos de preço. Com o tempo, o agente aprende e a política monetária fica sem efeito real (variáveis reais como produção, capital, trabalho, emprego não mudariam).

[10] Na RBC tradicional, o causador dos ciclos será choques tecnológicos, embora como já disse, o modelo pode ser modificado para suportar choques monetários. A “historinha” básica da teoria é a seguinte: temos agentes omitizadores, racionais etc.. os mercados são concorrenciais, preços flexíveis, enfim, nenhuma daquelas hipóteses clássicas é violada. O problema do um agente econômico qualquer, “representativo”, nessa teoria é o seguinte: ao longo da sua vida (como geralmente estamos falando de um país, isso seria um período de tempo gigantesco,“infinito”), o agente quer maximizar sua utilidade e essa utilidade depende do que ele consome ao longo da vida. Ele tem uma tecnologia (uma função de produção) que transforma trabalho e capital em bens que podem ser consumidos ou investidos e transformados em mais capital, que gera uma maior produtividade e conseqüentemente mais bens no futuro. Lembrando que para nosso agente representativo trabalho é um mal (diminui seu bem estar). O que ele ganha trabalhando é justamente bens para consumir e esse ganho é determinado pela tecnologia que transforma trabalho e capital em bens. Para quem estuda economia, o problema acima é o tradicional modelo de Ramsey.

[11] A solução para esse problema de otimização dinâmica (ao longo do tempo), será uma seqüência no tempo de valores escolhidos pelo agente para capital, consumo e trabalho e conseqüentemente uma seqüência de produto, que seria o PIB. O crescimento desse PIB ao longo do tempo portanto depende da preferência dos agentes por consumo no futuro e pela sua preferência entre lazer (não trabalho) e trabalho. Se o agente deixa de consumir hoje e investe para consumir no futuro, ele receberá adicional no futuro o incremento na produção derivado do aumento do capital propiciado por esse investimento, ou seja, ele troca consumo hoje por (1+r) consumo hoje, onde r é a produtividade do adicional de capital (produtividade marginal). No caso do trabalho, é a mesma coisa. Ele perde utilidade (bem estar) por trabalhar, mas ganha mais utilidade ao consumir mais (porque produziu mais).

[12] Os ciclos, nessa teoria, serão gerados exatamente por “choques” nessas relações de produção, tecnológicas. Um choque que diminua a produtividade do capital (choque negativo) fará um agente escolher o que? Menos consumo futuro, afinal, por consumir menos hoje ele receberá menos no futuro, devido ao choque, do que receberia sem o choque. E um choque na produtividade do trabalho? A mesma coisa. Quanto ele receberá por trabalhar? Menos do que na situação sem o choque. Compensa então trocar lazer por trabalho? Menos do que então, logo ele diminui a sua oferta de trabalho, o que significa uma menor produção (um menor PIB). Quando o choque “passa”, a oferta de trabalho volta ao normal e conseqüentemente o PIB.

[13] Eu dei o exemplo típico da RBC, mas poderíamos incluir choques institucionais, choques monetários. Por exemplo, uma das minhas “versões preferidas”: por alguma política monetária “surpresa” (como os agentes são racionais, só surpresas importam, a parte prevista é acomodada, não tem efeito real), o setor financeiro fica em dificuldades o que gera um choque negativo nas alocações de poupança e investimentos, que é uma das funções do setor financeiro, diminuindo a produtividade do capital e gerando o mesmo resultado cíclico do exemplo anterior que tinha um choque direito no capital (obviamente a força do ciclo pode variar dependendo de onde ocorre o choque). Enfim, as possibilidades são muitas e depende da criatividade do economista de plantão.

