terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Comentários sobre o "paradoxo da poupança"

A maioria dos economistas concorda que para um país crescer é necessário poupança. Será a poupança, o conjunto de bens produzidos, porém não consumidos, a fonte dos recursos necessários para o investimento que trará o crescimento. No entanto, imagine que as pessoas deixem de consumir muito e aumentem a poupança de maneira muito rápida ou abrupta. As indústrias / comércio deixarão de vender e fecharão as portas, aumentará o desemprego, derrubando os rendimentos dos trabalhadores e, assim, deprimindo a economia no curto prazo. Essa diferença entre efeitos – aumentar a poupança gera crescimento no longo prazo, mas aumenta-la demais ou “de uma vez” gera “recessão” no curto – ficou conhecido como “Paradoxo da Poupança”. 
Embora aceito quase que pela totalidade do que hoje é chamado de “mainstream” econômico, o paradoxo não faz muito sentido em termos de princípios econômicos. Uma das bases desse paradoxo é o tal “fluxo circular de renda”, a ideia de que a indústria/comércio emprega as pessoas, que usam seu salário para comprar o que a indústria/comércio produz que graças a essas vendas, emprega e assim por diante. Para análise da questão da poupança, esse fluxo sofre um problema grave, ele em geral desconsidera o tempo e toda questão relacionada a preços relativos entre diferentes mercados no tempo. De certa maneira, ele é apenas uma ilustração setorial, no caso do mercado de bens de consumo final, e não do quadro econômico todo.
Para explicar melhor, comecemos do básico. A função primordial da poupança é distribuir ao longo do tempo o consumo. Se você tem 2 unidades de um bem qualquer e só consome 1, guardando a outra, qual a intenção por trás disso? Como essas unidades de bens são escassas e são bens, ou seja, você sempre obtém utilidade marginal positiva ao consumi-las, o não consumir agora é tão somente uma postergação de consumo/uso desse bem. Obviamente você pode pensar em uma variedade de situações como “guardar para vender”, “esperar o preço subir”, “investir”, mas todas essas ações só tem um objetivo final que é, em um determinado instante no futuro, consumir esse bem, usufruir desse bem (ou de outro equivalente, caso ocorram trocas). Não há outra alternativa se estamos falando de bens econômicos, ou seja, bens escassos. Logo eu deixar de consumir hoje, aumentando a minha poupança, só significa que quero consumir mais no futuro. O “sistema econômico” como um todo é “fechado”, não existem furos por onde vazam ou somem “bens” e o que garante isso é o fato dos bens serem escassos e, portanto, sempre que percebidos por seres humanos, terão algum tipo de uso, algum tipo de “consumo”. Se tais bens não fossem escassos, também não haveria problema nenhum existir “depressões”, “vazamentos” nesse sistema, pois ser não escasso simplesmente significaria que não afetam de maneira alguma nosso bem estar, nós já teríamos “tudo o que precisamos”.
De maneira geral e bem abstrata, portanto, um aumento de poupança hoje, por maior que seja, apenas implica que as pessoas querem consumir mais no futuro do que estavam planejando antes. Como isso é “traduzido” no complexo sistema econômico que temos hoje? Através dos preços relativos e suas relações no tempo. Quando as pessoas deixarem de consumir, os preços dos “bens de consumo” irão cair, mas essa queda não é uniforme e não afeta as taxas de retornos dos diferentes mercados da mesma maneira. Isso já basta para se perceber que não há “paradoxo da poupança” e depressão alguma. Os recursos em uma dada economia vão de um setor para outro guiados pelas comparações entre as taxas de retorno de diferentes alocações. Não há um “vácuo” em relação a isso. Tudo que é escasso, por definição, por simples lógica precisa e estará sendo alocado em algum lugar, tendo algum uso ou seja, será direcionado para algum setor.  Dinheiro embaixo do colchão, por exemplo, não é uma “exceção” a isso. Os bens que foram produzidos, que podem ser comprados com esse dinheiro, estão lá, sendo ofertados no mercado e encontrarão seu preço de equilíbrio positivo (i.e, tudo que está ofertado será demandado) com a diferença de que sem essa moeda do colchão estar na disputa por esses bens, seus preços nominais serão mais baixos do que seriam caso contrário. O preço relativo desse bem, ou seja, quanto de outros bens ele vale, em tese, continua inalterado independente dos preços nominais cobrados.
Voltando a questão da escassez, um bem escasso, por definição, será alocado de alguma forma, logo essa alocação não dependerá de quão alto ou baixo é um suposto nível de preços, mas sim dos preços (das taxas de retorno) de diferentes setores. Supondo que existam 3 setores na economia, um com taxa de 2 outro com taxa de 4 e um último com 8, para fins de direcionamento de recurso, pouco importa se todas essas taxas forem divididas por 2 ou multiplicadas por 2. O último setor continua sendo o mais lucrativo deles, continua tendo a taxa mais alta e será ele o escolhido, os recursos serão direcionados para esse setor.  
O que acontecerá em uma economia, digamos em “equilíbrio”, quando a poupança aumenta é que, embora as taxas de retorno de toda a economia tenderão a cair, elas cairão com intensidades diferentes e isso basta para percebermos que os recursos “fluirão” dos setores com quedas mais acentuadas na taxa de retorno para setores com quedas menos acentuadas nas taxas de retorno. E como estamos falando em poupança e consumo, os setores que terão quedas mais acentuadas nas suas taxas de retorno são aqueles setores mais diretamente ligados ao “consumo final”, enquanto setores “mais distantes” desse consumo final, terão quedas menores. Um exemplo muito simples ilustra essa situação: imagine 2 tipos de investimentos. Os dois pagam 100, mas um paga 100 daqui 5 anos e outro paga 100 daqui 2 anos. Para os investimentos estarem em equilíbrio, as suas taxas de retorno precisam ser iguais. Supondo que essa taxa seja 10% ao ano, teríamos o valor “de entrada” nesses investimentos de R$82,64 para o de 2 anos e R$62,09 para o de 5. Imagine que o valor final de 100 mencionado anteriormente sofra uma queda e vá para R$90. No estado que o mercado se encontrava, isso significa que um investimento de R$82,64 está pagando R$90,00 daqui 2 anos, ou seja, uma taxa de retorno de aproximadamente 4,3%. Já o investimento de 5 anos, pode ser obtido por R$62,09 e pagará R$90 depois do prazo, ou seja, aproximadamente 7,7%.
Reparem no que ocorre: uma queda idêntica no valor final a ser recebido, altera a rentabilidade de maneira diferente nos dois investimentos. Quanto mais “longe” no tempo está esse valor, menor é o impacto negativo na taxa de rendimento, quanto mais “perto” no tempo, maior é o impacto. É exatamente o caso análogo da questão levantada sobre setores “perto” do consumo final e “longe” do consumo final. Um setor “longe” do consumo final, de certa forma é um investimento que demanda “mais tempo” para ser concluído, para se realizar (dado que o objetivo final é ofertar bens para as pessoas usarem, consumirem e assim obter os recursos) e, portanto, seria, no nosso exemplo o investimento de 5 anos, enquanto o investimento em um setor mais próximo do consumo final seria o nosso investimento de 2 anos. Para perceber isso com mais clareza, imaginemos o setor de pesca. Nós podemos pescar com a mão. Esse é um “investimento” de “curtíssimo prazo” e, independentemente de questões ligadas à produtividade, demanda um tempo relativamente pequeno entre o seu “dispêndio de recursos” (seu trabalho e habilidades com as mãos) e o bem final. Nós podemos pescar também com uma vara. Mas veja, quantas etapas adicionais de trabalho e dispêndio de recursos teremos a mais para construir uma vara e depois pescar. Veja que pescar com varas demanda “mais tempo” de produção: cortar madeira (com o que?), trabalhar a madeira, construir a vara e depois pescar. Agora imagine a pesca industrial moderna com navios. Quantas etapas e recursos antes do produto final chegar a prateleira do consumidor nós temos? Desde mineração, maquinas de mineração para arrumar material para o navio, toda a indústria naval, até chegar a pesca propriamente dita. Assim, do ponto de vista econômico, da ação humana, o setor de mineração está mais “longe” do comércio de pesca, do que digamos o de “navios”, que por sua vez está mais longe que a empresa que compra navios para pescar, que por sua vez está mais distante que o atacadista que compra dos pescadores e distribui para os supermercados e assim por diante. Tudo isso para ilustrar o que eu quero dizer por “mais longe” e mais perto do setor de consumo, que será o afetado diretamente quando as pessoas começarem a poupar.
Vejam também no nosso exemplo dos investimentos, que todas as taxas de retorno caíram, mas ao contrário da situação antes da queda do preço final, agora uma taxa de retorno é maior que a outra e é esse movimento relativo que fará recursos fluírem de setores próximos dos bens de consumo para setores “distantes” dos bens de consumo. E esse movimento é parte do processo que gerará o crescimento econômico. Novamente, basta reparar na ilustração dos modos de pescar. Pescar com a mão é menos produtivo que com a vara que por sua vez é menos produtivo do que usar navios. O que possibilita parte do esforço produtivo de uma economia ser destinado não para produzir alimento hoje, mas para produzir outras coisas que produzirão mais alimento no futuro é o fato de termos poupado alimento hoje para comermos enquanto esses novos equipamentos não ficam prontos e passem a entrar em ação. A poupança, portanto, além de baixar o preço dos bens de consumo é o nosso “colchão de sobrevivência” enquanto usamos essas técnicas de produção mais produtivas, mas que por outro lado, demandam “mais tempo/etapas” para gerarem os bens de consumo finais que precisamos. Não existe absolutamente nenhum paradoxo com a poupança. Os recursos poupados “saem“ dos setores próximos dos bens de consumo e “vão” para setores mais distantes dos setores de bens de consumo, exatamente para a confecção de mais bens intermediários, bens de capital, que no futuro gerarão mais bens de consumo e “compensarão” o ato de abrir mão de consumir hoje (poupar hoje).
