sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Propaganda enganosa e crescimento econômico

[1] Assistindo TV em um daqueles domingos animadíssimos, me chamou atenção uma propaganda do governo federal (provavelmente era do Bolsa Família, não me lembro). A propaganda falava de um subsídio que o governo fornecia as famílias pobres (no comercial era a família do Zé, José, enfim) que permitia a elas comprar na mercearia do Marcos, que por sua vez comprava mais produtos agrícolas do Alfredo, que comprava mais do Lúcio, que... “movimentando a economia do país” (como dizia a propaganda), fazendo todos ganhar e o Brasil crescer.

[2] A propaganda é a imagem perfeita da relação carnal entre péssima teoria econômica, políticas públicas equivocadas, desinformação gerada pelo governo para se auto-legitimar e fracasso. Por trás da propaganda está a absurda idéia de que crescimento econômico se gera através de consumo, ou numa versão mais “ampla”, fomentando o que os economistas costumam chamar de “demanda agregada”. Economias não crescem porque seus agentes não consomem, não “gastam”. Falta demanda para absorver a oferta, o que desestimula aumentos de produção e consequentemente o crescimento. Obviamente o governo pode ajudar o crescimento de um país dando um empurrãozinho na demanda agregada. Como? Gastando mais ou pegando dinheiro “parado” dos ricos e distribuindo para os pobres gastarem. Um prato cheio para qualquer político.

[3] Tal teoria persegue a economia desde os seus primórdios. Foi defendida (obviamente de modos diferentes) por Malthus, Saint-Simon, depois Proudhon, Marx até alcançar o status de “respeitável” com Keynes, já no século XX, mesmo depois de ser refutada por David Ricardo, Jean Baptiste Say, Frédéric Bastiat. É natural que uma teoria que praticamente justifica uma vastidão de intervenções estatais e estripulias políticas, como déficits, recebesse grande apoio mesmo sendo completamente sem lógica e fundamento econômico algum. Governos não usariam dinheiro de impostos para financiar, “propagandear”, teorias que dizem que dificilmente ele, governo, ajudará em alguma coisa, ou mais atrapalha do que ajuda. É vital para sua sobrevivência enganar as pessoas mostrando sua “importância” para torná-las mais prósperas, para evitar desemprego, inflação, crises econômicas e outras intempéries do gênero. O problema é que as políticas derivadas destas teorias não levam a nada disso. Elas não geram mais prosperidade, geram mais miséria. Elas não geram menos inflação e ciclos econômicos, geram mais.

[4] Como comecei falando da propaganda do governo, peguemos o tal programa apresentado para analisar. A primeira obviedade é que o dinheiro para a família pobre gastar não surge do nada. Como estamos falando de governos, eles saem de impostos, o que significa que alguns, os pagadores de impostos, deixam de consumir, investir exatamente o montante que o governo dispõe para distribuir, gastar, “investir” etc.. O que temos é um “jogo de soma zero”. O governo tira R$1 de um lado e devolve R$1 de outro lado. Se o R$1 devolvido de um lado gera um “multiplicador” porque o Zé compra do João que compra da Claudia que compra da Luzia.... do outro lado, que perdeu R$1, temos um “divisor”, já que o sujeito que perdeu o dinheiro deixou de comprar de outro João, que deixou de comprar de outra Claudia, que deixou de comprar...

[5] Mas os defensores desse tipo de argumento insistem dizendo que o rico que perdeu o dinheiro, não deixou de comprar de ninguém, porque ele já não comprava. O dinheiro ficava parado, “poupado” em algum lugar. Logo, não só o pobre consumirá mais, como o rico manterá seu consumo. Este é o momento em que a teoria apresenta toda a sua inconsistência e “nocividade” contra o progresso. Poupança se torna um “mal”, algo a ser combatido e o consumo algo a ser estimulado. Em tese, não há nada de inerentemente errado em estimular o consumo, a não ser quando você diz que faz isso para tornar a pessoa mais rica. Para alguém ficar mais rico, precisa acumular mais, poupar. Não gastar. É uma coisa tão óbvia que é inacreditável como sob linguagens quase incompreensíveis, tal “recomendação” ganhou status de séria, verdadeira.

