sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Alguns erros dos socialistas

[1] Gostaria de comentar sobre alguns erros muito comuns, cometidos por socialistas e simpatizantes, baseados em visões equivocadas de três conceitos básicos: escassez, coerção e liberdade. Apresentarei o significado correto dessas idéias e depois "proposições socialistas" que, direta ou indiretamente, as usam erroneamente, gerando verdadeiros desastres para nossa sobrevivência.

PRIMEIRA PARTE - EXPLICANDO OS CONCEITOS

[2] Escassez é um fato básico com que todos os homens se deparam. É um fato gerado pela natureza do mundo em que vivemos e pela nossa própria natureza. Basicamente significa que não temos tudo o que queremos, não temos todos os meios necessários para satisfazer nossos fins. Não é um fato social, não é uma "arbitrariedade" ou algo gerado por organização social alguma. É um fato inescapável gerado pela natureza do que existe (do "mundo externo" e do homem).

[3] Um Robinson Crusoé, perdido em uma ilha deserta, enfrenta escassez tanto quanto um trabalhador em uma sociedade moderna ou Bill Gates com sua fortuna de bilhões de dólares. Um Robinson Crusoé precisa decidir, por exemplo, se gasta seu tempo pescando ou coletando cocos nas palmeiras. Se coleta cocos ou se dorme, se dorme ou se poupa para construir uma jangada e tenta escapar da ilha. Em relação aos cocos que coleta, precisa decidir se come ou se poupa para um dia ruim, se poupa para tentar pescar outro dia e por ai vai. Um trabalhador em uma sociedade moderna precisa decidir se trabalha no setor X ou no Y, se prefere trabalhar agora ou se investe em capacitação, se o salário que ganha será usado para consumo, para uma poupança (que pode financiar uma capacitação futura), para pagamentos de dividas mais urgentes, para a compra de um presente, dentre outras coisas. Já Bill Gates precisa decidir onde colocar seus bilhões: se investe em A, em B ou em C, se simplesmente consome e se for consumir, consumir o quê e em que momento consumir o quê. Ainda pode escolher se deixa a fortuna de herança para os filhos, se faz caridade, deixa para universidades e instituições de ensino que brigaram entre si por um pedaço da fortuna que é escassa.

[4] Obviamente o "leque de escolhas" de cada um dos nossos exemplos é bastante variado: Robinson Crusoé pode, em um dia normal, escolher entre não comer nada e tomar uma água de coco. Qualquer coisa muito fora dessas opções não faz parte das suas possibilidades. São escolhas impossíveis para ele. Um trabalhador em uma sociedade moderna também pode escolher entre não comer nada e tomar água de coco, mas também pode optar por uma infinidade de outras refeições, como batata frita, iogurte de morango, coca-cola dentre outras. Seu "leque de escolhas" é maior. Isso não o torna livre da "árdua tarefa de escolher", não o torna “livre da escassez”. Enquanto ser humano ele sempre terá que fazer escolhas (porque não pode ter tudo), algumas mais fáceis, outras mais difíceis, mas isso é um fato inescapável. É uma conseqüência da sua própria natureza e do mundo em que vive. Bill Gates, além das opções do Robinson Crusoé e do nosso trabalhador, tem uma variedade ainda maior de opções. Se quiser, ele pode tomar um vinho de US$100 mil, pode pegar um jatinho e fazer uma refeição em qualquer ponto da terra, a custos que o trabalhador e o nosso náufrago nem podem "sonhar". A diferença entre os três é o grau de abundância, de riqueza que possuem. Todos eles enfrentam escolhas, mas o leque de alternativas é maior para o Bill do que para o náufrago. Bill Gates tem opções em "abundância", é rico. O náufrago, naquela situação, não.

[5] A condição "inicial" do homem é a mesma do náufrago, com um agravante. Um náufrago pode ser um cientista, um engenheiro, enfim, um membro relativamente "bem informado" quanto a certas tecnologias modernas. Isso lhe permite fazer algumas "ferramentas", mesmo básicas, que facilitam sua sobrevivência, como uma lança, armadilhas para os animais, talvez uma jangada, uma cabana e até mesmo fogo. O homem das cavernas, do "inicio de tudo", não sabia nada disso. Ele precisou aprender, aprender com o uso da sua mente, com o uso da razão, como fazer até as coisas mais básicas para sua sobrevivência. Aprender, produzir não é fruto do destino, não é um presente de alguma divindade. São escolhas, são atos volitivos. Atos que demandam a adoção de um caminho ao invés de outro. É uma deliberada ação visando "domar" o que existe, tornar essas coisas, meios para um melhor bem estar, é a deliberada opção por amenizar a escassez e conseqüentemente o “custo” que ela impõe ao bem estar humano. Nesse processo existe apenas o homem, a sua mente, seu modo de ganhar conhecimento (a razão) e o "mundo externo", pronto para ser transformado em meio para satisfação de seus fins, pronto para ser colocado sob sua vontade, sob seu controle e disposição, enfim, pronto para ser apropriado, usado e usufruído pelo homem. Somente dessa forma, com o uso da razão, descobrindo "reordenações" corretas do que existe, do "mundo externo" é que o homem pode viver, que o homem pode vencer as forças mais brutais que a escassez lhe apresenta.

[6] Até aqui, tomamos conhecimento do inexorável fato da escassez e do modo, o único modo, que o homem dispõe de superá-la; através do uso da sua mente, do seu trabalho e da apropriação de recursos externos. Um outro modo de dizer a mesma coisa é afirmando que a única maneira de sobrevivência do homem é ter respeitado sua propriedade sobre si mesmo (ou seja, poder usar ele mesmo, sua mente, seu corpo, como bem entender) e sua propriedade sobre bens externos, que ele colocou em uso, que ele usou ou usa na produção de algo (a famosa regra do "primeiro uso" de John Locke). A primeira parte (propriedade sobre si mesmo) é auto-evidente e não necessita de maiores explicações. A segunda parte (propriedade sobre bens naturais / externos) merece explicações adicionais. Nenhum homem pode sobreviver se, primeiro, o fruto do seu trabalho não lhe pertencer. O fruto do seu trabalho é a conseqüência imediata do uso da sua auto-propriedade, i.e, da sua mente e do seu corpo. É o resultado imediato e o único objetivo desse uso. Se aquilo não pode ser usado por ele para satisfação de seus fins, para seu usufruto, o que estamos dizendo é que o homem não tem direito à viver, não pode escapar da escassez mais básica, não pode obter o mínimo necessário para manter suas forças vitais como um animal qualquer faria. No entanto, se limitamos a esse mínimo necessário, estamos afirmando que o homem não pode ser homem. Não pode usar sua mente, sua capacidade, para se elevar em relação aos demais seres vivos, não pode se libertar das agruras básicas da escassez, não pode viver como um ser racional, planejando o longo prazo, com conforto e "abundância". Seu destino é viver como um animal qualquer: da mão para a boca. Obviamente, para que o homem construa uma vida de abundância e conforto, aproveite toda sua capacidade racional e viva de acordo com tal capacidade, é tão necessário quanto que o produto do seu trabalho seja dele, que também "bens naturais externos", que nada mais são do que um fator de produção, também sejam suas propriedades. Não existe produção sem a combinação de trabalho com "bens naturais externos" como terra. Como já foi dito, "o mundo externo" precisa ser colocado sob a vontade da sua mente, precisa ser transformado em um meio, um meio a ser alocado para o fim que o homem desejar. Isso significa simplesmente, precisa tornar-se sua propriedade.

[7] Durante a maior parte da historia da humanidade, nós não vivemos de acordo com esses princípios. O homem nunca pode usar sua mente como desejava, nunca pode produzir e usufruir da sua produção. Ele, na maior parte do tempo, produziu para o usufruto de outros. Ele foi um escravo. O homem nunca teve seu direito de propriedade sobre si mesmo e sobre bens externos respeitados. Ele vivia sob "coerção". Coerção significa que ele não é livre para se usar, para usar suas propriedades como ele desejaria. Ao contrário de escassez, que é algo presente independente de onde alguém esteja, é inerente ao ser humano, coerção não existe para, por exemplo, um Robinson Crusoé. Coerção é coerção de outros seres humanos, i.e, só tem significado quando há mais de um ser humano. Coerção é um ato, uma escolha, por iniciar a força contra outro ser humano, contra suas propriedades. Só através do uso da força, alguém pode ser impedido de usar sua mente, de seguir seus valores, de buscar seus próprios fins. A coerção é uma violação do que o homem é, do seu modo de sobrevivência. É a negação do direito à vida, é a deliberada escolha por "sobreviver" como um animal e não como um homem, pois nega aquilo que permite a nós sobrevivermos como tal (a auto-propriedade e a propriedade sobre o mundo externo).

[8] Um leão que ataca o nosso pobre náufrago não o está "coagindo". Um leão não "escolhe", não tem livre arbítrio, não tem comportamento volitivo. Um leão é um dado da natureza e como um dado da natureza precisa ser tratado com "tecnologia", não com ética ou coisa do tipo. O ataque do leão é como um raio, não tem significado ético, não possui "comportamento volitivo" algum. É o inescapável, o dado, assim como a escassez ou a natureza humana. O mundo, o que existe, simplesmente é. Não é errado ou certo, mas sim a base da determinação do que é certo ou errado. A escassez não é justa ou injusta, certa ou errada, ela simplesmente é. A coerção, ao contrário, como sendo fruto (direto ou indireto) de uma ação, de uma escolha, pode ser classificada como justa e injusta e pode ser diferente do que é, afinal, é produto de escolha, de ações humanas. A agressividade do leão, o veneno da cobra, a destruição causada pelo raio é um dado da realidade, simplesmente é. Coerção é ter a força iniciada (no sentido de comportamento propositado) contra você e suas propriedades.

[9] Explicado o que é coerção, chegamos ao nosso último conceito, o conceito de liberdade. Tenho um texto exclusivo para falar de liberdade (quem se interessar pode ler aqui; sugiro fortemente a leitura), logo serei bem mais breve: liberdade, como um derivado do conceito de coerção, também não faz sentido em um mundo de apenas um ser humano, pois liberdade é simplesmente "livre de coerção", ou dito de outra forma, liberdade é ausência de coerção, é simplesmente o respeito ao indivíduo, aquilo que ele é (auto-proprietario e proprietário de bens externos). Veja que nosso Robinson Crusoé, por definição, é livre, afinal, não existe coerção no seu mundo (ele é o único ser humano na ilha).

SEGUNDA PARTE - OS ERROS

[10] Explicado os três conceitos, vamos a segunda parte do texto: usá-los para responder erros muito comuns principalmente vindos de socialistas e simpatizantes (embora liberais "igualitaristas" como Rawls, Amartya Sen, Isaiah Berlin cometam, em grau menor, os mesmos erros). Alguns desses erros já foram tema de textos próprios. Quando for o caso, "linkarei" o referido em algum ponto da explicação:

1 - "No Capitalismo as pessoas não são livres porque são obrigadas a trabalhar"

[11] Essa afirmação nega a escassez explicitamente e faz uma salada de conceitos. Um dos piores erros é misturar o que é fruto de escolhas, de ações humanas e o que é dado, o que independe de qualquer escolha ou vontade humana. Escassez é uma dessas coisas: ela independe da vontade humana. Ela é um fato básico da realidade. Obviamente, por meio de ações humanas, de escolhas, podemos amenizá-la (através da produção). Toda pessoa, mesmo nosso Robinson, isolado na floresta enfrenta escassez e dessa forma, se quiser sobreviver, é "obrigado" a trabalhar. Isso é um fato da natureza. As coisas não caem do céu, são escassas e o meio do homem obtê-las é através da produção. O homem é obrigado a trabalhar, no mesmo sentido em que ele é obrigado a comer se quer sobreviver. Não existe alternativa ao que é dado, à natureza humana (o que um homem é). O homem é assim, não há o que fazer. Ele, como todo ser vivo, precisa comer para sobreviver. No caso dos homens, o meio de se obter comida é produzindo, é usando sua mente para rearranjar elementos existentes através do seu trabalho.

[12] Mas a confusão da afirmação não para por aí. O "obrigado a trabalhar" não pode contrapor o termo "liberdade" como faz na frase. Ninguém obriga o homem a trabalhar em qualquer sentido que contraria, que se opõe, ao conceito de liberdade. Liberdade é ausência de coerção, que por sua vez significa outro homem (ou um grupo deles) iniciar o uso da força contra você e suas propriedades. Você não é livre, quando outro homem te obriga, através da invasão das suas propriedades (i.e, com o uso da força ou ameaça de uso), você a trabalhar. Não quando "a natureza te obriga". A natureza não te "obriga", nem "desobriga". É uma escolha sua, a natureza não tem vontade, opiniões ou preferências quanto a você escolher se matar ou não, trabalhar ou não. Ela simplesmente é. Você é o que você é. Se deseja sobreviver tem que fazer algumas coisas para se manter vivo e esse "tem que fazer" não se contrapõe a absolutamente nada em relação a liberdade. Liberdade significa "livre de coerção", ou ainda "livre do jugo de outros homens", não livre do que você é, livre do mundo, livre da natureza. A confusão básica aqui é entre liberdade e "onipotência".