Uma explicação bem mais simples, porém acredito que incompleta, sobre todo esse movimento entre poupança e consumo pode ser dada observando o papel dos juros como sendo o “equilibrador” do mercado de oferta e demanda de poupança. Embora isso gere muita confusão em certos momentos, o mecanismo seria basicamente o seguinte: as pessoas poupam mais deslocando a curva de oferta de poupança para a direita. Esse excesso de poupança gera uma baixa sobre os juros, que por sua vez aumenta o investimento e esse movimento continua sobre as curvas de investimento e a nova curva de poupança até que eles se igualem. É uma explicação, essencialmente, correta. Toda nova poupança final, dado o movimento dos juros, é investida (usada), nada “vaza” do sistema. O problema é que muitas pessoas, inclusive economistas, não conseguem compreender como uma simples queda dos juros fará os agentes econômicos investirem mais se “ninguém” está comprando. A explicação mais complexa envolvendo a relação entre setores e o tempo, a distância dos diversos setores da economia até o consumo final, o objetivo da poupança etc.. ajuda a entender que as pessoas não estão consumindo hoje justamente para consumir mais amanhã e que essa preferência é refletida na alteração da lucratividade dos setores de bens de consumo e de bens mais distantes dos bens de consumo (bens intermediários/de capital). Essa alteração relativa é a alteração relevante para a alocação de recursos escassos. A queda na taxa de retorno “geral” da economia é tão somente o reflexo nos preços do fato das pessoas darem um desconto menor aos bens futuros do que davam antes (antes eu só abria mão de R$1 hoje se ganhasse R$1,10, agora abro mão por R$1,05). Uma taxa geral de retorno menor não afeta em absolutamente nada a alocação da nova poupança entre diferentes setores, essa alocação é dependente das taxas relativas entre os setores (que mudam no momento da alteração da disposição por poupar, refletida nos preços dos bens de consumo).

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Porquê o governo tentar corrigir "falhas de mercado" é uma péssima política


Uma das declarações mais sem sentido em termos econômicos, mas repetida exaustivamente por todo tipo de economista intervencionista é a ideia de que o governo deve agir para corrigir as chamadas “falhas de mercado”.  Sem querer entrar muito na própria validade do conceito, em geral, essas falhas são definidas como características ou situações que levam o mercado a não produzir um equilíbrio “ótimo” ou eficiente segundo algum parâmetro teórico, que, diga-se de passagem, na maioria das vezes é irrelevante para qualquer ação e política no mundo real.
Aceitando todo o arcabouço teórico que embasa a declaração desses economistas, o grande problema é que qualquer política de governo é ela mesma produto de um “mercado” contendo exatamente essas aludidas falhas de mercado que fazem o equilíbrio ou produto final serem “ineficientes”. Para ver isso, pensemos, em linhas gerais, como são definidas essas políticas em uma democracia.
Primeiro, as pessoas votariam em tais políticas por algum motivo. Qual o incentivo para uma pessoa votar com alguma atenção ou “buscando o correto”? Usando o básico de teoria econômica, eu diria que mínimo. Votar com atenção, custa, envolve dispêndio de tempo, procurar informações, analisar políticas, propostas. E esse é um custo inteiramente arcado pelo “eleitor” que quer essas informações. E quais os benefícios que esse eleitor terá por votar corretamente? Sem nem entrar no mérito do controle do governo (que é praticamente um dado externo para qualquer eleitor médio, falaremos um pouco disso mais a frente), se as políticas que o eleitor defende forem aplicadas, em geral, elas terão um beneficio direto, individual sobre ele muito pequeno. Grande parte dos benefícios do que geralmente é chamado de “boas políticas” é, pela própria natureza dessas boas políticas, amplamente dispersos por toda a sociedade. Veja a grande ironia: enquanto o custo de se votar bem é um custo inteiramente “interno” ao eleitor, o beneficio desse voto é amplamente disperso ou, em outras palavras, grande parte desse beneficio é “externo” a esse eleitor, que é o típico exemplo de “externalidades” (uma das principais, senão a principal falha de mercado). E para desespero dos nossos intervencionistas não há nada que o governo possa fazer aqui, porque, pelo menos em uma democracia, essa é a “gênese” das próprias políticas que o governo seguirá.
Logo, embora na cabeça dos nossos intervencionistas exista uma entidade ad hoc chamada “governo” que simplesmente fará o que ele, teórico, acha que deve ser feito, no mundo real, com pessoas auto-interessadas formando “de fora” e “de dentro” o governo, essa primeira etapa básica já é, sendo condescende com eles, uma grande incógnita. A própria formulação básica dessas políticas “fora” do governo, enfrenta uma “falha de mercado” e, dentro do arcabouço desses mesmos intervencionistas, não tenderá a produzir o “resultado desejado” ou ótimo.
Na verdade, essa característica de “falha de mercado” permeará toda a cadeia de produção de políticas estatais, produzindo resultados bem diferentes do esperado. Deixemos de lado um pouco a questão da votação para a política e vamos para dentro do governo. O governo não é uma entidade aparte do que costumamos chamar de “sociedade”. O que ele produzirá, de certa forma, segue mais ou menos a lógica do que ocorre em mercados: ele produzira aquilo que traz mais “lucro” para quem o controla e as pessoas que o controlam querem algum lucro assim como qualquer agente econômico existente. Como nós dissemos anteriormente, boas políticas, em geral, tendem a produzir bons resultados para a sociedade em geral, ou seja, seus benefícios, além de serem maiores, são dispersos por toda a sociedade. O oposto dessas “boas políticas” é o que vamos chamar de “privilégios”. Os privilégios, normalmente, geram custos maiores que os benefícios, no entanto esses benefícios são “concentrados” em poucos grupos ou pessoas (por isso o nome de “privilégio”). Em geral, qual política governos tendem a produzir: as boas ou os privilégios?
Teoricamente, dentro do arcabouço usado por esses intervencionistas, a resposta seria privilégios (e só teoricamente mesmo, porque basta olhar para o mundo e ver como isso é refutado diariamente). Essa tendência ocorrerá justamente pela “externalidade dos benefícios” de boas políticas. Vejamos como: no “mercado politico” assim como no mercado comum leva quem “paga mais” pela oferta. Esse pagar mais no mercado politico significa basicamente gastar recursos na geração de lobbies: convencer congressistas a votar na política X e não na Y, convencer o executivo a bancar o projeto X e não o Y, angariar apoio da opinião pública, de organizações com visibilidade pública etc.. E essas coisas custam e muito. Quem arca com esses custos? Inicialmente, basicamente o grupo que resolve tentar aprovar sua proposta. Esses grupos, em geral, não podem ser muito grandes ou precisam ter mecanismos de controle muito eficientes para evitar o que é chamado de “problema do carona”. O problema do carona, basicamente é o sujeito que não arca com o custo, porque outros o fizeram em volume suficiente, mas recebe o beneficio. Esse tipo de “situação”, leva individualmente todo mundo a querer pegar carona, o que no fim leva ninguém a arcar com o custo, o que implica no produto final e, portanto, no beneficio final não sendo produzido. Esse é um problema básico da votação mencionada no começo do texto também. O sujeito “não faz nada”, porque individualmente ele é irrelevante e não vai atrapalhar, mas outros farão e ele receberá o beneficio mesmo não tendo feito “nada”. O resultado final, é que ninguém “faz nada”, ninguém se importa e vota pegando o primeiro papelzinho que encontra no chão a caminho da zona eleitoral porque outros farão “o correto”.
Voltando então para a questão do tamanho do grupo, este precisa ter um tamanho não muito grande ou um meio muito eficiente de fiscalizar seus membros. Como a “sociedade”, por definição, como grupo é um grupo imenso e (ainda bem!) não existe um meio de fiscalizar completamente a ação dos seus membros, por sofrer com o problema do carona, como grupo, ela será um dos atores menos relevantes no mercado politico. Os grandes grupos atuantes serão grupos menores, setoriais, que demandarão políticas, como reza a boa teoria econômica, visando seus próprios interesses.
E quanto esses grupos estarão dispostos a gastar por essas políticas em um primeiro momento? Ora, no limite, o quanto eles conseguirem receber. Logo, quanto maior a possibilidade de se obter um privilégio e um privilégio “bem concentrado”, que rende benefícios altos e concentrados, maior o incentivo para esses grupos organizados, com problema de carona baixo (o que não é o caso da sociedade), custearem a aprovação dessa política. Mas como tudo que é ruim pode piorar, obviamente como eles acabam “controlando” o mercado politico, não há necessidade de, no final, esses grupos organizados arcarem com os custos das suas “compras políticas”. Como o governo, ao contrário do mercado verdadeiro, tem o poder de invadir propriedades (e chamar isso de “lei”), basta mandar o cheque, a conta final, para os grupos mais desorganizados, que não tem relevância nesse mercado politico e não conseguem “se defender”, ou seja, o grupo mais desorganizados desse ambiente que é justamente a “sociedade em geral”, pelas questões já explicadas, paga a conta de privilégios de grupos concentrados/organizados.
Veja que, exatamente tentando corrigir o problema que os intervencionistas alegam querer resolver (de “falhas de mercado” como externalidades, bens públicos), a solução amplifica esses problemas em um nível muito maior, por toda a economia. Ao ampliar o uso do “mercado politico”, contaminado pela sua própria natureza, com todas essas falhas que eles, intervencionistas, alegam produzir resultados ruins, a sociedade passa a caminhar para um equilíbrio desastroso onde é melhor gastar recursos no mercado politico para obter benefícios do que produzir no mercado normal. Nós caímos no caminho do rent-seeking: o poder politico passa a ser o destino da maior parte dos recursos da sociedade visando a redistribuição dos recursos já existentes de acordo com a disputa de grupos organizados dentro do “mercado politico”, enquanto a destinação de recursos para produção de novos bens passa a ser relegada ou desincentivada exatamente pelo fato desses novos recursos produzidos serem redistribuídos de acordo com esse poder no “mercado politico” e não baseado nas escolhas do próprio produtor. O problema da externalidade se torna assim generalizado: a maior parte do que é produzido, não fica com quem produz. E quem não arca com custo algum (jogando o custo do lobbie para a sociedade em geral), fica com a maior parte do que foi produzido.