[6] É importante entender que “crescimento econômico” (real) nada mais é do que os moradores de uma dada região produzirem mais em relação a uma data passada. Esse crescimento não é uniforme. Em tese, é um simples agregado da produção de todos os habitantes de um dado território. Alguns podem produzir muito mais, outros menos, outros na “média” ou ainda, se não ocorrer crescimento per capita, todos podem produzir menos, mas devido a um maior número de habitantes, o total superar o do ano anterior. Enfim, um país não cresce, o que cresce é a produção de indivíduos que moram em um determinado território (que chamamos de país).

[7] Para a produção desses indivíduos crescer é necessário basicamente o aumento de dois fatores de produção “produzidos pelo homem”: trabalho e capital. A capacidade de mais trabalho gerar adições significativas na produção é bastante limitada. Existem uma infinidade de coisas que só o trabalho manual, trabalho puro não consegue produzir. Por exemplo, sem um guindaste para levantar materiais, dificilmente as construções passariam de dois andares e mesmo quando passassem, seriam extremamente custosas. Despenderiam uma quantidade absurda de trabalho para ficarem prontas. Imagine os homens sem caminhões, trens, sem fornos, sem mineradoras etc.. A produtividade do esforço humano cairia drasticamente, a quantidade de bens de consumo produzida seria drasticamente reduzida e o conforto e bem estar que atualmente as sociedades modernas possuem seriam dignos de ficção cientifica (se existisse recursos para alguém produzi-las). O que possibilitou toda a produção dessa enorme rede de bens intermediários, ou bens de capital, que auxiliam o homem na produção de quantidade cada vez maiores de bens de consumo foi justamente a terrível poupança. Nosso “modo de vida”, no campo da economia, é produto da poupança, da poupança de várias gerações.

[8] Deixe-me explicar de forma “estilizada” a importância da poupança no processo econômico. Imagine um náufrago perdido em uma ilha sem nenhuma construção humana. Apenas ele e a natureza. O náufrago vem de uma sociedade avançada, de forma que conhecimento técnico não é um problema para ele (embora num exemplo mais real, esse conhecimento também teria que ser aprendido e demandaria poupança). O náufrago para sua sobrevivência precisa primeiramente se alimentar. Ele possui como primeira alternativa viver somente das frutas que pega nas árvores e consumir relativamente pouco. Mas pode, no lugar de consumir todas as frutas (ou mesmo se dirigir a árvore para pegar novas) tentar arrumar uma estaca, um pedaço de pau, e com uma pedra tentar fazer uma ponta afiada para construir uma lança e com uma lança poder não só pescar mas também caçar algum outro animal pequeno. Repare que a lança funciona como um instrumento, um bem intermediário para a produção de mais ou diferentes bens de consumo no futuro. Para fazer isso ele precisa poupar. Deixar de colher frutas e diminuir seu consumo presente ou ainda guardar frutas que ele previamente colheu (o que também significaria diminuir seu consumo presente). Precisa realocar trabalho da produção de bens de consumo (frutas) – diminuindo seu consumo presente, para a produção de bens de capital.

[9] Mas o nosso náufrago pode pensar em planos maiores. Ele pode querer no lugar de fazer uma lança, fazer uma rede. Uma rede permitia a ele obter muito mais peixes do que uma lança com um esforço semelhante. Mas para fazer uma rede, o náufrago precisaria produzir uma quantidade muito maior de bens intermediários até chegar ao seu objetivo (a rede), que por sua vez também seria um bem intermediário, o “último” antes do bem final, o bem de consumo (que no caso seriam peixes). Para a produção de tantos bens, o náufrago precisa poupar muito mais. Ele precisa deslocar uma quantidade de trabalho muito maior da produção de bens de consumo para a produção de bens de capital, mas ao mesmo tempo, precisa continuar se alimentando enquanto a produção dos novos bens de capital não está concluída e permita a ele uma maior produção de bens de consumo. O náufrago enfrenta um trade-off, escolher entre menos consumo presente mas mais consumo no futuro ou consumir hoje uma quantidade maior do que se poupasse, mas uma quantidade menor do que se tivesse investido na produção da rede.