[13] Para algumas pessoas ser livre é ser "onipotente", i.e, poder fazer qualquer coisa. Homens não podem voar, logo não são livres. Homens não podem escapar da morte, logo não são livres. Homens não podem pular de um prédio de 60 andares e sair andando ou mesmo sobreviver sem comer, logo não são livres. Tal conceito de liberdade é um falso conceito, não se refere a nada que exista no mundo, não se refere a natureza de nenhum existente e sim há alguma criatura "onipotente" da nossa fantasia. Não passa de um desejo infantil, de uma rebelião contra o que existe, contra o mundo. Obviamente tal erro não escapa impune e, assim como pular de um prédio de 60 andares, gera verdadeiros desastres. O mais óbvio é a negação da liberdade "real" e a sua destruição: como liberdade é considerado algo bom (mesmo que a pessoa nem saiba o que é), e a pessoa não é livre porque tem que trabalhar, então temos que acabar com essa obrigação e torná-la livre. Como isso pode ser "feito"? Ora, o fato dela ter que comer, se vestir, consumir outras coisas não some, logo alguém precisa financiar esses gastos, o que significa que alguém será obrigado a pagar pelo consumo da pessoa que quer ficar "desobrigada" de trabalhar. Geralmente nós fazemos isso voluntariamente para filhos, entes queridos até um certo ponto, mas não para estranhos. O que sobra então? Coerção. Você ser obrigado (no sentido real do termo, o de coerção) a trabalhar para sustentar outros. Veja que um falso conceito de "obrigação", de liberdade gerou a destruição na prática da real liberdade, trouxe a tona a "obrigação" que realmente contraria a liberdade. Veja também, que se tal política de obrigar quem trabalha a pagar para outros não trabalharem for radicalizada, a pessoa que queria ficar "desobrigada" de trabalhar, nunca será tão obrigada a fazê-lo quanto agora e terá que fazer pelo básico, terá que fazer para sobreviver como um animal, "da mão para boca", porque quem produz terá total incentivo a parar de produzir já que não fica com o beneficio do que produz (o fruto do seu trabalho), destruindo a estrutura de capital da economia e levando a produtividade do esforço humano para níveis baixíssimos.

2 - "O Capitalismo gera escassez, que deixaria de existir em um mundo socialista"

[14] Essa proposição, como a anterior, nega a escassez e nega a natureza humana, conseqüentemente não compreende seu meio de sobrevivência. Como já foi dito, a escassez é algo inescapável, o que não significa que não podemos "amenizar" os seus efeitos sobre nosso bem estar. A maneira de se fazer isso tem um nome: capitalismo. É o capitalismo, entendido como o sistema baseado no respeito aos direitos de propriedade dos indivíduos (seus direitos naturais), que permite e incentiva todos a usarem suas habilidades da maneira mais eficiente possível. Faz isso através do sistema de preços, que "premia" (e portanto incentiva) o acerto através dos lucros e "pune" (desincentiva) o erro com prejuízos. Foi Hayek, economista austríaco ganhador do Nobel, que certa vez disse que Marx estava certo; que o proletariado era mesmo uma classe "restrita" ao capitalismo (pensamento do economista alemão), porque se não fosse o capitalismo, o proletariado teria morrido de fome e nunca teria existido.

[15] Foi o capitalismo (mesmo "impuro") que tivemos que permitiu à humanidade deixar a idade das trevas dos ciclos malthusianos, que permitiu a população mais que dobrar em um período relativamente curto. Antes do capitalismo, por quase 300 anos, a população não crescia consistentemente. Por um período existia crescimento, mas tal crescimento esbarrava na baixa produtividade mesmo em setores básicos da economia como o de alimentos. O resultado eram doenças que dizimavam a população, que após um período de baixa, voltava a crescer até bater na barreira da produtividade novamente. Com o capitalismo, o crescimento foi espantoso. As massas migraram para as cidades atraídas pelos altos salários das novas fábricas, o mercado financeiro se desenvolveu permitindo uma captação cada vez maior de poupança, poupança que era melhor investida em termos de eficiência e de risco, deixada nas mãos de homens gananciosos, que só se importavam com o próprio bolso mas que fizeram mais pela humanidade do que qualquer santo. E o mais impressionante: não fizeram todo esse bem porque eram santos, mas sim porque eram "egoístas", queriam lucro e o sistema de preços em um mercado livre, concorrencial permitia que eles alocassem seus recursos da maneira mais produtiva possível.

[16] O capitalismo longe de criar "escassez", criou abundância, uma abundância jamais vista. Uma abundância tão grande que hoje nos ofende ver alguém pedindo comida na rua, uma abundância tão grande que tornam certas imagens da África repulsivas. O capitalismo nos fez esquecer que há pouco mais de 400 anos era a Europa que tinha "imagens de África". Este texto escrito por um desconhecido nascido no interior de um país de terceiro mundo, sendo lido de um computador a, talvez, milhares de quilômetros, conectado em uma rede com outros milhões de computadores é um filho do capitalismo. Uma "quase mágica" que constantemente é ignorada e criticada em blogs, sites e outras coisas que só o capitalismo, com sua alta produtividade, poderia ter gerado e popularizado, facilidades modernas que seus colegas cubanos e norte coreanos nem sabem direito que existe.

[17] O socialismo, ao contrário do capitalismo, gera destruição e miséria ao negar a propriedade privada e ao destruir o sistema de preços. Em relação à propriedade privada, ele acaba com o meio de sobrevivência humana, ele corta o elo entre produzir e “ganhar” pelo que foi produzido, conseqüentemente corta o incentivo a se produzir, a se buscar uma vida melhor. É o clássico problema econômico dos incentivos (se custa fazer algo e você não recebe o beneficio, você não fará). Em relação ao fim do sistema de preços, os agentes econômicos perdem a bússola que, em uma economia de livre mercado, guia a alocação de recursos de forma mais econômica. Qualquer bem pode ser produzido com uma infinidade de combinações de matérias primas e trabalho. Não há meio de decidir qual a maneira mais eficiente, mais econômica de produzir se não existe a possibilidade de mensurar os custos e os benefícios com preços que realmente refletem a escassez dos diferentes fatores de produção e do bem a ser produzido. Só preços, preços “reais”, gerados por mercados, indicam corretamente essa escassez relativa. Essencialmente, o socialismo é a negação do ser humano. É a revolta contra a realidade mais terrível já produzida pelo homem. O número de vítimas no século que passou não deixa dúvidas quanto a isso.

3 - “No capitalismo, um trabalhador não recebe pelo que produz”

[18] Embora eu tenha escrito um texto exclusivamente sobre esse assunto, cabe aqui reforçar de forma resumida a questão do que cada um recebe em uma sociedade capitalista. O argumento padrão que sustenta a afirmação acima é a seguinte: um operário produz vários carros de, digamos, 200 mil reais, mas não ganha nem 20% de um único carro. Embora tal erro aparentemente não seja ligado diretamente a questões como escassez, coerção e liberdade, muitos depois dirão que o operário se sujeita a isso porque não é livre, não tem opção. De brinde, a escassez também é esquecida ao se argumentar em termos “de absolutos” na questão da determinação da remuneração dos fatores. Como já explicamos na refutação da afirmação 1, abundância não é liberdade (embora a segunda seja condição necessária para a primeira). Sobre a questão do ganho do operário, a verdade é que o operário não “produz vários carros” sozinho. Ele é “ajudado” por uma infinidade de outros fatores de produção, como máquinas. Ele é “ajudado” por uma série de poupadores, que deixaram de consumir para fornecer os bens necessários para que fossem construídas não só as maquinas, como também a fábrica em que ele trabalha e, de maneira mais geral, por poupadores que possibilitaram a criação de uma vasta estrutura de capital que permite a produção de uma série de bens de capital, bens intermediários que serão usados na produção final do carro e isso sem a interrupção do fornecimento de bens de consumo “corriqueiros”, que inclusive o operário precisa consumir. Mas, mais ignorado ainda e tão importante quanto, é a “ajuda” que ele recebe de um empreendedor, uma pessoa que, como ninguém, consegue antecipar e descobrir oportunidades de uso lucrativo para os fatores de produção, incluindo o operário, e que assim torna possível uma remuneração a esse operário mais vantajosa do que em qualquer outro lugar ou setor da economia.

[19] Como escrevi no texto mencionado anteriormente: os altos rendimentos pagos a essas pessoas capazes [os bons empreendedores] geram um incentivo para que elas usem essa capacidade [de descobrir oportunidades lucrativas]. Fazendo isso, elas permitem um melhor uso exatamente daqueles fatores de produção menos produtivos. Esse melhor uso eleva também o rendimento desses fatores. Simplificando, é graças ao Bill Gates que popularizou os computadores com seu Windows que alguém que estaria varrendo ruas pode montar uma lojinha para vender computadores ganhando muito mais do que se varresse ruas (e ainda usar o computador na lojinha sem nenhum treinamento relevante).

[20] Pode-se perceber, levando todos esses fatos em conta, que o trabalho que um operário executa na produção de um carro é algo bastante simples, facilmente realizável (em geral, modernamente, consiste em apertar botões). Quanto um novo operário padrão adiciona a produção desse complexo já montado? A resposta a essa pergunta é o quanto ele ganhará. Por se tratar de um trabalho simples, que qualquer um pode fazer, adicionará muito pouco. Para fins de exemplo, imagine uma situação de desequilíbrio, onde um novo operário adicione R$1.000 a produção de empresas de uma dada economia. Uma empresa em particular olha para o mercado de trabalho e descobre que pode contratar trabalhadores para essa função ao salário de R$500,00. Ora, mas ele adiciona R$1000 a produção, logo a empresa tem um lucro de R$500 com a contratação desse funcionário. As outras empresas farão a mesma conta e correrão demandar trabalhadores, que, pelos números, é uma política altamente lucrativa. Os salários começarão a subir até se igualarem ao que um novo funcionário, naquela função, adiciona a produção (que é chamado de produtividade ou produto marginal). Quanto você pagaria a um projetista que pode desenhar um novo carro, espetacular, que renderia vendas na casa dos 100 milhões? Simplificando as coisas (não levando em conta risco), algo muito próximo de 100 milhões, porque é isso que ele adicionaria a produção da sua fábrica, que te geraria de ganho e ele é “único”, não é como um operário padrão que pode ser contratado facilmente.

[21] Muitos não economistas rejeitam essa visão “marginalista” (de olhar para acréscimos) e argumentam em termos de escolhas entre “absolutos” (todos os operários do mundo, ou nenhum). Eles afirmam: então não é o operário que produz carros? São maquinas? Projetistas? Tire todos os operários da sua fábrica para ver o que acontece. Como já disse em outro texto, tal consideração é válida para qualquer fator de produção ou mesmo para os supostamente “inúteis capitalistas” (senão fosse válida, tal “coisa” não seria escassa, não faria parte de nenhuma preocupação humana). Tire as máquinas da fábrica e veja quantos Mercedes sairão. Tire o trabalho de todos os projetistas e veja que espetáculo de carro será produzido (talvez algo próximo de um Gurgel). Tire a poupança e o capital do capitalista e veja que fantástica fábrica os operários montarão. A escolha entre “todos os operários” ou nenhum não existe no mundo real, nenhuma demanda ou oferta é tomada com base nessas considerações. A pergunta correta a ser feita é: por quanto alguém apertaria o botão para ligar a maquina? Esse alguém aceitará uma quantia X se essa quantia for maior que qualquer outra quantia que ele pode obter fazendo outra coisa. É o valor, é a produção que ele “adiciona” à economia, o seu produto marginal. Eis o seu salário.

4 - "Os liberais defendem a 'liberdade burguesa'. Os socialistas defendem a verdadeira liberdade"

[22] Como a maioria dos leitores de política e assuntos relacionados sabe, os socialistas têm o esquisito hábito de xingar as pessoas e depreciar “coisas” usando o adjetivo “burguês”. Se algo é burguês para um socialista, pode ter certeza que não é algo bom e isso inclui a “liberdade burguesa”. Existem dois significados mais usuais para o termo: um é liberdade dos burgueses de explorarem os operários, pagando salário de fome, sem “direitos trabalhistas” e de cobrarem preços abusivos desse mesmo operário depois como consumidor. O outro significado é mais simples, liberdade burguesa é “liberdade de comprar e vender”. E qual seria a “verdadeira liberdade” socialista? Basicamente a terra do “faz de conta” da abundância. Você não precisa trabalhar, pode escolher tudo que quiser e ainda pode passar a tarde inteira pintando passarinhos na beira do rio ou lendo algum livro de Marx e companhia. Falta só descobrir quem paga a conta (a chata da escassez, de novo, diz “olá”). Como já foi explicado, liberdade não é abundância, no entanto é a tal “liberdade burguesa” que propicia essa abundância (veja a refutação da proposição 2).