O governo, definitivamente, não é a solução de falhas de mercado. Ele, por si só, tem essas mesmas falhas na sua gênese. Seu funcionamento é regido por essas falhas. E para piorar, o seu controle é praticamente inoperante, exatamente porque o controle é uma espécie de “bem público” que será produzido “sub-otimamente” (veja a explicação da lógica das votações, do incentivo interno para produção de mais privilégios e mais privilégios, dos grupos atuantes etc..). A analogia com usar o governo e usar drogas pesadas cabe perfeitamente aqui. Alguma hora vai dar problema, a “droga” vencerá e o problema será muito maior do que aquilo que você, na melhor das boas intenções, tentou corrigir.

Por fim gostaria de comentar sobre as soluções de mercado para essas supostas falhas. Apesar do nome, as tais “falhas de mercado” não tem necessariamente ligação com mercados. Elas ocorrem no governo também, em processos de tomada de decisão nas mais variáveis situações (principalmente em decisões envolvendo grupos). Chamar as falhas que ocorrem no governo de “falhas de governo” em contraposição a “falhas de mercado” não muda a natureza idêntica dos dois fenômenos. A questão principal aqui é que, dado que as falhas de mercado apresentam uma ineficiência (pelo menos teórica), há espaço para ganhos, inclusive as chamadas “melhorias de Pareto” (mudanças onde ninguém piora e, pelo menos, um ganha). Boa parte dessas falhas, ocorre justamente por definições erradas e equivocadas do próprio governo sobre direitos de propriedade. Caso essas indefinições de direitos de propriedade não existissem, é mais do que sabido, que chegaríamos a uma “solução eficiente”. Para o caso de uma indefinição mais complexa e profunda de direitos de propriedade, se existe a possibilidade de se obter ganhos, como existe por definição em uma falha de mercado, é natural que agentes econômicos passem a tentar arrumar uma maneira de aproveitar essa possibilidade de ganho inexplorada, inclusive delimitando eles mesmo regras privadas apropriadas a uma boa solução (exemplos disso são comuns como garantias, test-drive para o caso de “assimetria de informação”). O ponto é que a única coisa que o governo poderia fazer (na verdade, nem isso, dada a sua natureza) para melhorar uma falha de mercado é estipular corretamente e claramente direitos de propriedade. Para qualquer coisa além disso, não há nada que possa ser feito. Todas as demais soluções envolveriam, desconsiderando aqui o próprio funcionamento do governo, informações transmitidas via preços que o governo e nem ninguém possui. E essas informações só poderiam ser geradas em soluções privadas e espontâneas que “gerassem” mercados para o bem/problema em questão. A própria existência de uma ineficiência gerada por uma falha de mercado é uma oportunidade que agentes no mercado tentarão explorar para captar os ganhos “ocultos” aí existentes. Situação totalmente diferente ocorre no mercado politico, onde não há absolutamente nenhum incentivo para isso, dado que nesse mercado existe um negócio muito mais “lucrativo individualmente”, o chamado rent-seeking, a produção cada vez maior de privilégios através de leis e politicas, pagos dispersamente pelo grupo mais fraco nesse mercado: a “sociedade”.  Pedir a um governo que consistentemente produza algo diferente disso é como querer o contraditório, o impossível e, portanto, além de ingênuo, é um desejo destrutivo. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Comentários sobre a "organização" das cidades

Queria aproveitar a aprovação do plano diretor de São Paulo para comentar um pouco sobre “organização” de cidades e a suposta necessidade de planejamento estatal que elas demandariam. Em São Paulo, por exemplo, é normal ouvirmos coisas como “as pessoas precisam morar perto do trabalho, pois isso aumentaria a qualidade de vida e diminuiria a pressão sobre o transito e transporte público” ou ainda “a cidade está dominada pela especulação imobiliária que eleva o preço dos imóveis e afasta para o subúrbio mais e mais pessoas”. Outros pontos muito defendidos seriam a necessidade de se construir mais metro e abandonar o carro ou desincentivar seu uso, preservar áreas de mananciais, construção de mais parques etc..
A maioria dessas defesas ignora completamente questões básicas de economia e, consequentemente, acabam resultando em piora da situação que tentam resolver ou simplesmente criam outros problemas. Na verdade, mesmo conhecendo teoria econômica é natural que essas intervenções acabem gerando coisas completamente diferentes da imaginada simplesmente porque a formação das cidades e como elas se organizam tem muito mais a ver com a reação das pessoas ao complexo sistema de benefícios e custos gerados por uma variedade de situações, do que aquelas poucas alternativas gerais imaginadas por urbanistas e burocratas. Um exemplo simples desse tipo de coisa ocorre com o rodizio de carros estabelecido em São Paulo. Dado que as pessoas desejam andar de carro, por uma série de razões que vai de conforto até a possibilidade de tê-lo a disposição dada qualquer emergência, qualquer imprevisto, muitas pessoas simplesmente compram um outro carro para usar somente no dia do rodizio. Muitas vezes, um carro até em condições “precárias”, o que pode vir até a piorar o transito e não melhora-lo.
Outro exemplo mais interessante ocorre com a fixação de se ter “um transporte público de qualidade”. Primeiro, qualidade custa dinheiro. Diante disso existem basicamente duas alternativas: liberar preços ou subsidiar. Na imensa maioria das cidades, mas focando principalmente São Paulo, obviamente se optou pelo pior caminho: o subsídio. Em 99% dos casos, subsidiar alguma coisa dá errado (coloco 99% para evitar alguma “injustiça” por aí) o que significa que não só você não terá a qualidade “desejada” como pode criar novos problemas e um problema óbvio aqui é que se você subsidia o preço do deslocamento, as pessoas demandarão “mais deslocamento”. Se custa muito pouco sair da sua casa a 40 km do trabalho, você não vai se preocupar muito em morar longe ou perto do trabalho. Assim, diminuindo artificialmente o preço/custo do deslocamento, as pessoas não ligam muito em morar perto ou longe do trabalho ou em arrumar um emprego perto ou longe do trabalho ou mesmo, o comércio não se importa muito em abrir “lojinhas” no bairro residencial longe do centro e por aí vai. O subsídio assim cria uma maior pressão para um “espalhamento” da cidade.
Obviamente isso não é um fator isolado e esse fator será contrabalanceado por outros fatores gerando um “equilíbrio” (uma tendência de estabilização de um determinado cenário). Por exemplo, em São Paulo há tanta ineficiência na oferta de serviços de transporte público devido a regulações que mesmo sendo enormemente subsidiado, o desconforto é tanto que as pessoas procuram cada vez mais morar perto do trabalho e isso acaba “freando” a tendência de espalhamento da cidade, um espalhamento que talvez tivesse sido freado antes se as pessoas tivessem que arcar com o real custo de seus deslocamentos. Acho que o importante aqui é perceber como o sistema de custos e benefícios transmitido principalmente pelos preços “molda” a cidade. Continuando na questão dos transportes, se se transportar é mais caro, as pessoas começam a demandar mais fortemente nas suas regiões coisas como serviços, o que gera um pequeno comércio na região, que por sua vez traz alguns empregos etc.. Esses fatores diminuem a necessidade de deslocamento e, dependendo da força desses diferentes fatores, pode até favorecer a formação de um pequeno “centro” que, por sua vez, atraí mais moradores e comerciantes e cresce mais e mais. Obviamente, com esse crescimento, dado que é uma região que as pessoas desejam morar, o preço de imóveis, terrenos começam a subir nessa área. É natural, portanto, que as pessoas mais pobres achem conveniente vender o que tem nessas áreas e sejam, como os críticos desses movimentos gostam de enfatizar erroneamente, “expulsas” da área.
Se uma região é desejada por muitos, muitos disputarão um espaço nessa área o que implicará em aumento de preços e consequentemente, quem valora mais aquilo (no sentido de estar disposto a pagar mais), ficará com a vaga. Isso é um fato da vida que nenhuma intervenção consegue realmente resolver. Uma região cara significa basicamente que os custos de se manter naquela região são altos, custos esses que os mais pobres não conseguem arcar, o que implica que eles ou deixarão a região ou não conseguirão investir o mínimo necessário para manter seu capital naquela área (se foi uma moradia dada pelo governo, ou se o governo concedeu alguma ajuda). Essa degradação no capital ou será estancada com o sujeito vendendo sua propriedade ou se espalhará pela região e a transformará em uma região degrada por alguns motivos: os “ricos” passarão a sair do local por não gostarem da degradação vizinha ou, por alguma regulamentação, o pobre não pode vender a sua propriedade (se recebeu a mesma do governo, por exemplo), o que resulta em uma degradação cada vez maior e a expulsão dos ricos do mesmo jeito.
Aqui também, como no caso dos transportes, ocorrerão fatores que tentam contrabalancear essa tendência “de expulsão” dos pobres das regiões mais desejadas. Uma delas é o aumento da oferta de apartamentos. Grandes construtores tentarão cada vez mais aproveitar os metros quadrados disponíveis na área, fazendo prédios cada vez mais altos, com mais apartamentos. Novamente, isso se o governo e os “bem intencionados” de sempre não atrapalharem. É impressionante como algumas pessoas ao mesmo tempo em que defendem mais “moradias populares”, acusam a cidade de estar tomada por especuladores imobiliários, defendem ao mesmo tempo, limites à construção de prédios, preservação de casarões históricos (casarões que estão quase sempre nas melhores e mais desejadas regiões). São medidas incompatíveis. Uma lição básica de economia é que quanto menor a oferta, para uma dada curva de demanda, mais caro será o preço. Se as leis e regulações limitam o uso dos terrenos disponíveis, limitam a oferta de apartamentos e limitam a própria oferta de terrenos (proibindo demolições de imóveis antigos), então o preço tenderá a subir e aquele fenômeno de expulsão dos mais pobres será mais forte, pois existe um número menor de “vagas” disponíveis.