[14] É importante ressaltar o seguinte: como vocês podem ter reparado, eu não citei uma única vez na explicação a palavra “demanda agregada”, ou seja, a demanda agregada não importa na versão clássica da RBC, o que é uma qualidade e tanto (sugiro lerem os textos "Propaganda enganosa e crescimento econômico" e "Déficits e, novamente, consumo gerando crescimento" ). Os ciclos são causados por choques exógenos na oferta. Segundo, não falei em desequilíbrio algum. O ciclo vem unicamente de diminuições na oferta que continua se equilibrando com a demanda, graça aos preços exercendo perfeitamente a sua função de igualar as quantidades. Isso é um ponto muito polêmico da RBC. Basicamente o que significa é que todo o “desemprego” é “voluntário” (na terminologia econômica), ou seja, os trabalhadores param de trabalhar porque a produtividade do trabalho diminui (é a escolha entre lazer e trabalho que eu mencionei na explicação). Alguns críticos dessa teoria dizem jocosamente que por ela, a grande depressão foi um surto de preguiça. Ainda nessa linha de desequilíbrios, ciclos, por essa teoria, são vistos como respostas ótimas, eficientes (ou seja, que maximizam o bem estar da sociedade) à choques externos. O governo tentar evitar tais ciclos estaria então gerando uma ineficiência, diminuindo o bem estar social. Os agentes privados, maximizadores, dão a melhor resposta possível ao choque exógeno, ou seja, otimizam (um dos pilares da teoria da escolha ortodoxa).

[15] Para terminar essa parte da RBC é bom falar um pouco dos choques. Como já disse, são exógenos, ou seja, “estão fora” do modelo ou da teoria. Muita gente torce o nariz para a idéia de choques tecnológicos, com a famosa pergunta, no caso de choques negativos: como alguém “esquece” como se mexe em um computador ou em algum equipamento qualquer? A idéia obviamente não é essa. Como no exemplo do setor financeiro, choque “tecnológico” no fundo só significa que existe um termo na função de produção que a altera, “da um choque” mesmo mudando as produtividades dos fatores de produção. A origem pode ser qualquer historinha bem contada, como por exemplo, sistema financeiro podre (Japão, aparentemente EUA), ou ainda, estatizações, incertezas quanto a direitos de propriedade (Bolívia, Leste Europeu pós-URSS, Venezuela) e por ai vai. Outro ponto é a idéia de “aleatoriedade” dos choques. Dado que os agentes são racionais, apenas choques “imprevistos” (na verdade a palavra choque já implica essa imprevisibilidade) serão relevantes para os ciclos. Se existir algum elemento de previsibilidade, os agentes se adaptarão e os ciclos serão “abortados” ou amenizados. Isso é uma vantagem em relação a teorias que procuram descrever um ciclo por etapas identificáveis, previstas etc.. Se essas etapas são previstas, os agentes se adaptam a elas e o efeito real não se concretiza (ou é amenizado).


Teoria Austríaca dos Ciclos

[16] Deixando de lado a RBC, a outra teoria que eu gostaria de comentar é a dos austríacos, a teoria preferida dos libertarians mais radicais (entre os não fãs da teoria e libertarians radicais estão “notáveis” como Bryan Caplan, David Friedman, Milton Friedman). Essa teoria foi desenvolvida, retocada ao longo do tempo no trabalho principalmente de Ludwig Von Mises, Friedrich A. Von Hayek e posteriormente Roger Garisson (que até tentou colocá-la de uma forma mais “esquematizada”). O interessante é que poucos sabem que foi a maior “rival”, durante a década de 30, da teoria de ciclos que “nascia” com Keynes (ou pelo menos do conjunto de políticas defendidas pelo britânico). Recebeu muitas criticas de economistas como Nicholas Kaldor, Piero Sraffa e outros, na época, “futuros notáveis”. A teoria do Capital austríaca, que é a base da teoria dos ciclos, também foi a “inspiradora” para John Hicks escrever o seu famoso Value and Capital, um dos livros mais complicados da história da economia.

[17] Antes de entrar na teoria em si é preciso falar da teoria do capital dos austríacos e da forma como é vista a chamada “estrutura de produção” da economia. Capital (na verdade, bens de capital) é entendido como bens intermediários no plano de ação, de produção, de bens de consumo de um agente econômico qualquer. Já bens de consumo são os bens finais em termos de objetivo, o propósito que a ação visava, o bem que saciará o desejo desse agente. Toda ação ocorre no tempo, envolve tempo como um meio. Do inicio da ação até a sua conclusão, ou seja, até a obtenção do objetivo pretendido com essa ação (um bem de consumo qualquer) passa-se tempo. Esse tempo os austríacos costumam chamar de “período de produção” (ou tempo de produção). Alguns bens de consumo podem ser obtidos diretamente, sem muito tempo, outros possuem inúmeros estágios e demandam muito tempo. Esses estágios são “etapas” de produção que ocorre ao longo do tempo que tornam o agente cada vez mais próximo da obtenção do bem final (bem de consumo) desejado.