[23] Um outro ponto mal compreendido é que a suposta “liberdade burguesa”, que prejudica os pobres operários e ajuda os “barões da industria”, faz exatamente o papel contrário (nesse sentido, seria mais correta chamá-la de “liberdade proletária”). Vejamos, por exemplo, a questão do valor dos salários. A “liberdade burguesa” gera não só um incentivo à poupança (devido a certeza institucional, respeito a propriedade), como uma alocação melhor dessa poupança em investimentos lucrativos. Isso aumenta a quantidade e a produtividade do capital da economia, que por sua vez eleva a produtividade do trabalho que, como explicamos, determina os salários. É por isso que em um país com forte respeito aos direitos de propriedade como os EUA, um operário médio ganha muito mais que um operário latino-americano, ou ainda, é por isso que os sul-coreanos (capitalistas) ganham bem mais que seus vizinhos norte-coreanos (socialistas) mesmo que há 50 anos atrás, antes da divisão, ambos ganhassem a mesma coisa. Lembrando novamente Hayek, Marx realmente estava certo, o proletariado é “filho” do capitalismo, pois esse é o único sistema econômico que permite a sua sobrevivência.

[24] Recentemente, o presidente burguês da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), uma espécie de sindicato patronal, fez uma "desavergonhada" defesa do protecionismo e do intervencionismo (não do livre mercado). Os socialistas, adeptos da idéia de “liberdade burguesa” (boa para burguês, ruim para proletário), não devem ter entendido nada. A razão é muito simples: a tal liberdade burguesa é uma pedra no sapato dos burgueses. Graças a ela, os burgueses não podem parar de inovar, não podem ficar desatentos um só momento, enfim, não podem "viver das glórias do passado". Graças a ela (liberdade burguesa) qualquer moleque “pé-rapado” pode produzir algo novo, lançar no mercado e simplesmente destruir um “império” de uma vida inteira. Graças à “liberdade burguesa”, os burgueses sempre precisam atender aos seus verdadeiros patrões: o consumidor. Seria muito melhor se, através da força, eles pudessem garantir suas posições (ou facilitar as coisas nesse sentido). Eis aí o porquê toda hora vemos “burgueses” defendendo intervenções e regulações do governo na economia (exigência de licenças e autorizações de “agências reguladoras”, protecionismo, incentivos governamentais são os pedidos mais comuns). O que eles querem é subsídios, proteção, não livre mercado, não “liberdade burguesa”. Essa última é uma eterna ameaça as suas posições. É o consumidor constantemente vigiando e avaliando seu trabalho, decidindo se aprova ou não aprova suas decisões. Quem deveria defender a “liberdade burguesa” é exatamente a massa de “proletários” e os consumidores, os dois grandes beneficiários dela.

[25] Um outro exemplo interessante vem do famoso “controle de capitais”. Pelo mundo todo os ditos socialistas defendem restrições a movimentação de capitais dizendo que isso é só mais um aspecto da “liberdade burguesa”, liberdade para especular, para lucrar. O que eles nunca levam em conta é que essas restrições, diminuem a quantidade de capital em um dado país e conseqüentemente diminui a produtividade do trabalho e os salários. Por outro lado, a restrição de capital estrangeiro cria uma "reserva de mercado" justamente para os capitalistas locais, que passam a ter lucros maiores do que em um livre mercado exatamente às custas dos trabalhadores (com seus salários "achatados"). Mais uma vez a "liberdade burguesa" beneficiaria justamente os trabalhadores, mas, agora, graças ao fogo amigo (pelo menos da boca para fora) dos socialistas, os trabalhadores são penalizados.

[26] Quanto ao segundo significado de liberdade burguesa (liberdade de comprar e vender), não há muito o que dizer. Liberdade é sim, inclusive (mas não só), liberdade de comprar e vender. E não há nada de errado com isso. Se algo é seu, isso implica que você pode trocá-lo por outra coisa (desde que essa outra coisa seja da pessoa que está na outra ponta da troca). Liberdade de comprar e vender é uma simples derivação da idéia de que liberdade é ausência de coerção (ou respeito aos direitos de propriedade). Quando os socialistas dizem que "liberdade para os liberais é comprar e vender", o que eles querem dizer é que só pessoas com bens tem liberdade. É novamente a confusão entre liberdade e abundância que gera exatamente seu oposto: miséria. Para socialistas e "igualitaristas", só é livre quem tem um "grande leque de escolhas". Liberdade, em termos de "leque de escolhas", não é ter o leque, mas sim a possibilidade de conquistar um grande leque. Para conquistar isso, você é livre, ninguém usará a força, ninguém violará a sua natureza como indivíduo para tentar impedi-lo. Obviamente isso não significa que você conseguirá seus objetivos e nem que esses objetivos são facilmente conquistáveis. O ponto principal, em termos de liberdade, é que assim como você é livre, os outros também são, logo não se pode usar a coerção contra eles para facilitar as coisas para você. As suas "dificuldades" não o torna proprietário dos bens de outra pessoa.

[27] Assim como a maioria dos erros refutados neste texto, esse também esbarra na realidade da escassez. Se alguém quer um grande leque de escolhas, basicamente existem duas opções: ou ele produz, conquista esse leque ou outro terá que produzir. Bens não caem do céu, são escassos. Se, para fins de exemplo, ele não produzirá, então sobra a alternativa de outro produzir. Mas esse outro só produziu tal leque (e continuará produzindo) porque se beneficia desse leque (seja por consumo próprio ou por consumo de entes queridos). Ele o faz voluntariamente porque os custos superam os benefícios. A partir do momento que os benefícios diminuem, sobram os custos e isso levará a pessoa capaz de produzir esse grande leque a não mais produzi-lo. Sobram então o uso cada vez maior da coerção (para obrigá-lo a continuar fazendo) e a miséria (porque sociedade alguma baseada na força funciona e os competentes pararão de produzir de qualquer maneira o leque). Esse é o motivo do socialismo (que é a idéia radicalizada de liberdade como sendo abundância) gerar tantas mortes e se "transformar" em regimes totalitários.

[28] Os socialistas costumam olhar para URSS, Coréia do Norte, Cuba e afirmar que aquilo não foi socialismo. Foi uma deturpação, uma corrupção do belo sonho de Marx e companhia. Mas aquilo não foi uma corrupção. Aquilo é a conseqüência inevitável de se rejeitar o que é, inclusive de se rejeitar a natureza humana (o que o homem é). É a inevitável conseqüência de se rejeitar problemas básicos como a escassez, de se construir conceitos como liberdade que não são aplicáveis no mundo real, conceitos que têm em suas raízes a negação do que existe, de como as coisas são. O socialismo não passa de um delírio, de uma deliberada cegueira em relação ao que é. As conseqüências jamais poderiam ser diferentes: a morte e a destruição do ser humano. Não se pode esperar nada diferente de um homem que sonha ter asas e salta de um prédio de 80 andares achando que o sonho é a realidade.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O papel da econometria e da matemática em economia

[1] Dentro da economia que se utiliza do famoso “individualismo metodológico” temos duas correntes básicas, uma a dos “neoclássicos” que é predominante dentro do grupo e a outra, comumente chamada de austríacos, bem menos numerosa. Há um longo histórico de debates sobre o que diferencia uma da outra, se a diferenciação faz sentido ou não. De um lado, como posições extremas, temos a famosa frase do economista Milton Friedman dizendo que “não existe economia austríaca, existe boa ou má economia”, enquanto do outro temos posições como a negação completa da idéia de maximização de utilidade e da idéia de equilíbrio (Ludwig Lachmann é um exemplo dessa radicalização).

[2] O que quero discutir neste texto é um específico ponto de discordância entre as duas escolas: o uso de matemática e estatística (a utilização dessa última é o tema que julgo mais critico). Historicamente, a posição metodológica explícita da chamada “Escola Austríaca” começou como uma reação contra a “Escola Histórica Alemã”. A Escola Histórica defendia o que mais tarde seria conhecido por “historicismo”, que basicamente é a idéia de que fatos históricos devem ser considerados como dados primários, como a fonte das explicações econômicas para um dado problema e não “teorias abstratas”, baseadas em “Robinsons Crusoés”, indivíduos imaginários aparte do seu “contexto social e histórico”. Os austríacos da época, por outro lado, argumentaram que fatos históricos por si só não nos forneciam explicação alguma. Era preciso uma teoria, uma teoria geral, baseada nas ações dos indivíduos que nos permitisse “compreender” esses fatos históricos e lhes dar significado.

[3] Mais tarde, Ludwig Von Mises (“filiado” a escola Austríaca) desenvolveu mais explicitamente tal método. Para os austríacos, a teoria econômica não é “empírica” (no sentido usual do termo, como dependente de experimentos externos, de coleta e observação de séries de dados etc..), ela é “dedutiva”, e é deduzida a partir de um dado irredutível, a ação humana. Ação humana é o axioma da economia e é um axioma não por capricho ou escolha arbitrária, mas sim porque tudo o que pensamos, fazemos, imaginamos é uma ação humana. Ela é o fato irredutível, inescapável. Qualquer tentativa de negá-la implica no seu “uso”, na sua confirmação. Como eu coloquei em um outro texto:

[ação humana] É todo comportamento propositado, consciente. É um ato de consciência (de vontade), um ato que aloca meios para obtenção de fins (tem um propósito). Um exemplo que costumo dar e talvez ajude a entender melhor esse conceito é o funcionamento do coração. O seu coração continuar batendo é uma “ação humana” ou não? Enquanto esse tema não está na sua mente, você não se torna “ciente” dele, ele não “entra” na sua consciência, o coração bater é um mero dado da natureza, como é o Sol, ou algum verme perdido em um planeta distante que você não tem a mínima idéia se existe ou não, ou ainda como o fato de você ter que comer para viver ou mesmo ser consciente. Mas veja o seu caso. Quando eu citei o batimento do coração, esse tema entrou na sua mente, você se tornou ciente dele e mesmo assim você não saiu correndo, pegou uma faca e a enfiou no peito (pelo menos eu espero que não). Esse “não movimento”, essa escolha interna que você fez ao estar ciente do coração batendo: “deixarei ele aí, quietinho, batendo”, isso é uma ação humana dentro da economia austríaca. Esse exemplo, acho bom porque tem todos os elementos mais confusos do conceito de ação: primeiro enfatiza bem a questão da consciência – o coração ficar batendo sem você estar com a sua mente focada nisso, “ciente do tema”, não é uma ação humana, é um dado da natureza ou um “dado externo”. A partir do momento que você foca no tema, que ele “entra” na sua mente, e você em pensamento “diz”: “deixe-o aí”, isso é uma escolha, uma ação humana, um comportamento consciente. Você escolheu viver. Você “agiu” no sentido usado pelos austríacos em economia. Veja que ação não tem nada a ver com “movimento”. Você continuou sentado na cadeira, não se moveu, mas agiu, escolheu permanecer vivo.

Porque a ação humana é verdadeira (existe)? A maneira mais simples de provar é perceber que a sua negação é ela mesma uma ação humana (consciente, propositada), o que confirma a sua veracidade. Em qualquer pensamento humano está implícita a idéia de ação humana (como definida acima). É por isso que ela foi chamada por Ludwig Von Mises de “verdade a priori”. ”

[4] A partir do estabelecimento desse axioma, os austríacos derivam todos os conceitos e conjuntos de teoremas que ganharão o nome de “teoria econômica”. Veja que não foi necessário o uso de econometria, de coleta de dados ou observações de cunho histórico para se chegar a essa teoria. Ela foi derivada logicamente de algo que é inescapável, é verdadeiro e, portanto, como sendo apenas desdobramentos lógicos de algo verdadeiro (axioma da ação), ela é necessariamente verdadeira. Não existe a necessidade e nem a possibilidade de qualquer observação empírica externa invalidar tal teoria, porque isso implicaria a negação do axioma de ação humana, o que seria impossível, uma contradição (você está fazendo uma ação humana, está tendo um comportamento consciente, propositado).