Assim, uma politica que prioriza a “moradia popular” (entendido como baixar o preço da moradia), não deve procurar limitar a oferta de apartamentos, mas sim aumenta-la. E aumenta-la implica em não ignorar fatos básicos como o sistema de preços (de custos e benefícios). Também não adianta determinar que um “quarteirão dos Jardins” seja declarado área de moradia / interesse social. O que isso vai gerar é apenas, ou uma degradação da área (se os imóveis não puderem ser vendidos), ou o mesmo padrão de afastamento dos mais pobres para outras áreas (se puderem vender). Aqui, nós podemos conectar a parte de transportes citada anteriormente. Uma maior “liberalidade” na construção de prédios, “adensa” uma determinada região e demanda um menor uso de transporte, desafogando o sistema. É importante dizer o seguinte: eu não estou argumentando que um modo de cidade é melhor que outro ou mais desejável que outro. O que estou dizendo, por enquanto, é que o sistema de custos e benefícios enfrentado diariamente pelos indivíduos, mesmo “modificado” por certas regulações que o governo impõe, é que vai “moldar” uma cidade e as tentativas de ir contra essa “modelagem natural” não produzem os resultados desejados (a não ser que o que se queira é o caos, a piora do bem estar da população).
Em São Paulo, por exemplo, fala-se muito em revitalizar o centro velho. A opinião recorrente dos especialistas é que devemos “povoar” o centro, trazer as pessoas para morarem na região. Os governantes com isso inventaram de transformar vários prédios abandonados do centro em moradias populares. Aqui nós temos o exemplo perfeito do que foi dito anteriormente sobre deterioração do capital dos mais pobres e abandono dos “ricos”. Uma região central revitalizada basicamente é uma região bem cuidada, com pessoas usando adequadamente sua infraestrutura, com estabelecimentos funcionando, lucrativos etc.. Em suma, é uma região “desejada” pelas pessoas. Se é uma região desejada pelas pessoas, necessariamente os frequentadores ou moradores em sua maioria serão pessoas com bom poder aquisitivo, afinal, são elas que podem pagar para ocupar as “vagas”, o “espaço” dessa região. Se você traz moradores sem esse poder aquisitivo para arcar com o custo e manutenção que tornam uma região desejada, ou essas pessoas deixarão a região ou começarão a degradar a região, por não investirem o suficiente para cobrirem a depreciação, o uso do capital lá instalado. Dessa forma, nenhuma “revitalização” ocorrerá realizando a politica que vem sendo feita. Para piorar a situação, o centro velho é uma das regiões com mais impedimentos para demolições, reformas por uma série de regulações, tombamentos de prédios “históricos” etc.. Isso contribuiria para o movimento de expulsão dos pobres, em um real caminho de revitalização, ser mais forte do que sem essas regulações, devido a limitação da oferta de moradias.
Um outro exemplo de “consequências não intencionais” de um planejamento feito por urbanistas e burocratas é o gerado pelo “combate aos muros”. Alega-se que a construção de condomínios cercado de grandes muros “mata” um bairro, piora a segurança do mesmo deixando as ruas “sem vida” (geralmente o bairro do Morumbi é citado como exemplo dessa situação). O fato óbvio ignorado aqui é que condomínios são construídos com altos muros, como fortalezas, porque as pessoas assim demandam. Elas preferem morar em condomínios assim. E porque preferem? Basicamente por falta de segurança, para se protegerem. Se você proíbe a construção de condomínios assim em regiões onde existe essa demanda, as pessoas simplesmente vão morar em uma região “mais segura”, em uma região que permite uma melhor proteção. Se o bairro estava “sem vida” antes, agora ele ficou vazio, abandonado. Talvez abandonado para ser tomado de vez por criminosos ocupando os imóveis antigos que despencarão de valor.  
Um argumento muito usado por urbanistas para defender planejamento centralizado das cidades e coisas como plano diretor, leis de zoneamento, restrições a construções é o transito. Eles alegam que construir uma mega edifício no meio de um bairro residencial, por exemplo, causa trânsito, transtorno aos moradores etc.. Temos aqui o conhecido argumento econômico das “externalidades”. E no caso, eles defendem que qualquer externalidade para os moradores daquele local devem ser evitadas, eliminadas. É interessante como as pessoas ignoram completamente que eliminar externalidades pode implicar em custos significativamente mais altos que os custos gerados pela própria externalidade. Um exemplo bem simplório, mas que ajuda a visualizar o problema é a própria existência de outros seres humanos além de você. A existência desses outros seres humanos aumenta enormemente a chance de você morrer ou via alguma doença ou de ser atacado, assassinado, mas matar todos os demais seres humanos para acabar com as externalidades que você sofre não é uma solução “razoável” para ninguém. Ao invés disso, fica determinado que cada ser humano é uma propriedade em si mesmo e com base nisso as pessoas negociam a maior parte das externalidades que poderiam surgir, gerando uma situação até bastante pacifica e próspera. Em termos gerais, é uma solução “de mercado”.
No caso das externalidades que interessam a esse texto, um ponto importante é entender que dependendo do “grau” que se usa esse argumento do “incomodo do vizinho”, a cidade ficaria completamente estagnada e jamais se desenvolveria, evoluiria (o que implica em custos enormes). Imagine eu não poder comprar meia dúzia de terrenos com casinhas que serão demolidas para construir um prédio porque a construção do prédio tira o sol da piscina de um vizinho ou impede a rota de algum grupo de passarinhos que “vive” na região? Alguém pode argumentar que não devemos ir tanto para um lado, nem tanto para outro. Obviamente não faz muito sentido proibir construir prédios porque o sol não vai mais secar os lençóis da Dona Maria, mas talvez faça sentido limita-los ou mesmo proibir quando gerar um “impacto” muito grande na região. O problema com isso é que não há como dar pesos, atribuir valor a essas coisas sem um sistema de preços, sem um mecanismo efetivo onde as pessoas pagam, arcam com os custos das suas escolhas e preferências. E uma maneira simples de gerar mercados para essas coisas, com direitos de propriedade bastante sólidos é justamente dar a cada um a propriedade sobre seus imóveis e nada mais. Se a Dona Maria acha que o sol secando os seus lençóis é algo desejadíssimo, que ela vá e compre da construtora ou dos seus respectivos proprietários os terrenos necessários para garantir que nenhum prédio subirá ao redor da sua casa. Se ela acha que o valor disso é superior ao valor que dezenas ou centenas de famílias dão às suas novas moradias (que serão construídas no prédio), ninguém a impede de realizar o acordo.
Muitas vezes é argumentado que isso não é uma solução viável para problemas urbanos práticos como o caso do trânsito, porque as centenas de moradores de uma dada região enfrentariam problemas de “bens públicos” como o carona, existiriam custos de transação muito altos nessas negociações e coisas do tipo. Eu discordo, geralmente é muita mais difícil para a construtora conseguir comprar vários terreninhos para subir seu arranha-céu do que para vários ou um só morador chegar com um caminhão de dinheiro ao proprietário de um único terrenão (que vai ser o local do prédio) e mesmo assim, construtoras do mundo todo, quando o governo permite, conseguem realizar verdadeiras maravilhas em relação à oferta de moradias. Mas mais relevante que isso é a percepção (ou a falta dela) de que certas externalidades são inevitáveis dada a natureza de certas ações e entidades. Uma cidade grande como São Paulo, Nova Iorque, Tóquio, necessariamente terá em um grau “considerável” de coisas como trânsito, poluição, barulho, “poluição visual”, falta de espaço etc.. Se certas pessoas não conseguem de forma alguma conviver com isso, além da opção de comprar uma mega propriedade e viver “semi-isolada” lá, ainda há a opção de se mudar para uma pacata cidade do interior. Não há racionalidade em tentar definir através de leis e regulações o que pode ou não pode ser construído em cada “bairro”, cada esquina etc.. tentando manter certas características impossíveis em uma grande metrópole. Como Hayek, economista austríaco, cansou de defender em relação à discussão mais geral sobre “planejamento central versus mercado”,  o grau de informação particular necessário para uma decisão adequada do ponto de vista de eficiência, bem estar, não está disponível ao planejador central. Ela está dispersa, espalhada entre milhões de indivíduos, está nas circunstâncias que cada um enfrenta, conhece e o sistema de preços faz uso dessa informação dispersa ao reagir a cada ação desses agentes de mercado possuidores, conhecedores dessas circunstâncias. Em suma, é uma “arrogância fatal” achar que centenas de burocratas sabem o que deve ser construído em cada esquina da cidade, melhor do que milhões, talvez bilhões de agentes de mercado ávidos por lucros, observando diariamente os movimentos e demandas de mercado.
Eu como liberal, tenho preferencia por uma certa “cesta” de distribuição “inicial” de direitos de propriedade (embora eu considere colocar o problema dessa forma um erro filosófico e moral), o que significa (na minha visão) que a Dona Maria que tem uma casa X, não tem propriedade sobre o sol, sobre a vista, sobre o transito etc.. Se ela quer garantir essas coisas, ela tem que “comprar” outros bens que gerem isso. Algum urbanistas podem achar que não. Que a Dona Maria tem propriedade não só sobre a casa X dela, mas também sobre todas essas características da região, sobre esse “ambiente” todo. O meu ponto é que, leis e regulamentos que acreditam nesse segundo cenário acabarão, por leis econômicos básicas, encarecendo a moradia, produzindo uma cidade mais pobre, menos desenvolvida. Ao contrário dos “progressistas” urbanistas, que querem preservar bairros residenciais e suas casinhas através de leis pensam, isso não traz mais pessoas para morarem em boas regiões, em regiões próximas do trabalho. Isso gera uma espécie de “reserva de mercado” para quem já está lá, é uma espécie de subsídio a quem já tem um imóvel estabelecido em uma boa região, uma região que poderia servir de moradia para muito mais pessoas, mas que por restrições legais, permanece inalterada.