[18] Um exemplo simples é a construção de uma casa por um naufrago em uma ilha. O naufrago precisa limpar o terreno, arrumar uma ferramenta para cortar arvores, o que já implica procurar e talhar algo cortante, depois cortar as madeiras de forma adequada, encaixá-las por partes até formar a casa. Do inicio, a idéia de fazer a casa, até o objetivo final, a casa, ocorreram diversos estágios e vários bens foram produzidos com a intenção de se chegar ao objetivo, a casa. Esses bens intermediários produzidos e “gastos” na produção da casa são os bens de capital. Basicamente o que define se um agente vai se aventurar em processos de produção que consomem muito tempo (tem vários estágios) é a sua preferência temporal (o quanto ele desconta os bens futuro, ou ainda, quanto “custa” o tempo para ele). Processos desse tipo necessitam de mais capital, de mais poupança pois o agente deixa de produzir bens de consumo e passa a precisar “alimentar” toda a longa estrutura de produção com bens de capital. Enquanto o naufrago está produzindo a sua casa e os respectivos bens de capital para isso, ele deixa de produzir outros bens de consumo como pescado, frutas, caça, sapato, roupa etc.. Essa diminuição do consumo é a poupança, que pode ser gerada no momento da produção da casa com o deslocamento dos fatores de produção de um setor (bens de consumo) para outro (bens de capital), ou antes, através do acumulo, digamos de cocos (bem de consumo) para ele se alimentar enquanto faz a casa.

[19] Voltando então ao que leva o agente a se aventurar em processos de produção mais longos, se a utilidade (bem estar) perdida por deixar de consumir hoje (ou no momento que a poupança foi feita) for menor que a utilidade que será ganha por consumir lá no futuro, então o agente investirá e produzirá bens de consumo que envolvam grandes estruturas de produção. Se ele desconta muito bens no futuro (o tempo “custa” muito para ele), então a quantidade desses bens no futuro terá que ser muito maior do que a quantidade que ele deixou de consumir para investir. Se desconta pouco, basta um pequeno acréscimo e ele aceitará poupar e investir. O preço que reflete essa alocação de recursos intertemporal é a taxa de juros. Ela será de extrema importância na análise austríaca.

[20] Uma baixa preferência temporal (um custo pequeno do tempo) refletirá na economia como uma baixa taxa de juros e uma longa estrutura de produção, ou como os austríacos dizem, uma estrutura de produção mais “capitalista”, no sentido de ser constituída de mais estágios intermediários no tempo, com mais bens de capital sendo usados. Um aumento da poupança deixa a disposição mais bens e fatores de produção para serem investidos na produção de bens de capital, que entram como estágios adicionais, mais um complemento, na já longa corrente entre etapas de produção até o consumo final. Hayek, no livro Price and Production, representa graficamente de forma bem simples uma estrutura de produção pensada dessa forma, isso gerou os famosos “triângulos de Hayek” (devido à representação ter ficado como um triângulo retângulo, com a hipotenusa do lado superior-esquerdo ao ângulo reto, como pode ser visto abaixo).


[21] Tendo em mente esse “esquema” austríaco da estrutura de produção e a crucial importância da taxa de juros na “largura” e número de estágios dessa estrutura, os austríacos, baseados na idéia de taxa de juros natural de Knut Wicksell (economista sueco), se perguntaram: o que aconteceria se houvesse um descolamento entre a taxa de juros natural (aquela que reflete a preferência temporal dos agentes na concepção austríaca) e aquela que é sinalizada nos mercados comumente? Basicamente é esse deslocamento causado por uma expansão do crédito gerada por políticas monetárias expansionistas que causará o “ciclo austríaco”.