[5] Um ponto importante, para os propósitos deste texto, é que embora o uso de econometria ou algo do tipo é claramente desnecessário e inútil dentro da visão de método explicitada acima (a econometria não poderia confirmar nem refutar nada nessa perspectiva), o uso de matemática em si não interferiria (aparentemente) no método. Carl Menger, o “primeiro austríaco”, preferiu uma exposição verbal a usar matemática “mais avançada” como fizeram os seus colegas da Revolução Marginalista, Jevons e Walras. Essa tradição permaneceu entre os austríacos, sendo radicalizada e, de certa forma, justificada mais tarde, devido a erros “graves” provocados por neoclássicos no famoso debate sobre o calculo econômico no socialismo. No entanto, o problema está mais no entendimento do que a matemática representa, do que na sua inaptidão completa em traduzir problemas econômicos.

[6] Qual o grande beneficio do uso da matemática em economia? Ela permite uma representação simplificada e, muitas vezes, logicamente rigorosa de alguns problemas econômicos. O exemplo mais gritante são os chamados modelos de equilíbrio geral. Com matemática é possível representar inúmeros mercados, a partir de problemas de otimização (escolhas de agentes econômicos) e “simular” o processo de “equilibramento” dos mercados. Outros usos da matemática, comuns, são as derivações de coisas como efeito renda, efeito substituição, ônus de um imposto, medidas monetárias para ineficiência (os triângulos de peso morto) e alguns teoremas interessantes envolvendo vantagens comparativas que deixam qualquer liberal com um sorriso de orelha a orelha (me refiro aqueles teoremas que dizem que com vários países e vários bens, todo país terá vantagem comparativa em pelo menos um bem – vai depender do número de países e de bens se será um bem, se será uma vantagem comparativa “compartilhada” ou será vantagem em mais de um bem).

[7] A própria representação do problema de escolha dos consumidores através da matemática permite “vôos mais altos” ao deixar bastante explicita relações abstratas entre preferências, preços, demanda e oferta permitindo fazer isso com inúmeros bens ao mesmo tempo e aproximando o problema abstrato da realidade dos agentes econômicos nos mercados. Em suma, a matemática facilita a compreensão, com lógica rigorosa, explicitando as hipóteses usadas, das relações em um sistema econômico envolvendo muitos agentes e muitos bens (os tais modelos de equilíbrio geral).

[8] Como tudo, existe o lado negativo. Por exemplo, no começo da explicação sobre os benefícios da matemática, disse que era possível “simular” o processo de equilibramento dos mercados. Um dos maiores erros históricos no uso da matemática em economia (que ocorreu no debate sobre o cálculo socialista) foi a idéia de que aquilo que aparece como uma “incógnita” nos modelos matemáticos puros, podia ser preenchido com valores específicos e usado para planejar a economia. Isso é resultado da não compreensão do que aqueles termos significam e da função econômica de um mercado, não é um problema em si da matemática. No máximo, é um problema do empirismo e do uso de econometria, que falaremos mais adiante.

[9] Outro problema apontado no uso da matemática é a sua incapacidade em expressar relações causais. O caso mais famoso é a identidade: Y = C + I + G. À toda hora na imprensa e mesmo da boca de economista ouvimos: uma queda do consumo levará a uma queda do PIB, um aumento dos gastos do governo poderá elevar o PIB, sempre tendo em mente a relação acima. Como identidade pura, se o lado direito sobe, o lado esquerdo também tem que subir para manter a igualdade. Obviamente o que falta aí é a compreensão do contexto e da teoria econômica (o que causa o quê), além claro, do modo como a matemática representa as coisas. Se falta relação causal em matemática, então é dever do economista levar isso em conta quando estiver “lendo em matematiquês”. Agora, se o economista conhecer a natureza da linguagem que está usando (que ela não representa causalidade, por exemplo), não temos vantagens em usa-lá na economia? Bem, pelos benefícios citados anteriormente, acredito que sim.

[10] Outro ponto é que nenhum tipo de pensamento chega a conclusões corretas e robustas se parte de bases erradas, se esquece do básico e começa fora de contexto. E isso independe da língua ou representação que está o pensamento. Se nós olharmos a tal identidade Y = C+I+G, por exemplo, dentro do contexto de um modelo macro microfundamentado, onde existe um agente que resolverá o tradicional problema de otimização sujeito a restrições tecnológicas (a famosa função de produção usada em economia ortodoxa) e restrições econômicas (no caso, essa identidade), é impossível alguém olhar para aquela identidade e, considerando o todo, afirmar que se “C” subir, Y subirá. Ele até pode afirmar algo do tipo: bem, se você quer consumir mais, terá que ter mais PIB, mas não indicando um sentido causal do tipo: se subir C então sobe Y.

[11] E a estatística? Pode ser usada em economia? O problema da estatística (e econometria, vou usar aqui como se fossem a mesma coisa) é que ela é uma ferramenta para um determinado propósito “perigoso”: a analise de dados derivados de “experimentos externos”. Como nós explicamos anteriormente, isso contraria aquela visão austríaca de que experimentos externos não podem ser usados para “refutar” a teoria. Para os austríacos, é a teoria (que é verdadeira a priori) que deve ser usada para analisar, dar significado aos dados.

[12] Isso significa que a estatística é inútil e não deve ser usada em economia? Se, por teoria econômica, entendermos apenas teoremas e corolários gerais que são definidos do conceito de ação humana, que formam uma espécie de “lógica da escolha”, então sim, significa que estatística é inútil e não deve ser usada porque sua utilização visa “testar” a teoria contra dados externos e esse teste, como explicado, é um erro, uma contradição, afinal, o teste é uma ação humana (o que confirma o axioma e qualquer derivação lógica desse axioma, logo, tal teste pressupõe toda “lógica da escolha”, afinal, ele é uma escolha).

[13] Mises considerava que economia era apenas esse núcleo, essa “lógica da escolha”. No entanto, atualmente o nome “economia” é dado a uma série de desdobramentos dessa lógica da escolha. Peguemos, por exemplo, um modelo estocástico de equilíbrio geral dinâmico como os usados em estudos de ciclos pela ortodoxia. Esses modelos fazem suposições especificas sobre preferências (formatos de função de utilidade, a questão da indivisibilidade do trabalho etc..), sobre choques e restrições enfrentados pelos agentes. Tais modelos, não contrariam em nada a chamada “lógica da escolha”. Eles são apenas modelos específicos que respeitam essa lógica. A “lógica da escolha” diz que as pessoas maximizam utilidade (ou, em termos mais comuns, trocam (ou visam trocar) um estado de menor satisfação, por um de maior satisfação).

[14] Um modelo específico supõe que, por exemplo, o agente fará essa troca (ou essa maximização) escolhendo uma geléia de bens chamada “consumo” e um outro bem chamado lazer e que o prazer que essas coisas geram para ela, nas diferentes quantidades, será descrito por uma determinada função de utilidade que representam uma relação ordinal, racional (dentro do significado da teoria econômica) de infinitas combinações de horas de lazer e consumo. Citei um modelo que usa bens “consumo” e lazer e uma determinada função de utilidade, mas temos uma infinidade de possibilidades (podemos usar “bens tradeables”, “bens nontradeables” e lazer, podemos ter moeda, consumo e lazer, podemos ter uma mistura dos dois e, até, dependendo do propósito ter um bem especifico de um lado, como chinelos azul com bolinhas amarelas e do outro “a geléia de bens” chamada de consumo).

[15] O que quero dizer com tudo isso é que a partir da lógica da escolha, podemos derivar infinitos modelos específicos completamente de acordo com essa lógica. Esse “cinturão” de modelos e de teorias periféricas ao núcleo, atualmente, é chamado de economia. Em alguns casos viraram até “correntes econômicas”. Embora o monetarismo não tenha bases microfundamentadas (ou seja, não esteja ligado diretamente a lógica da escolha, ao problema de escolha de um agente econômico), uma hipótese fundamental para seus resultados teóricos e suas correspondentes prescrições de política é a existência de uma demanda de moeda estável. Podemos derivar modelos microfundamentados com demandas de moeda estável ou instável (isso dependerá de considerações sobre preferências, choques que o agente enfrentará etc..), nenhum dos dois refutará o núcleo, muito pelo contrário, tais modelos tem como base esse núcleo Deste fato surgem duas questões: primeiro, porque derivar esses modelos mais específicos? Segundo, tendo um porque, como selecioná-los?

[16] Modelos mais específicos podem servir para análise de problemas econômicos, que não são respondidos através do "core". Um exemplo tradicional é a questão da inflação. Dado os conceitos de moeda, poder de compra da moeda e todo o aparato da lógica da escolha, sabemos que a inflação é causada por um "excesso de moeda". Mas o que causou o excesso de moeda em uma infinidade de altas inflações passadas? Uma mudança na demanda por moeda ou na oferta? A resposta a essa pergunta só pode ser dada por um modelo mais especifico, pronto para ser calibrado e testado junto a uma série de dados estatísticos. Um outro exemplo: o governo gera um déficit fiscal. Segundo o economista Robert Barro, as pessoas podem considerar os títulos do governo como não sendo "net wealth", afinal, ele terá que pagar os impostos futuros para financiar o déficit. Assim sendo, um aumento do déficit do governo implicaria em uma redução do consumo dos agentes (um aumento da poupança) e conseqüentemente, a manutenção da taxa de juros independente do déficit (resultado que ficou conhecido como "Equivalência Ricardiana"). Uma outra possibilidade seria as pessoas considerarem títulos públicos como "net wealth" (por exemplo, porque os impostos não subirão enquanto ela estiver viva e ela não se importa muito com o "herdeiro"), logo não haveria queda de consumo e aumento da poupança, o que geraria um aumento da taxa de juros. Como saber de que forma as pessoas realmente se comportam? Veja que nenhum dos dois comportamento, nenhuma das duas "historinhas", viola a lógica da escolha.

[17] Um outro exemplo vem da teoria da renda permanente. Agentes com preferências convexas tendem a suavizar o consumo ao longo do tempo (é um resultado "matemático"). Logo, um aumento de renda, se for permanente, gera um aumento do consumo, porque o agente receberá esse valor maior ao longo de toda sua vida e ele poderá consumir mais por todos os períodos. Um aumento de renda "temporário" tende a gerar um aumento de consumo menor ou "quase nulo", porque esse aumento é único (ou somente por alguns poucos períodos) e o agente, com as preferências convexas, prefere distribuir esse consumo ao longo do tempo, logo, o consumo propiciado pela renda mais alta será distribuído ao longo de todos os períodos de escolha relevantes. Mas nada "a priori" garante que o agente terá preferências convexas. A verificação "indireta" desse comportamento (e, portanto, desse modelo particular com preferências convexas) deve ser feita observando os dados.

[18] Esses três exemplos mostram modelos específicos (visando resolver determinados problemas), que não contradizem a lógica da escolha. São modelos que precisam do "empirismo" para serem selecionados como válidos ou não, mas que independentemente do resultado desse "testes empíricos", não colocam "em xeque" a lógica da escolha.

[19] Mises dizia que modelos como os três exemplos não era economia, era história econômica. Ferramentas estatísticas nunca poderiam fornecer ou descobrir leis econômicas no mesmo sentido que tais métodos permitem a descoberta de leis fisicas. A razão para isso é que o homem escolhe, ele age (no sentido descrito no começo do texto), tem consciência, propósito. O máximo que tais ferramentas poderiam fazer é mostrar como o homem agiu no passado, como escolheu no passado. O austríaco está corretíssimo nesse ponto. Independente do nome usado para essas teorias "periféricas" em relação à lógica da escolha (economia ou história econômica), estatística não descobre mesmo "leis econômicas", mas existe uma derivação não muito correta dessa proposição: a de que é impossível prever o valor futuro de certas variáveis econômicas.

[20] Um dos principais propósitos, senão o principal, de se construir modelos específicos é a previsão de algumas variáveis. Para ficar em exemplos óbvios, bancos e instituições financeiras em geral se interessam e muito por estimativas da inflação futura, juros, valores de moedas estrangeiras e para isso é importante construir um modelo mais detalhado que gere estimativas robustas dessas variáveis (por isso eles formam áreas econômicas e pagam por esse serviço). O comportamento do consumo em função de déficits do governo, pode interessar empresas de uma infinidade de setores. E, por fim, até mesmo governos se interessam por previsões a fim de realizarem alguma política. Independente de se ele deve ou não fazer alguma política, políticas que levam em conta custos e benefícios, que são melhor informadas sobre possíveis relações entre variáveis, tendem a fazer menos estragos que uma "política cega", que não considera nenhum custo ou beneficio, nenhuma possível relação entre as variáveis.