Por fim, gostaria de comentar sobre a idéia de mecanismos como “outorga onerosa” sobre o direito de construir e as chamadas “operações urbanas”. Os dispositivos (principalmente o segundo) tem como inspiração a idéia de se criar “mercados” para externalidades. O governo fixa um limite de externalidades que podem ser produzidas e vende esses direitos para quem deseja produzi-las. No caso das construções, existe um estoque adicional de metros quadrados de construção em uma dada região. A prefeitura vende esses estoques para construtoras que ou constroem usando os certificados ou revendem para outras construtoras (esse mercado secundário acontece mais explicitamente no caso de operações urbanas). A outra modalidade (outorga onerosa) geralmente é mais parecida com um “imposto de Pigou”: a construtora quer construir acima do permitido e a prefeitura estipula uma “multa” para esse adicional supostamente de acordo com o impacto que a obra terá na região (essa multa pode ser um valor, uma obra para amenizar o impacto etc..). Obviamente “restrições” desse tipo são menores piores do que a proibição pura e simples (às vezes a regulação é tão estupida, que seria economicamente interessante pagar um adicional – mesmo enorme – para realizar a construção em determinado local). Os dois grandes problemas com esses mecanismos, na minha opinião, são: 1) é uma fonte de rent-seeking fabulosa. O governo começa a criar “dificuldades, para vender facilidades” – impõe restrições absurdas para gerar mais “arrecadação” com a posterior venda de certificados e limites adicionais. 2) implica no mesmo erro geral de que o governo é capaz de (e deve) “moldar” ou “planejar” a cidade, não deixando o sistema de preços agir livremente. A diferença é que nesse caso, esse “planejamento” ou direcionamento é mais suave (o governo dificulta ou facilita as construções nas áreas que acha adequadas, mas não chega a proibir completamente logo de saída). Dado o atual estado da discussão sobre o assunto, as operações urbanas e os “mercados de certificados de construção” em geral são uma saída paliativa, uma amenizada de um erro mais geral: o erro de achar que o governo aloca recursos mais eficientemente que o mercado, portanto, dentro do contexto atual, bem vindos.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Comentários sobre "capacidade ociosa"

Gostaria de comentar neste texto sobre a ideia de “capacidade ociosa”, um conceito muito usado pela mídia em analises econômicas e até mesmo por economistas, principalmente keynesianos. Não vou dar uma definição mais precisa do que isso viria a ser porque cada um que o utiliza costuma ter a sua própria definição, mas basicamente o que o conceito sempre quer ilustrar é uma situação onde há “capacidade produtiva” (por exemplo, uma fábrica) que não está sendo usada, que poderia estar produzindo algo e não está. Normalmente é associado ao conceito de “capacidade ociosa” a ideia de alguma ineficiência ou “falha de mercado” ou algo “ruim” acontecendo.
Acredito que essa ideia, como algumas outras usadas por economistas (como a famigerada “rigidez de preços”) não faz muito sentido, ou pelo menos, não o sentido que seus utilizadores querem dar. Focando na questão da capacidade ociosa, a primeira coisa que salta aos olhos é porque raios, em um mundo de escassez, temos algo como “capacidade ociosa”? Teoricamente se algo é escasso, será utilizado para algum fim, ou em termos mais econômicos provavelmente existirá um preço positivo onde a demanda por aquilo se iguala a oferta, ou seja, não haverá “excesso” de bem algum.
Veja que o mecanismo de preços exclui a possibilidade de “ociosidade” (sobra) de bens, algum fim esses bens terão. Diante disso, alguns economistas utilizam-se então das famosas “falhas de mercado” para tentar justificar a existência de capacidade ociosa, sendo a mais famosa a questão da rigidez de preço. Por algum motivo mágico (que não tem a ver com intervenções diretas do governo), os preços “não se mexem” e não equilibram oferta e demanda, gerando a capacidade ociosa. Tenho um texto mais detalhado só sobre a questão da rigidez de preço (para quem se interessar, aqui o link), mas basicamente não existe nenhum padrão de “rigidez ou flexibilidade” de preços diferentes das percepções dos agentes econômicos sobre que preço eles devem pedir ou não em suas ofertas. Algum agente econômico com um “bem encalhado” pode achar que compensa ficar com esse bem em estoque até alguém aceitar o preço “alto” que ele está pedindo, outro já pode preferir vender rápido e por isso pede um preço mais baixo. Em nenhum dos casos há problema econômico ou de incentivo algum. Ambos estão fazendo aquilo que julgam, com todas as informações relevantes disponíveis e captadas por eles, ser o mais lucrativo, ser o que gera mais valor. Se algum agente discorda fortemente da estratégia do outro (acha que pode fazer mais dinheiro), basta pagar o que o sujeito quer e aplicar sua estratégia (se ele estiver certo, conseguirá mais dinheiro e cobrirá seus custos que são exatamente o ganho da estratégia que ele “desafiou”).
Preços se ajustam na velocidade “ótima”, aquela que maximiza a geração de valor do ajustamento necessário. Eles não são nem “muito lentos” e nem “muito rápidos”, eles são exatamente tão “velozes” quanto a cognição dos melhores empreendedores permite que sejam e não há forma de melhorar isso (em termos de eficiência), dado que quem poderia melhorar já está fazendo o seu melhor (buscando lucros nesse ambiente de necessidade de ajustamentos).  Se esses ajustamentos ou essas estratégias geram uma situação onde algum observador externo olhe e chame aquilo de “capacidade ociosa”, podemos concluir que não há problema algum com a tal “capacidade ociosa”. Ela é um resultado ou uma consequência de uma estratégia implantada por um agente econômico visando obter o máximo de lucro possível. Novamente, não há problema econômico algum, seja ele de incentivos ou de eficiência.
Nesse mundo de ajustamentos necessários e de “não onisciência”, enfim, no mundo em que vivemos onde a cognição humana é limitada, obviamente podem ocorrer erros. Um empresário pode construir uma fábrica muito grande ou uma fabrica com equipamentos para produção de um bem que as pessoas não desejam pagar um preço suficientemente alto para tornar sua produção lucrativa. O sistema de lucros e prejuízos procurará “eliminar” do processo de mercado os empresários que erram muito (diminuindo os seus recursos) e premiando aqueles que acertam (aumentando os seus recursos), assim permitindo que aqueles que acertem tenham mais “fichas” nas suas mãos para fazer novas apostas, gerando assim um “encaminhamento” de toda economia para uma “situação de eficiência”. Muitas vezes, dado que um erro foi cometido, tentar consertar esse erro pode ser mais caro do que “começar do zero”. Uma fábrica, por exemplo, construída para produzir X (um bem que ninguém quer), pode gerar menos perda se for simplesmente fechada e abandonada do que se alguém tentasse readapta-la para produzir Y. Essa fabrica, portanto, será “abandonada”, deixada de lado, e economicamente é o melhor que pode ser feito. É a decisão que minimiza o prejuízo dado que a fabrica já foi feita, o erro já foi cometido. É pura “capacidade ociosa” gerando eficiência, produzindo mais valor (ou não destruindo valor). Longe de ser “socialmente indesejável”, é a solução que gera mais bem estar dentre as soluções disponíveis. Seria “ineficiente”, “ruim”, tirar a fabrica do seu abandono e começar a produzir X, que não se paga e ainda diminui a produção de outra coisa (como Y que era desejado pelos consumidores).
Obviamente, no mundo real, existe sempre alguma maneira de aproveitar partes da fabrica, alguns equipamentos etc.. Isso não representa qualquer “problema adicional”, muito pelo contrário. Existem oportunidades de lucro escondidas nesses aproveitamentos e igualmente, milhares, talvez milhões de agentes econômicos (em mercados livres, pelo menos), atentos para realizar esses lucros de forma que esse reaproveitamento ocorrerá, como dizem, “até a última gota possível”.
A real “intenção” por trás da defesa enfática da idéia de capacidade ociosa é a possibilidade de dar ao inflacionismo e politicas fiscais expansionistas uma justificativa plausível. Argumentam alguns economistas (keynesianos principalmente): se você tem capacidade ociosa, basta dar mais dinheiro para que as pessoas demandem mais bens e as fabricas aumentarão a produção e consequentemente o emprego, pois elas têm “capacidade” para isso, há capacidade sobrando.
Existem muitos problemas com esse argumento. Primeiro, supondo uma certa “neutralidade distributiva” na emissão de moeda ou da politica fiscal expansionista, se as pessoas antes direcionavam mais dinheiro para comprar Y no lugar de X, provavelmente o dinheiro adicional continuará sendo direcionado para comprar Y no lugar de X, o que significa que se uma fabrica de X estava “ociosa” porque era mais vantajoso produzir Y, ela provavelmente continuará ociosa porque continuará mais vantajosa a mesma estratégia (de produzir Y no lugar de X). Você, portanto não teria nenhum “efeito benéfico” nessa politica, mas teria os custos (seja monetários ou econômicos) das mesmas (como a divida que o déficit gerou, a destruição da moeda e do sistema de preços que politicas monetárias podem causar, a “liberalidade” do governo com suas contas quando ele tem um “bom motivo” para ficar imprimindo dinheiro e por ai vai).