[22] Como a teoria é explicada verbalmente, não tem um modelo que capte o “essencial” da coisa, você encontra pequenas diferenças (às vezes é só o estilo) entre a versão de Mises exposta no clássico Ação Humana e no The Theory of Money and Credit e a versão de Hayek exposta principalmente no Price and Production. Para quem se interessar, uma interessante aplicação dessa teoria (mais ao estilo Mises) para explicar a grande depressão é o livro America’s Great Depression do Rothbard. Bem, indo para a teoria, a apresentação geral seria a seguinte: o governo ao expandir o crédito e baixar a taxa de juros envia um sinal errado sobre a lucratividade dos projetos da economia. Lembrando da concepção austríaca sobre estrutura de produção, projetos que envolvem muito tempo, vários estágios de produção e, portanto muito capital só são lucrativos quando as pessoas estão dispostas a poupar muito e esperar por muito tempo o consumo no futuro, ou seja, só são lucrativos quando elas possuem baixa preferência temporal e disponibilizam poupança para essas empreitadas.

[23] A taxa de juros de mercado mais baixa e a facilidade da concessão de empréstimo, crédito vai indicar ao empresário que é isso que está acontecendo, as pessoas estão poupando mais e assim mais bens de capital estão disponíveis. Ocorre que não é isso que está acontecendo. A preferência temporal dos consumidores se mantém igual. Os empresários assim, com as baixas taxas e crédito fácil iniciam novos investimentos, novas fabricas, principalmente nos setores mais distantes dos bens de consumo (como seria no caso de uma diminuição da preferência temporal e da taxa de juros natural). Ocorre que no caso da mudança das preferências temporais, os bens de capital realmente estão disponíveis porque as pessoas estão poupando, no caso da expansão artificial do crédito não. Os empresários começaram a disputar com os setores mais próximos dos bens de consumo, os bens de capital e trabalho disponíveis. Isso irá elevar os preços nos estágios finais de produção e os custos desses empresários.

[24] Repare então o que ocorre: a expansão do crédito e a diminuição artificial dos juros causam um boom. Empresários partem para novos investimentos, novas contratações nos estágios distantes dos bens finais, no começo da estrutura produtiva. Esse alargamento da estrutura de produção inconsistente com a preferência dos consumidores, com a disponibilidade de bens de capital é que vai provocar a recessão pós-boom que não é nada mais nada menos do que o rearranjo da estrutura de produção as preferências dos consumidores e as reais disponibilidades de bens de capital. Mises usa uma “metáfora” para ajudar a explicar esse erro quanto à disponibilidade de bens de capital provocado pelo falseamento do sinal que indicaria essas coisas: a taxa de juros. Ele diz que os empresários estão na posição de um mestre de obras que começa a erguer um edifício e quando estão no meio do caminho percebem para um edifício daquele tamanho, não há disponibilidade de tijolos e materiais suficientes.

[25] Um detalhe interessante é a comparação “do que falta” na hora do ciclo na teoria austríaca e nas teorias keynesianas tradicionais. Para os keynesianos é preciso aumentar a demanda agregada (particularmente variáveis como consumo, gasto do governo), enquanto para os austríacos é justamente a falta de poupança o problema. Não há tijolos e materiais suficientes para completar o edifício. A recessão é o inevitável reajuste das alocações equivocadas feitas anteriormente, a compatibilização entre a preferência temporal dos consumidores e a estrutura de produção da economia. A recomendação austríaca para a recessão, portanto é simples: deixe o sistema de preços funcionar. Não continue expandindo o crédito e mantendo a taxa de juros artificialmente baixa. É justamente essa política a causadora da distorção. Não fixe preços ou imponha rigidez “artificiais”, isso dificulta realocações necessárias entre os diferentes setores da economia.

[26] Um ponto “problemático” da teoria é o processo de “abortamento” do boom e a transformação dele em recessão. Essa parte foi alvo de muita discussão na década de 30 (quando houve as tais criticas de não austríacos) e atualmente continua sendo debatido através de alguns neoaustríacos interessados no tema como Roger Garrison. A versão mais simples do processo de volta chama a atenção para a elevação dos preços, particularmente dos preços dos fatores que estão sendo disputados entre o setor de bens de consumo e bens de capital. Os preços começam a subir e os empresários do expandido setor de bens de capital retornam aos bancos atrás de mais crédito para fazer frente aos crescentes custos do projeto. Isso gera uma maior demanda por crédito, crédito que o banco não tem como fornecer muito elasticamente (já que não houve nova expansão por parte do governo) levando a um aumento da taxas de juros para equilibrar demanda e oferta.

