terça-feira, 30 de outubro de 2007

A triste sina da América Latina

[1] Domingo de eleições na Argentina. E domingo de eleições na América Latina, como diria Capitão Nascimento, “dá merda” (pelo menos em 99% dos casos). Não foi a tragédia que podia ter sido - a segunda colocada era pior: Elisa Carrió, uma espécie de Hugo Chávez de saia. A vencedora, Cristina Kirchner é mulher do atual presidente Nestor Kirchner, o homem que ficou conhecido como o “salvador da economia argentina”. Assim como ele, por toda história do nosso pobre continente, existem vários outros salvadores nacionais, que, assim como ele, são, na verdade, salvadores de araque, responsáveis por “atos de salvação” fraudulentos, tão frágeis quanto um castelo de cartas, apenas mitos históricos que ajudaram a construir uma mentalidade perversa responsável por miséria e mortes por todo continente.

[2] Vejamos o maior “herói moderno” argentino: Juan Domingos Perón. A idolatria é tão grande que até hoje a Argentina se divide entre peronistas e... peronistas. Quando aparece alguém, com mínimas chances políticas que fuja da pecha de peronista, como a tal Elisa Carrió, é algo pior que os peronistas: radicaliza o que de pior o peronismo tem: o estatismo desenfreado e a ingênua, porém talvez a mais perigosa idéia que paira sobre a América Latina; que pobre é pobre porque existe rico. No caso do Peronismo, o rico malvado que mantém os pobres na miséria é o estrangeiro. Já para os não peronistas, como Carrió, o rico malvado é o nacional mesmo. E tanto lá, como cá, não faltam ricos que concordem com isso e, como se achando o máximo da intelectualidade local, votam nessas coisas. É claro que quando algum rico vota em um candidato que diz que ele é o mal do país, o próprio rico não se enxerga nessa condição. A culpa sempre cai sobre uma “elite” que ninguém define o que é, que ninguém nunca viu e da qual, obviamente na cabeça do sujeito, ele não faz parte. E nas raras vezes em que se define algo e o cidadão é incluído dentro do seleto grupo das “elites”, a culpa pela maldade não é do sujeito, é do sistema. Ele só faz o que faz porque o sistema obriga. Nada mais sem sentido e fácil do que culpar “o sistema”. É como culpar os marcianos pelo mal da terra. Os peronistas culpam “os marcianos terrestres”, ou seja, os estrangeiros.

[3] Todo esse misticismo tem seu preço. A Argentina, que no começo do século era uma das mais prósperas economias do mundo (alguns historiadores e economistas chegam a afirmar que era a sétima maior economia do mundo), hoje não figura nem entre as vinte primeiras. O que se viu no século XX, o século do misticismo peronista, foi a derrocada argentina. Mas o irônico (ou trágico) de tudo isso foi ver a fama e idolatria aos homens (e mulheres como Eva Perón), que perpetuaram tal derrocada, só crescer e os transformar em mitos. Perón criou as famigeradas leis trabalhistas, copiadas do fascismo italiano que só serviram para aumentar a pobreza justamente do trabalhador mais pobre, pois elevaram o custo desse trabalhador acima da sua baixa produtividade marginal (aliás, razão do seu baixo salário e conseqüente pobreza). Além disso, criou diversas barreiras protecionistas e dessa forma subsidiou as indústrias ineficientes às custas das eficientes, produzindo assim uma menor produtividade do capital desincentivando investimentos, quando no fundo o que, de fato, elevaria o salário dos pobres “descamisados” seria mais investimento, mais capital. Para coroar a salvação da economia argentina, Perón fez déficits, déficits e mais déficits. Déficits consomem capital. A poupança privada que seria alocada de forma a gerar o maior retorno possível passa a ser torrada na construção de obras como estradas que ligam o nada a lugar nenhum ou em subsidiar alguém bem “eficiente”, de preferência um chegado ao rei. Para completar o quadro, déficits precisam ser pagos. A forma tradicional de fazê-lo é tributando através de um novo imposto. Mas tributar é impopular. Porque não tributar escondido, através da inflação? Quem paga, geralmente é o mais pobre, a massa “desunida” sem lobbies poderosos em qualquer instancia relevante e para completar, sempre se pode botar a culpa da inflação em alguma elite estrangeira de banqueiros inescrupulosa ou, dependendo do salvador da pátria momentâneo, nos gananciosos empresários nacionais mesmo (como se de uma hora para outra eles tivessem um surto de ganância coletiva).

[4] Tudo o que foi dito se refere a Perón e a Argentina, mas se repetiu e continua se repetindo no século XXI como um melancólico tango argentino, uma sina que condena milhões à miséria. Na mesma época de Perón, tivemos Vargas no Brasil, mais tarde Salvador Allende no Chile, novamente Perón na Argentina, Vargas, Jango e JK no Brasil. As ditaduras militares que se seguiram mudaram pouco o panorama. Saiu toda a empulhação sobre luta de classes herdada do marxismo e similares, mas sobrou a herança do estatismo como condutor do desenvolvimento. O resultado continuou sendo o mesmo: déficits, inflação, mais pobreza, ineficiências, corrupção generalizada, surtos de crescimento que depois cobravam o seu preço e, cumprindo sua eterna tragédia, a América Latina ia ficando para trás.