Um segundo ponto; keynesianos, por uma razão que foge a lógica, costumam assumir que agentes econômicos ajustam “quantidade” e não preços. Então, imprimir dinheiro, por exemplo, fazendo com que as pessoas corram para as compras fará os ofertantes aumentarem a quantidade ofertada (aumentando assim a produção, o emprego etc..) e não os preços. Essencialmente não existe sentido nenhum nesse argumento. Agentes econômicos ajustam aquilo que gera o maior lucro para eles (e inclusive podem ajustar uma “combinação” de preços e quantidade). O que especificamente será ajustado dependerá da estrutura de custos das alternativas e obviamente as expectativas desse agente.  Se o aumento de preço relativo do seu bem for algo que ele considere como de “longo prazo” ou “permanente”, ele pode achar interessante produzir mais e até investir em novas plantas. Se é algo “corriqueiro”, ele pode querer aproveitar a onda e aumentar o preço naquele momento. Às vezes, mesmo sendo corriqueiro, ele pode não ter muitos custos para aumentar “rapidamente” a oferta e aumenta (combinando com preço, porque não?). Enfim, existe uma infinidade de possibilidades que depende do conhecimento dos agentes sobre o futuro e seus custos.
Os keynesianos costumam afirmar que com “capacidade ociosa” a curva de custo marginal de uma firma é “horizontal” (ou quase horizontal) no trecho relevante, portanto aumentos de quantidade não representam aumentos de custos substanciais e a empresa optará por isso. Isso também não faz sentido econômico algum. Como nós explicamos anteriormente, uma fabrica que produz X está parada ou produzindo pouco porque compensa produzir outra coisa com os fatores necessários para produção de X (ou até mesmo com alguns equipamentos dessa fabrica “subutilizada”). Um aumento da demanda por X porque o governo imprimiu mais moeda não muda esse quadro se a demanda por Y (a outra coisa) também aumentou (os preços relativos ficaram intactos). A questão de se produzir X ou Y depende dos preços relativos e não há, a principio, nada que altere preços relativos nessas politicas keynesianas. Podemos até imaginar subsídios diretos a X, desincentivos a Y, mas além de não terem muita relação direta com politicas clássicas keynesianas e nem mudarem a relevância do conceito de “capacidade ociosa”, teríamos que perguntar por que raios estimular necessariamente X se isso custará produção de Y (dado os outros fatores necessários) ou de outros bens mais desejados pelo consumidor, que geram mais bem estar? Ou ainda, em termos de capacidade ociosa, porque tirar fatores de produção da produção de Y (diminuir essa produção) e jogar em X?
Na verdade, o keynesianismo por trás dos entusiastas do conceito de “capacidade ociosa” não passa de um amontoado de hipóteses e teses ad-hoc sem lógica econômica alguma. Capacidade ociosa surge, simplesmente como uma hipótese de partida, como se fosse algo “alienígena”, imposto de fora, por acidente e não consequência de, em um cenário sem intervenção direta do governo, decisões ótimas de agentes econômicos maximizando a produção de valor na economia. Uma fábrica não fica “parada” por nada, ela fica parada porque ninguém conseguiu dar um uso lucrativo, com os recursos disponíveis, para aquilo. E não é eficiente em termos econômicos “reativar” um negócio desses só por “reativar”, sem uma estratégia que gere lucro. A solução keynesiana simples (imprimir moeda) também não modifica nada, dado que não altera preços relativos que é o que realmente guiará a alocação/uso dos recursos.
Em termos mais “filosóficos”, os keynesianos tratam “capacidade ociosa” como algo que está realmente “sobrando”, quando isso é simplesmente impossível em se tratando de bens relevantes para escolha, ação humana. Se você precisa escolher sobre algo, se sua mente precisa focar sobre utilizar ou não algo, alocar algo em X ou Y, isso implica em escassez, nunca sobra. Em um mundo de escassez, sempre, em qualquer momento, todos os bens serão utilizados no sentido de terem uma “alocação” determinada, um uso definido. Algo só está “sobrando” realmente se deixou de ser um bem, não tem importância ou “prejudica” o bem estar humano, o bem estar do agente econômico. Obviamente, no limite, você pode ter problemas de “divisibilidade” (algo do tipo, só posso usar X se tiver 2Y, tenho 1Y então não posso usar X), mas isso novamente não é problema algum. As pessoas terão todo incentivo do mundo para tentar arrumar novas proporções, uma “divisibilidade” maior etc.. de forma que se realmente não é possível usar X é porque nenhum ser humano sabe como fazê-lo e isso imprimir moeda ou gastar mais não vai ajudar muito (vai prejudicar até, porque atrapalha a eficiência da economia, gera custos adicionais etc..).
Por fim, queria comentar rapidamente sobre a capacidade ociosa, essa realmente ociosa, causada por regulações do governo. A diferença em termos de eficiência e bem estar econômico é que enquanto a “capacidade ociosa” resultado de um livre mercado é fruto da decisão de agentes econômicos que estavam buscando o melhor uso dos recursos, as melhores oportunidades etc.., a capacidade ociosa imposta pelo governo não passa por esse critério. O governo, através da força, impede agentes econômicos que teriam uma saída lucrativa para a utilização de determinados recursos, de aplicar e testar essa saída. Se na situação de mercado você pode dizer “é eficiente porque ninguém sabe fazer melhor” ou ainda “você faz melhor? Acredita nisso? Pague e teste sua estratégia”, na intervenção do governo justamente esse processo, o processo de mercado, de tentativa e erro das milhões de estratégias espalhadas pelo mundo, é abortado. A existência dessa intervenção, dessa barreira às experiências de mercado, sim, é nociva a economia e ao bem estar humano, impede que se encontre uma solução eficiente para o problema. Ironicamente, é justamente a capacidade ociosa gerada pelo governo que tem aquele sentido negativo que os defensores do governo atribuem a “capacidade ociosa” que eventualmente o mercado produz. 

PS: para os interessados especificamente em “capacidade ociosa” de força de trabalho (desemprego), além do texto linkado sobre rigidez de preço e desemprego no começo deste artigo, sugiro esse outro: Desemprego e livre mercado 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Comentários sobre evolução, razão e moral

Existe uma tradição teórica em economia e filosofia, surgida principalmente na Escócia, Inglaterra que faz uso frequente da idéia de “evolução" em praticamente todas as áreas das chamadas ciências sociais. Por comodidade vou chama-los aqui de “evolucionistas”. Essa tradição possui nomes de peso como Adam Smith, Bernard de Mandeville, David Hume, Edmund Burke, mais recentemente nomes como Friedrich Hayek e Karl Popper e uma boa ala do que se costuma chamar de “conservadorismo” (Russel Kirk é um bom exemplo). Embora, obviamente, todos esses autores tenham diferenças entre si, a idéia de que existe um certo "processo de evolução” de normas sociais/culturais e que as normas mais “aptas" sobrevivem e se tornam parte da cultura, dos hábitos da sociedade está presente em todos. Por questão de formação e de conhecimento vou me focar mais nas versões de Hayek / Smith até porque é a mais utilizada por liberais que argumentam usando esses conceitos.   
As duas idéias que eu quero discutir rapidamente aqui é a de que boa parte da cultura/moral humana 1) não é, como muitos deles dizem, fruto da razão e sim de um processo de evolução descentralizado que provavelmente nenhum homem percebeu que estava participando; 2) a tradição, por si só, tem algum valor (algo tem valor por simplesmente vir de “longa data”, ter sido sempre assim) justamente porque essa norma “sobreviveu" a esse processo de seleção/evolução e permitiu ao homem chegar onde chegou.
Essas duas “conclusões" surgem basicamente do que é chamado de “modelos de mão invisível” que esses autores adotam. Peguemos um cenário bem simples: várias tribos, comunidades isoladas inicialmente com hábitos, morais diferentes. Esses “hábitos/cultura" gerarão resultados diferentes para as suas respectivas comunidades. Uma comunidade que valorize o comércio, por exemplo, provavelmente terá uma produtividade maior, um bem estar maior do que uma que não sabe o que é comércio. Essa comunidade comerciante começará a prosperar, conhecer outras comunidades (justamente porque está em busca de coisas novas para comercializar).  Quando ela entrar em contato com outras comunidades, umas (aquelas que falam em “espirito guerreiro, dominar pela força, pela guerra) serão agressivas e podem querer guerra, outras (aquelas que, por exemplo, admiram o sucesso, a riqueza, enaltecem o “destaque individual”) vendo a prosperidade e almejando aquilo vão começar a prestar atenção no comércio e adota-lo como prática. Essas “bilhões" de rodadas de interação entre comunidades, seus membros etc.. produzirão normas, regras, hábitos que ou serão cada vez mais adotados e passados para frente por gerarem “bons resultados” ou serão esquecidos, "destruídos" etc.. por gerarem “maus resultados”. Vejam que, embora “bons resultados” e “maus resultados” sejam avaliados de acordo com os indivíduos que agem, a idéia é que esses bons resultados individuais, no agregado, signifiquem bons resultados gerais, ou seja, bons resultados para aquela comunidade, aquela sociedade (se as pessoas estão se dando bem, então podemos dizer que a sociedade também está bem), por isso temos a expressão “modelos de mão invisível” : indivíduos agem, adotam as normas que geram melhores resultados do ponto de vista deles, mas esses bons resultados individuais também acabam gerando o “bem geral”, sem que a intenção do indivíduo em questão seja essa (ele quer apenas “ser feliz”, sustentar sua família, se dar bem etc..). Há uma diferença entre as conseqüências individuais deliberadas e as conseqüências gerais que simplesmente emergem, sem intenção, sem propósito dos agentes que a geraram.  