[10] A quantidade de poupança requerida vai aumentando, quanto mais ousada é a produção desejada do nosso náufrago. Ele pode querer produzir um barco para tentar voltar, sair da ilha. Um barco “meia boca”, tipo uma jangadinha, exige pouca poupança (poucos bens intermediários), basta ele achar toras pela ilha e cipó para amarrá-las. No entanto, a tal jangada gera um retorno esperado baixo (no primeiro ventinho, o barco se espatifa e o náufrago fica à deriva, no meio do nada). Já um submarino praticamente o faz alcançar o objetivo desejado (voltar para casa), gera um retorno altíssimo, no entanto exige tantos bens intermediários, uma seqüência de produção tão grande, que mesmo que o náufrago passasse sem comer por seis anos jamais conseguiria acumular tantos bens de capital. Da mineradora e suas maquinas, que por si só já necessitariam de muita poupança, para tirar ferro do chão e processar esse ferro, até a elaboração de todas as peças, a quantidade de bens poupados teria que ser imensa.

[11] O exemplo do náufrago é bobinho, mas contém praticamente todos os conceitos e leis econômicas que funcionam nas modernas economias do mundo. Primeiro a noção temporal da produção: o começar a fazer bens intermediários hoje, para obter bens de consumo no futuro. Vale a pena diminuir o consumo hoje, através da poupança, pra obter mais no futuro? A resposta depende de quanto é esse mais e quão longe está o futuro. Essa avaliação do tempo como sendo um “custo”, como algo que necessita de uma compensação para ser arcado, tomado, é o que gera o fenômeno dos juros. Se o tempo é um custo, bens presentes são preferidos ao mesmo bem no futuro. Você prefere R$1 hoje (bem presente), a R$1 daqui um ano (bem futuro). Quanto teriam que lhe dar adicionalmente para você ser indiferente entre receber R$1 hoje e R$1 no futuro? Quanto a rede precisa gerar a mais de peixe para o náufrago preferir diminuir o consumo presente dele de peixe (obtido com a lança) e resolver produzir a rede?

[12] Percebe-se que quanto mais baixo o custo do tempo para a pessoa, ou dito de outra forma, mais baixo o desconto que os bens futuros sofrem em relação aos presentes, menos adicional de bens no futuro é necessário para convencê-la a poupar e a trocar consumo presente por futuro. Logo, mais bens de capital serão produzidos por essa pessoa, mais longa será a estrutura de produção (a cadeia de bens intermediários) que ela estará disposta a financiar para obter bens no futuro. O tempo “custa” pouco para ela.

[13] Segundo, o exemplo mostra a vital importância da poupança na expansão da produtividade humana. Ferrovias, prédios, computadores só são produzidos porque temos bens de capital, bens intermediários que foram financiados por poupança. Imaginem toda a longa cadeia produtiva que o nosso náufrago teria que produzir caso quisesse construir um computador. Pois as sociedades modernas a fizeram. Fruto de séculos de continua poupança e investimento. Avanços produtivos, seja em forma de novos bens de capital, seja na forma de novos conhecimentos técnicos exigem mais investimentos, mais poupança para financiar suas produções. Exigem deslocamento de trabalho e recursos da produção de bens de consumo, para a construção de centros de pesquisas, professores, laboratórios, no caso de conhecimento, e fábricas, novas máquinas, peças, no caso de novos bens de capital físico.

[14] O que governa a complexidade e a intensidade dessa estrutura de produção nas economias modernas? A resposta é a taxa de preferência temporal dos agentes. Quando o tempo “custa” pouco, as pessoas estão dispostas a descontar pouco os bens futuros, a abrir mão de bens presentes em troca de bens futuros mais um pequeno adicional. Elas poupam mais. Isso permite maiores investimentos em bens de capital e a uma expansão da estrutura de produção, um alargamento dessa estrutura (um maior número de bens intermediários durante o processo de produção) que por sua vez gera uma maior produção no futuro. O preço que governa a alocação intertemporal desses recursos é a taxa de juros. Se em troca de R$1 hoje estou disposto a receber R$1,05 daqui um ano, isso significa que exijo 5% de juros anuais. Se meu desconto no tempo cai, passo a ser indiferente entre R$1 e R$1,03, isso significa uma taxa de juros de 3%, menor que a anterior. Essa queda da taxa de juros tem um efeito positivo para os empresários investidores – fica mais lucrativo investir e relativamente mais lucrativo em setores distantes dos bens de consumo final, ou seja, fica mais lucrativo investir no alargamento da estrutura de produção.