[21] Um fato importante a ser observado é que previsões não são algum tipo de mágica, quiromancia ou coisa do tipo. As previsões supõe que o mesmo modelo que "gerou" os dados no passado, continuará sendo válido no futuro. Se isso for verdade e o modelos foi bem escolhido, as previsões se revelarão corretas, caso contrário ocorrerá erro. Explicando melhor: os dados que um economista tem a sua disposição foram produzidos por escolhas particulares de milhões de agentes econômicos. O economista, baseado nesses dados, tentará construir um modelo que, quando calibrado com parâmetros básicos deve gerar como output um valor para a variável de interesse muito próximo do real valor que essa variável teve na série. Se o modelo passa por esse "teste", é dito que ele "fita" a série ou os dados (uma "aportuguesação" do inglês "fit"). Veja que o modelo foi construído com base no histórico de escolhas passadas dos agentes. Se esse padrão de escolhas permanecer, o modelo continuará "fitando" os dados, ou seja, gerará valores futuros das variáveis que serão próximos dos seus reais futuros valores. Nesse caso, a previsão estará correta. Como se pode observar, a critica tradicional de que "como se trata de escolhas humanas, elas não podem ser previstas", não é muito correta. Enquanto o padrão de escolhas humanas continuar sendo tal que é "como se" aquele modelo desenvolvido pelo economista fosse o gerador dessas escolhas, a previsão será possível. Se ocorrer uma mudança do padrão, um novo modelo terá que ser desenvolvido (ou uma revisão no modelo atual terá que ocorrer).

[22] Um outro ponto é a questão da reação dos agentes econômicos ao próprio modelo de previsão, o que deu origem a chamada "Critica de Lucas" (devido a Robert Lucas, economista de Chicago, prêmio Nobel de 1995). Imagine que o governo siga a seguinte política: se o PIB cair em X%, ele diminui a taxa de juros em Y% porque isso resultará (segundo um modelo empírico previamente desenvolvido), em um aumento do PIB em X%. Lucas argumentou que se o agente sabe (ou aprende) tal política, ele antecipará essa política e o efeito sobre o PIB será nulo. Em termos do que já tínhamos dito, aquela "mudança de padrão de escolhas" que destruiria a capacidade preditiva do modelo, certamente acontecerá se uma política for consistentemente implementada com base em um padrão de escolha anterior. A solução de Lucas para esse problema foi a defesa de modelos microfundamentados, que internalizavam essa reação dos agentes gerando uma robustez maior aos modelos (que acabou também servindo de ataque metodológico aos antigos "mega-modelos" keynesianos de dezenas de equações, sem ligação alguma com o problema de escolha tradicional).

[23] Apresentado o porque criamos modelos mais específicos em economia, nos resta selecionarmos quais modelos são corretos. Assim como a lógica da escolha nos permite formular uma infinidade de modelos mais detalhados, não deve ser surpreendente que um conjunto de dados pode ser "fitado" por uma série de modelos contraditórios entre si. Uma das controvérsias mais comuns desse tipo é a velha questão do porque o país X se desenvolveu. Em linhas gerais, é comum economistas intervencionistas defenderem que o país em questão se desenvolveu porque fez política industrial, se fechou, enfim, teve uma participação ativa do governo no processo. Economistas um pouco mais liberais dirão que as políticas de um governo podem ajudar, mas no máximo são subsidiarias. Já economistas muito liberais dirão que o país se desenvolveu apesar das políticas de governo, que no fundo mais atrapalham do que ajudam. Um olhar "mais simples" para os dados de praticamente todos os países ditos "desenvolvidos" comportam as três explicações. Todos eles tiveram políticas de governo com crescimento econômico durante suas respectivas histórias. Mas afinal, as políticas ajudaram ou atrapalharam? O país cresceu por causa das políticas ou apesar delas?

[24] Um primeiro teste para qualquer modelo especifico que queira explicar algo é a sua compatibilidade com o núcleo da teoria econômica (ou a lógica da escolha). Em outras palavras o modelo deve ser microfundamentado, ou seja, a história que ele conta para explicar as relações causais entre as variáveis deve ter como base agentes econômicos racionais, maximizando utilidade sujeito a restrições diversas (em uma linguagem mais austríaca, o modelo não deve contradizer o axioma da ação humana, o que inclui todos os teoremas derivados desse axioma). O modelo especifico pode "fitar" perfeitamente os dados, mas se não está de acordo com a lógica da escolha, está errado, não é válido. A sua "compatibilidade" com os dados não demonstra nada, pois ele é contraditório, ilógico. Ele viola o axioma da ação, que é o básico, o "evidente por si só", as fundações de todo o edifício de conhecimento subseqüente que chamamos de economia. Temos aqui a reafirmação da econometria e do empirismo em geral como um método auxiliar, subsidiário, que jamais se sobrepõe ao "apriorismo" da lógica da escolha.

[25] Excluído os modelos não microfundamentados, temos aqueles que passaram pelo crivo do apriorismo. A partir daí, tal método não pode nos dizer mais nada. É necessário um método auxiliar e não há outro método a não ser o famoso "teste do pudim". A econometria, dentro da economia, é o instrumento mais desenvolvido para analise de dados empíricos. Esta aí o seu papel dentro da teoria econômica (novamente, considerando que teoria econômica inclui o núcleo (lógica da escolha), mais esses modelos específicos baseados nessa lógica). O papel da econometria basicamente é ajudar na seleção de modelos microfundamentados, é um método para aplicações mais especificas da lógica da escolha. Como já foi mencionado, obviamente a econometria tem seus limites mesmo nesse papel. Previsões tem limites, mensurações em economia também. Logo, não é tão incomum a econometria não "selecionar" nenhum modelo vencedor. Nesse caso, deve ser preferido o modelo mais simples, que demanda menos hipóteses adicionais, enfim, que seja menos especifico e esteja mais próximo teoricamente da lógica da escolha. Modelos "empíricos" nada mais são do que especificações de parâmetros que permanecem como " conceitos gerais" na lógica da escolha, como por exemplo, os conceitos de preferências, de restrições, de bens. Um modelo que exija menos especificações desse tipo, exige menos econometria, se afasta menos do "apriorismo" da lógica da escolha. Sob outra ótica, um modelo mais simples que explica tão bem quanto um modelo mais complexo é um modelo com um custo menor (custo intelectual/teórico, de processamento, de obtenção de dados), que gera o mesmo beneficio. É racional escolhe-lo. Com isso respondemos (em linhas gerais), como modelos específicos devem ser selecionados.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Comentários sobre keynesianismo, escassez e a “Lei de Say”

Não sei quem foi o autor da célebre frase “comece pelo começo”, mas seja lá quem foi, pode-se dizer que era um sábio. Boa parte dos erros teóricos que vemos por aí em ciências sociais, consistem basicamente no abandono desse princípio. Em sociologia, por exemplo, é comum vermos coletivos (“sociedade” é o mais comum), sendo tomados como conceitos primários, como ponto de partida e “indivíduo” como conceito derivado. Em filosofia, “consciência” muitas vezes é tratada como primário e a realidade como derivado. Em economia, uma das versões mais populares é tomar como partida agregados (“consumo”, “investimento”) e não ações individuais (uma versão um pouco mais especifica do problema encontrado em sociologia). Mas nesse campo, existe ainda um erro mais fundamental; a negação do problema econômico primário, a escassez.

Escassez é um dos fatos básicos da realidade com que os seres humanos se deparam. Eles percebem que não tem “coisas” suficientes para saciar todos os seus fins, todos os seus desejos e vontades. Descobrem que, dada a sua natureza, precisam produzir até mesmo “coisas básicas”, percebem que além de produzir, precisam administrar seu tempo em relação ao que produzir, dada as inúmeras alternativas que vão descobrindo. Descobrem que precisam “escolher”, ou seja, selecionar os fins e os meios que saciam de forma mais econômica esses fins. Porque da forma mais econômica? Porque isso lhes permite saciar outros fins que não poderiam ser saciados com um uso desmedido, irresponsável de meios.

Aqui já temos noções básicas e importantíssimas para a economia: a noção de escolha (ou de ação humana), a idéia de preferências, valores, bens e custo. Dizer que as coisas são escassas, significa dizer que não se pode “ter tudo”, que é necessário escolher, abrir mão de X em troca de Y, significa que é preciso escolher certos fins e os meios para se atingir esses fins. Segue naturalmente a idéia de preferências: qual o fim mais desejado? qual o fim menos desejado? Prefiro obter A ou B? Eu valoro, ou seja, dou mais valor, à A ou à B? Veja que “valor” é uma “característica” gerada pela mente humana, não algo intrínseco ao objeto. Aquilo que o homem valora, deseja obter para saciar seus fins, os economistas costumam chamar de “bens”. Os fins em si são agrupados e chamados de “utilidade” – que pode ser entendida como significando satisfação, prazer, felicidade ou simplesmente “algo bom” (logo, o fim último de qualquer indivíduo é “maximizar a utilidade”, maximizar “o que é bom”).

Segue ainda que a escassez específica de algo é derivada do valor que se atribui a esse algo, não é um dado externo à mente ou percepções do indivíduo. Escassez é um primário para a economia, mas não é algo irredutível no contexto geral do nosso pensamento. Ela segue da valoração e da percepção humana por certas coisas (em suma, de processos conscientes, mentais do homem), no entanto, não há escolhas quando essas coisas são obtidas passivamente, sem a necessidade de se deliberadamente tomar um caminho de ação, sem a necessidade de se abrir mão de outra coisa ou de forma mais fundamental ainda, sem a necessidade de se focar mentalmente (direcionar sua mente) na obtenção dessas coisas. Nessa situação, tal “coisa” deixa de estar na escala de preferências de um indivíduo, deixa de ser um “bem” (ou usando um pleonasmo, um “bem escasso”), ela não precisa ser escalonada, não há o que escolher, em suma, não há custo para se obtê-la e obtê-la não demanda foco algum do indivíduo. Todos os teoremas subseqüentes da economia precisam estar logicamente ligados a esses primários, a essa base teórica da escassez e da escolha. Precisam ser “logicamente reduzíveis” a essa base.

O movimento dentro da economia mais bem sucedido em cortar a ligação entre a explicação dos fenômenos econômicos, com o que existe, é perceptível e irredutível a todos nós (os conceitos de escassez e escolha) foi o keynesianismo. Modernamente, a idéia de ancorar a explicação dos movimentos de agregados em planos de ações individuais, escolhas de agentes econômicos, recebeu o nome de “microfundamentação” (nome derivado de microeconomia, que na divisão atual da disciplina, seria o ramo que estuda a lógica da escolha). Os keynesianos clássicos rejeitam a microfundamentação e alguns chegam até a falar em uma absurda “macrofundamentação” da teoria convencional, ou seja, tomar agregados e entes coletivos como primários e não ações individuais. Historicamente o ataque keynesiano à teoria econômica ortodoxa se deu através do abandono da noção de escassez: não explicitamente, mas implicitamente através do ataque à chamada “Lei de Say” e de conceitos como “insuficiência de demanda agregada”. Mas o que era essa lei? Porque foi o alvo escolhido?

Deixe-me explicar melhor esses pontos. Um dos pilares da chamada “teoria econômica clássica” era o que ficou conhecido como “Lei de Say” (devido ao economista francês Jean Baptiste Say que a descobriu). Keynes, no seu “Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda”, apresentou tal lei com a famosa frase “a oferta cria sua própria demanda”. Não é uma apresentação muito adequada e gera confusões até hoje. Muitas estudantes de economia, e até economistas profissionais, ao se depararem com essa proposição pensam que a lei diz que, caso eu produza 10.000 sapatos, surgirá uma demanda pelos 10.000 sapatos produzidos. A lei de Say, no entanto, não é isso. Ela é uma maneira diferente de dizer que bens são escassos e que uma dada demanda por bens é paga com uma oferta de outros bens de igual valor.

Peguemos um exemplo simples: A é um hábil caçador de alces. Digamos que ele tenha caçado 1.000 unidades econômicas de alce. Ele consome 100 e resolve trocar as outras 900 por outros tipos de alimento. Nosso caçador hipotético então se dirige a algum “mercado” e passa a ofertar 900 alces. Segundo a interpretação errônea da Lei de Say, a sua oferta de 900 alces geraria uma demanda por 900 alces. O erro está exatamente nessa parte final. Pense no seguinte: o sujeito está ofertando 900 alces para quê? Ora, como foi dito sem muita ênfase no começo do exemplo, para obter outros bens. Essa vontade de “obter outros bens” concretizada por uma oferta de 900 alces é a tal “demanda gerada pela oferta dos 900 alces”. Essa demanda não é uma demanda por exatamente 900 alces, mas sim uma demanda, no valor de 900 alces, de uma infinidade de outros produtos que não são alces. O nosso caçador A quer outros bens, mas para demandar outros bens ele precisa antes ofertar algo, produzir algo, pois os bens são escassos, precisam ser produzidos e trocados. Para demandar um valor monetário X em bens, ele precisa ofertar de outro bem o mesmo valor X. Se ele ofertar X+1, estará demandando X+1 em outros bens (ofertar significa oferecer uma troca, ou seja, há uma demanda por algum bem de outro agente econômico). É esse o verdadeiro significado da lei de Say e da tal “oferta criando demanda”. O espelho indissociável de uma oferta é a correspondente demanda de igual valor que compõe o que chamamos de “troca”.