Com o passar do tempo, as futuras gerações passarão a se comportar exatamente como as gerações passadas, porque no passado esse foi um comportamento de sucesso, mesmo que essas atuais gerações não façam a mínima idéia do “porque as coisas são assim”. Mas veja, seguindo essa visão, o suposto motivo de as coisas sempre serem assim é por que foi assim no passado e deu “certo”, logo nós não poderíamos simplesmente jogar fora todo esse “passado" simplesmente porque não conseguimos rastrear as particularidades de cada comportamento e as situações especificas onde eles se mostraram (e seriam) adequados. A melhor maneira de enxergar essa visão é uma suposta experiência com macacos (que eu não sei se foi verdadeira ou quem fez, mas que descreve exatamente essa visão “evolucionista" das normas) que consistiu do seguinte: uma jaula cheia de macacos e os realizadores da experiência colocaram um enorme cesto de bananas no alto de um tronco de árvore. Quando algum macaco subisse e pegasse bananas do cesto, todos os macacos  da jaula apanhavam (ou recebiam jatos de água, não lembro, algo que eles não gostavam). Então, bastava um macaco subir e pegar uma banana e dá-lhe pancada em todos. Com o passar do tempo, quando algum macaco começava a subir o tronco, os próprios macacos traziam ele para baixo e batiam no macaco que tentou subir. Mais tempo passou e nenhum macaco tentava mais pegar as bananas. Com o tempo, os cientistas começaram a trocar os macacos. Então, o primeiro novato chegou e a primeira coisa que ele fez foi tentar pegar as bananas, o que não deu certo porque os outros simplesmente não deixaram (batendo nele por tentar). Com o tempo chegou outro novato e um velho saiu, o novo novato tentou a mesma coisa e foi impedido…. e assim sucessivamente até que todos os macacos eram “novatos”, não estavam na primeira leva que “sabia o motivo” para não pegar a banana, mas mesmo assim, esses novos macacos não tentavam pegar a banana e batiam naqueles que tentavam. Seguindo a linha dos teóricos “evolucionistas”, pode-se dizer que a norma de evitar pegar a banana do cesto foi uma norma que gerou “bons resultados” (porque os macacos não apanhavam, não recebiam os jatos de água) e continua gerando esses bons resultados, afinal, ainda evita que os macacos sejam castigados, mesmo eles (os novatos) nem sabendo o porque a norma existe e muito menos porque ela gera bons resultados. Explicado de maneira bastante simplificada o pensamento desses autores (pelo menos no aspecto que vamos tratar aqui), passemos para as duas questões a serem discutidas.

A questão da razão
Quem leu Hayek (principalmente livros como Law, Legislation and Liberty e o Fatal Conceit), percebe a preocupação dele com o suposto "protagonismo" da razão nas questões sociais e a idéia de que a maior parte do que fazemos, das nossas normas, éticas é mais fruto de um processo de evolução “espontâneo”, sem qualquer propósito humano deliberado, do que algo que podemos chamar de uma “construção racional”, algo deliberadamente criado com aquele propósito ou algum propósito humano explicito. Novamente, é dessa idéia que vem o termo “mão invisível” (a parte geral, social da coisa não é um produto deliberado, ela é “gerada" sem um comando ou uma coordenação geral de ações e intenções, ela simplesmente “brota”, é uma conseqüência de planos individuais com intenções diversas).
Eu, basicamente, não discordo muito dessa visão. O problema é o conceito e o papel de razão que o pessoal que geralmente defende esse posicionamento tem, além de um uso, diria, bem complicado dessa visão em questões sociais atuais. Começando da questão do conceito e uso da razão, as pessoas geralmente dizem: “nem tudo é razão e nem tudo pode ser conhecido pela razão. Nós não podemos nos guiar exclusivamente por ela. Se uma dada norma social não tem uma explicação racional, não necessariamente ela deve ser descartada”. Acredito que existem muitos problemas com esse posicionamento. Primeiro, razão é uma habilidade humana que basicamente serve para lidar com o material que recebemos através dos nossos sentidos. Nós recebemos esse material e com a razão, analisamos, construímos relações mentais entre os componentes desse material (o próprio decompor esse material mentalmente, abstratamente é uma característica da nossa capacidade racional), tudo basicamente para identificarmos a natureza do que existe, o que é aquilo, como funciona, como age, como é feito etc.. Basicamente não existe, para os seres humanos, outro meio de se adquirir conhecimento sem o uso da razão pois é com ela, que nós “analisamos" esse material que “o mundo nos fornece”. Se analisarmos corretamente, ou seja, sem contradições com coisas que nós já conhecemos, levando em conta apenas aquilo que as evidências nos permite concluir (aqui entra a questão da lógica, da identificação sem contradição), nós “aprendemos" sobre aquilo e assim podemos usar aquilo para nossa sobrevivência, nosso desenvolvimento etc..
Nada disso implica que podemos “conhecer tudo” pela razão, até porque como nós não conhecemos tudo nós nem sabemos o que é isso, logo não podemos falar sobre a natureza, sobre “características" de coisas que nós não sabemos (seria uma contradição). Agora, tudo que nós conhecemos, só conhecemos por causa da razão e só por meio dela é possível basicamente pelo que já foi dito: ela “analisa”, trabalha, por meio da lógica (identificação, exclusão do contraditório) o material que recebemos pelos nossos sentidos. Não existe conhecimento, por exemplo, via “emoção" - emoção é uma conseqüência dos nossos valores, do nosso “conhecimento" prévio. Se esses valores ou esse “conhecimento” (seria melhor chamar de “material conceitual ou mental”) não passou pelo crivo do não contraditório, se ele se choca com outras coisas que conhecemos, que adotamos, se ele se choca com a evidência dos nossos sentidos, então ele está errado, ele não identifica corretamente aquela entidade captada pelos nossos sentidos e se você simplesmente ignora isso, esses erros e contradições, porque “sente que deve ignorar”, “gosta de ignorar” etc.. isso não torna aquilo correto, você teria que aplicar a razão (não contraditório) nesse material conceitual, mental para conserta-lo, para sanar os erros. A emoção não faz nada disso, ela é simplesmente um produto do errado ou do certo que você adotou.  
Estou dizendo isso, porque os defensores da “evolução" usam a idéia de que a razão não é o guia para determinar o que é certo ou errado exatamente nas situações onde a razão está mostrando que eles estão errados. Uma coisa é você dizer que não pode conhecer algo pela razão (obviamente se você não pode conhecer algo pela razão, então você simplesmente não pode conhecer porque este é o único meio), outra é dizer isso justamente quando um processo de raciocínio te leva exatamente a rejeitar esse algo, ou seja, você está aprendendo usando a razão. Quando Hayek “rejeita" a razão, ele está preocupado com a idéia de que você pode planejar ou construir grandes sistemas “teóricos” e econômicos através de uma única mente via um processo de raciocínio dedutivo e coisa do tipo. Obviamente ele olhava para o socialismo e outras experiências totalitárias (como nazismo) como um exemplo dessa tentativa. E isso acabou virando um “argumento padrão” de libertarians simpatizantes do conservadorismo e dos próprios conservadores - "nós não podemos “planejar" a sociedade ou mudar completamente a sociedade com base em “planos racionais”, determinando ações bastante especificas etc.. A questão é que tudo na vida de um ser humano envolve agir de acordo com sua mente e essa mente pode estar ocupada de um monte de “conceitos, material mental” sem base na realidade, sem aquele crivo da razão, da evidencia dos sentidos ou com base nesse crivo racional que justamente dá ao homem o “selo" de que ele está agindo de acordo com a realidade, com o que existe, enfim, com o que é certo. Esse uso da razão serve justamente para mostrar para ele que com as evidências que ele tem, com a natureza da sua mente, do seu corpo, dos seus sentidos, tem coisas que ele não tem como saber, coisas vitais, para, por exemplo, "gerar" o bem estar da sociedade. Aprender sobre o que ele pode ou não fazer é também um uso da razão.
Se os socialistas, nazistas etc.. não perceberam isso e acharam que podiam do alto dos seus gabinetes controlar e comandar a vida de milhões de pessoas melhor do que essas próprias pessoas, isso longe de um uso da razão foi uma completa desconexão do que era, de fato, necessário para "sonhar" em fazer isso. Ao contrário do que Hayek e seus simpatizantes possam dizer, o socialismo e a idéia do planejamento centralizado não foi uma exacerbação da razão, foi um abandono completo da mesma. Existia toda uma ciência econômica (que inclusive, o próprio Hayek contribui enormemente), construída exatamente pela capacidade racional do homem, que dizia que aquele experimento seria um fracasso. Seus defensores (do socialismo) podiam alegar que aquilo era o cumulo da racionalidade, era “cientifico" etc.. como fizeram inclusive. O problema é aceitar isso como correto quando na verdade eles ignoravam de coisas mais básicas como escassez (ver esse texto meu) a conceitos mais sofisticadas como a função do sistema de preços, a própria questão do conhecimento factual e disperso que Hayek salientou depois. E a identificação de que essas coisas eram necessárias e que o plano não ia dar certo é uma tarefa para a razão, que não foi usada. Eu não chamaria Hayek de “irracionalista”, mas acredito que essa sua “leve aversão a razão” é mais fruto de se acreditar na propaganda "acadêmica" dos socialistas do que no que, de fato, aquilo significava e o que estava sendo executado.