[15] Para ver tal fato, basta pegar dois ativos idênticos em valor presente, no entanto um com maturação curta no tempo e outro de prazo mais longo. Uma queda da taxa de juros aumentará o valor presente dos dois, mas aumentará relativamente mais o do ativo de longo prazo. Um aumento da taxa de juros leva ao efeito oposto (uma queda do valor presente dos dois, mas uma queda relativamente maior no VP do de longo prazo). A razão disso é o tempo contido nos dois ativos. Se o custo do tempo aumenta, então aquele ativo que demanda mais tempo fica menos lucrativo em termos relativos. Logo, diminuições da preferência temporal levam a uma maior poupança que por sua vez geram uma diminuição da taxa de juros indicando aos empresários que a estrutura de produção deve ser alargada, que eles devem investir primordialmente em setores distantes dos bens de consumos, o que no futuro possibilitará uma maior produção desses bens de consumo, exatamente o efeito original desejado pelos agentes ao aumentarem sua poupança. A taxa de juros coordena os planos intertemporais de poupadores e investidores, consumidores e empresários de diferentes setores da estrutura de produção.

[16] Voltemos então à idéia de que consumir faz bem para o crescimento. Se a poupança, supostamente parada dos ricos é usada para os pobres consumirem, a poupança agregada da economia cai. Temos menos bens disponíveis para produção de bens de capital, bens intermediários. Com a queda da poupança temos um aumento da taxa de juros e a conseqüente redução da estrutura de produção da economia, ela se torna menos “intensiva” em capital, usa menos estágios intermediários o que gera uma menor produtividade e uma conseqüente queda da produção futura. O que isto significa é menos, não mais crescimento. Os bens de capital que permitiam uma produção maior foram consumidos. A poupança diminuiu, não pode mais sustentar a antiga estrutura de produção, não pode mais “alimentar” os vários estágios de produção até o bem final (bens de consumo). Perceba que um país “para crescer” precisa poupar mais, acumular mais bens de capital, não consumir como recomenda as teorias de demanda.

[17] O porquê pessoas honestas caem no mesmo erro, tantas vezes refutado ao longo dos séculos, e acabam vendo a poupança como um mal e o consumo como a salvação da lavoura vem do não reconhecimento do fato básico da natureza com que a economia lida, a escassez. Agentes agem porque querem trocar uma situação menos satisfatória, por outra mais satisfatória. Fazem isso consumindo “bens” (bens aqui tem o sentido mais amplo possível, é tudo aquilo que traz alguma satisfação, algum bem estar). Só faz sentido falar em ação, em trocar, se temos escassez. Sem escassez não seria necessária nenhuma ação, nenhuma troca e nenhuma escolha. Tudo estaria a nossa disposição instantaneamente. Todos os nossos desejos estariam saciados, não existiria “situação mais satisfatória”, logo, não existiria motivo para ação, não existiria o que trocar e o que escolher. Temos tudo. Algo escasso jamais pode “sobrar” a preço zero, sempre existe um preço positivo que deve garantir que nenhuma quantidade “sobre”, ou seja, uma oferta maior que a demanda.

[18] Falar em superprodução de todos os bens (ou de uma geléia genérica que designa todos os bens), falar em falta de demanda agregada (em termos reais) é como falar em uma bola quadrada. Bens são escassos, são o alvo de escolha dos agentes. Não é possível ter tudo, temos que abrir mão de X para termos Y. Bens escassos não podem ser abundantes (sobrarem). É uma contradição. Quando um agente poupa, ele não está dizendo que para ele aqueles bens não são desejados. Ele está apenas transferindo consumo no tempo. Está consumindo menos hoje, para consumir mais amanhã. Poupança não é sinal de falta de escassez, é simplesmente decorrência dela. É necessário distribuir os escassos bens ao longo do tempo. Toda poupança tem uma finalidade. Serve para consumo futuro. Mesmo nas economias modernas, quando se poupa comprando títulos e não guardando maças em galpões, o fundamento é o mesmo. Um conjunto de bens, sob a forma de dinheiro, está sendo poupada e emprestada para um terceiro, que promete após um período lhe devolver todos os bens poupados mais um adicional (obviamente também “em forma” de dinheiro).