Dito isso, o leitor mais atento deve ter percebido que a lei não garante que o ofertante, de fato, conseguirá vender automaticamente os 900 alces, ela diz apenas que seja lá o que o agente deseja, terá que ser pago por uma oferta de igual valor, ou seja, ela reforça a idéia de escassez, de que os bens não podem ser obtidos “de graça”. O que garante que uma oferta de 900 alces encontrará, agora sim, uma demanda exatamente por 900 alces são os preços. Para facilitar, imagine que nosso caçador A queira trocar alces por um único outro bem, batatas. A então chega com os alces e oferece 1 unidade de alce por 1 unidade fictícia de batatas. Por esse preço, suponha que a quantidade de alces vendidas será de apenas 400, ou seja, nós teríamos um excesso de oferta de alces (no caso 500). Por outro lado, o agente A deseja de batatas, o valor dos 900 alces (senão ele não ofereceria a troca). A parte equivalente a 400 alces já teria sido conseguida com o atual preço, mas faltaria obter o resto das batatas. Logo, assim como nós temos um excesso de oferta de alces, nós temos um excesso de demanda por batatas como “espelho”. De que forma os preços reagirão a isso? Ora, o preço do alce cairá, para as vendas de alce serem “incentivadas” e o preço da batata subirá, o que “desincentivará” a demanda por batatas. Quando esse movimento parará? Exatamente quando os preços igualarem ofertas e demandas em cada mercado, o chamado “market clearing”.

Generalizando, imagine i bens, onde clip_image002[11] é o preço do bem i e clip_image004[22] é a dotação do bem i de um agente econômico qualquer. Seja clip_image006[22] a quantidade ótima (desejada) do bem i. A “dotação total” de bens de um agente econômico qualquer seria então: clip_image008[11]. A escolha ótima de todos os bens deve respeitar a restrição orçamentária para ser factível (ser possível). Como estamos tratando de bens escassos, toda restrição será gasta de alguma forma, logo:

 clip_image002[17]             (0)

Rearrumando os termos:

clip_image012[11]                (1)

Essa última equação descreve o que foi dito com palavras no parágrafo anterior. Veja que clip_image014[22] representa um mercado particular, o mercado do bem i. clip_image004[23] é quanto o agente tem do bem i e clip_image006[23] é o quanto ele quer ter “no final” de i, dado os preços de mercado. Assim, se o resultado da subtração (clip_image014[23]) for positivo, há um excesso de demanda pelo bem i, se for negativo, temos um excesso de oferta do bem i e se for zero, esse mercado em particular está em equilíbrio. Note que a soma de todos os mercados deve ser necessariamente zero, ou seja, excessos de demandas possuem um valor igual aos excessos de oferta. Essa condição é obtida do fato de que toda restrição é gasta de alguma forma, ou seja, os bens são escassos.

Nós podemos expandir nosso raciocínio para chegarmos em um conceito de “demanda agregada”. Imagine uma economia com n agentes. A equação (1) vale para todos os agentes individualmente na economia. Logo, basta somá-las para obter uma “equação agregada” dos n agentes. Veja que a soma de todas as dotações dos agentes (
clip_image016[11]) é a oferta agregada da economia. A soma das quantidades desejadas (clip_image018[11]) é a demanda agregada da economia. A escassez dos bens nos garante que o “valor monetário” dessas coisas, no agregado, sempre serão iguais (equações 0 e 1), mesmo que mercados particulares estejam em desequilíbrio. Isso significa apenas que, toda demanda precisa ser paga por uma oferta de igual valor. E é o quanto se oferta (se produz) que determina o tamanho da demanda.

Mas mais importante ainda para nossos propósitos, significa que não existe “insuficiência” de demanda agregada, ou seja, não existe superprodução. Veja na equação (1) que os excessos se zeram no agregado, não existe “excesso generalizado”. O excesso em um mercado particular é compensado por excessos de sinal trocado em outros mercados. A questão, portanto, é descobrir qual dentre os setores da economia é lucrativo, em qual setor há os “excessos” e em qual há “escassez”. Supor “super produção” é descartar a igualdade da equação (0), é supor que “sobra” dotação, ou seja, que mais não é melhor que menos, que já chegamos na “saciedade” e que mais bens não são relevantes para seres humanos, i.e, não são escassos. Eis o motivo do keynesianismo teórico representar o abandono da escassez.

A maior parte dos modelos macros microfundamentados não usam “i bens” e “n agentes” como fizemos. Tais modelos trabalham com um agente representativo (ou uma coleção de agentes idênticos) e no lugar de “i bens”, os bens são divididos em “agregados mensuráveis”, a saber, consumo, investimento, gastos do governo etc.. Assim, os “i bens” viram uma espécie de geléia de bens (representado normalmente por “y”) que vai ou para consumo ( c ) ou investimento ( i ) ou gastos do governo ( g ) – na versão do modelo para economia fechada. Adicionalmente, em geral, é suposto que o preço do consumo, do investimento e do gasto do governo são iguais o que permite escrever a restrição orçamentária macroeconômica no famoso formato: y = c + i + g.

Mesmo com o formato da restrição orçamentária modificado, o raciocínio é o mesmo desenvolvido anteriormente: y é a dotação da economia, é o que foi produzido (muitas vezes y é escrito como y(k, l), ou seja, a produção da economia é função dos fatores de produção disponíveis); a escassez dos bens garante o sinal de igualdade entre y e os destinos possíveis de y (em tese, do lado direito da equação teremos todos os destinos possíveis para y). A equação em si, como uma identidade matemática, não trata de causalidade, ela garante apenas a igualdade. No entanto, o uso da igualdade tem como origem e justificação teórica a escassez dos bens. A mesma escassez que garante que um aumento de C não pode gerar um aumento de Y porque não há como demandar (consumir) sem produzir, ou ainda que I não pode aumentar sem diminuir C, porque é necessário produzir antes de consumir, o que no caso específico significa “poupar” antes de “investir”.

Por fim, se introduzirmos moeda há alguma alteração no mecanismo da Lei? Eu diria que a principal alteração é apenas semântica. Muitos economistas argumentaram que Say não estava interessado na questão da moeda e que, portanto, sua lei só vale em “economias de escambo”. Isso não é correto. Para os propósitos deste texto, excluamos a moeda da categoria de “bens”. Dessa forma teremos dois grandes mercados: o real (contendo todos os bens exceto moeda) e o mercado monetário, cujo único item negociado é moeda. Alguém que oferte X em moeda, portanto, está demandando X em bens e o oposto também vale: alguém que demanda X em moeda, está ofertando X em bens. Assim, nós transformamos os bens na geléia de bens dos modelos macro e o preço desses bens corresponde a uma espécie de “nível de preços”, ou seja, o preço dessa grande cesta de bens em termos de moeda.

Dada as hipóteses acima, nossa dotação se transforma em clip_image020[11], o que nos dá clip_image022[11], onde c são bens em geral, m é moeda, os asteriscos denotam os ótimos de cada item e o clip_image024[11] as respectivas dotações. Separado dessa forma, quando existe um excesso de moeda (clip_image026[11]), temos como contrapartida uma uma falta de bens (clip_image028[11]). Assim, os preços dos bens (que representa o nível de preços) deve aumentar, i.e, inflação. No caso de termos “falta” de moeda (clip_image030[11]) a conseqüência será um “excesso” de bens (clip_image032[11]), o que provocará uma queda dos preços em termos de moeda (deflação). Esses “excessos” e “faltas” de bens não são uma violação da lei de Say, não representam nada de diferente do que foi explicado anteriormente. Esses resultados, apresentados dessa forma, são gerados apenas por uma específica divisão dos mercados entre “bens menos moeda de um lado” e moeda do outro. A conseqüência em si, no mundo real, continua a mesma. Demandas precisam ser pagas com ofertas de igual valor, pois os bens são escassos (o que significa que no agregado, considerando todos os mercados, não há excessos) e preços relativos equilibram os mercados particulares (no nosso último modelo, o “preço relativo” na verdade é o nível de preço – o preço da cesta de bens em termos de moeda).

Explicado tudo isso, podemos perceber porque os keynesianos (incluindo o próprio Keynes) rejeitaram a lei de Say. Como ela é derivada exclusivamente do fato de que bens são escassos e por isso são alvos de alguma destinação dada por um agente econômico (consumo, investimento etc..), é impossível existir “insuficiência de demanda agregada” (os excessos, no agregado, são zerados) em um sentido diferente daquele explicado por nós ao separarmos moeda de outros bens. Em termos reais (sem considerar moeda e a separação feita), não existe tal coisa. Excessos são setoriais, específicos em determinados mercados. A “demanda agregada” é sempre igual a “oferta agregada”. Isso contradiz o keynesianismo já no seu inicio e restabelece a escassez como problema central da economia.

domingo, 8 de agosto de 2010

O coletivismo implícito do minarquismo

[1] Embora a frase pareça estranha, poucos liberais, durante toda história, foram realmente anti-coletivistas consistentes. Obviamente, esses pensadores não foram socialistas, nem fascistas, no entanto, muitos basearam certas defesas em pilares pantanosos, os mesmos pilares que geraram e geram os monstros que muitos deles combateram com louvor. Não é à toa que quando você explica o “liberalismo moralista” (aquele liberalismo baseado em direitos, em ética e não a versão “utilitarista”) a alguém que teve muito pouco contato com esse tema, uma das primeiras perguntas, se você não falou em anarquismo, é: ora, mas se o direito de propriedade é inviolável porque vocês defendem governos? E o iniciante tem razão, uma justificativa para o governo não pode ser dada sem abandonar essa ética individualista liberal e foi aí que absolutamente todos os minarquistas (liberais que defendem o governo exclusivamente como guardião dos direitos de propriedade), cederam ao coletivismo.

[2] Quando lemos liberais clássicos considerados muito radicais, como, por exemplo, Mises, Locke, Bastiat, Lord Acton, Ayn Rand, é muito raro tais autores discutirem seriamente a possibilidade de “não governo”. Quando essa possibilidade é levantada, ela é descartada sem muita análise. Dos liberais famosos mais recentes, apenas dois se dedicaram a discutir o assunto mais detalhadamente: James Buchanan e, principalmente, Robert Nozick. O primeiro discutiu em bases claramente coletivistas, utilizando-se do utilitarismo (falarei mais disso adiante), já o segundo procurou avaliar não tanto se a existência de um governo era ou não correta, mas sim se os modelos anarco-capitalistas acabariam gerando governos e a resposta de Nozick foi sim. Quando se propôs a discutir diretamente sobre moralidade, acabou caindo no mesmo coletivismo que invariavelmente a defesa de um governo cai.

[3] Neste breve histórico, é interessante ver o que aconteceu com a filósofa russo-americana Ayn Rand. Rand rejeitou de forma veemente o anarco-capitalismo. Mesmo os liberais minarquistas, costumava chamar de “hippies de direita”, porque suas defesas desse sistema, segundo ela, eram descolados de defesas morais e filosóficas mais fundamentais como o “egoísmo racional”. No entanto, independente das criticas aos liberais, politicamente ela foi uma liberal, defendeu intransigentemente o principio da não agressão e os direitos naturais. No entanto, foi o único minarquista jusnaturalista, que conheço, que admitiu a contradição entre os direitos naturais, o individualismo e a forma como os governos se financiam; através de impostos. Ela não se tornou anarquista por isso. Como Rand confundiu o que seria um governo, misturou o “monopólio moral” do jusnaturalismo com o monopólio econômico da aplicação dessa lei única e correta, ela “resolveu” o problema defendendo financiamento voluntário para o estado, através de loterias, por exemplo, sem perceber que, dificilmente uma entidade financiada dessa forma poderia ser chamada de “governo”.

[4] Outro fato intelectual interessante dentro dessa contradição “governo x direitos naturais” foi a própria defesa do governo feita por John Locke, o “pai fundador” da tradição liberal jusnaturalista. Locke não descartou a anarquia como algo “non-sense”. Para Locke, o período “antes do governo”, o chamado estado natural, não era um caos, uma guerra de todos contra todos. No entanto, existia um problema: fazer justiça com as próprias mãos não era muito recomendado porque você podia “passar do ponto”, dado que estaria “emocionalmente” envolvido com o caso. Para Locke, delegar essa tarefa de executar a justiça a um terceiro não envolvido na disputa, no caso, para o governo, seria a melhor saída. Dessa forma, o governo era o meio mais adequado de proteger e garantir os direitos naturais e fazer justiça (note que esses direitos já existem antes do governo, o governo é somente uma forma de protegê-los).