Voltando a questão mais geral de evolução e razão, como já mencionei, os “evolucionistas" estão certos ao meu ver quando enfatizam o efeito “mão invisível” (a questão do efeito geral ser não intencional e “nascer" de ações cuja intenção não eram produzir esse mesmo efeito geral), mas eles estão errados ao negligenciar o papel da razão nesse processo. Só um ser racional pode avaliar se suas ações geraram ou não bons resultados e se não geraram, qual o caminho correto a seguir, que caminho adotar, como corrigir esse fracasso. O processo de “tentativa e erro” que os evolucionistas enfatizam tanto, necessita obviamente de alguém capaz de dizer o que é um erro, um acerto e o que fazer para corrigir isso. Mas mais do que avaliar os meios para se atingir um determinado fim (resultado), é tão importante quanto, uma mente racional para determinar o que são bons resultados, um bom fim, um fim adequado a ser seguido. Uma sociedade que visa a prosperidade, o desenvolvimento pacifico, florescimento das suas capacidades como seres humanos produzirá para o bem estar humano algo muito diferente de uma sociedade que visa a guerra, o poder via força, que enaltece deuses guerreiros místicos no lugar do indivíduo e coisas do tipo. Sem uma mente racional para perceber que o segundo fim leva à destruição, contradiz a natureza humana, o tal “processo de tentativa e erro” vai conduzir a normas aptas justamente na consecução da morte e da destruição. A própria realidade, obviamente, cobrará seu preço e tenderá a fazer uma sociedade baseada em valores errados perecer, mas isso só reforça que a razão é o meio adequado de sobrevivência do ser humano e a sua importância no tal processo de “tentativa e erro”, que só será bem sucedido no “propósito não intencional" de sobrevivência humana se existir o uso da razão por parte dos seus envolvidos na escolha de bons fins, mesmo que, no momento em que esse processo está ocorrendo, eles não tenham a minima noção do “quadro geral” que estão pintando. 

A questão dos “bons resultados”
Os “evolucionistas" adoram dizer que se algo existe por tanto tempo, então é porque deve ser bom ou tem alguma utilidade (é proposição 2 que eu disse que ia discutir no começo do texto). Acredito que quando dizem isso, eles acabam neglicenciando, o que pode ser chamado de "equilibrios sub-ótimos”. As vezes, há determinada situação onde individualmente nenhum agente tem incentivo para modificar sua ação (porque, por exemplo, existe uma probabilidade dele piorar com essa mudança) e isso faz com que uma dada ação seja mantida e sustente um ambiente “geral" ruim ou “subótimo”. Um exemplo teórico clássico disso é o “dilema dos prisioneiros” (para quem não sabe o que é dilema dos prisioneiros, leia aqui) Os dois presos confessam o crime, pegam uma pena média, mas seria melhor se eles não confessassem, o problema é que individualmente eles não tem incentivos para não confessarem (dado que se um deles quebrar o “acordo implícito” o outro piora e ele nem preso é). A norma então será confessar, mas o "correto" (que geraria maior ganho para eles) seria não confessar. Dado que sempre é assim, esse comportamento sub-ótimo será reforçado cada vez mais porque sempre eles confessarão (assim o outro sabe o cada um sempre faz). É um equilíbrio, não tão bom assim, que poderia ser melhorado, mas não será.
No mundo real nós podemos ter inúmeras situações como essas. Rent seeking (se você não sabe o que é, veja aqui) é o exemplo mais comum e geral: como os custos são dispersos e os benefícios concentrados, dada a existência de um governo e de uma sociedade “simpática" a essa pratica, existe um imenso incentivo a se produzir normas péssimas que beneficiam um pequeno grupo às custas da grande maioria. Como a grande maioria, obviamente, não vai gostar de pagar a conta, que vai ficando cada vez mais alta, começa a surgir “mercados cinza”, maneiras escusas e criativas de se escapar desses pagamentos, leia-se aquele famoso jeitinho de certas regiões do globo, sonegação, corrupção, "maracutaias contábeis e legais" para fugir de órgãos de fiscalização e por aí vai. Essas coisas por sua vez, aumentam a lucratividade de praticas de redistribuição do que já existe (rent-seking) no lugar da produção (afinal, você pode receber de um monte de gente só por salva-las da enxurrada de impostos e regras que o governo criou), realimentando o ciclo inicial. Vejam que isso se transforma em uma espécie de circulo vicioso, um equilíbrio sub-ótimo (as pessoas reforçam seus comportamentos em cada rodada e o ambiente institucional ou piora ou fica permanece ruim). As pessoas passam a adotar comportamentos que ajudam elas a se “salvarem" desse ambiente institucional ruim, hostil, mas, ao mesmo tempo (efeito mão invisível agindo) essas ações reforçam ainda mais esse ambiente institucional ruim e sair disso não é tão simples (alguns continentes estão a mais de meio milênio preso em coisas desse tipo). 
Esse é um exemplo de como fatores institucionais e culturais que são o que são por infinidade de particularidades podem gerar uma espécie de “armadilha" onde essa “força evolucionista espontânea” não funciona no sentido de produzir normas boas para o desenvolvimento humano e o que seja gerado é somente a perpetuação dessa situação de armadilha. E novamente, embora os efeitos práticos possam ser “inúteis" no curto prazo, é preciso mentes racionais para perceberem essa situação e assim propor alguma forma de mudança ou de superação desse problema (que, inclusive, em situações extremamente custosas pode ser rupturas mais violentas, como revoluções que por sua vez, dependendo dos valores e das idéias por trás podem dar certo ou errado - que foi o que aconteceu com a imensa maioria delas).
Por fim, um outro problema prática dessa abordagem, para os liberais particularmente, é o perigo epistemologico e político da mesma. O perigo epistemologico eu já mencionei um pouco no final da parte sobre a razão e é justamente essa rejeição à razão que uma abordagem dessas costuma construir. Toda norma humana que existe no mundo existe por algum motivo e mesmo que você se canse mostrando o quanto ela é errada, por A + B os danos que gera, não importa: a razão não serve para conhecermos nada (ou quase nada). Como eu costumo enfatizar em textos meus sobre esses assuntos, essa é a postura que está na raiz de toda destruição e miséria humana, porque ela praticamente nega todo o aparato cognitivo humano e consequentemente nega a forma apropriada do homem produzir e assim viver, se desenvolver. Se nós não conhecemos através do uso do nosso corpo (sentidos, mente etc..) nós não podemos conhecer nada, nada é certo ou errado, tudo vale e tudo pode. Se eu não posso me relacionar com outra pessoa através da lógica, da razão, do convencimento que passa por mostrar que algo é correto, apropriado etc.. só sobra a força bruta, a escravidão e coisas do tipo. 
O problema político é o irmão siamês do epistemologico. Eu não vejo andando por aí uma “força evolucionista” ou a “mão invisível” guiando a construção de normas, moral etc.. Eu vejo pessoas agindo e as pessoas podem agir, como eu disse antes, através da razão, do crivo do não contraditório em relação ao mundo, ao que existe, i.e, racionalmente ou elas podem agir movidas por qualquer outra coisa, que basicamente é o contraditório, é a negação do que existe (ela não age de acordo com a razão, o crivo do não contraditório). Elas agem de acordo com que elas querem e pronto. Novamente, não existe “certo" ou “errado”, é tudo uma questão de eu querer e nada mais. Não é difícil perceber que as portas da caixa de pandora estão abertas: eu posso ter nazistas, socialistas etc.. falando em coisas místicas como o “espirito da raça”, “vontade de classes” fazendo o que eles quiserem, defendendo qualquer coisa (afinal, razão não serve para nada e eu só sou contrário aos ideais nazistas porque eu não sou ariano ou contra os ideais socialistas porque eu não sou proletário - não existe mais uma realidade objetiva, as coisas são X se eu pertenço a um grupo e Y se eu pertenço a outro e eu não tenho a “mente” adequada a como aquele grupo acha que é a realidade).  
Obviamente a ameaça ao liberalismo vinda mais diretamente desses “evolucionistas anti-razão” não tem a mesma temática que tem as ameaças socialistas, nazistas, mas a raiz é a mesma: eles querem manter tudo que está errado em nome da “tradição”, só porque é tradição e evitar as “boas revoluções”, evitar mudar aquilo que deve ser modificado sem justificativa racional alguma. Então, quando alguma mudança desagrada esse grupo, ela é uma tentativa torpe de revolução, “marxismo cultural”, “destruição da civilização ocidental”, a tentativa de planejar a sociedade de cima para baixo etc.. Quando é para mudar algo que eles querem mudar (ou evitar alguma mudança que desagrada, que assusta), isso é a rósea e pacifica força da evolução agindo. Não existe maneira objetiva alguma de diferenciar uma da outra, argumentar é inútil porque, embora eles não digam que por fazer parte de um grupo x em particular eu não posso “entender" isso, eu sou ser humano e os meios disponíveis para que eu convença eles (razão, lógica, evidências etc..) não servem para nada e eu devo simplesmente aceitar o que a tradição diz, simplesmente porque é tradição e sempre foi assim. Eu fico imaginando esse pessoal na época que os liberais lutaram contra a escravidão, uma pratica de grande tradição no mundo todo, ou contra monopólios (algo mais velho que a própria escravidão). E a revolução americana? Seria a força pacifica, sem propósito e lenta da evolução agindo ou seria uma revolução realizada por homens com propósitos bem claros?
Enfim, não existe outra postura adequada, principalmente em assuntos como política, economia,   diferente de uma postura racional, que busque a correção ou não de determinadas políticas, normas e isso implica o uso da razão, da lógica. Agir deliberadamente negando essas coisas é uma afronta às bases do liberalismo e de qualquer sociedade livre porque é uma afronta ao ser humano. É o caminho para destruição, mesmo que as intenções tenham sido as melhores possíveis. Todos os autores que citei no começo do texto (com exceção do Kirk que eu não li), eu gosto, acho que fizeram mais “bem" do que mal com seus escritos, suas teorias etc.. (o próprio Burke que é um “anti-revolucionário” em todos os sentidos, chamou a atenção para os perigos dessa prática que como nós vimos durante a história acaba dando mais errado do que certo), mas isso não justifica uma deliberada negação da razão ao avaliar normas, éticas e trocar esse critério racional por coisas como “tradição”, “negação da capacidade cognitiva humana” ou “sempre foi assim então é bom". Para mim é um caminho errado, apenas fortalece os inimigos (intencionais ou não) da liberdade e não contribui para o progresso humano. É uma espécie de retorno a um passado “primitivo" onde nós atribuíamos a raios e trovões vontades divinas e coisas do tipo.