[19] Nenhuma poupança pode ficar “parada”, pois qualquer poupança, seja formada diretamente por bens ou moeda, é um bem escasso. A taxa de juros garante que toda poupança ofertada no mercado será utilizada por um terceiro para investimentos. Em economias com moeda, as mesmas leis valem, mas todas as transações passam por um bem intermediário, a própria moeda. As pessoas adquirem moeda da mesma forma que adquirem qualquer outro bem. Elas vendem seus serviços ou bens produzidos por moeda e com moeda vão até um ofertante que a compra, dando os bens que ela deseja em troca da moeda cedida. Obviamente também existem os “produtores originais” de moeda. Bem antigamente eram os mineradores, bancos privados com a “autorização” do governo que “cunhava” as moedas de ouro diante de um pequeno pagamento. Mais tarde, o governo e os bancos privados acabaram se tornando os próprios “fabricantes”, emissores de moeda em um sentido mais amplo.

[20] Se um agente deseja aumentar seus saldos monetários, o que ele precisa fazer é restringir suas vendas de moeda (restringir compra de outros bens) e aumentar as compras de moeda (aumentar a oferta de outros bens). Nesse sentido você até poderia falar em um excesso de oferta de “todos os bens” (estritamente falando não é isso, moeda é também um bem). O que então ocorreria? O fim dos dias? Obviamente não. O preço da moeda em relação a todos os outros bens, que são escassos, subirá e subirá até que uma quantidade física igual de moeda represente um saldo monetário real maior (um estoque de poder de compra, que é o que as pessoas demandam no fundo quando querem moeda) e assim sacie os consumidores no desejo por mais moeda em termos de poder de compra, saldos reais. Quando isso acontecer, as pessoas param de vender bens e comprar moeda, os mercados se equilibram a um novo “nível de preços”.

[21] O mesmo movimento vale para qualquer bem especifico. Se as pessoas querem mais X (excesso de demanda por X), precisam ofertar algo para adquirir esse X. Elas passam a ofertar, digamos, Y. A maior oferta de Y faz com que seu preço caia em relação a X fazendo com que menos pessoas queiram X e mais queiram Y até que o excesso de demanda por X suma e todas as ofertas adicionais de Y sejam demandadas, equilibrando todos os mercados. É nesse ponto que muitos economistas costumam se confundir. Excessos de oferta ou de demanda são possíveis em mercados específicos, nunca no agregado (na totalidade do conceito de bens). Se alguém oferta no mercado R$1 de X é porque quer R$1 de outras coisas. Individualmente você tem um excesso de oferta de R$1 de X e um excesso de demanda de R$1 de outras coisas (repare que para cada individuo, no agregado, i.e, no conjunto de bens possíveis, os excessos se cancelam, ou seja, o indivíduo respeita com igualdade sua restrição orçamentária). Se para todo indivíduo os excessos se cancelam, então também no agregado – conjunto dos indivíduos, um R$1 de excesso de oferta sempre se cancela com R$1 de excesso de demanda. Isso ficou conhecido na economia moderna como Lei de Walras, mas não é nada mais nada menos que a tão criticada e vilipendiada Lei de Say (a diferença é que a Lei de Walras foi apresentada de uma maneira mais geral, incluindo moeda ou qualquer coisa, enquanto a Lei de Say foi formulada sem levar em consideração a moeda, chamou-se de bens tudo, menos moeda).

[22] Geralmente a Lei de Say é apresentada pelos teóricos da demanda como sendo a lei que diz “que a oferta gera, ou cria, sua (própria) procura”. Obviamente, dependendo de como os termos são interpretados a sentença pode estar correta ou errada. A Lei de Say não diz que uma produção adicional de R$100 em carros gerará uma procura de R$100 por carros. Ela diz que uma produção adicional de R$100 de carros gerará uma procura adicional de R$100 por quaisquer outros bens (repare na explicação acima, eu digo oferta de X e demanda por outras coisas). É como se num mundo de escambo, você um produtor de maças aumentasse sua produção de 50 para 100. Para que o aumento? Ou porque você vai usar fora do mercado o adicional (ou consumindo ou poupando) ou porque você irá trocá-las por outra coisa. A Lei de Say seria melhor apresentada se disessem que: toda demanda precisa ser paga por uma oferta. Ninguém demanda nada, se do outro lado não oferta algo. Nesse aspecto, um agente econômico como demandante não tem a menor importância. É o fato de ser um ofertante que permite a ele satisfazer seus desejos, demandar algo.