[27] Uma dúvida que surgiu e motivou uma outra explicação sobre a “volta do boom” foi a seguinte: e se o governo expandisse o crédito até os novos projetos serem concluídos? Quando os empresários voltassem ao banco pedindo mais crédito, o banco daria e o empresário completaria os novos projetos. Essa pergunta é um caso especifico de um problema mais amplo que assola a macroeconomia até hoje: o efeito da redistribuição de renda entre agentes heterogêneos. No âmbito do debate da teoria austríaca dos ciclos ela apareceu como uma discussão sobre a chamada “poupança forçada”, nome que também gerou uma certa confusão devido ao mesmo uso distinto da mesma palavra que Mises e Hayek fizeram.

[28] A resposta que especificamente interessava a questão dos ciclos foi uma analise da relação entre os preços de bens de capital (BCa) e preços de bens de consumo (BCo). A razão entre esses preços (BCo/BCa) foi entendida como sendo a taxa de juros em uma outra parte do mercado. Para os austríacos, o preço do tempo aparece em todo o processo econômico, não só nos mercados financeiros como estamos acostumados. Se um agente compra um bem de capital por um preço e esse bem de capital daqui um mês gera um bem de consumo por um outro dado preço, a relação entre esses preços mostra a taxa de retorno do investimento, a taxa de retorno por “esperar” nesse especifico setor. No equilíbrio, todas essas taxas de retorno precisam igualar a preferência temporal dos agentes, ou seja, convergem para a chamada taxa natural de juros. Quando o boom, principalmente no setor de bens de capital começa devido a expansão do crédito, as pessoas continuam querendo “esperar” menos para consumir. Elas continuam gastando seu dinheiro em bens de consumo. Essa nova demanda criada pela expansão do crédito pelos fatores de produção que estão nos bens de consumo elevam o preço desses bens de consumo. Essa elevação significa basicamente um aumento da taxa de juros e um aumento do retorno dos investimentos próximos aos setores ligados aos bens de consumo. É essa resposta dos preços, dado a proporção que os consumidores poupam e consomem, que revela aos empresários o erro dos investimentos feito no setor de bens de capital, mais distantes do consumo final. Esses investimentos se revelam não lucrativos.

[29] Hayek chamou esse processo de expansão do crédito e aumento do investimento nos setores de bens de capital de “poupança forçada”, já que de certa forma, ele transferia bens de quem recebia a nova moeda por último para quem recebia a moeda, os novos créditos, primeiro. Foi essa transferência que levou a pergunta e a idéia por trás de se expandir o crédito até completar os novos investimentos e assim evitar a recessão (a necessidade das realocações). No entanto, os economistas que apoiaram a tese de que um boom e o capital necessário para sua sustentação pudessem ser gerados através da expansão do crédito se esqueceram do limitador central na produção de bens de capital: a preferência temporal. Por mais crédito que seja concedido, quando os fatores de produção são pagos, toda essa moeda, renda nova serão gastos na proporção dada pela preferência temporal dos agentes que não mudou.

[30] Seja lá como esta o investimento “fisicamente” ele sempre se revelará um erro, porque o preço dos bens de consumo estará aumentando devido a essa demanda por bens de consumo gerada por uma preferência temporal que não condiz com uma estrutura de produção tão longa. As pessoas querem consumir agora, não depois. Elas não estão poupando. A única diferença entre se expandir artificialmente o crédito uma única vez e abortar logo cedo o boom e continuar expandindo é que no segundo caso, o reajuste precisa ser maior. Antes, o capital que estava sendo investido poderia de certa forma ser reaproveitado, você tinha só a base da siderúrgica sendo construída. Com as sucessivas expansões, você tem uma siderúrgica pronta, cheia de maquinas especificas que serão “jogadas fora” ou necessitarão de muitas adaptações para se tornarem economicamente viáveis. O desperdício foi muito maior no segundo caso, que no primeiro. Isso sem falar da destruição da moeda e do sistema de preços via inflações cada vez maiores conseqüência da expansão continua do crédito.