[5] Mas isso, todo minarquista moderno diria e mesmo assim estaria em contradição com o jusnaturalismo lockeano. Qual a diferença de Locke então? A “solução” foi transformar a formação de um governo em formação de uma empresa. Indivíduos livres, donos de si mesmos, voluntariamente “firmam um contrato” com uma entidade que aplica e protege os direitos desse associado filiado (ou sócio), como qualquer contrato de prestação de serviços moderno entre um cliente e uma empresa privada. E se você não gostar do serviço? Se essa empresa “sair dos trilhos”? Muito simples: você tem direito de secessão, ou seja, de sair da associação (tal direito foi inclusive, o que motivou as independências mundo afora, incluindo a americana). Locke então pegou essa “entidade protetora”, formada voluntariamente, por contrato e disse que estava justificando a existência de algo completamente diferente chamado “governo”. Estava resolvido! O governo (aquele que realmente existia e estava sendo justificado) era uma associação voluntária, contratual como qualquer sociedade empresarial, como um “clube”.

[6] Os minarquistas modernos adorariam, mas não podem usar essa “justificativa lockeana” por dois motivos: 1) a idéia de um “contrato” ao pé da letra é facilmente refutável e beira o ridículo. A solução é dizer que a história original de Locke é uma espécie de fabula para “evolução” das coisas, uma espécie de “modelo teórico” para formação de governos. Obviamente, nada disso acaba com a contradição entre governo e jusnaturalismo, afinal, a própria explicação assume que não existe um contrato realmente; 2) dificilmente os minarquistas modernos defendem secessão individual (Mises, por exemplo, foi um dos notáveis minarquistas a defendê-la), o que já praticamente acaba com qualquer idéia de contrato.

[7] Mas então porque liberais, notadamente os não anarquistas, acabam sendo coletivistas? A resposta está na própria moral individualista e no conceito de direito natural. Um individualista toma o ser humano como o ponto de partida, o que existe, o toma como “primário”. Explicando brevemente, esse ser humano, o ponto de partida, tem certas características, uma dada natureza. Segue dessa natureza a auto propriedade, ou seja, o controle sobre si mesmo, sobre a sua mente. Seres humanos são seres com “consciência”, com livre arbítrio. Também segue da sua natureza o método correto para sua sobrevivência – a produção usando “ele mesmo” e recursos externos, o que significa, a apropriação de recursos externos e recursos produzidos por ele. Dado que a norma correta é aquela que não contradiga o que é, não contradiga o que existe, i.e, a realidade; é correto um ser humano ser tratado como ele é: auto-proprietário e dono daquilo que produziu e se apropriou externamente (veja que se apropriar significa “tomar para si”, colocar aqueles recursos sob sua vontade, sob o “comando” da sua mente, da sua consciência, ter total disposição sobre aquilo, transformá-los em meios).

[8] Cabe ressaltar que essa é uma explicação bem simples do ponto de partida dos individualistas. Existem outras formas e explicações mais completas de se chegar ao mesmo resultado, como o “Teorema da Argumentação” do filosofo austríaco Hans Herman Hoppe, ou o objetivismo da já citada Ayn Rand (qualquer ética pressupõe o direito à vida, já que ética seria a forma correta de se viver, logo não faz sentido falar em ética se você não tem direito a viver ou não queira viver e para viver o homem deve ter o direito de ser homem – para uma explicação mais detalhada leia aqui, uma excelente tradução do The Objectivist Ethics, ou a versão em inglês aqui). O importante, para os propósitos deste texto é o seguinte: um individualista considera o indivíduo um fim em si mesmo, ou seja, ele (indivíduo), entendido como uma entidade com direito sobre si mesmo e de se apropriar do mundo externo, não é meio para outro fim algum. Esses dois direitos, auto-propriedade e propriedade sobre bens produzidos ou bens externos apropriados com a regra do “primeiro uso” (chamarei apenas de “direito de propriedade”), são do indivíduo e exclusivamente dele. São direitos dele por ele ser o que é, por sua natureza, ou seja, são “direitos naturais” (derivados de sua natureza). Esses direitos não são concessões de absolutamente ninguém, nem de ente coletivo algum. Só o próprio indivíduo, se desejar, pode abrir mão desses direitos, através da sua própria destruição, pois como direitos naturais, derivados do que ele é, não é possível continuar existindo sem tais direitos – para fins de exemplo, um ser humano não deixa de ser auto-proprietário enquanto estiver vivo. Só a morte acaba com essa característica. Ele é o que é e, enquanto ser vivo tem uma determinada natureza (que no caso geram ou são – isso não é muito relevante – certos direitos) e não pode, metafisicamente, fugir dessa natureza, ele está “preso” a ela.

[9] Antes de passar para o próximo item, reforcemos: para os individualistas, um indivíduo é um fim em si mesmo, ou seja, não é meio para fim algum. Ele tem certos direitos que são dele, unicamente e exclusivamente dele por ser o que é, i.e, seus direitos naturais, a saber – auto propriedade e o direito de propriedade sobre bens. Não são concessões de absolutamente ninguém. Para o individualista cada indivíduo é exatamente um indivíduo, uma unidade separada, independente da vontade de outra, fora do jugo de qualquer outro indivíduo. A mente de cada indivíduo (ele próprio) é seu único e exclusivo “senhor”.

[10] Seguindo, o que quero dizer por “governos” neste texto? Uma organização que se financia via impostos e se atribui o monopólio da aplicação das leis. Como a discussão ficará basicamente dentro do universo liberal, podemos assumir que essa lei é exatamente a lei correta – o direito natural. Assim, o governo que vamos levar em conta, é o governo dos sonhos de qualquer minarquista “moralista” (excetuando-se o fato dele não ser “contratualista”). Mas, de forma mais especifica, o que significa “monopólio da aplicação das leis”? Significa que em algum instante dentro da aplicação e proteção de direitos, você terá que usar algum “serviço” determinado pelo governo (podendo ou não ser do próprio governo) e não terá opção quanto a isso: pode ser usar tribunais estatais em alguma instância de julgamento, usar sua própria polícia para lhe proteger, seus próprios juízes em um julgamento etc.. Enfim, o governo de alguma forma controla, através de um monopólio (reserva de mercado), a aplicação, execução das leis. O problema com isso é justamente o monopólio. Monopólio é uma invasão de propriedade. Alguém, através do uso da força, impede você de trocar seus bens / serviços, pelos bens / serviços do outro proprietário. Mas os bens são seus e do outro! Se vocês são os proprietários podem fazer com eles o que bem entender, inclusive trocar. No atual tema, se A e B possuem uma pendência jurídica e querem resolver tendo C como juiz, o governo não pode obrigá-los a usar seu juiz.

[11] E qual o problema com os impostos? Aqui está o problema maior. Usando o exemplo anterior do juiz, os minarquistas, para uma infinidade de pendências jurídicas, costumam aceitar que A e B possam levar suas pendências a um juiz privado qualquer (não seriam todas as pendências, mas aí voltaríamos ao outro item do monopólio). São as famosas “arbitragens privadas”. O problema com tal posição é que, dado que eu não vou usar nem o tribunal, nem o juiz do governo, não tem por que eu pagá-los. E mesmo que tivesse algum motivo, por mais absurdo que seja, eu não contratei serviço algum. Dito de outra forma, independente da minha vontade (seja ela fruto de capricho ou não), esse órgão chamado governo, pega alguns bens meus para se financiar, para manter suas atividades, i.e, os tais “impostos”. Isso tem um nome: invasão de propriedade e, portanto, é inaceitável para um individualista. Se um minarquista, diante do que foi dito acima, respondesse: “mas se você não usa, não precisa financiar o governo, paga ‘quando quiser’ ou se for usar”, ele estaria implicitamente defendendo o direito de secessão individual e teria transformado o governo em uma simples “prestadora de serviço”, uma das agências privadas de segurança ou em um dos tribunais privados tão discutidos nos modelos anarco-capitalistas.

[12] No entanto, minarquistas não aceitam a “voluntariedade” quanto ao financiamento do governo e nem quanto a aplicação da lei (por isso são minarquistas ou “liberais clássicos” e não anarco-capitalistas). Essa rejeição ao anarco-capitalismo é baseado em basicamente dois grandes grupos de argumentos: uma grande linha de argumentos é a tentativa de negar que imposto é invasão de propriedade. Nesse grupo entram considerações sobre “aceitação de um governo”, a história do contrato social, a democracia como sendo a “prova” de aceitação de um governo e dos impostos que o financiam etc.. Eu não vou discutir esse grupo porque, além de ser claramente errado, já fiz isso em textos como “Pra quê Governo? – II” , “Conceitos fora do lugar....” e no “Sobre democracias e revoltas contra governos eleitos”. A outra grande linha adota o “pragmatismo” e diz algo do tipo: “impostos são roubos, ótimo, aceito isso. Mas o governo é o melhor meio, senão o único, de garantir que esse fim desejado, a proteção dos direitos naturais, será alcançado. Em resumo, na realidade, o mais perto que podemos chegar desse fim é com um governo minarquista”.

[13] Deixe-me agora definir o que quero dizer por “coletivismo”, embora a explicação para o termo individualista já tenha clareado o que isso seria. Coletivismo é determinar que algum “ente coletivo” é o fim último e não indivíduos. Assim, indivíduos se tornam meios para se atingir uma “dada ordem”, ou para a manutenção de algo como a sociedade, a nação, a raça etc.. Peguemos a forma mais comum de coletivismo, aquele que diz que a sociedade é o fim último (modernamente, todos os coletivismos, explicita ou implicitamente adotam essa postura). Nessa visão, indivíduos são meios para se manter a sociedade. Seus direitos não são realmente “seus”, não são dele por natureza. São concessões, concessões dadas ou retiradas de acordo com o fim último desejado: a manutenção da sociedade.

[14] Veja a importante inversão que ocorre: para os individualistas, a sociedade é um meio. Indivíduos se relacionam com os demais e formam “sociedades” porque isso lhes permite atingir seus fins (sejam “fins materiais”, como a proteção de direitos ou uma melhor condição material, sejam “fins espirituais” como a necessidade de companhia, constituir família etc..). Se uma dada sociedade não cumpre essa função de permitir ao indivíduo alcançar seus fins, de viver como um ser humano, de atingir seus objetivos não invasivos, então ela deve ser sacrificada, deve ser “desfeita”. Já no coletivismo, os papeis se invertem. É o indivíduo que deve ser sacrificado se seus direitos ou suas opções, mesmo sendo não invasivas, ou seja, opções que não violam direitos naturais de outro indivíduo, não são “adequados(as)” à manutenção de uma dada sociedade desejada ou já constituída. O padrão para determinar se o indivíduo tem ou não um direito, pode ou não fazer algo, não é sua natureza, o que ele é, mas sim a adequação a esse coletivo que é o fim último do coletivismo.

[15] Os exemplos mais óbvios dessa visão, nos tempos atuais, aparecem em argumentos do tipo: temos que proibir as drogas porque elas destroem a sociedade (mesmo que esteja na cara que consumir / ingerir algo não é um ato invasivo, esse direito pode ser negado em nome do fim maior: a sociedade), não podemos abrir a economia porque isso gerará desemprego, quebrará nossa indústria (não importa se você viola direitos individuais, o fim é a “economia nacional”, a “nossa indústria”), é função do governo evitar ciclos econômicos e preservar a economia e os empregos (também não importa se o governo gerará déficits, aumentará os impostos e conseqüentemente a invasão de direitos de propriedade, o que importa é a “economia nacional” ou os “trabalhadores”).

[16] Dentro do espectro político liberal, a diferença entre coletivismo e individualismo aparece na própria concepção de conceitos como liberdade e direitos individuais. Para um “liberal-coletivista”, o que é definido como “direitos individuais” ou “liberdades individuais” são comportamentos ou direitos que servem como meios para se garantir uma sociedade mais eficiente ou “mais livre” segundo alguma definição torta de liberdade (veja que o fim é uma determinada sociedade, não o próprio indivíduo, a preservação do que ele é). Assim, tais itens começam a ser moldados, no seu conteúdo concreto, conforme satisfaça a manutenção dessa “ordem coletiva” desejada. O “consequencialismo” dos adeptos mais fervorosos da Escola de Chicago, como Richard Posner, Gary Becker, James Buchanan e até de anarco-capitalistas como Bryan Caplan e David Friedman, é o melhor exemplo de “doutrina liberal” que se encaixa nesse perfil coletivista. X é direito de fulano porque gera eficiência (o fim último é uma sociedade eficiente, a adequação a ela determina o que é ou não um direito).