[23] Percebe-se de toda esta discussão que não há nada numa economia que possa gerar superprodução ou que o problema de crescimento seja “falta de demanda”, uma falta que nunca ocorre. É natural (e trágico) que não economistas pensem assim, afinal, porque um lojista, numa visão mais simplória, não fica rico? Simplesmente porque as pessoas não demandam seus bens. Mas isso não significa que há “falta de demanda agregada”. Significa simplesmente que as pessoas querem outros bens e não aqueles que o lojista está vendendo. O governo sair gastando por aí ou emitindo moeda, não permite à comunidade como um todo consumir mais do que produziu, aumentar a demanda agregada para além da produção (a oferta agregada da economia). O que se tem é apenas uma transferência de componentes dentro da demanda agregada no caso do gasto do governo (cai o consumo ou o investimento no mesmo montante que sobem os gastos do governo) e, no caso da emissão de moeda, uma distribuição de renda favorável àqueles que receberam a nova moeda antes da inflação e desfavorável àqueles que recebem a moeda pós-inflação.

[24] No longo prazo políticas que visam a estimular o consumo só acabarão por destruir a estrutura de produção da economia, pois fazem poupança, bens de capital serem consumidos no lugar de investidos, diminuem a quantidade de bens intermediários, o “fundo de reserva” para sustentar longos estágios de produção. O resultado não será “todos ganhando” e o Brasil crescendo como diz a propaganda do governo. Mas sim menos crescimento e provavelmente, no longo prazo, todos perdendo. Essa é a trágica história econômica da América Latina. Políticas que sempre foram contra a poupança, que distorceram de alguma forma a locação intertemporal dos bens na estrutura de produção (seja via política monetária “imprevisível”, seja através de incertezas na política fiscal, nas regulações, controle de preços etc..).

[25] Peguei a propaganda do governo como exemplo, mas esta teoria econômica destrutiva está por todas as partes no Brasil. Para citar mais um caso, recentemente uma “economista” da UFRJ (não me lembro o nome) fez uma apresentação em um órgão do governo com a intenção de mostrar que a previdência não tinha déficit. Bem, o tema da apresentação por si só já seria de arrepiar os cabelos, mas para completar, no final da apresentação, ela começa a falar dos efeitos de um aumento nos benefícios previdenciários. Segundo a “economista”, um aumento dos benefícios significaria mais renda “entrando” na economia, o que estimularia a demanda agregada via efeito multiplicador gerando maior crescimento. Eis novamente como preparar terreno para uma catástrofe! Mas não é só no governo que isso aparece. É normal ver nos jornais reportagens mostrando como o “13°” movimentará a economia no final de ano, e a explicação é exatamente a mesma da “economista” e da propaganda do governo. Ouvimos, tanto da boca de economistas, quanto de historiadores, sociólogos, pensadores de diversas áreas, vertentes variadas do mesmo erro: temos que estimular o mercado interno, aumentar o mercado interno, fomentar a demanda, a crise de 29 foi causada por superprodução, a escravidão acabou porque a Inglaterra queria expandir mercado consumidor e tantas outras “explicações” que remetem à mesma teoria errada.

[26] Espero que um dia a América Latina, particularmente o Brasil, consiga vencer esse fantasma. As idéias, a mentalidade é o maior empecilho ao crescimento e a prosperidade. A “classe intelectual” brasileira adota uma teoria errada, uma teoria que condena o capitalismo, que enxerga no governo soluções para todos os supostos problemas crônicos e “inerentes” do capitalismo. Os governos / governantes obviamente além de aplaudirem de pé, financiam com a maior boa vontade a disseminação do erro, afinal, quer meio mais eficaz de se manter o domínio sobre corações e mentes e consequentemente o poder do que ser considerado “essencial”, “salvador das turbulências econômicas”, fomentador da prosperidade? E o pior é que depois as pessoas nem sabem direito porque deu errado. E o governo e a sua “tropa intelectual” são os primeiros a arrumarem um bode expiatório, de preferência um que represente princípios opostos aos seus: o livre mercado e o capitalismo. E que de preferência, dêem mais legitimidade a intervenções e políticas equivocadas E pelo menos no último século, sempre deu certo. Se o governo pudesse ser processado por propaganda enganosa, seria um bom caso.

2 comentários:

Fernando Bastos Nina Ribeiro disse...

A política assistencialista deveria ser emergencial, podendo o governo investir no capital intelectual do seu povo, o que traria maior competitividade internacional?

Fernando Bastos Nina Ribeiro disse...

Gostei das instigações!!!