[31] Por isso os austríacos não cansavam de repetir que a recessão é a conseqüência inevitável de um boom. Não adiantava o governo, via políticas keynesianas, tentar “amenizar” ou abortar a recessão. Isso só agravava a situação, pois continuava falseando o sistema de preços e incentivando cada vez mais alocações erradas que não condiziam com a preferência temporal dos consumidores. A recessão era o inevitável ajuste da estrutura de produção às preferências dos consumidores.

[32] A teoria dos austríacos é interessante porque ela consegue, de uma certa forma, explicar esses booms de mercados financeiros ou em mercados específicos, seguidos de catástrofes depois. Além disso, ela complementa algumas explicações clássicas, como a de Milton Friedman, sobre a grande depressão (embora “complementa” aqui deve ser tomado com certa ressalva). É sabido que para Friedman o que intensificou a recessão de 29, 30 transformando-a em uma depressão foi a combinação queda drástica da oferta de moeda e alguns preços, como salários, com alguma rigidez (gerada pelos sindicatos e pelas políticas pró-demanda do governo americano). Friedman não se preocupa muito com a causa do crash de 29 e a quebradeira de bancos (que no fundo foi o que exerceu pressão reducionista na oferta de moeda). A teoria austríaca poderia entrar, e é o que Rothbard faz no livro indicado, para explicar essas causas. Como políticas monetárias expansionistas do começo da década de 20 levou a recessão em 29, a quebradeira dos bancos e a conseqüente redução da oferta de moeda, que para os austríacos não é o causador da recessão, é simplesmente uma conseqüência do ajuste das más alocações feitas no período de boom.

[33] Como no caso da RBC, a teoria austríaca não vê a demanda agregada como algo relevante na explicação dos ciclos. No caso da austríaca, o que importa é a distorção de preços relativos, mais especificamente, a relação entre preços de bens de consumo e bens de capital e a taxa de juros. Ao contrário da RBC, embora como eu disse, a própria RBC pode ser adaptada de forma a incorporar isso, fatores monetários são de extrema importância. É a expansão do crédito, via política monetária do governo que causa os ciclos. É importante salientar que, para os austríacos, ao contrario dos monetaristas, não é qualquer variação da quantidade de moeda que vira ciclo (precisa de preço rígido no caso monetarista clássico). Jogar enormes quantidades de moeda de um helicóptero, como brincava Friedman, também gera inflação para os austríacos (embora alguns austríacos, às vezes, use o termo inflação como sendo a própria expansão da moeda e não o conseqüente aumento de preços). Já a geração de um boom vai depender da rapidez com que essa moeda chegue ao mercado financeiro, bancário. A política monetária do governo, injeta dinheiro diretamente no sistema financeiro através dos “open markets”, por isso o foco nela.

[34] Após todas essas explicações, acho que fica mais claro porque eu disse que era correta a critica dos liberais ao BC americano usando a velha história de que não se cura um drogado dando mais drogas à ele. Continuar injetando crédito na economia não vai evitar a chegada da recessão, só vai tornar o reajuste da estrutura de produção, a eliminação das más alocações mais dolorosa e critica, exatamente como no caso de um drogado. Dar drogas evita a crise de abstinência momentânea, mas a crise da cura é muito pior.

[35] Por fim, como já indiquei pelo meio do texto, os livros que acho mais interessantes sobre teoria dos ciclos austríaca são o Price and Production do Hayek, que é uma exposição detalhada da teoria e considerado bem confuso e complicado, o capitulo de ciclos do Ação Humana de Mises (esse muito bom) e o livro do Rothbard sobre a grande pressão. America’s Great Depression. Na parte da RBC, de uma forma mais superficial, para “pegar a mensagem”, existem capítulos sobre essa teoria em qualquer moderno manual de macroeconomia. Quem quer algo mais técnico e bem mais complicado, dado que esses modelos usam muita matemática sofisticada, além dos muitos artigos que saem nos “journals” de economia, não conheço melhor livro do que o Frontiers of Business Cycle, que na verdade é uma coletânea de capítulos escritos pelos principais teóricos dessa linha. Começa com a exposição do modelo clássico de RBC, expõe modelos com choques monetários, tem capítulos bem complicados sobre como resolver os modelos, enfim, é bem completo.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Déficits e, novamente, consumo gerando crescimento