[5] Veio a década de 90, a redemocratização e o aparente fim da história de terror, formada por salvadores da pátria e suas políticas criminosas não passou de uma doce ilusão. Se, por um lado, em alguns países a inflação foi controlada, algumas estatais foram privatizadas, desregulamentações aprovadas, por outro lado, o governo cresceu, emperrou a economia e continuou produzindo déficits. A confiança adquirida pelas moedas nacionais ao serem atreladas ao dólar foi aos poucos sendo corroída pelos déficits irresponsáveis dos governos. As reformas não realizadas, a piora da situação fiscal dos governos e ao mesmo tempo, constituições baseadas na velha mentalidade estatólatra (responsáveis em boa parte pelos déficits), trouxeram de volta os salvadores da pátria e suas estatolatrias. E nessa volta, a Argentina foi paradigmática.

[6] Após o “calote” do governo argentino que não cumpriu a obrigação de converter pesos em dólar ao valor pré-estabelecido, seguiram-se protestos e presidentes relâmpagos, até aparecer Nestor Kirchner, o popular “pingüim” que além de dar mais calotes e ligar a impressora voltou com toda aquela parafernália regulatória. A economia, que tinha encolhido 20% do PIB e precisava do sistema de preços funcionando para se recuperar, recebeu exatamente o contrário: inflação e desrespeito ao direito de propriedade. Mas a economia cresceu, assim como também cresceu por um período com Perón, o resultado: mais um salvador da pátria construído sobre mitos e falsas teorias econômicas.

[7] Já dizia Bastiat que em economia mais importante do que o que se vê, é o que não se pode ver. Quando o governo tributa e constrói uma linda estrada, as pessoas não vêem o que não foi construído. Para elas a estrada é um adicional, sem o governo não haveria estrada, nem outra coisa. Mas tal raciocínio, usado por algumas escolas de, supostamente, economia, esquece do principio básico desta ciência: recursos são escassos. O que foi usado para construir estradas teria sido usado para construir outras coisas, outras coisas que certamente seriam mais valoradas que a estrada construída, já que para disponibilizar recursos para essa obra foi necessário o governo usar a força (é preciso usar a força para que alguém queira lucrar?!). O que acontece na Argentina é precisamente isso. Para um PIB que encolheu 20% devido a um choque de política monetária, como no caso argentino, nada mais natural que o PIB volte para seu nível natural, dado que não se alteraram coisas como quantidade de trabalho, capital, capital humano e outros determinantes da chamada “oferta agregada”. A recuperação mais rápida possível é aquela que deixe o sistema de preços funcionar, guiar a alocação dos fatores de produção da forma mais eficiente possível. Mas o governo argentino não fez isso e com políticas erradas se aproveitou de um movimento econômico que o máximo que governos podem fazer é não atrapalhar. E ele atrapalhou, chegou até a ressuscitar uma preciosidade da idade das trevas da América Latina: fixar preços e proibir exportações de produtos para evitar que seus preços subam. E junto, por tabela, trouxe a famosa adulteração do índice oficial de inflação, como os governos já faziam por toda América Latina na década de 80 para esconderem a própria incompetência.

[8] Adotando a mesma tática de sempre, atribuindo ao governo e suas políticas ruins resultados bons e escondendo os resultados ruins (ou culpando quem nada tem a ver com a coisa, como no caso da inflação), mais um mito foi construído, o de que Kirchner salvou a economia argentina, e, sob esse mito, mais um péssimo candidato com um péssimo programa de governo chegou ao poder. E assim caminha a América Latina: o desemprego não é culpa da legislação trabalhista que impede os preços de equilibrarem oferta e demanda, é culpa das multinacionais, da concorrência estrangeira ou é intrínseco ao sistema (negando por completo a idéia de escassez). Inflação não é provocada pelos políticos/governos com a sua voracidade por roubar mais e mais recursos da população, é provocada pelos gananciosos empresários. Pobreza? Culpa do capitalismo, dos EUA e da elite. Não tem nada a ver com as políticas anti-poupança dos governos, com os desperdício de capital, com a destruição da moeda e com as políticas redistributivas anticapitalistas. A mesma mentalidade que infectou a Argentina e o restante da América Latina no século XX, continua fazendo sucesso no século XXI, com os Kirchners na Argentina (aliás, repetindo a tradição de casalzinho 20 que eles tanto adoram), Chávez na Venezuela, Morales na Bolivia, Corrêa no Equador e em menor grau Lula no Brasil.

[9] Ludwig von Mises dizia que o começo do fim de tais políticas erradas estava na derrota, no campo das idéias, das teorias que as sustentavam. Idéias, por piores que sejam, nunca morrem. O keynesianismo, o marxismo e similares que dão suporte teórico a essas coisas são apenas a expressão ”moderna” de idéias que antes já haviam sido defendidas por gente como Malthus, Sismondi, Proudhon e refutadas por grandes economistas como Jean Baptiste Say, David Ricardo, Frédéric Bastiat, Adam Smith. Mais tarde, quando o keynesianismo e o marxismo ganharam força e produziram não só déficits, inflação, miséria, mas também uma distorção moral incrível em conceitos como justiça e responsabilidade, novamente apareceram grandes intelectuais, tanto no campo da filosofia, quanto no campo da economia, para restabelecer os fatos. Infelizmente, na América Latina, as trevas parecem permanecer e serem mais resistentes que em qualquer outro lugar do mundo fazendo a história se repetir de uma maneira trágica. A velha estatolatria de sempre, reforçada por Cristina Kirchner, viva e forte, depois de tudo de ruim que produziu.

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