[17] Explicado alguns conceitos chaves, analisemos então a defesa do governo como um meio para atingir o fim “proteção do direito natural”. O argumento, como já foi dito, funciona da seguinte forma: o governo, por sua natureza, é um invasor de propriedade, é financiado por impostos; o que se está defendendo é que uma pequena invasão de propriedade é desejável se ela servir para evitar várias outras invasões de propriedade, em suma, atingir o tal fim “respeito ao direito natural”. Esse é o argumento padrão de “utilitaristas” e minarquistas morais que não negam a imoralidade inicial dos impostos. Veja que, nesse argumento, direitos são condicionados a uma dada ordem, eles são meios, são concessões para se obter essa ordem e isso, como explicamos, é coletivismo.

[18] Um minarquista pode responder: “mas essa ordem, essa sociedade, é uma sociedade visando o próprio respeito ao indivíduo”. Existem vários problemas com esse argumento. Uma é a confusão entre meios e fins, enquanto a outra é a própria contradição entre o uso de alguns meios e o fim desejado. Primeiro, uma sociedade que se arroga respeitosa para com os direitos do indivíduo, não pode, ao mesmo tempo, ser mantida, ser baseada no constante desrespeito a esses mesmos direitos (via governo e impostos). É como argumentar que A é não A, um absurdo! Além do mais, não existem dois tempos distintos, algo como um “t inicial”, onde o teórico pode violar “um pouquinho” os direitos dos indivíduos e outro “t final” onde o defensor desse esquema diz: pronto, está aí o resultado – fim alcançado, todo mundo com direitos de propriedade respeitados! Não, o tal fim, i.e, o respeito aos direitos individuais, deve ser por “todo t”. Não há tempo “café com leite” para violação desses direitos e depois “desconsiderando a violação, pronto, alcançamos o fim”. Segundo, o argumento, dada a sua natureza coletivista, inverte a ordem, na hierarquia moral, do conceito de sociedade. Sociedades, incluindo uma sociedade para preservar direitos naturais, são meios, não fins. O fim é o indivíduo, a sua vida, seu direito natural. Defender como fim uma sociedade que visa preservar o direito natural, mas usa como meio a violação do direito natural é uma inversão completa do que é meio e do que é fim.

[19] Mesmo após essas considerações, os minarquistas costumam reafirmar o problema da seguinte forma: “imagine que você pode escolher entre perder a vida ou uma mão. Nós estamos dizendo que é melhor perder a mão”. Ou mais diretamente: “é impossível proteger direitos naturais sem um governo, logo nós optamos pela saída “imperfeita”, mas possível”. O que se revelou realmente impossível, foi a manutenção de um governo minarquista (governos só mantiveram a tendência de crescer pelo mundo inteiro, mesmo após a rápida diminuição propiciada pela “onda intelectual liberal” dos séculos XVIII, XIX). Mas independente desse pequeno detalhe e do fato de existirem inúmeros argumentos dizendo que é possível sim, na prática, dispensar o governo (veja, por exemplo, meus textos “Leis, tribunais e polícia sem governo: bem vindos ao anarco-capitalismo”, “Pra quê Governo? – I”, “Governos, ordem e lei” ou ainda vários outros textos, livros de autores como Murray Rothbard, Robert Murphy, Walter Block, David Friedman, Bryan Caplan etc..), o que nos interessa é chamar atenção para a seguinte questão: independente se é factível ou não manter direitos naturais sem um governo, por mais absurdo que seja tentar isso, um indivíduo é dono de si mesmo, é seu único senhor, logo ele tem todo o direito de rejeitar o governo mesmo que isso signifique uma “loucura”. Em termos do exemplo anterior da escolha entre a vida ou a mão, o sujeito tem todo o direito de escolher perder a vida. Quem deve decidir se vale a pena viver sem mão ou não viver, por ele ser dono de si mesmo, é o próprio indivíduo e não o minarquista em questão.

[20] Isso nos leva a questão de que “meios estão disponíveis” para se atingir o fim “proteger o direito natural”. Obviamente, os próprios direitos naturais não são meio algum, eles são fins. Não se pode escolher sacrificá-los. Mais que isso, não existe nem tal opção do ponto de vista individualista, porque tais direitos são do individuo, são dele, por ele ser o que é. Colocar tais direitos como meio é aderir ao coletivismo que transforma indivíduos e seus direitos naturais em “coisas sacrificáveis”, em concessões que podem ou não prevalecer dependendo da adequação a um “fim maior”, como a preservação de um ente coletivo ou uma ordem que está hierarquicamente acima do próprio indivíduo. Também não é válido argumentar que: “não é justo, eu quero ser protegido por um governo, é meu direito! Só porque o fulano rejeita isso, não posso escolher ser governado?”. Ora, ninguém pode escolher usando propriedades que não são suas. O outro é o outro, é senhor de si mesmo. Não seu escravo, não um meio sacrificável para seus fins. O máximo que se pode fazer é convencer, voluntariamente, o sujeito a seguir o curso de ação que você deseja (pagamentos são o meio mais comum de se conseguir tal feito). Nada mais que isso. Defender outra coisa é se filiar intelectualmente ao coletivismo, é defender o sacrifício do indivíduo, nesse caso, em nome do que você prefere, da sua “ordem preferida”. Um liberal consistentemente individualista não tem outra alternativa a não ser rejeitar o governo como meio de preservação do direito natural, da vida do indivíduo.

[21] Realmente poucos liberais conseguiram se manter dentro do individualismo de forma coerente, até porque, a grande maioria dos ditos “debates políticos” são implicitamente coletivistas. Peguemos, por exemplo, uma visão muito compartilhada por ditos economistas liberais: a de que o governo deve ter o monopólio da moeda (Milton Friedman foi um exemplo de economista liberal que defendia essa posição). Muitos argumentam isso (monopólio da moeda) porque consideram que várias moedas gerariam “custos de transação” muito altos. Outros, mais intervencionistas, argumentam que o governo perderia a politica monetária, ou a inflação sairia do controle. Independente dessas consequências estarem certas ou erradas, nenhum deles dá a mínima para o fato de que monopólio é invasão de propriedade, é negar o direito natural, usando a força, dos proprietários trocarem / ofertarem um determinado bem, no caso, moeda. Indivíduos e seus direitos são vistos como concessões, são meios. Assumindo o argumento do custo de transação, como um dado direito gera esse suposto efeito indesejado e o objetivo é uma “sociedade eficiente” ou uma sociedade com baixo custo de transação, tais direitos são cortados. Não importa se é um direito inalienável do indivíduo, se é dele etc.. Para um utilitarista econômico mais convicto, direitos são direitos apenas porque geram “eficiência”.

[22] Citei um debate teórico de economia, mas existem vários outros mais comuns, como por exemplo, a questão da desigualdade, um verdadeiro clássico no assunto: às favas com direitos de propriedade, o fim é uma “sociedade menos desigual”. Aliás, um parênteses interessante aqui: é famoso, nos meios liberais, o relato, não sei se verdadeiro ou não, de uma suposta reunião da Mont Pelerin (uma espécie de clube de notáveis liberais que se reúne em uma cidadezinha suíça chamada Mont Pelerin), onde Mises entrou em uma sala e viu liberais famosos como Hayek, Friedman e outros discutindo desigualdade social. Ele viu aquilo e logo saiu da sala falando que o grupo era “um bando de socialistas”. O caso, geralmente é contado como um exemplo de “intolerância e radicalismo” por parte de Mises, mas ele retrata bem a reação que um individualista deve ter, quando percebe o que se está em jogo quando se admite colocar a desigualdade social como um problema, ou mais igualdade como um fim. Mises percebeu que o indivíduo, a liberdade, nessa discussão, foram colocados para escanteio e reagiu a isso dizendo que aquilo era socialismo e no caso em tela, era mesmo. E como todo socialismo, era coletivismo.

[22] Vejam outro exemplo, essa frase conhecida de Hayek no livro “O Caminho da Servidão”, autor considerado por alguns “intelectuais” locais o suprassumo do liberalismo:

“A atitude do liberal para com a sociedade é semelhante à do jardineiro que cuida de uma planta e que, a fim de criar as condições mais favoráveis ao seu crescimento, deve conhecer tudo o que for possível a respeito da estrutura e das funções dessa planta.”

[23] Hayek foi um dos grandes críticos do coletivismo e do socialismo e embora tenha mudado seu pensamento de forma substancial durante sua longuíssima vida, essa frase é implicitamente coletivista (nem tanto implicitamente, ainda mais considerando o contexto de critica ao laissez-faire que ele faz no mesmo livro). Veja que o fim do “liberal hayekiano” é uma determinada sociedade, não o próprio indivíduo, seus direitos naturais. Alguém pode dizer que tal critica é injusta porque a sociedade que Hayek queria manter era uma sociedade onde prevalecessem os direitos individuais. É o mesmo argumento citado anteriormente quando da critica do minarquismo. Sociedade é um meio, não o fim. O fim é o indivíduo (seus direitos naturais), o que significa que, obviamente, ele não pode ser usado como meio, nem mesmo como uma opção de meio, afinal, um indivíduo é isso, um indivíduo. É independente da vontade do “teórico” – no caso da frase do Hayek, direitos são concessões, meios para o florescimento dessa “sociedade desejada” – que faz o papel de fim.

[24] Voltemos ao velho Mises. Chamar Mises de coletivista é uma loucura e, de fato, é loucura. Mas o mestre também teve seus momentos de recaída. Veja, por exemplo, sua defesa do alistamento militar obrigatório:

“Quem quiser permanecer livre deve combater até a morte aqueles que pretendem privá-lo da sua liberdade. Uma vez que tentativas individuais isoladas estão fadadas ao fracasso, a única forma viável de defesa é encarregar o governo de organizá-la. A tarefa essencial do governo é defender o sistema social, não apenas contra os malfeitores internos, mas também contra os inimigos externos. Aquele que, nos dias de hoje, se opõe ao armamento e ao serviço militar está sendo cumplice, talvez até mesmo sem percebê-lo, dos que visam à escravização geral”. (pag. 283 – Ação Humana, edição do IL).

[25] O trecho é sem tirar nem por o tipo de argumento que discutimos anteriormente: você prefere a mão ou a vida, prefere viver sob uma escravidão moderada ou tentar a sorte, ser totalmente escravizado. Há também explicitamente a questão do sacrifício: indivíduos, contra sua vontade, são mandados para a guerra para proteger o “sistema social” de inimigos externos. Não importa se o indivíduo é dono de si mesmo. O objetivo maior é proteger o “sistema social”. Ora, mas sem sistema social não teríamos o respeito aos direitos individuais, alguém pode dizer. Pouco importa, para um individualista quem deve decidir se vale ou não arriscar sua vida em uma guerra, se vale tomar o risco de ser escravizado, é o próprio indivíduo, senhor de si mesmo e não outra pessoa, seja ela um governante, um teórico ou qualquer outra coisa.

[26] Em defesa de Mises posso dizer o seguinte: em um livro de sua autoria chamado “Liberalismo: segundo a tradição clássica”, mais velho que o “Ação Humana” (o primeiro é de 1922, enquanto o Ação Humana é da década de 40), o mesmo defendeu a secessão individual como um direito do indivíduo (um dos poucos liberais modernos a fazer isso). Algo bastante contraditório com o trecho acima e bem mais adequado ao individualismo presente na obra do economista austríaco, mas que só mostra como mesmo gigantes do liberalismo pouco pensaram consistentemente sobre a questão da moralidade da existência do governo e a contradição dessa moralidade com o que defendiam. A maior parte deles tomou ou o governo como dado ou abandonou a idéia de acabar com o governo porque a alternativa era o “anarquismo” e os autores anarquistas clássicos nunca foram famosos por dizer coisa com coisa. Hayek é outro autor cuja defesa do governo destoa da sua própria derradeira teoria evolucionista, da idéia de processos de descoberta etc... Rand, defende um governo que no fim, nem de governo pode ser chamado (financiado via loterias) e que dificilmente se manteria. Ela fez isso por perceber a contradição entre essa instituição financiada por impostos e a ética individualista que defendia.

[27] Hoje, infelizmente, muitos liberais clássicos se escondem atrás desses grandes nomes em defesa da liberdade, para defenderem algo oposto a ela; o governo e a coerção institucionalizada. Mas isso, para a infelicidade deles, não torna seus argumentos corretos ou consistentes. Eles continuam abraçando o coletivismo, mas ao contrário dos seus mestres, fazem isso explicita e conscientemente. Uma pena. Depois não entendem porque o governo avança tanto sobre as liberdades individuais em nome da “sociedade”, “da saúde pública”, “do desenvolvimento do país” e nem porque os socialistas conseguem essas inúmeras vitórias politicas e morais em cima do liberalismo.