Não se fala em outra coisa no noticiário econômico, o assunto da vez é o pacote de incentivo a economia do governo Bush. Por trás da medida, a idéia errada de que o consumo é que faz a economia crescer. Já escrevi no blog um longo texto sobre esse erro que pode ser conferido aqui. O que basicamente queria dizer de novo com este post é o seguinte:

Basicamente não há nada de errado com cortar impostos (o que, oficialmente, nem é o caso, é uma devolução sobre impostos pagos). O problema é o cortar impostos e não cortar gastos. O que se fez no fundo não foi cortar nada. Déficit hoje precisa ser pago e será pago com mais impostos no futuro. Déficits basicamente são impostos futuros. Se a idéia era aumentar o consumo, dependendo de como as gerações presentes se importam com a geração futura, pode não acontecer absolutamente nada. As pessoas poupam o novo dinheiro para pagar as taxas futuras. Claro que aumentar o consumo também não geraria absolutamente nada (a não ser pavimentar o caminho para menos crescimento no futuro)

Se a geração presente se importa com a futura, mas não como se importa consigo mesma, o programa também tem seus problemas. Pode ser bastante tentador gastar hoje para outra pessoa, que eu gosto, mas nem tanto, pagar no futuro. O resultado disso é a destruição do capital acumulado e o empobrecimento futuro. Os americanos não seriam o que são hoje se seus avós e bisavós tivessem tido tal comportamento. Muito pelo contrário, o pensamento que ergueu a maior potencia do globo foi completamente diferente, pautado em governo mínimo, “controlado” e livre mercado.

Para terminar, sobre a idéia de que “consumo move a economia”. Como já disse, tenho um texto aqui no blog sobre esse erro. Só gostaria de complementar o seguinte. A frase pode ser correta, obviamente não no sentido que geralmente é usada. O ser humano age, escolhe porque quer satisfazer algum fim, maximizar seu bem estar (ou como os economistas dizem, maximizar sua utilidade). Portanto, consumo sempre é o objetivo de todo ser humano. Consumir não é nada mais nada menos do que satisfazer algum desejo, algum objetivo, o fim desejado. Usufruir de algo que aumenta o seu bem estar (o que em economia é chamado de bem). Um ser humano, que espera viver por um certo tempo, gostaria de maximizar sua utilidade considerando esse tempo esperado, o que basicamente significa consumir o maior número de bens possível (em um sentido bem amplo) durante sua vida.

Para fazer isso, ele distribui ao longo do tempo, através da poupança, os recursos que obtém. Poupar é transferir consumo do presente para o futuro. Observem que sob a definição acima, toda alocação de recursos é uma espécie de consumo. É para maximizar a utilidade do sujeito. É correto dizer, sob o ponto de vista acima, que o consumo move a economia, porque aqui consumo não é nada mais nada menos do que sinônimo para “obter bens na maior quantidade possível”, “obter utilidade” , “maximizar utilidade”. Agora, esse consumo teórico, amplo que move toda ação humana não tem nada a ver com o que as contas nacionais chamam de “consumo” e que é o agregado que os economistas, principalmente keynesianos, adoram citar como o causador do aquecimento ou esfriamento da economia.

O consumo das contas nacionais é a soma de determinados bens comprados em determinados locais por determinados agentes. Se alguém compra uma casa, por exemplo, isso não é consumo. É considerado investimento. Obviamente, em termos teóricos é claro que alguém investe porque quer consumir, mas no caso, no futuro. Seria então consumo futuro, mas não entra como “consumo” nas contas nacionais. O mesmo vale para uma indústria que compra uma máquina. O dono da indústria compra a máquina porque quer aumentar o “consumo futuro”. Aquilo que chegaria o mais próximo do conceito teórico exposto acima seria o próprio PIB que é a renda que o “país alocará” entre consumo presente (consumo no sentido tradicional) e consumo futuro (poupança, investimento) visando a maximização de utilidade, ou se preferirem, motivado pelo desejo de mais bens, mais bem estar, mais consumo ao longo do tempo. O consumo das contas nacionais é irrelevante como causa de recessão ou não e muito mais irrelevante como “motor da economia”. Basicamente é sobre esse consumo que eu trato no texto anterior linkado: o “consumo” no sentido mais convencional, o que corresponde melhor ao que as contas nacionais chamam de consumo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Comentários sobre omissão e cumplicidade

Navegando a toa pela internet encontrei o blog Libertarian Thoughts: Uma coleção de pensamentos libertários. cujo dono ou donos não sei quem é (são). O blog repercutiu a discussão sobre a legitimidade de se invadir direitos alheios para salvar alguém com um texto que diz o seguinte em uma das partes:

“...B está agredindo alguém, então, só podemos supor duas coisas sobre D (o dono da propriedade):
a) Ele está ciente da agressão que está sendo feita nos limites de sua propriedade.
b) Ele não está presente e nem está ciente da agressão.
Ora, se D está ciente da agressão a C, isso o torna, por extensão, um agressor. Como eu demonstrei no post anterior, ele perde seus direitos à propriedade no instante em que ignora os direitos alheios. Invadir a propriedade de D não é errado porque ele não tem mais jurisdição sobre ela.”.

Lembrando que D é o carinha que, em tese não tem nada a ver com os outros 2, o agredido e o agressor (a discussão tinha isso como hipótese).

Só queria chamar atenção para uma coisa: na situação (a), simplesmente o fato dele, D, estar ciente, não o torna um agressor (obviamente nem por ação efetiva, nem por ser cúmplice). A relação de cumplicidade precisa ser uma ação direta, uma participação efetiva no crime, não simplesmente a omissão em informar algo ou prestar algum serviço. O caso mais óbvio é a questão do socorro. A tenta matar B que sai por aí ensangüentado pedindo socorro.

Qualquer indivíduo que seja alvo da solicitação de socorro não teria obrigação legal alguma de fornecer tal socorro (se tivesse, seria uma violação da propriedade do sujeito que recebeu o pedido de socorro). Isso obviamente não o tornaria cúmplice de assassinato (caso B venha a morrer). Ele não fez absolutamente nenhuma ação contra a propriedade de B. Não agrediu, não usou força física, não invadiu, enfim, nada. Omitir ações que não são previamente contratadas e acertadas entre as partes não é uma invasão, uma agressão, logo não constitui crime, seja essa ação o que for (socorro, ligar para policia, dar comida, remédio etc..).

Obviamente tudo muda de figura quando a ação tema do texto ocorre dentro de uma propriedade do sujeito D e ele sabe / concorda com isso. Aí sim, D passaria a ser cúmplice já que usou propriedades suas diretamente contra B, o que não era o caso da discussão (não geraria revolta “moral” alguma dizer que você pode “invadir” a propriedade do cúmplice, o que na verdade não seria nem uma invasão, seria defesa e, portanto completamente legitimo e justo).

A discussão, na versão mais complicada, se tratava justamente de uma hipótese (c) – as duas hipóteses citadas no texto do blog linkado não exaurem todas as possibilidades: D está ciente da agressão que não está sendo feita nos limites da sua propriedade. Seria algo como, por exemplo, B está sendo agredido por C. A passa e vê aquilo, quer ligar para a policia mas não tem telefone, só D que também vê a cena e tem um celular que está usando em outra conversa. O problema era, pode A tomar o celular de D e ligar para a policia? Ou ainda, o sujeito, A, que vai socorrer o outro, B, em uma certa casa pode pegar um atalho e chegar mais rápido passando pela casa de um terceiro (no caso D).

Esse é curtinho, só achei interessante explicar a questão da “omissão de socorro” ou “obstrução da justiça”, pois não foi a primeira vez que vi alegações de que propriedades poderiam ser invadidas com base nesses conceitos – nem foi o caso do texto citado (já que existe a hipótese adicional do crime ocorrendo dentro da propriedade do sujeito que está ciente), só o usei de gancho. Além disso, acho interessante comentar sobre o assunto, dado que a lei atual na maior parte do mundo obriga você a, por exemplo, prestar socorro, obriga a depor, e, em alguns casos que ficaram famosos, principalmente nos EUA, a revelar informantes e coisas do tipo.